segunda-feira, setembro 19, 2022

Como explicar que Judiciário e Legislativo tenham adquirido tamanha importância entre nós?

Publicado em 19 de setembro de 2022 por Tribuna da Internet

TRIBUNA DA INTERNET

Charge do Duke (O Tempo)

Marcus André Melo
Folha

Historicamente, o poder dominante é o Executivo, que se confundia com abuso. Rui Barbosa foi preciso quando o denunciou como “o grande eleitor, o grande nomeador, o grande contratador, (…) o poder da força”. No pós-Guerra, os presidentes continuaram poderosos politicamente, embora possuíssem poderes constitucionais limitados.

A Constituição de 1988 delegou amplos poderes ao Executivo como forma de superar deficiências do arranjo anterior (MPs; iniciativas exclusivas em matéria administrativa, tributária e orçamentária; poderes de agenda etc.).

COLEIRA FORTE – Mas a constituinte adotou a estratégia “coleira forte para cachorro grande” e delegou igualmente vastos poderes ao Judiciário e ao Legislativo (embora a este menores).

Sim, o Executivo perdeu poder, por exemplo, com as emendas constitucionais sobre MPs (2001) e o Orçamento, que se tornou crescentemente impositivo. Mas a dinâmica política tem se alterado também.

Penso que o STF adquiriu grande centralidade na última década devido aos sucessivos escândalos de corrupção e devido à ascensão de um governante iliberal. O mensalão representou o primeiro evento no qual as cortes superiores demonstraram forte autonomia e independência. O episódio do impeachment presidencial e os julgamentos do TSE deram sequência.

BATALHA EXISTENCIAL – Com a ascensão de Bolsonaro, a corte teve que escolher a batalha existencial que travaria. Acabou escolhendo a contenção de Bolsonaro e abandonando a Lava Jato, à qual dera suporte importante. (Aliás, não importam as distinções partidárias: o governismo de turno sempre denunciará o “jacobinismo judicial”).

Estes episódios acontecem em um quadro de enfraquecimento do Poder Executivo (evidenciado por ameaças de impeachment), associado a fatores como crises econômicas, escândalos, sentimento antissistêmico e hiperfragmentação partidária.

Seu desenlace, no entanto, produziu igual debilitamento do próprio Judiciário.

LEGISLATIVO FORTE – É nesse duplo processo de fragilização institucional que o Poder Legislativo se fortaleceu, aumentando seu protagonismo.

Chavez, Ferejohn e Weingast argumentaram que, nos EUA, a autonomia judicial aumenta em períodos de governo dividido e diminui quando forças rivais controlam os Poderes Executivo e Legislativo, impedindo assim um conluio entre estes Poderes contra o Judiciário. O equilíbrio é instável: se o STF julga membros do Legislativo, este tem poder para impedir juízes.

Fragmentação política aumenta autonomia. Se isto é verdade, quais serão os cenários para os futuros governos? E por isso é preciso discutir também o papel crucial da opinião pública.

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