quinta-feira, setembro 11, 2025

Dino provoca Fux sobre condenar Cid e absolver outros réus da trama golpista

 Foto: Antonio Augusto/Arquivo/Ascom/STF

Flávio Dino11 de setembro de 2025 | 07:54

Dino provoca Fux sobre condenar Cid e absolver outros réus da trama golpista

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O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino provocou seu colega Luiz Fux durante o julgamento da trama golpista por defender a condenação do tenente-coronel Mauro Cid por tentativa de abolição do Estado democrático de direito e a absolvição de outros réus, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), na mesma acusação.

Fux já lia seu voto havia várias horas na noite desta quarta-feira (10) quando, antes de uma pausa na sessão, foi questionado por Dino. A interpelação iniciou o seguinte diálogo:

Dino: Mauro Cid vossa excelência já votou?

Fux: Já votei.

Dino: Já?

Fux: Não, já votei.

Dino: Absolvendo ou condenando? Porque…

Fux: Condenando.

Dino: Um crime? Dois? Três?

Fux: Um crime [Fux sorri].

Dino: Obrigado. Então é condenando Mauro Cid e absolvendo os outros? Só para eu entender.

Fux: Não, ainda não acabou.

Dino: Ah tá, obrigado.

Em seguida a sessão foi pausada. Na volta, Fux votou pela condenação de Walter Braga Netto, militar e ex-ministro do governo Bolsonaro, por abolição do Estado democrático de Direito. Com a decisão de Fux, a Primeira Turma tem maioria para condenar Braga Netto e Cid pelo mesmo crime.

Antes, o ministro havia votado por inocentar Jair Bolsonaro de todas as acusações feitas pela PGR (Procuradoria Geral da República). Além disso, também militar e ex-ministro Augusto Heleno teve absolvição recomendada por Fux.

A procuradoria acusou os réus que estão sendo julgados nesta semana de cinco crimes: organização criminosa armada, abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado.

Caio Spechoto/FolhapressPolitico livre

Fux valoriza lacunas e desconsidera evidências de que Bolsonaro tramou golpe: ‘Mera cogitação’

 Foto: Fábio Pozzebom/Arquivo/Agência Brasil

Luiz Fux11 de setembro de 2025 | 08:06

Fux valoriza lacunas e desconsidera evidências de que Bolsonaro tramou golpe: ‘Mera cogitação’

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O ministro Luiz Fux, que iniciou seu voto nesta quarta-feira (10) dizendo ser preciso ter “firmeza para condenar quando se tem certeza e humildade para absolver quando houver dúvida”, explorou lacunas da acusação e desconsiderou evidências, concluindo não haver provas de ligação de Jair Bolsonaro a nenhum dos episódios da trama golpista ocorrida no final de seu governo, em 2022.

Usando diversas vezes a expressão de que, a seu ver, tudo não extrapolou o “campo da mera cogitação”, Fux se colocou como claro contraponto ao trabalho da Polícia Federal, da PGR (Procuradoria-Geral da República) e do relator do caso, ministro Alexandre de Moraes.

Enquanto o trio sobrevalorizou indícios de crime mesmo onde a investigação não apresentou prova direta, Fux minimizou todos eles, inclusive os mais robustos.

Ao analisar os questionamentos preliminares, ele já havia rebatido ponto a ponto a conduta de Moraes, inclusive votando três vezes a favor da anulação de todo o processo sob o argumento, entre outros, de que houve relevante cerceamento ao direito de defesa.

Fux começou a tratar especificamente do caso de Bolsonaro, o ponto alto de seu voto, no início da noite, nove horas após iniciar a leitura com o seu posicionamento.

O ministro explorou lacunas da investigação, como a falta de ligação direta de Bolsonaro com, por exemplo, o plano de assassinar autoridades e os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Embora esses atos tenham sido planejados e praticados por bolsonaristas e sob o discurso amplamente estimulado pelo ex-presidente, os dois votos pela condenação —de Moraes e Flávio Dino— usam o conjunto de indícios indiretos para estabelecer a culpa.

Já Fux disse que condenar Bolsonaro pelo 8 de Janeiro seria o mesmo que condenar críticos do ex-presidente pela facada que ele sofreu na campanha de 2018.

Sobre o plano de assassinato, o “Punhal Verde Amarelo”, Fux prioriza a ausência de prova de que Bolsonaro conhecia e tenha dado anuência ao plano. Mas ignora o fato de que o general da reserva Mario Fernandes, então número 2 da Secretaria-Geral da Presidência, que o produziu, imprimiu cópias 40 minutos antes de se dirigir ao Palácio da Alvorada, onde estava o ex-presidente.

Em 9 de dezembro, um dia depois de ter estado no Alvorada, o general mandou uma mensagem para Mauro Cid relatando que Bolsonaro havia aceitado “o nosso assessoramento”.

Neste mesmo dia 9, Bolsonaro rompeu o silêncio em que estava desde o resultado das eleições e, a apoiadores no Alvorada, fez um discurso dúbio, dizendo que é o povo “quem decide para onde vai as Forças Armadas”.

Sobre a evidência mais robusta contra Bolsonaro, as discussões sobre as minutas golpistas, Fux disse considerar que tudo não saiu do campo das conjecturas e, nesse ponto, destacou frases do delator Mauro Cid nessa direção e minimizou outras no sentido contrário.

“A PGR disse que o documento de finalização do golpe era preparado pelo grupo e acompanhado de perto por Jair Messias Bolsonaro, mas a acusação não logrou indicar exatamente qual documento teria sido apresentado ou discutido na reunião, sendo certo que o seu conteúdo não veio aos autos”, disse.

O ministro disse que uma medida antidemocrática pode até ter sido cogitada pelo ex-presidente, mas não configura ato executório para um golpe de Estado.

“Essas contradições e falhas [da acusação] que, ao meu modo de ver, estão intrinsecamente na acusação, vão ser tornando cada vez mais […] insustentáveis à medida que a narrativa avança. E até aqui, como se nota, não há provas que sustentam um édito condenatório. O édito condenatório deve trazer paz de espírito ao juiz ao condenar”, completou.

Travestida com ares de legalidade, a minuta teve uma de suas versões apreendida na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro Anderson Torres.

Em suma, estabelecia medidas para anular o resultado da eleição de Lula e manter Bolsonaro no poder.

Em busca de apoio à empreitada, o então presidente apresentou versão desse documento aos chefes das Forças Armadas em 7 de dezembro de 2022, de acordo com vários testemunhos, e, possivelmente, ao general Estevam Theophilo, comandante de Operações Terrestres do Exército, dois dias depois, em 9 de dezembro.

O documento golpista foi objeto ainda de nova reunião com os comandantes de Marinha, Exército e Aeronáutica, dessa vez conduzida pelo ministro da Defesa, o general da reserva Paulo Sérgio, em 14 de dezembro.

O general Freire Gomes (Exército) e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior (Aeronáutica) não teriam anuído com o golpe, diferentemente do almirante Almir Garnier Santos (Marinha), que hoje integra o grupo de réus sendo julgados.

As provas apresentadas não se resumem às versões do documentos apreendidas, mas se ancoram também nos depoimentos de Freire Gomes, Baptista Junior e Mauro Cid, além de troca de mensagens apreendidas que tratam dessa discussão e que indicam também que os comandantes do Exército e da Aeronáutica passaram a ser alvos de ataques nas redes por não concordarem com o plano golpista.

Diante das evidências, o próprio Bolsonaro reconheceu ter estudado medidas “dentro das quatro linhas da Constituição” –só não explicou por que as cogitava sem que houvesse situação de relevante anormalidade que as justificasse.

Ranier Bragon/FolhapressPolitica livre

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Entenda como serão calculadas eventuais penas de Bolsonaro e de outros réus da trama golpista

 Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Primeira turma do STF11 de setembro de 2025 | 09:14

Entenda como serão calculadas eventuais penas de Bolsonaro e de outros réus da trama golpista

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O cálculo da pena após uma eventual condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e dos demais réus da trama golpista passará por uma análise complexa dos cinco ministros da Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal), envolvendo tanto critérios objetivos como subjetivos, afirmam especialistas.

Eventuais divergências entre os integrantes da turma sobre cada uma das acusações analisadas no julgamento também serão levadas em conta no cálculo final das penas.

Após a apresentação de seus votos, os ministros da Primeira Turma se reunirão para calcular a pena de cada um dos réus.

Além das penas mínimas e máximas para cada conduta, há circunstâncias, em caso de condenação, que podem aumentar ou atenuar as penas imputadas a Bolsonaro e aos demais réus do caso, que trata da tentativa de golpe de Estado após a derrota para Lula (PT) em 2022.

Por exemplo, no caso da acusação de liderar uma organização criminosa armada, a PGR (Procuradoria-Geral da República) afirma que esse grupo é composto por funcionários públicos que se valeram dessa condição.

A pena por participação em organização criminosa é de 3 a 8 anos, mas há um aumento de até metade dela se o crime envolver armas. Para Bolsonaro, caso seja condenado, ainda há um agravante por ele ser considerado líder.

Além disso, segundo a legislação, a pena pode ser aumentada de um sexto a dois terços caso envolva funcionário público que se valha dessas condições.

Para decidir sobre a pena base desse crime, o juiz deve levar em conta “a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social, a personalidade do agente, os motivos, as circunstâncias e consequências do crime, bem como o comportamento da vítima”.

Os dois primeiros ministros a votar no caso, Alexandre de Moraes e Flávio Dino, por exemplo, deram sinais de que veem agravantes e alta culpabilidade na conduta de Bolsonaro nas ações que tomou para, de acordo com a acusação, se manter no poder após a derrota eleitoral.

No caso de um réu que é delator, como o tenente-coronel Mauro Cid, em caso de condenação a pena é definida a partir de termos acordados com os órgãos de investigação.

Inicialmente, o militar previa em acordo que ele e sua família teriam perdão judicial ou pena privativa de liberdade inferior a dois anos. A PGR, porém, viu omissões e sugeriu uma redução de apenas um terço da pena.

Além de Bolsonaro e Mauro Cid, são réus no processo Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil).

Pelas acusações da PGR, Bolsonaro, caso seja condenado, pode pegar até 43 anos pelos crimes listados. Em alguns cálculos de especialistas, porém, essa pena pode chegar a 46 anos.

José Marques/Folhapress

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