segunda-feira, maio 16, 2022

Economia brasileira desaprendeu a crescer a partir de 1980 e não mais se reencontrou

Publicado em 16 de maio de 2022 por Tribuna da Internet

Charge do Jeremias (Jornal Alto Vale)

Samuel Pessôa
Folha

Claramente há duas quebras estruturais no crescimento da economia brasileira. A primeira em 1918, e a segunda, em 1980. Nos 62 anos entre 1918 e 1980, crescemos 978%, ou 3,9% ao ano. Nos 41 anos entre 1980 e 2021, crescemos 34%, ou 0,7% ao ano. A economia desaprendeu a crescer a partir de 1980.

O gráfico apresenta a evolução do produto per capita brasileiro, a preços de 2010, de 1900 até 2021. Os dados foram obtidos na base de dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Ipeadata. A escala do gráfico é logarítmica na base 2. A escala logarítmica transforma em retas toda variável cuja taxa de crescimento seja constante.

INDUSTRIALIZAÇÃO – O forte crescimento de 1918 até 1980 foi simultâneo ao processo de urbanização e industrialização. Adicionalmente, após a Primeira Guerra, houve um longo processo de fechamento da economia mundial. O comércio e a mobilidade de capital se reduziram. Nossa estratégia de substituição de importação era coerente com o que ocorria na economia global.

De qualquer forma, o período de forte crescimento deixou um péssimo legado na área social, principalmente na escolarização nos níveis fundamentais da população.

Nos anos 1950, aproximadamente sete de cada dez crianças de sete a 14 anos estavam fora da escola. Em 1980, a taxa de analfabetismo da população com 15 ou mais anos era de 25%.

DÉCADA PERDIDA – Sabemos que 1980 é o ano de início do período conhecido por década perdida. A segunda rodada da elevação dos preços internacionais do petróleo, em 1979, associada à elevação dos juros americanos pelo então presidente do banco central dos EUA, Paul Volcker, para reduzir a inflação que chegou a atingir 14,5% em maio de 1980, produziu profunda e prolongada crise externa na América Latina.

Passada a longa crise, não conseguimos reencontrar o caminho do crescimento. Veja dois motivos principais. Um interno e outro externo.

Primeiro, a redemocratização trouxe para o centro da formulação das políticas públicas o tema do investimento na área social: universalizamos o ensino fundamental, avançamos no médio, construímos uma rede de proteção social muito abrangente para um país de renda média, e a pobreza entre os velhos praticamente foi eliminada.

MAIS IMPOSTOS – Os custos foram a redução do investimento público e o aumento da carga tributária. Segundo o Observatório de Política Fiscal do Ibre, o investimento público, incluindo as empresas estatais, foi de 5,8% do PIB para o período de 1947 até 1980 e de 4% no período posterior.

Segundo o IBGE, a carga tributária era de 25% na virada dos anos 1970 para os anos 1980 e de 34% nos anos 2000, um crescimento de nove pontos percentuais. Carga tributária maior e investimento em infraestrutura menor dificultam o crescimento.

O motivo externo foi a alteração na forma de organizar a produção. Desde 1970 e com muita intensidade a partir de 1990, há forte crescimento do comércio de bens em processo.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO – A produção dos bens manufaturados foi quebrada em diversas etapas, e cada etapa passou a ser executada em diferentes países.

O resultado é que desde 1990 houve uma queda do valor líquido exportado como proporção da exportação bruta. O conteúdo de insumos importados dos bens exportados subiu muito. Esse fato é bem documentado nos trabalhos de Robert Johnson, professor da Universidade de Notre Dame em Indiana, EUA.

O mundo mudou e não conseguimos atualizar nossa inserção na economia global.


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