terça-feira, setembro 13, 2022

Brasil não é uma ilha e logo será atingido pela crise mundial, diz a economista Monica de Bolle

Publicado em 13 de setembro de 2022 por Tribuna da Internet

Monica de Bolle: 'reforma deve atacar regressividade para reduzir desigualdade'

De Bolle analisa recessão, Ucrânia e dependência do petróleo

Rosana Hessel
Correio Braziliense

Pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), conceituada consultoria norte-americana, sediada em Washington, a economista Monica de Bolle, analisa a atual conjuntura mundial, considera crítica a situação da economia brasileira e alerta que o Brasil não está imune ao ciclo de estagflação (recessão com inflação) em curso nas maiores economias do planeta.

A economia internacional está com um cenário de inflação elevada e desaceleração. Como a senhora avalia essa conjuntura, com os bancos centrais dos países desenvolvidos aumentando os juros e os impactos nos emergentes, como o Brasil?
Bom, a conjuntura está muito complicada, porque há um choque de oferta no mundo de extrema relevância, que é a guerra na Ucrânia e a resposta dos países em relação ao petróleo russo e ao gás natural russo. E esse é um problema para a Europa, apesar de estarem fazendo a transição para a economia mais verde, tentando ir para o lado da energia renovável, mas o mundo usa combustíveis fósseis para muita coisa, por exemplo, toda a indústria de plástico. Mesmo que você conseguisse, hoje, fazer uma transição rápida para a energia renovável, ainda estaríamos usando muito combustível fóssil. A dependência que o mundo tem de petróleo mesmo, em particular, menos de gás natural, é enorme. E nunca vemos a discussão sobre o que fazer com isso.

E a situação econômica?
O momento é complicado para a Europa em termos de crescimento e de inflação, por conta do que está acontecendo. Antes da guerra na Ucrânia, já havia vários outros choques temporários de oferta relacionados com a pandemia. Mas esse sim é um choque de oferta bem grande e mais permanente. Eu diria que é um choque de oferta equiparável, pelo menos, ao primeiro choque do petróleo nos anos 1970, em termos de impacto no mundo. E ainda tem outras sequelas e outros choques de oferta acontecendo em parte relevante da economia mundial.

De onde vêm esses outros choques de oferta?
A China, por exemplo, com a política de covid zero, com os lockdowns, proporciona um monte de choque de oferta junto à guerra na Ucrânia. De modo geral, para economia mundial, esse cenário é meio estagflacionário. Você reduz o crescimento da economia mundial e tem que conviver com mais inflação. E é um tipo de convivência com inflação mais elevada que não responde muito à política monetária tradicional, porque é um choque de oferta. Os bancos centrais ficam numa espécie de sinuca de bico, porque eles vão elevar as taxas de juros sim, pois existem efeitos de segunda ordem que precisam ser contidos, para não enraizar a inflação.

Mas a senhora acha que esse problema tende a durar enquanto houver a guerra na Ucrânia?
Acaba indo além da guerra, porque suponhamos que nos próximos meses, mesmo se a Ucrânia ganhar a guerra, será uma vitória de Pirro. Você ganha, entre aspas, tendo perdido um montão, porque boa parte do país foi destruída. E, por outro lado, a Rússia continua sendo um pária internacional. Então, esse quadro de aumento dos preços de energia continuará a valer. Essas coisas não vão desaparecer de uma hora para outra só porque a guerra acabou. E, olhando para a guerra e seus efeitos e o que acontece depois, o choque de oferta será realmente prolongado. Portanto, haverá a convivência prolongada com um cenário meio estagflacionário para o mundo mesmo. Esse é o pior dos mundos em termos de políticos e em termos de política econômica, porque você não tem muito bem como responder. É aquilo que eu falei. Não há políticas eficazes de controle inflacionário em um cenário estagflacionário causado por um choque de oferta. E principalmente, um choque de oferta dessa natureza em que você está tratando de energia. Nada funciona sem energia.

Esse problema pode se estender por 2023 e 2024? Vai ser difícil para o mundo sair desse cenário?
Certamente se estende por 2023 e pode se estender por 2024. Para além de 2023, fica difícil de dizer, porque depende muito de como os diferentes países vão reagir e se haverá mecanismos de compensação via suprimentos de energia renovável, seja lá o que for ou não. Então, eu acho que falar para além de 2023 fica mais difícil. Mas de toda maneira, muito provavelmente, você ainda tem alguma estagflação em 2024. É, sim, um cenário longo.

E é curioso, porque, aqui no Brasil o governo fala que o país está decolando e descolado do mundo… Não é um tanto quanto contraditório?
É. O Brasil, no momento, está crescendo. Mas é um caso um pouco à parte, porque está em um ciclo eleitoral e houve todas essas tentativas, que não tenho outra palavra, de comprarem os eleitores. Todos esses benefícios que foram dados para caminhoneiro, para taxista, para não sei mais quem e para não sei o quê, tudo isso, acaba sendo um estímulo de curto prazo para a economia. Mas sabemos que nada disso é sustentável. No fim das contas, você consegue isolar o Brasil por alguns meses, mas você não consegue se isolar para sempre. Não vai dar pra sustentar tudo isso de nenhuma maneira.

E qual é o tamanho desse choque para o Brasil?
Se eu tivesse que dimensionar o tamanho do choque para o Brasil eu diria assim: você pega os efeitos dos anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em que o país teve um extraordinário choque positivo externo, e reconfigura em termos negativos e aí teremos mais ou menos uma ideia do tamanho do problema para o Brasil. Não é apenas um choque de commodities. É um choque de grande magnitude para o Brasil com muitas ramificações relevantes e muitas delas tendem a exacerbar o quadro de fragmentação política e de dificuldade para elaborar qualquer política pública. Não só na área de economia, mas em qualquer outra. Para o próximo governo, vai haver um problemão, e não será apenas fiscal.

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NÃO PERCA AMANHà– O Brasil está crescendo artificialmente


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