quarta-feira, setembro 14, 2022

A contraofensiva ucraniana - Editorial




Se é possível vislumbrar o fim da guerra, ele ainda está distante, e a humilhação de Putin desencadeia novos riscos

Nos últimos dias, uma contraofensiva há muito esperada, mas ainda assim surpreendente, sinaliza que a Ucrânia pode estar mudando a maré da guerra.

Por semanas os ucranianos têm combatido intensamente no sul, obrigando os russos a enviarem reforços, enquanto no leste se mantinha uma guerra de atrito. Mas, em poucos dias, um ataque surpresa dos ucranianos no leste conseguiu recuperar oficialmente 3 mil km² – algumas estimativas sugerem 8 mil km², mais do que a Rússia conquistou em meses.

É o momento mais importante do conflito desde que os russos foram obrigados a uma retirada humilhante no norte, em abril, após suas incursões nos arredores de Kiev. Desde então, a Rússia asseverava que seu objetivo era dominar os territórios de Luhansk e Donetsk, no leste. Mas as recentes conquistas ucranianas praticamente inviabilizaram essa meta.

A pressão ucraniana no sul, combinada com a contraofensiva no leste, impõe à Rússia um dilema. A prudência exigiria enviar tropas a Luhansk para assegurar uma linha defensiva. Mas isso implicaria vulnerar posições em Kherson e Donetsk. A campanha ucraniana parece projetada para pressionar o presidente russo, Vladimir Putin, com tal dilema, e tirar proveito disso.

A retirada caótica dos russos sugere um moral baixo, esgotamento de recursos e confusão na liderança militar. Ao mesmo tempo, o sucesso ucraniano mostra que a cooperação com os serviços de inteligência ocidentais e o emprego de armas como os mísseis de longa distância americanos estão produzindo os efeitos desejados.

A contraofensiva permite pela primeira vez vislumbrar o fim da guerra. Mas esse desfecho ainda está distante. Os russos têm condições de reagrupar as forças em uma linha de defesa no nordeste e conduzir contra-ataques. Além disso, a pressão sobre Putin implica riscos para os quais é preciso estar alerta.

Já estão circulando críticas severas de ultranacionalistas russos que desejavam uma ação mais agressiva. Como sempre na história da Rússia, Putin conta com o inverno. Ele pode cortar ainda mais os suprimentos de energia para a Europa, na expectativa de provocar tumultos sociais e pressionar aqueles que apoiam a Ucrânia. Além disso, desde o princípio ele advertiu que poderia empregar armas químicas e nucleares. Isso poderia infectar o território russo e mesmo territórios da Otan.

Os líderes ocidentais, especialmente europeus, precisam deixar claro que quaisquer manobras nesse sentido transformarão Putin incondicionalmente em um pária. Além de mais armas para os ucranianos, eles precisam acelerar seus planos de contingência para abastecer reservas de energia, distribuir ajuda à população atemorizada com a escalada do custo de vida e investir em comunicação pública para esclarecer a essa população que os sacrifícios valem a pena. Uma vitória de Putin convidaria a novas agressões na Europa.

Os riscos são altos. Mas, pelo momento, após um ano sombrio, as imagens da debandada dos soldados russos e dos abraços dos ucranianos libertados devem ser tomadas por aquilo que são: ótimas notícias.

O Estado de São Paulo

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