Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Nem tudo está perdido. Ontem, no Congresso, começava a reação de muitos senadores e deputados diante do acordo celebrado entre governo e oposição para não serem investigados, na CPI dos cartões corporativos, os gastos familiares do presidente Lula e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Parlamentares de diversas origens, inclusive fiéis servidores da base oficial, mobilizavam-se para descumprir, na prática, o entendimento teórico dos líderes partidários. Afinal, por tão desavergonhado, o acordão não foi escrito, apenas combinado.
Aceita-se por unanimidade que gastos com a segurança pessoal de um presidente da República fiquem blindados da devassa. Se um dos automóveis postos à sua disposição foi para a oficina, se o Aerolula passa por uma revisão, se num longo trajeto rodoviário a comitiva fará uma parada neste ou naquele lugar - centenas de exemplos poderiam ser alinhados em favor da segurança presidencial.
Até mesmo o nome do alfaiate e os horários em que freqüenta o Palácio da Alvorada para conferir as medidas para um terno devem ser objeto de sigilo. Assim como as despesas com cabeleireiro e modista da primeira-dama, que precisa apresentar-se nas recepções e visitas de acordo com o protocolo.
Agora, não dá para considerar matéria de segurança nacional a compra de material de construção ou de um jogo de camisas de futebol de salão por uma filha do presidente. Nem a aquisição de aparelhos esportivos e de roupas de grife para os pimpolhos, além de gastos feitos por eles em churrascarias e bares.
A CPI ainda não foi constituída, mas determinadas estratégias já são acertadas para reverter o abominável acordo em torno dos gastos familiares, onde, se abusos aconteceram, devem ser expostos e ressarcidos. Esperam alguns deputados e senadores que, acionado pelo líder do PSDB, Artur Virgílio, o Supremo Tribunal Federal assegure a amplitude nas investigações.
Sempre haverá, também, a possibilidade de integrantes da CPI formularem questões vetadas pela maioria, mas discutidas livremente e divulgadas pela imprensa. Sem apuração, certas dúvidas até correrão o risco de passarem por verdades, prejudicando mais os investigados do que se tivessem esclarecido a origem dos gastos, muitas vezes compreensíveis.
Em suma, a corrente da transparência ameaça engrossar, atropelando o acordo que nada mais faz do que provar a identidade entre o seis e o meia-dúzia. Ou entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso...
No coração e na cadeia
Do lendário general Miguel Costa, revolucionário de 1924, 1930 e 1932, em São Paulo, conta-se que, quando secretário estadual de Segurança, dele se dizia: "Guarda o comunismo no coração, mas os comunistas na cadeia..."
Por que se lembra essa singular característica do comandante que dividiu com Luiz Carlos Prestes o comando da coluna empenhada em percorrer o sertão brasileiro? Porque, com todo o respeito, guardadas as proporções e invertida a equação, o presidente Lula faz o mesmo. Guarda no coração o anseio por melhores condições sociais para os trabalhadores, mas manda sufocar qualquer reivindicação proposta pelas centrais sindicais.
Basta a gente ver o que acontece com a CUT. De aríete responsável até pela ascensão de um operário à presidência da República, de uns tempos para cá sumiu aquele que foi o maior conglomerado sindical da História do Brasil. Pouco se ouve da CUT em matéria de reivindicações e de ampliação das prerrogativas dos assalariados. Mesmo na campanha para a adoção de 40 horas semanais de trabalho a CUT vai a reboque.
As elites preparam nova investida sobre o que sobrou da Consolidação das Leis do Trabalho. Querem aprovar ainda este ano projeto extinguindo as multas por demissões imotivadas e acabando com as férias remuneradas e o décimo-terceiro através de sua divisão de doze parcelas anuais, coisa que os faria desaparecer em pouco tempo, dada a perda progressiva do poder aquisitivo dos salários.
Pois o que faz a CUT? Nada. Aliás, estenda-se a inação para as outras centrais sindicais a esse respeito. Caíram no engodo das elites, aceitando serem os direitos trabalhistas o maior entrave ao desenvolvimento econômico?
Pelas promessas do governo, vem aí um projeto de reforma tributária e, feito urubus, os privilegiados já espalham o abominável raciocínio de que se mais gente pagar impostos, todos pagarão menos... Todos quem, cara-pálida? Se muitos assalariados não pagam Imposto de Renda, por exemplo, e se vão passar a pagar, quem se beneficia senão aquele que pagava mais e vai pagar menos?
Existem montes de causas fundamentais para as centrais sindicais botarem o pescoço de fora e até, se necessário, lutarem para botar o presidente Lula outra vez no rumo que o levou ao Palácio do Planalto, defendendo e ampliando os direitos do trabalhador. Por tudo isso, companheiros, mãos à obra. Ou vão reconhecer que o seu líder maior guarda-os no coração, mas os mantém senão na cadeia, ao menos no silêncio?
Fonte: Tribuna da Imprensa
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