Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Neste fim de semana, na reunião de uma das treze alas em que se divide o PT, quem desabafou diante de centenas de companheiros foi o presidente do partido, Ricardo Berzoini. Ele declarou ao grupo Novo Rumo, em São Paulo, que a opinião do presidente Lula deve ser respeitada, mas que o momento não é de discutir nomes, senão de o PT organizar-se para apresentar à sociedade um bom diagnóstico e um bom programa.
Ora, o nome de Dilma Rousseff para a sucessão quem lançou foi o Lula há quase um ano. Mais do que discutida, ela está consagrada no âmbito do partido. E se o PT procura um bom programa, está sendo impertinente, por esquecer o PAC e penduricalhos há quanto tempo apregoados pelo governo?
Dirão todos que esse desabafo de Berzoini equivale ao miado do gato diante da onça. O partido não tem como evitar ou sequer protelar a candidatura da chefe da Casa Civil, realmente imposta pelo presidente sem a menor consulta a seus dirigentes e, muito menos, às suas bases. A escolha da candidata à sucessão revela a forma de como o Lula se relaciona com o PT: "Eu mando e vocês obedecem".
É claro faltar ao partido um mínimo de força para contestar o chefe-maior. Nem ao menos os companheiros conseguirão promover um jogo de cena e transmitir ao eleitorado a impressão de que a candidatura de Dilma é uma iniciativa deles. Não é. Sequer deverá vingar desta vez, a sugestão inusitada do senador Eduardo Suplicy, pela realização de prévias nos diretórios estaduais. A candidata já está imposta e deglutida pelos 84% de popularidade do Lula, muito acima e além do horizonte petista.
Quem não consegue ficar calado arrisca-se ao ridículo
Perdeu Fernando Henrique Cardoso mais uma oportunidade de ficar calado. Num estranho IV Encontro Internacional pela Nova Agenda de Desenvolvimento para a América Latina, o ex-presidente produziu mais uma rodada de ressentimentos diante do governo do sucessor. Declarou não faltarem recursos para o PAC, em suas palavras hoje afogado pela inoperância. Criticou a falta de um projeto para o trem-bala que ligaria Rio, São Paulo e Campinas, esquecido de que também não havia plano, em seus oito anos de mandato. Mesmo recomendando a troca do neoliberalismo pela eficiência, não renegou por completo seu passado, ao acrescentar que o aumento dos gastos públicos não terá efeito sobre a reconstrução econômica. Um diagnóstico no mínimo singular quando se observa que os governos dos Estados Unidos, Inglaterra, Japão e outros países derramam bilhões e trilhões de dólares na economia privada, imaginando salvá-la.
FHC vive a compulsão do esquecimento, não perde oportunidade para opinar sobre o que não mais lhe diz respeito. Só falta, mesmo, pronunciar-se sobre o estado físico do Ronaldo Fenômeno e criticar o Corinthians por tê-lo lançado cedo demais.
Apesar de tudo, a Terra gira em torno do Sol
Galileu comeu o pão que o Diabo amassou nas mãos da Igreja, silenciado e preso por sustentar que a Terra girava em torno do Sol. "Eppur se muove", ele dizia bem baixinho quando seus frades-carcereiros se afastavam. Apesar de tudo, ela se move, não era o centro do universo, como foi obrigado a reconhecer para não ser queimado na fogueira.
Com todo o respeito e humildade, vale plagiar Galileu para concluir que, apesar de tudo, o terceiro mandato vem aí. Está nos astros, no ar que a gente respira, na natureza das coisas, que apesar de todos os seus méritos, Dilma Rousseff não ganhará a eleição de 2010. Mesmo podendo ser manipuladas, ou omitidas, as pesquisas de opinião não poderão desmoralizar-se a ponto de serem desmentidas pelos fatos. Da noite para o dia a candidata não conseguirá transformar-se numa liderança popular e nacional.
Arriscará o presidente Lula entregar o poder aos adversários? Ainda mais quando sua popularidade aumenta, permitindo-lhe tudo, menos a inviável transferência de votos? Ainda este ano chegará o momento em que as máscaras vão cair, quando empresários, banqueiros, sindicalistas, companheiros, sem-terra, beneficiários do Bolsa-Família, partidos aliados, Congresso, Judiciário e mais a torcida do Flamengo concluirão que para ficar tudo como está será preciso mudar. No caso, as regras do jogo, permitindo mais uma reeleição.
Alguns ingênuos e outro tanto de malandros riem de soslaio e dão de ombros diante desses maus presságios para a democracia. Repetem as mil negativas do presidente Lula, aliás, honestas e verdadeiras, para interromper o fluxo das abomináveis previsões. O problema é que se autorização para o terceiro mandato vier de uma reforma da Constituição, votada pelo Congresso, teoricamente a democracia não será arranhada. Ou já não aconteceu faz pouco, quando Fernando Henrique, eleito para um mandato de quatro anos, obteve de deputados e senadores autorização para disputar o segundo, que venceu sem precisar desincompatibilizar-se?
A nação reagiu, diante daquele massacre institucional, mas "democrático"? Nem pensar. À exceção do PT, todo mundo aplaudiu e votou no sociólogo, por coincidência derrotando o Lula. Ironias à parte, se o casuísmo valeu para os tucanos, por que não valerá para os companheiros e seus aliados?
Acresce um novo fator. Estamos em meio a uma crise dos diabos, daquelas que só acontecem a cada cem anos. Até agora 600 mil trabalhadores foram demitidos, ninguém prevê menos de um milhão, para o segundo semestre. Mudar o timoneiro em meio à tempestade, só se ele abandonar o barco.
Esse será o grande argumento a ser colocado diante do Lula: vai cair na água, escafeder-se e deixar o País à mercê do imponderável? Com 84% da população mantendo nele suas esperanças? Aquilo que ele falou a respeito da reeleição permanente de Hugo Chávez vale para a Venezuela, mas não vale para o Brasil?
E os hipotéticos contrários, como se comportariam? No Congresso, a maioria é óbvia, para o governo, inclusive graças ao PMDB, que não tem candidato presidencial, tem seis ministros e gostaria de ter sete, nem sendo preciso falar do PT e adjacências.
O Judiciário se levantaria? Com sete entre onze ministros nomeados pelo presidente Lula para o Supremo Tribunal Federal, podendo chegar a oito ou nove até o fim do ano?
Os militares tão postos à margem ou lá chegados por vontade própria fariam o que uma vez Getúlio Vargas falou que fariam: bateriam continência.
A imprensa? Ora, situações mais graves e mais agudas foram absorvidas e justificadas por nossa brava mídia, em todos os tempos.
Sendo assim... Sendo assim, "eppur se muove", mas por enquanto vai para a fogueira quem admitir...
Fonte: Tribuna da Imprensa
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