Janio Lopo
O ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) não desejava mais do que ensaiar alguns passos de uma melodiosa valsa e acabou vendo-se metido bem no centro de um samba de crioulo doido onde ninguém se entende. Geddel deve se irritar. Talvez se divertir. Há a impressão de que, embora todos estejamos falando a mesma língua somos incapazes de nos compreender. Mas o cerne da questão está na ponta de nosso nariz mas a maioria prefere comportar-se como cega. A Bahia tem vivido um momento político que, para dissecá-lo definitivamente torna-se indispensável que olhemos para o retrovisor. Não vamos compreender o que se passa hoje se não tivermos a coragem e o bom senso de dar uma olhadinha um pouco mais atrás.
O que Geddel defende é um novo modelo político para a Bahia, onde as lideranças tenham o desprendimento de conversar, discutir os problemas de maneira clara, expor seus pontos de vista sem patrulhamento e sem histerismo. A construção dessa nova Bahia é possível desde quando abandonadas as práticas do ódio, da perseguição, da arbitrariedade e da traição. O PMDB, afirma Geddel, quer e vai definir seu futuro, seus novos rumos. Cabe às demais legendas seguirem o mesmo caminho. Ele, Geddel, é candidato. Não vão ser os cargos que possui na estrutura do Estado que o farão recuar – pelo menos neste primeiro momento. Uma das principais lideranças políticas baianas dos últimos, 30, 40 anos, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães não convive mais conosco.
O seu passamento, em tese, provocaria uma mudança radical nas relações políticas e democráticas entre os partidos, independentemente da posição ideológica de cada um. Havia um poderoso obstáculo que impedia o diálogo e a transparência das ações. Hoje já não há mais. Entretanto, pode detrás das chamadas decisões de impactos observarmos nos dias atuais o vigor das práticas carlistas estranhamente preservadas e ressuscitadas por seus tradicionais adversários. Peguemos um exemplo fresquinho. Em entrevista à Tribuna da Bahia que ganhou repercussão fenomenal, Geddel disse que era candidato ao governo do Estado.
A notícia teve tanto impacto (um pouco de exagero não faz mal e nem engorda) quanto a queda do muro de Berlim. Geddel vem dizendo e agindo há mais de um ano como candidato. Contudo, o PT cobra do PMDB uma espécie de alinhamento automático. Em outras palavras: Geddel não pode ser candidato porque sua legenda participou da eleição de Jaques Wagner e está contemplada com cargos na estrutura administrativa estadual. Não é bem assim: as oposições, embora historicamente burras, sempre se sentiram estimuladas à união na Bahia contra o que elas rachavam de inimigo comum. E quem era o dito cujo? ACM. A força política do ex-senador era indiscutível. Quando o diziam dono da Bahia tinham razão. Seus tentáculos estavam espalhados por todas, absolutamente todas, as esferas de poder local. Criou-se até o folclore segundo o qual tanto as coisas boas quanto as ruins que aqui ocorriam a culpa era de ACM. A oposição da época, hoje encastelada no poder estadual não tinha outra alternativa de sobrevivência política senão partir para o tal do alinhamento automático.
Vamos voltar há três anos. Lembram da eleição de João Henrique para cumprir seu primeiro mandato? Seu principal opositor era o senador César Borges, figura de proa ligadíssima ao ex-senador. Acabou o primeiro turno e instintivamente todos os partidos então rotulados de anticarlistas fizeram um cordão de proteção à candidatura de João. O final da história todos já conhecem.
Fonte: Tribuna da Bahia
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