terça-feira, fevereiro 26, 2019

A Venezuela vive uma tragédia sem heróis, em que o povo é o grande perdedor


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Venezuela vive uma divisão em que não existe um “lado bom”
Sérgio AbranchesBlog do Matheus Leitão
A Venezuela está presa em um labirinto sem heróis. Cada lado é culpado das acusações que lhe fazem o outro lado. É uma história sem um lado bom, com um grande e sofrido perdedor, que é o povo venezuelano. Ele acreditou no sonho com Chávez e perdeu. Nos estertores do governo, já enfrentava muita privação. Com o sucessor, mergulhou na fome e na desesperança. Maduro é um ditador improvisado de um quadro treinado para ser teleguiado. Era para ser manipulado e virou dono do poder.
Não há dúvida de que a cúpula da Venezuela hoje está mergulhada na corrupção e de mãos dadas com o banditismo. Mas os venezuelanos não podem esperar muito, também do outro lado. Juan Guaidó, aliou-se com lideranças cuja agenda nada tem a ver com o drama venezuelano. Atende mais aos impulsos de Donald Trump, que tem se provado mais irresponsável do que se imaginava possível no establishment americano.
SEM ALTRUÍSMO – Não se pode acreditar, nem por ingenuidade, que Trump tenha alguma inclinação altruísta. EUA, Brasil e Colômbia estão usando a ajuda humanitária como arma política contra Maduro, não por ser um governo tirânico, mas por não estar alinhado ideologicamente com eles. Maduro queima alimentos e medicamentos necessários à população, como se fossem tóxicos e não agudamente necessários. Mas não foram enviados por solidariedade e sim como aríete para arrombar as portas do regime. É um confronto sem inocentes com milhões de vítimas.
O quadro é de um impasse de alto risco e muito dano. Maduro escala no front diplomático, rompe relações com a Colômbia, fecha as fronteiras, mas até agora não buscou o confronto violento.
Nos discursos à militância faz ataques violentos e dispara bravatas. A violência dos últimos dias é resultado da situação arriscada a que o impasse chegou. Excessos, com mortes, são quase inevitáveis nessas circunstâncias.
MILITARISMO – A Venezuela tem as forças armadas mais bem equipadas da América do Sul. Chávez comprou a lealdade dos militares armando-os até os dentes com armamento comprado na Rússia. Ao mesmo tempo, começou a armar militantes, organizados em milícias e outras modalidades de distribuição do poder e de uso da força física. Maduro apóia-se tanto mais nessas forças paramilitares, quanto maior é a ameaça de deserção nas forças armadas.
Por enquanto, estas se limitaram à média e baixa oficialidade e a oficiais de alta patente na reserva. Não se pode descuidar, todavia, do fato de que Chávez, eleito, consolidou seu poder, assumindo o controle das forças armadas, com base na média oficialidade. Coroou os coronéis, como ele, para as patentes mais altas e forçou a transferência em massa para a reserva de oficiais generais que se mostravam recalcitrantes em apoiá-lo.
O comando militar, hoje, está inapelavelmente atrelado à rede de corrupção. Mas, os que não estão nela incluídos ou que ainda podem se afastar, constituem ameaça real à permanência de Maduro no poder. É um ditador que só resiste, e como tem resistido, apoiado no poder militar.
É INTERVENÇÃO – Não há boas intenções na política dos países que se opõem a Maduro. Trump, desde o início de seu governo, vinha procurando uma forma de intervir na Venezuela. O alinhamento do governo colombiano não era suficiente. Agora, está mais perto do que desejava, com a adesão da facção mais aventureira do governo Bolsonaro. Todos os sinais são de que os generais que cercam o presidente têm impedido esse grupo, até agora, de entrar numa aventura na fronteira sem bom desfecho possível. Mas não conseguem impedir os erros e desacertos da facção rápida no gatilho.
O Itamaraty está entregue a aprendizes de embaixador. Eles atropelam toda a inteligência e os procedimentos que fizeram de nossa diplomacia profissional uma das mais respeitadas do mundo. É esse arroubo da inexperiência que permite ao chanceler Ernesto Araújo formular declarações com duas cláusulas, uma contrariando a outra. Não consegue sequer disfarçar, no manejo das palavras, a natureza puramente política da carga enviada à Venezuela como ajuda humanitária.
CAVALO DE TRÓIA – Não é ajuda, nem é humanitária. Não passa de um cavalo de Tróia mal-ajambrado. A declaração do chanceler revela que a ação humanitária é de inspiração política. Disse que era importante que as autoridades venezuelanas deixassem passar a ajuda, por seu sentido humanitário, e pelo significado simbólico político de apoio ao governo Guaidó, o único legítimo.
A oposição no Brasil, ao apoiar Maduro para se opor a Bolsonaro e a Trump, sacrifica a legitimidade da crítica à falsidade do humanitarismo desses governos. A oposição interna a Maduro fracassa em oferecer ao povo de seu país a esperança de uma saída democrática e progressista, ao aceitar fazer o jogo de Trump e sua coalizão.
A solidão do povo venezuelano é perturbadora e inquietante. Há uma sombra a avançar pelo continente, sob a qual esquerda e direita perseguem seus fantasmas ideológicos e deixam o povo só e vulnerável.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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