sexta-feira, maio 06, 2022

A revolução francesa em marcha




Em Junho fecha-se o ciclo da V República. Os socialistas dividem-se entre os que são engolidos por Melenchon e os que se juntam a Macron. Já os herdeiros do gaullismo vão ser o parceiro menor de Macron. 

Por João Marques de Almeida (foto)

A revolução do sistema partidário francês vai continuar com as eleições legislativas em Junho. Aliás, já começamos a ver a natureza dessa redefinição. E, simultaneamente, a morte da V República. Mas será uma morte parcial e não absoluta. Será a versão francesa do Leopardo: “tudo deve mudar para que tudo fique como está.” No caso francês, para que muito continue como está, mas não tudo.

À esquerda, Melenchon está a uni-la. Conseguiu o apoio dos Verdes e dos comunistas, e agora contará também com os socialistas, ou pelo menos com uma parte substancial do partido. Mas a unidade de Melenchon também significa a radicalização da esquerda francesa. É uma unidade feita à Marchais e não à Mitterrand. E é sobretudo uma unidade das esquerdas contra a Europa. O bloco de esquerda francês lutará com a direita nacionalista pelo segundo lugar na Assembleia Nacional.

A direita nacionalista será liderada pelo partido de Marine Le Pen. Ao contrário do que se passa na esquerda, não haverá uma aliança formal entre a Frente Nacional e o movimento de Zemmour. Mas é provável que nas segundas voltas unam os seus votos nos círculos eleitorais onde possam vencer juntos. A direita nacionalista irá aumentar o número de deputados e, provavelmente, será a segunda maior bancada parlamentar.

No centro, os Republicanos e os moderados do PS francês vão juntar-se a Macron num movimento político do centro direita liberal. Ambos terão que se juntar a Macron para não serem engolidos pelos mais radicais à direita e à esquerda. Os republicanos terão, apesar de tudo mais força, porque não se juntaram a Le Pen, ao contrário do partido socialista que se aliou a Melenchon. O grande desafio para o centrismo de Macron será a manutenção da maioria parlamentar. Será a força política mais votada, mas mantém a actual maioria?

Se Macron conseguir manter a sua maioria parlamentar, a escolha do PM será a primeira decisão importante. Há rumores que apontam para a possível escolha de Lagarde como PM, o que consolidaria a aliança entre o partido de Macron e os republicanos. Aparentemente, Lagarde aceitaria mudar de Frankfurt para Paris. Mas primeiro Macron terá que ganhar as eleições.

Com as eleições legislativas de Junho pode fechar-se assim o ciclo da V República. O partido socialista divide-se entre os que aceitam ser engolidos pela onda radical de Melenchon e os que preferem juntar-se a Macron. Os herdeiros do grande partido Gaulista tornam-se o parceiro menor de Macron. Este movimento de centro direita liberal será o maior partido do novo sistema politico francês, que contará com dois grandes partidos radicais, o Bloco de Esquerda liderado por Melenchon, e a Frente Nacional liderada por Marine Le Pen. Será assim durante os próximos cinco anos. Até à próxima revolução em França.

Observador (PT)

Em destaque

Senado impõe sigilo sobre entradas de nomes ligados ao escândalo do Banco Master

Publicado em 10 de maio de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Ouvidoria do Senado é comandada por Ciro Nogueira Ra...

Mais visitadas