Enquanto repercutia o corte do Farmácia Popular, o governo tentava emplacar o tema das reservas
Por Adriana Fernandes (foto)
A poucos dias das eleições, não passa de cortina de fumaça a notícia antecipada pelo Ministério da Economia, por meio de informações de bastidores, de que estuda a criação de uma meta para as reservas internacionais.
Esse não é um assunto alvo de estudos centrais da equipe do Ministério da Economia nesse momento nem do Banco Central, que é uma instituição autônoma e a responsável pela gestão das reservas do País.
Existe a ideia do ministro Paulo Guedes que, passados quase quatro anos de governo, não foi para frente. Foi assunto da transição, em 2018, e depois reforçado por ele no final de 2020, quando disse que poderia até vender “um pouco” das reservas para reduzir a relação entre dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB).
Num patamar hoje em torno de US$ 339 bilhões, as reservas internacionais estavam em US$ 379,7 bilhões no início do governo Bolsonaro.
Em plena campanha presidencial de uma eleição difícil para Bolsonaro e faltando poucos dias para o primeiro turno, o noticiário na área econômica está marcado por informações do impacto dos cortes feitos pelo governo para acomodar prioridades eleitorais, como ocorreu com o Farmácia Popular.
No mesmo dia em que o corte de verba do Farmácia Popular repercutia, o governo tentava emplacar o tema da meta das reservas, assunto polêmico e de discussões infindáveis entre os economistas sobre o nível ótimo (adequado) das reservas diante do custo que representa para a dívida pública mantê-las em patamar elevado.
Por trás da proposta, estaria a ideia de que seria preciso se desfazer de parte das reservas se estivesse acima da meta, e comprar dólares se estivesse abaixo do ideal.
Se a intenção do ministro era desviar atenção dos problemas orçamentários, que tanto têm dado dor de cabeça para a campanha do presidente, não deu certo. Ao contrário, eles continuam incomodando e exigiram falas do próprio presidente, de Guedes e do ministro da Saúde.
Se pior do que isso, a expectativa era antecipar um movimento baixista do dólar com a notícia para ajudar na campanha, não funcionou. No dia da informação sobre o estudo, a inflação dos Estados Unidos veio acima do consenso e penalizou os mercados com a ampliação das apostas em uma postura mais dura do Federal Reserve, o banco central norte-americano. O dólar à vista subiu quase dez centavos. Estudos podem ser feitos a qualquer momento, e se pode chegar à conclusão de que tem mais reserva do que precisa. A pergunta é: por que só agora?
O Estado de São Paulo
