terça-feira, abril 12, 2011

Exame médico em excesso faz mal?

Noemi Flores

Até que ponto a ida constante a médicos que termina com a solicitação de uma série de exames pode ser salutar? Quem responde a esta pergunta é o médico americano H. Gilbert Welch, especialista em clínica médica, autor de “Overdiagnosed”, recém-lançado nos Estados Unidos.

Neste livro, ele que também é pesquisador da Universidade Dartmouth alerta as pessoas para o excesso de diagnósticos e exames preventivos, concluindo que a epidemia destes exames, ou “screening”, como são chamados nos EUA, coloca a população em perigo mais do que salva vidas.

Welch esclareceu em uma entrevista à Folha de S.Paulo que a prevenção tem dois lados. Um é a promoção da saúde. É o que sua avó dizia: “Vá brincar lá fora, coma frutas, não fume”.

Mas a prevenção entrou no modelo médico, virou procurar coisas erradas em gente saudável, virou detecção precoce de doenças. Isso faz mal. Não estou dizendo que as pessoas nunca devem ir ao médico quando estão bem. Mas a detecção precoce também pode causar danos.

“Quando procuramos muito algo de errado, vamos acabar achando, porque quase todos temos algo errado. Os médicos não sabem quais anormalidades vão ter consequências sérias, então tratam todas. E todo tratamento tem efeitos colaterais.

Há um conjunto de males que podem decorrer de um diagnóstico: ansiedade por ouvir que há algo errado, chateação de ter que ir de novo ao médico, fazer mais exames, lidar com convênio, efeitos colaterais de remédios, complicações cirúrgicas e até a morte”, afirmou Welch.

Sobre esta concepção do pesquisador americano, médicos baianos como o otorrinolaringologista, Otávio Marambaia, conselheiro do Conselho Regional de Medicina (Cremeb), e os cardiologistas Joel Pinho, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), e Júlio Braga, da Coordenação de Saúde Ambiental da Secretaria de Saúde do Município (SMS), também concordam e falaram que este assunto já é discutido no país durante reuniões e encontros da categoria.

“A tese é razoável, infelizmente isto é muito estimulado pela imprensa toda vez que aparece uma técnica nova a pessoa quer fazer. Mas a medicina é a conversa com o médico, exames são complemento. Quando o médico não examina, pede exame é porque ele não fez o que deveria”, adverte Marambaia. O médico destaca que “a clínica é soberana, a maioria do atendimento deve ser feita por exame clínico, saber o histórico do paciente, análise da conversa.

Após isto, o médico vai investigar realizando o exame físico, de toque e depois elabora o diagnóstico. Se tiver algum exame a ser feito, é para dirimir uma dúvida, quando a doença tem características muito próximas de outras”, sinalizou.

Um fator importante apontado por Marambaia é de que as pessoas estão acreditando mais nos exames, preferem confiar na tomografia e paralelo a isto existe o médico desconfiado que pede exame demais para se proteger de eventual processo caso aconteça algo com o paciente e tenha que ser julgado e o juiz perguntar por que não solicitou determinado exame. “ É a medicina defensiva “, argumenta.

Outro aspecto também levantado pelo conselheiro do Cremeb é de que o paciente não tem fidelidade com o médico, “a medicina não é ciência exata, mas não se inventa doença. Por exemplo, uma pessoa que sofre enfarte, ela possui um histórico de vida sedentária, má alimentação, rica em gorduras, tudo isto é o histórico do indivíduo se acompanhado por um médico e seguir as prescrições a doença não será fatal. A medicina não pode ser praticada sem o histórico do paciente e sem o exame físico”, assegurou.

Exposição a radiações

O cardiologista Joel Pinho concorda com os colegas e afirma que o principal da avaliação é o exame clínico com o método de abordagem do paciente e o histórico.

E todo o exame por mais sofisticado que seja pode trazer malefício, principalmente os invasivos e que expõem as pessoas a radiações, como tomografia computadorizada, ressonância magnética, cateterismo “podem provocar lesão e radiação excessiva quando faz assiduamente, por exemplo de quatro em quatro meses, isto já foi constatado”.

O cardiologista Júlio Braga vai mais longe ainda em relação a exames com frequência desnecessária “ todo exame tem falha, acusa que o indivíduo tem uma doença e ele não tem”, lamentou. Ele cita outros que são feitos que podem causar danos irreversíveis na saúde do indivíduo.

A exemplo do teste PSA (antígeno prostático específico), que é o exame de próstata, também citado pelo médico americano Gilbert Welch . “O PSA alterado muitas vezes não quer dizer que é câncer, aí o indivíduo se submete a uma biópsia sem necessidade o que pode levá-lo a problemas mais sérios”, disse Braga.

Viciados em médicos -Dentre as pessoas que não saem de consultórios médicos está o bancário aposentado Leandro Gomes Fernandes, 62 anos, se considera uma pessoa vaidosa, não dispensa a academia e realiza exames periódicos duas vezes ao ano e quando indagado se não era em excesso a quantidade, já que os médicos aconselham uma vez por ano, ele disse que vai continuar fazendo pois está na “idade de risco”.

“Eu tenho pressão alta e procuro sempre fazer eletrocardiograma e o de colesterol e diabetes porque a gente nunca sabe, ainda mais que frequento a academia, tem o baba de final de semana com amigos. Aí a gente tem que estar perfeito, sem nada errado. Uso uma alimentação saudável, os remédios todos os dias, mas mesmo assim sempre quero saber como estou”, revelou.

Já a gerente de marketing Rosana Gonçalves Miranda, 54 anos, já fez todo o tipo de exame que se possa imaginar. “Tenho muito medo de doença, confesso que sou hipocondríaca mesmo, fale quem quiser.

Mas só posso dizer que minha saúde vai de vento em popa, graças aos exames que me dão esta segurança: meu coração vai bem, meu colesterol idem, sem diabetes, minha tireóide perfeita e também os exames femininos tudo em ordem, Graças a Deus!”, exclamou.

Fonte: Tribuna da Bahia

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