Redemocratização
Reginaldo Manente/AE
Posse de José Sarney, em 15 de março de 1985, marcou a volta das liberdades civis e direitos sociais. Especialistas dizem que ainda há muito a fazer
Rhodrigo Deda, especial para a Gazeta do Povo“Sempre é um avanço a substituição de uma ditadura por um governo civil”, afirma o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de Campinas, Roberto Romano. “Aprendemos muito com a redemocratização, mas espero que aprendamos ainda mais.” Para aprimorar o regime, ele considera necessária uma reforma política ampla no país. “Há a necessidade de democratização dos partidos políticos. Eles continuam nas mãos das mesmas oligarquias que mandam há 40 anos.” Romano lembra que esses caciques regionais controlam os recursos partidários e indicam candidatos de forma absoluta, sem a participação das bases das legendas. “Sempre faço uma comparação com futebol. Quem manda são os cartolas; a torcida não apita no cenáculo.” Segundo ele, com partidos mais acessíveis, haverá a possibilidade de se discutir verdadeiramente a cidadania.
WPO/Governo de Minas Gerais
Telão mostra imagem de Tancredo Neves durante homenagem ao ex-presidente em Belo Horizonte, realizada no último dia 5 de março. Na ocasião foi inaugurado um centro administrativo do governo mineiro, batizado com o nome de Tancredo, que completaria o centenário neste ano
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Histórico
Após o fracasso do movimento das Diretas Já – que reivindicou eleições presidenciais diretas entre 1983 e 1984 – as atenções do mundo político se voltaram para as eleições que seriam realizadas pelo Colégio Eleitoral, em 1985
Balanço
Veja alguns pontos em que o Brasil apresentou melhoras e outros que ainda precisa enfrentar, após 25 anos de redemocratização.
Posse de Sarney esfriou ânimos dos herdeiros das Diretas Já
A posse do primeiro presidente civil após o regime militar foi um momento frustrante para a grande parcela da população – principalmente aqueles que apoiaram as “Diretas Já” nos anos anteriores.
O professor de Ciência Política Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), considera essencial ampliar o controle social da sociedade sobre os representantes eleitos. “É preciso criar mecanismos de controle mais rigorosos sobre os representantes, com mais canais de informação e comunicação para que prestem contas e cumpram promessas eleitorais.” Codato afirma também que o Brasil precisa baratear os custos das eleições, o que contribuiria para reduzir a corrupção e a elitização da política. Ou seja: é preciso implementar mecanismos que deem igualdade de condições para as pessoas se candidatarem, assim como criar instrumentos que possibilitem a fiscalização dos eleitos.
Embora ainda haja muito que fazer, pode-se observar grandes avanços nos últimos 25 anos. Essa é a opinião de Marcelo Simas, coordenador do FGV Opinião, o núcleo de pesquisas da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas. “Tivemos um governador preso há pouco tempo. Isso é extremamente inédito”, afirma Simas. Segundo ele, há uma série de outros fatos que demonstram essas mudanças. “Empresários hoje são presos por sonegação fiscal. Parlamentares sofrem processos de cassação, as instituições estão funcionando cada vez mais e melhor.”
Resquícios
Para o diretor da organização não governamental Contas Abertas, Gil Castelo Branco, pode-se considerar como um resquício da ditadura militar a ausência de participação do cidadão. “Praticamente toda uma geração teve suas liberdades tolhidas, censuradas, o que até hoje deixa suas marcas.” Segundo ele, a democracia é muito recente e, aos poucos, deve se consolidar. Ele ressalta que já ocorreram turbulências graves no campo político, mas não houve retrocessos para novas formas de ditadura. “Tivemos o episódio do impeachment do (presidente Fernando) Collor”, exemplifica. Ele pondera que ainda há declarações e gestos que atentam contra a democracia, como as tentativas de querer ampliar o número de reeleições. “Mas estamos gradativamente consolidando o regime.”
Castelo Branco considera que um dos pontos que não foi atacado no período da ditadura e que perdura até hoje é a corrupção. “A ditadura não combateu a corrupção, como seus dirigentes diziam que iriam fazer.” Ele aponta como positivo uma alteração na mentalidade econômica dos dirigentes brasileiros pós-ditadura. “O pensamento da época centrava-se no dilema de que era preciso fazer o país crescer para, depois, distribuir o ‘bolo’. A ditadura foi um período de crescimento. Contudo, centrou-se em uma tese equivocada”, avalia Castelo Branco. “Já nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula a tese mudou. Percebeu-se que era possível crescer e tornar o país mais igual.”
Fonte: Gazeta Online