Augusto Marzagão
jornalista
Em ano eleitoral há muito discurso, miríades de promessas, mas muito pouca ação, passado o pleito. Os candidatos e seus principais cabos eleitorais, embalados pela eloqüência, prometem além do que podem dar ou fazer. O resultado é que, ao cabo da legislatura ou concluído o mandato, não realizaram nem um terço do que prometeram. Seja porque quatro anos é tempo escasso para a consumação de tantas promessas, seja porque, e é o que quase sempre acontece, as promessas de palanque não passam de fogos de vista para iludir o eleitor, em geral tratado como basbaque, ou como alguém – e quase sempre é verdade – com a percepção obstruída pelos problemas que o afligem, como o bolso vazio, a aposentadoria ridícula, os filhos sem futuro, a violência correndo solta, a saúde e a educação à matroca. É claro que há também os que acreditam porque acreditam. Paciência. Não há quem crê em bruxas?
Escrevi há tempos – se não me falha a memória quando o presidente Lula foi eleito pela primeira vez – que não se devia cobrar do candidato vitorioso tudo o que ele prometeu no palanque eleitoral. Dizia no texto que discurso de candidato não tem qualquer compromisso com a realidade, nem mesmo com mínimos requisitos de viabilidade. E é o que se observa. Os candidatos prometem o que não podem dar, e sabem que não podem dar. Mesmo assim prometem.
Aliás, a irresponsabilidade dos nossos governantes, que se apresenta muito claramente no episódio ainda sem solução da epidemia de dengue no Rio de Janeiro e em outros Estados, começa no palanque eleitoral.
Ouvi, durante a última campanha eleitoral, um candidato afinal vitorioso prometer mundos e fundos para o setor de saúde, incluindo a contratação de pessoal especializado (médicos, acredito eu) e o reaparelhamento e ampliação da rede hospitalar e ambulatorial, que estava sucateada. Fez alguma coisa? Não. Ou se fez foi insuficiente, ficou muito aquém do que prometeu e voltará a prometer – já está prometendo – na primeira oportunidade.
O pior é que o eleitor vai acreditar, e vai reelegê-lo, ou eleger o candidato que ele indicar, que por sua vez irá prometer o céu e a terra, e não cumprirá o prometido, numa ciranda de embustes que somente terá fim quando adquirirmos plena consciência do mal que esses políticos representam.
Na eleição municipal que se aproxima, para a qual o eleitor metropolitano parece que não dá muita bola, embora devesse, é preciso que se descarte, de pronto, aquele candidato que costuma prometer o que está acima da força do seu mandato, ou não é da competência do cargo para o qual espera eleger-se. Já ouvi postulante à vereança prometer coisas que nem o presidente da República consegue realizar sem aprovação na Câmara e no Senado – com todas as artimanhas, e conchavos, e mensalões, que ditas aprovações comportam. Também que se repudie os candidatos que têm apoio dos que estão aí, nas três esferas do poder, manobrando o destino do Brasil, que é o nosso próprio destino.
Não se iluda, o eleitor, com as promessas que fizerem. Não se iluda com as hipérboles da eloqüência de palanque eleitoral. Não se iluda com a aparência de bons moços que os candidatos procuram passar. Eles são especialistas – há exceções, e muitas, é claro – em embair a boa-fé do eleitor. Desconhecem o que seja consciência cívica, que está longe do que imaginam ser, mais longe ainda do que praticam.
Não se espere que os políticos sigam o exemplo de Epaminondas, cuja paixão era não mentir. Mas seria bom se não mentissem tanto. Principalmente, se não pregassem aquelas mentiras cuja conta é paga, como no caso atual da epidemia de dengue, com o sacrifício de inocentes.
Vã esperança, sei eu. O tempo, afinal, é de mentir.
Fonte: JB Online
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