domingo, junho 07, 2026

Revisão da Ficha Limpa provoca incertezas e tensiona cenário eleitoral nos estados

 

Revisão da Ficha Limpa provoca incertezas e tensiona cenário eleitoral nos estados

Condenações colocam em dúvida candidaturas ao governo e ao Senado em cinco estados e DF

Por João Pedro Pitombo/Folhapress

06/06/2026 às 14:00

Foto: Victor Piemonte/STF/Arquivo

Imagem de Revisão da Ficha Limpa provoca incertezas e tensiona cenário eleitoral nos estados

STF discute a validade das mudanças promovidas pelo Congresso Nacional na Lei da Ficha Limpa

A largada da disputa eleitoral nos estados acontece sob a sombra dos tribunais, que podem redefinir o tabuleiro político para as eleições de outubro em ao menos cinco estados e no Distrito Federal.

Enquanto o STF (Supremo Tribunal Federal) discute a validade das mudanças promovidas pelo Congresso Nacional na Lei da Ficha Limpa, políticos com pendências judiciais lançam pré-candidaturas ao governo e ao Senado em um cenário de insegurança frente à Justiça Eleitoral.

O Congresso aprovou em setembro de 2025 um projeto que reduz os efeitos da inelegibilidade ao permitir que o prazo de oito anos passe a ser contado a partir da condenação, e não após o cumprimento da pena. A mudança foi contestada no STF pelo partido Rede Sustentabilidade.

Os ministros Cármen Lúcia e Luiz Fux votaram pela derrubada das mudanças apontando retrocessos na Lei da Ficha Limpa, mas a votação foi interrompida na última semana de maio com um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Entre políticos ouvidos pelo jornal Folha de São Paulo, a avaliação é que o pedido de vista indica uma posição contrária à derrubada da flexibilização da Ficha Limpa. Para eles, a mudança na lei seria casuísmo, por alterar as regras a menos de um ano da eleição.

Enquanto o STF não conclui o julgamento da ação, permanece incerta a situação das candidaturas de políticos como José Roberto Arruda (PSD-DF).

Governador do Distrito Federal entre 2007 e 2010 e pivô do mensalão do DEM, Arruda foi preso e condenado em processos derivados da Operação Caixa de Pandora, de 2009, quando foi filmado recebendo um maço de dinheiro.

Depois de mais de 15 anos, decidiu voltar à política e se lançou candidato para desafiar a governadora Celina Leão (PP), mas enfrenta um cenário de dúvidas no campo jurídico: como tem um recurso sem julgamento há anos, a pena de inelegibilidade não começou a ser cumprida ainda.

"É uma situação que causa algum grau de incerteza e o grupo que está no poder em Brasília insiste muito em lançar essa dúvida no eleitor. Mas no momento em que eu registrar a candidatura essa dúvida acaba. Estou muito confiante de que desta vez vão me deixar concorrer", diz Arruda.

Ele afirma que consultou advogados antes de lançar sua candidatura e destacou que, pelo cenário atual após as mudanças na Lei da Ficha Limpa, está elegível. Também diz não acreditar que o STF vai derrubar as mudanças na lei e alterar as regras nas vésperas das eleições: "Acredito na Justiça".

No Rio de Janeiro, três ex-governadores que planejavam ser candidatos enfrentaram pendências judiciais ou foram alvo de investigações, como mostram os casos de Cláudio Castro, Anthony Garotinho e Wilson Witzel.

Cláudio Castro (PL), que chegou a se lançar pré-candidato ao Senado, desistiu da disputa após tornar-se alvo de investigações da Polícia Federal. O movimento alterou o cenário local e cálculos políticos de aliados e adversários no estado.

Dentre os candidatos ao governo, Anthony Garotinho (Republicanos) se lançou pré-candidato em meio a um cenário de dúvidas. Mas o STF anulou condenações decorrentes da Operação Chequinho em maio, em decisão que lhe devolveu a elegibilidade.

Wilson Witzel se filiou ao Democrata, antigo Partido da Mulher Brasileira, para concorrer novamente ao governo do Rio, mas o processo de impeachment o declarou inelegível por cinco anos em 2021.

Procurado, o ex-governador diz estar apto a disputar as eleições de 2026, já que a condenação do processo de impeachment tem mais de cinco anos a contar da decisão, seguindo o previsto na lei aprovada pelo Congresso.

Ao menos dois estados do Norte vivem situações de incerteza. No Acre, Gladson Cameli (PP) renunciou ao governo para concorrer ao Senado, mas foi condenado no STJ (Superior Tribunal de Justiça) pelos crimes de organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações.

A condenação, para a qual ainda cabe recursos, lançou dúvidas sobre a viabilidade eleitoral de uma das principais lideranças políticas do estado.

Em Roraima, a sucessão estadual sofreu uma reviravolta após a cassação da chapa eleita em 2022. Com isso, a decisão abriu caminho para uma eleição indireta para escolher um governador-tampão em 21 de junho e alterou o tabuleiro político local às vésperas da campanha.

Edilson Damião (União Brasil), vice que assumiu o governo em abril e planejava disputar a reeleição, agora enfrenta incertezas sobre sua participação na eleição deste ano. A situação é semelhante para Antonio Denarium (Republicanos), que governou o estado entre 2019 e 2026 e planejava concorrer ao Senado.

Até o cenário da eleição indireta está embaralhado porque Arthur Henrique (PL), que renunciou à prefeitura de Boa Vista em abril para concorrer ao governo em outubro, teve sua participação na eleição de junho vetada pelo STF. Arthur Henrique (PL), que renunciou à prefeitura de Boa Vista em abril para concorrer ao governo em outubro, teve a participação na eleição de junho vetada pelo STF.

O ministro Flávio Dino decidiu que só podem concorrer em junho os candidatos que respeitaram um prazo de desincompatibilização de seis meses antes da eleição, o que não foi o caso de Arthur Henrique, que poderia concorrer apenas na eleição de outubro.

Dentre os estados do Nordeste, Sergipe enfrenta um cenário de indefinição. Principal nome da oposição na disputa pelo governo, Valmir de Francisquinho (Republicanos) está elegível graças a uma decisão liminar. Seu futuro político, contudo, segue condicionado ao desfecho dos processos na Justiça Eleitoral.

Em 2022, Valmir foi o candidato ao governo que teve mais votos no primeiro turno, mas a Justiça Eleitoral o declarou inelegível e ele não disputou a segunda etapa da disputa, vencida pelo hoje governador Fábio Mitidieri (PSD).

No Paraná, o ex-procurador da República Deltan Dallagnol (Novo) segue em um cenário indefinido. Cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2023, ele busca reverter os efeitos da decisão para concorrer ao Senado na chapa liderada pelo ex-juiz e senador Sérgio Moro (PL), com quem atuou na operação Lava Jato.

Valmir de Francisquinho, Gladson Cameli, Deltan Dallagnol, Edilson Damião e Antonio Denarium foram procurados pela reportagem, mas não se manifestaram.

Politica Livre

Alcolumbre segura fim da escala 6×1 e amplia incerteza sobre votação no Senado


Alcolumbre não demonstra pressa para avançar com a matéria

Deu no G1

Após a proposta que acaba com a escala 6×1 ser aprovada com larga vantagem na Câmara dos Deputados, a tramitação no Senado continua incerta. Senadores aguardavam para esta semana uma reunião de líderes com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para definir o encaminhamento da matéria.

“Não temos a data certa… mas poderá ser no dia 9 ou 10 [de junho]”, disse em mensagem à BBC News Brasil o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos primeiros parlamentares a defender a redução da jornada. Alcolumbre se manifestou sobre o tema apenas na terça-feira (02/06), quase uma semana após a aprovação na Câmara, e indicou não ter pressa para levar a proposta de emenda à Constituição (PEC) ao plenário.

SEM PRESSA – “Seria muito razoável se o Senado pudesse melhorar um texto com essa importância, se os senadores pudessem debater um assunto dessa envergadura com calma, sem açodamento, sem pressa”, disse, durante sessão do Senado. “Deve ter no mínimo uma comissão [analisando a PEC antes do plenário]. Não podemos ser uma Casa carimbadora”, disse ainda.

O comportamento de Alcolumbre contrasta com o do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que rapidamente se alinhou com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva em apoio ao fim da 6×1, pauta com forte apelo eleitoral.

DOIS DIAS DE FOLGA – O texto aprovado pela Câmara no último dia 27, prevê que a obrigatoriedade de ao menos dois dias de folga por semana entre em vigor 60 dias depois da promulgação da alteração constitucional, etapa que ocorre logo após a aprovação no Congresso. Já a redução da jornada de 44 horas semanais para 40 horas entraria em vigor em duas etapas. Primeiro, haveria a redução para 42 horas, também após os 60 dias. O limite de 40 horas seria alcançado após mais um ano. A PEC também prevê que os salários não serão reduzidos.

Em reação ao avanço da PEC, 41 senadores de oposição assinaram uma proposta alternativa, incluindo o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Essa PEC permite que os empregados escolham entre seguir o regime de trabalho tradicional da CLT ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. Nesse caso, não há redução de jornada com manutenção de salários, nem garantia de duas folgas semanais.

AJUSTE – Para os defensores do novo modelo, isso dará aos trabalhadores a opção de ajustar sua jornada de acordo com suas necessidades pessoais e profissionais. Já os críticos da mudança dizem que o poder dos trabalhadores para negociar diretamente com os patrões a escala de trabalho é limitado e, por isso, defendem que a redução da jornada sem redução de salário seja uma obrigação para as empresas.

Grupos já estão mobilizados para pressionar o Senado a favor e contra as duas propostas. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional do Comércio (CNC) apoiam a PEC da oposição e tentam evitar que o fim da escala 6×1 seja aprovado neste ano no Congresso.

“O que se pede? Vamos sair desse período eleitoral, vamos discutir isso com a profundidade que seja verdadeira e necessária”, disse o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, após encontro com Alcolumbre no último dia 26.

CUSTOS – Também presente na reunião, o presidente da CNI, Ricardo Alban, disse que o fim da escala 6×1 vai aumentar os custos das empresas e pode representar um aumento médio nos preços entre 6% e 8%.

Já o vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL), ex-balconista de farmácia e fundador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), está articulando com centrais sindicais a realização de atos e até mesmo paralisações para pressionar senadores pelo fim da escala 6×1. Segundo ele, a PEC alternativa é a “PEC da escravidão”.

“[Depois de] Passar pela Câmara, como passamos, com uma votação praticamente unânime, com certeza a gente vai passar pelo Senado”, disse Azevedo, em um vídeo em suas redes sociais. “A gente vai pra cima do senhor Alcolumbre com tudo. Já está claro que não temos medo de seu ninguém”, continuou.

CAMINHOS DA PEC –  Fontes no Senado e cientistas políticos se dividem sobre qual será o rito da matéria na Casa. Há certeza de que a PEC passará na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de chegar ao plenário, mas não está claro se o texto será analisado também por outras comissões, como a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) ou a Comissão de Assuntos Sociais (CAS).

Segundo Paulo Paim, o regimento do Senado prevê que matéria constitucional vá da CCJ direto ao plenário. Essa também é a leitura do analista político Antônio Augusto de Queiroz, ex-diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

Além disso, na sua visão, a pressão eleitoral vai contribuir para que o tema tramite rapidamente — dois terços das vagas do Senado estarão em disputa no pleito de outubro. “Eu acho que a pressão sobre a matéria é tão grande na sociedade e, num ano eleitoral com renovação da maioria da casa, a tendência é que ande rápido a despeito da contrapressão do setor empresarial”, disse à BBC News Brasil.

ANÁLISES – Já o assessor parlamentar de outro senador petista disse à BBC News Brasil o oposto — na sua visão, Alcolumbre vai segurar o andamento da PEC e deve enviar o texto para análises de outras comissões.

Para o cientista político Lucas de Aragão, da Arko Advice, havendo acordo o rito previsto no regimento pode ser flexibilizado. “Eu acho que [no Senado] não vai ter essa pressa toda que a gente percebeu na Câmara, com o Hugo Mota, mas também não acho que o Alcolumbre vai sentar em cima [da PEC]”, acredita. “Deve ter uma tramitação mais organizada, audiências públicas, passar por comissões”, acrescentou.

Para Aragão, é muito difícil evitar a aprovação no Senado por causa do grande apelo popular da proposta. Ainda assim, vê chance de a votação ficar para depois da eleição. E, ainda que seja antes de outubro, o cientista político acredita que haverá mudanças no texto aprovado na Câmara para ampliar o tempo de transição.

ADIAMENTO – Por ser uma alteração da Constituição, uma PEC só entra em vigor quando é aprovada com texto idêntico nas duas casas. Então, qualquer alteração faria a proposta retornar à Câmara, adiando o fim da 6×1.

Na sua visão, há três incentivos para Alcolubre não acelerar a PEC. “Primeiro, há esse distanciamento entre ele e o governo pós-rejeição do [Jorge] Messias ao STF. Segundo, Alcolumbre não vai disputar a reeleição este ano. Então, a pressão popular é menos relevante nele do que nos demais”, analisa.

“E o terceiro ponto é que ele está buscando reeleição como presidente no Senado no ano que vem, numa Casa que está dando indícios de que a oposição vai crescer e que vai ficar mais à direita. Então, ele está num momento mais sensível às demandas do PL, da oposição”, acrescentou.

RELATORIA – Ainda não se sabe qual será o relator da proposta no Senado. O perfil escolhido por Alcolumbre, nota Aragão, será uma boa sinalização sobre o ritmo que ele dará para a tramitação. Outro fator que pode atrasar o andamento da PEC é o calendário apertado. Em junho, haverá Copa do Mundo e festas de São João, um momento em que os parlamentares, principalmente do Nordeste, passam mais tempo em suas bases eleitorais. E em julho, ocorre o recesso parlamentar.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado é presidida pelo senador Otto Alencar (PSD-BA), aliado do governo. A CCJ já recebeu a proposta que cria o regime de trabalho por horas, mas, segundo Alencar, a prioridade será avançar com a proposta aprovada na Câmara.

FALTA DE CONSENSO – A PEC alternativa não é consenso mesmo na oposição. O senador Cleitinho, do Republicanos de Minas Gerais e pré-candidato a governador, é um dos que defendem o fim da escala 6×1. “Senhor presidente [Alcolumbre], eu queria entrar aqui na pauta da questão do fim da escala 6×1 inclusive pedir que vossa excelência possa tramitar o mais rápido possível”, disse, em discurso na tribuna do Senado.

“Essa pauta da questão da escala não é ideológica. Vai lá na rua, vai no shopping, vai no supermercado e pergunta ao trabalhador se ele é de esquerda e de direita. Ele está se lixando pra isso. Ele quer ter é um pouco de dignidade. E eu tenho propriedade para falar disso porque a vida inteira eu trabalhei nessa maldita escala”, reforçou.


Moraes vota para manter multa de R$ 452 mil imposta a Roberto Jefferson

Publicado em 6 de junho de 2026 por Tribuna da Internet

O valor de R$ 452 mil pode ser parcelado em 24 vezes

Fernanda Fonseca
CNN

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), votou para rejeitar o recurso apresentado por Roberto Jefferson contra a decisão que condicionou sua progressão de regime ao pagamento de uma multa de R$ 452 mil.

O caso começou a ser analisado pelo plenário virtual da Corte nesta sexta-feira (5) e o julgamento está previsto para terminar em 15 de junho. Relator do caso, Moraes votou para manter a exigência de pagamento, parcelado em 24 prestações mensais, como condição para que o ex-deputado federal obtenha a progressão do regime de cumprimento da pena.

VALOR EXCESSIVO – No recurso, a defesa de Jefferson alegou que o valor da multa é excessivo e tem caráter confiscatório, além do parcelamento determinado pelo STF comprometer a subsistência de Jefferson e sua família. Os advogados também pediram o reconhecimento de um suposto erro material na fixação da multa ou, alternativamente, que as parcelas fossem limitadas a 20% do valor da aposentadoria recebida pelo ex-deputado.

Ao analisar o caso, Moraes afirmou que o recurso não apresentou argumentos capazes de afastar os fundamentos da decisão anterior. Segundo o ministro, a jurisprudência do STF admite exceção ao pagamento da multa apenas quando há comprovação de impossibilidade econômica absoluta, situação que, na avaliação do relator, não foi demonstrada pela defesa.

O ministro afirmou ainda que o STF já tem entendimento consolidado de que condenados que deixam de pagar multas impostas pela Justiça podem perder o direito à progressão de regime. Na decisão questionada, Moraes havia rejeitado o pedido de dispensa da multa e autorizado seu parcelamento em 24 parcelas mensais de R$ 18.847,30, totalizando R$ 452.335,03.

SEM COMPROVAÇÃO – A PGR (Procuradoria-Geral da República) também se manifestou contra o recurso. Para o órgão, os elementos apresentados pela defesa são insuficientes para comprovar um quadro de incapacidade financeira que justifique a revisão das condições impostas para a progressão de regime.

Jefferson foi condenado pelo plenário do STF, em dezembro de 2024, a uma pena total superior a nove anos de reclusão e detenção, além do pagamento de multa, por diversos crimes previstos na antiga Lei de Segurança Nacional, no Código Penal e na Lei do Racismo. Atualmente, ele cumpre pena em prisão domiciliar humanitária por razões de saúde.


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