domingo, junho 29, 2025

Proposta de perdão a bolsonaristas remete a anistias que antecederam golpe de 1964

 Foto: Divulgação/Arquivo

Ato contra anistia pelos ataques do 8 de janeiro29 de junho de 2025 | 10:15

Proposta de perdão a bolsonaristas remete a anistias que antecederam golpe de 1964

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A proposta do PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, de conceder anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023 remete a pelo menos dois episódios dos 136 anos de República no Brasil, de acordo com estudiosos da história do direito.

Ainda em articulação, versões do projeto apresentadas até aqui abrem brecha para beneficiar o próprio Bolsonaro e outros réus acusados de liderar a trama golpista. O ex-presidente e aliados farão uma manifestação na avenida Paulista neste domingo (29) na qual a anistia será um dos motes.

Segundo os especialistas, a proposta do PL se parece em diversos aspectos com a anistia aprovada pelo Congresso em maio de 1956, que, entre outras determinações, impediu a punição dos oficiais da Aeronáutica envolvidos na Revolta de Jacareacanga.

Ocorrida na cidade paraense que deu nome à rebelião, o motim tentou, em vão, derrubar o recém-empossado presidente Juscelino Kubitschek.

O projeto atual também se aproxima do decreto de dezembro de 1961, que anistiou, entre outros grupos, os três chefes das Forças Armadas. Eles tinham tentado impedir, meses antes, a posse de João Goulart como presidente depois da renúncia de Jânio Quadros. Mais tarde, em 1964, os militares tentariam um novo golpe, desta vez, bem-sucedido.

Para Raphael Peixoto, professor da pós-graduação em direito da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa) e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), os contextos de 1956 e 1961 “se assemelham muito ao que vemos hoje porque são crises constitucionais vinculadas à disputa pela Presidência”. A mais famosa das anistias do país, a de 1979, está inserida, por exemplo, em um outro contexto, uma transição de regime.

Segundo ele, que é estudioso das anistias políticas ao longo do período republicano, os dois episódios e a proposta da atualidade fazem parte de um mesmo modus operandi, a “estratégia de conciliação intra-elites para lidar com essas crises que violam a Constituição do país”.

“Aqueles que participaram desses movimentos falavam em conciliação, em esquecer o que tinha passado e olhar para frente. Do ponto de vista histórico, no entanto, essas anistias têm um sentido de impunidade de militares e civis que atentaram contra a Constituição”, diz Peixoto.

O professor ressalta ainda que “aquelas são as nossas primeiras experiências de democracia de massas, com partidos nacionais e uma polarização muito grande”. As realidades políticas das anistias anteriores, ocorridas na Primeira República e na Era Vargas, são bastante distintas do contexto atual.

A denúncia contra Bolsonaro, que divide o banco dos réus com militares de alta patente, abrange a discussão de minutas para reverter o resultado da eleição a partir de medidas como estado de defesa e de sítio. Os participantes do 8 de Janeiro pretendiam gerar uma situação de caos para motivar uma intervenção militar.

Em 1961, o poder estava nas mãos de Jânio, que tinha na sua chapa os conservadores da UDN. Quando ele renunciou, em agosto daquele ano, o caminho indicado pela Constituição era a posse do vice, João Goulart, do PTB, legenda ligada ao trabalhismo –à época, a votação para presidente e vice era separada, assim, como havia ocorrido com Jânio e Jango, os eleitos não estavam necessariamente na mesma chapa.

Os ministros militares do governo de Jânio e outros expoentes das Forças Armadas, entretanto, rejeitaram abertamente a posse de João Goulart, acusando-o de ser comunista.

Do lado oposto, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, liderou o movimento que exigia Jango na presidência, obtendo o apoio do comandante do 3º Exército, o general Machado Lopes, fato que provocou um racha na cúpula militar.

Com uma articulação encabeçada por Tancredo Neves, o parlamentarismo surgiu como uma saída possível. Assim, Goulart se tornaria presidente, mas teria menos poder do que se o presidencialismo estivesse mantido.

Conforme apontou Peixoto em sua pesquisa, ao mesmo tempo em que se costurava tal solução, também se iniciava a discussão sobre uma anistia aos que tentaram impedir a posse de Jango. Na época, o debate foi marcado por políticos que viam a medida como impunidade e defendiam a necessidade de punição.

Aprovado o texto, os chefes das Forças Armadas saíram ilesos após agirem de modo inconstitucional.

Entre os beneficiários da anistia de 1961, que foi ampliada durante sua tramitação, estavam ainda os envolvidos na Revolta de Aragarças, ocorrida dois anos antes e que tentou derrubar o governo JK.

Alguns dos militares envolvidos no episódio já tinham participado da Revolta de Jacareacanga –anistiada em 1956, quando se perdoou não apenas o grupo de revoltosos como também o então ministro da Guerra, Henrique Lott, líder de uma ação que ficou conhecida como Novembrada, no fim de 1955.

Acompanhado de dezenas de generais, Lott determinou que os tanques saíssem às ruas para derrubar o presidente interino Carlos Luz, que planejava impugnar a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. O objetivo do contragolpe era garantir a legalidade democrática. Para cumprir esse fim, no entanto, Lott se valeu de meios inconstitucionais.

“Esses casos de 1956 e 1961 não são apenas quarteladas. Refletem o descontentamento de um determinado grupo político que se vê, de alguma maneira, alijado do poder”, afirma Diego Nunes, professor de história do direito penal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e organizador do livro “Crimes Contra o Estado Democrático de Direito”.

Para Nunes, a proposta atual se aproxima em pelo menos um aspecto da anistia de 1979.

“O que me parece ser um ponto em comum nessa estratégia de 1979 em relação à anistia proposta agora é a ideia de autoanistia, ou seja, uma anistia para aqueles que estavam no poder no final da década de 1970 e para aqueles que agora, em 2025, mantêm uma grande força no Congresso e são ligados a esses grupos [golpistas]”, afirma.

Segundo Nunes, o problema central do projeto bolsonarista é a tentativa de “reabilitação preventiva” dos líderes políticos que se tornaram réus.

O perdão a Bolsonaro e a anistia ao 8 de Janeiro já são tratados abertamente como pauta eleitoral de 2026. Recentemente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o compromisso de conceder um indulto a seu pai era condição para receber apoio do ex-presidente.

A professora de direito penal da FGV Raquel Scalcon afirma que, em geral, a anistia implica extinguir a punibilidade a um fato, como seria o caso do 8 de Janeiro, enquanto o indulto beneficia um grupo de pessoas e a graça, indivíduos em específico. Outra diferença, segundo a interpretação corrente, é que a anistia abrangeria também efeitos secundários, como a inelegibilidade pela Lei da Ficha Limpa.

Enquanto a anistia é competência do Congresso, indulto e graça podem ser concedidos pelo presidente da República. No campo da direita, os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), já se comprometeram publicamente a perdoar Bolsonaro caso sejam eleitos para o Planalto.

Entenda os episódios que se aproximam da proposta atual de anistia:

Anistia de 1956

Era fevereiro de 1956, apenas dez dias depois da posse de Juscelino Kubitschek, em 31 de janeiro daquele ano, quando oficiais da Aeronáutica começaram o movimento que ficou conhecido como Revolta de Jacareacanga. O objetivo era derrubar o novo governo. Com apoio do próprio JK, a anistia foi aprovada pelo Congresso e publicada meses depois.

Além do episódio de Jacareacanga, também foram anistiados os que tiveram participação no contragolpe em novembro de 1955, que derrubou o então presidente interino, Carlos Luz, diante da perspectiva de que ele planejava impugnar a posse de JK. Apesar de ter como objetivo garantir a legalidade democrática, tal ação se valeu de meios inconstitucionais.

Anistia de 1961

Em 1961, depois de o então presidente Jânio Quadros renunciar ao cargo, o caminho indicado pela Constituição era a posse do seu vice, João Goulart. No entanto, os ministros militares do governo de Jânio rejeitaram abertamente a posse de Jango, acusando-o de ser comunista. Houve resistência, e o movimento acabou não sendo totalmente bem-sucedido.

Como solução intermediária, aprovou-se o parlamentarismo, que reduziu os poderes de Jango como presidente. Ao mesmo tempo em que se debatia tal solução, iniciava-se a discussão sobre uma anistia e, com isso, os chefes das Forças Armadas saíram ilesos após agirem de modo inconstitucional.

Entre os beneficiários da anistia de 1961, que foi ampliada durante sua tramitação, estavam ainda os envolvidos na Revolta de Aragarças, ocorrida dois anos antes e que tentou derrubar o governo JK. Alguns dos militares envolvidos no episódio já tinham participado de Jacareacanga em 1956.

Naief Haddad e Renata Galf, Folhapress
Politica Livre

Bolsonaro tenta falar inglês em ato na Paulista e imita slogan de Trump

 Foto: Reprodução/Redes Sociais

Depois de viralizar com discurso anterior de 'popcorn' e 'ice cream', ex-presidente diz que não fala inglês, mas faz menção a bordão de americano29 de junho de 2025 | 16:08

Bolsonaro tenta falar inglês em ato na Paulista e imita slogan de Trump

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tentou novamente falar inglês em um discurso de apelo internacional durante ato deste domingo (29) na avenida Paulista, em São Paulo.

“Make Brazil great again”, disse Bolsonaro ao fazer referência ao bordão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A declaração foi dada após provocação do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), que afirmou que seguiria o exemplo do ex-presidente para falar com pessoas que assistiam fora do país à manifestação contra o avanço do julgamento da trama golpista no STF (Supremo Tribunal Federal).

“Seguindo seu exemplo do ‘popcorn’ e icecream’”, disse Gayer em referência á fala do ato de 6 de abril no mesmo local, quando foi interrompido por Bolsonaro, que emendou um “I don’t speak english” (“eu não falo inglês”).

No ato anterior, em abril, Bolsonaro havia dito: “Popcorn and ice cream sellers sentenced for coup in Brasil’. Ou seja, “sorveteiro e pipoqueiro condenados por golpe de Estado no Brasil”, e o discurso viralizou.

Gayer, que também colocou para tocar nos alto-falantes áudios de ministros do Supremo, afirmou que o sistema judiciário brasileiro “é o maior risco para nossa democracia”.

Ato bolsonaristas

Marina Pinhoni e Juliana Arreguy, FolhapressPolitica livre

Governo Lula não pagou emendas de 347 parlamentares até votação de projeto do IOF

 Foto: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)29 de junho de 2025 | 08:54

Governo Lula não pagou emendas de 347 parlamentares até votação de projeto do IOF

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O governo federal não pagou até a terça-feira passada, dia 24, nenhuma parte de emendas parlamentares deste ano de 347 congressistas, sendo 303 deles deputados federais e 44 senadores Ao todo, 76 parlamentares não viram nem sequer os recursos serem reservados para suas emendas até a terça-feira, véspera da votação do Congresso que derrubou o decreto de aumento de alíquotas do IOF.

Levantamento exclusivo do Estadão/Broadcast mostra que 165 congressistas do núcleo duro dos partidos de centro e direita (MDB, PP, PSD, Republicanos e União Brasil), que ajudam a compor a base de apoio ao governo no Congresso, não tiveram nenhuma parte de suas emendas pagas até o momento.

É justamente entre esses partidos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem enfrentado mais dificuldade para ter uma base sólida. O conglomerado de partidos, que nos últimos anos se convencionou chamar de Centrão, tem comandado a Câmara dos Deputados desde que Eduardo Cunha foi eleito, em 2015, tendo dado apoio às eleições de Rodrigo Maia, Arthur Lira e, por último, Hugo Motta.

Os números analisados pelo Estadão/Broadcast são do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop), que oferece dados detalhados da execução das emendas parlamentares. A base de dados do Siop utilizada foi atualizada até terça-feira, 24, e divulgada na quarta-feira, 25.

A análise pormenorizada das informações sobre a execução das emendas permite identificar não só o montante geral que o governo vem liberando aos congressistas, mas como essa distribuição vem sendo feita.

Procurada, a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) afirmou que “o ritmo da execução é determinado exclusivamente pelos prazos estabelecidos por lei e pela análise técnica das indicações por parte dos ministérios”. Segundo a SRI, a liberação de recursos neste ano tem sido mais veloz que em anos anteriores, se considerado o período após a sanção do Orçamento

“Diferentemente de anos anteriores, em que o Orçamento da União foi aprovado pelo Congresso Nacional no mês de dezembro e sancionado em janeiro, a LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2025 foi votada e aprovada em 20 de março, tendo sido sancionada em 10 de abril. Além da diferença de quatro meses no calendário, a partir de 2025 a execução de emendas parlamentares passou a ser realizada sob os novos ritos, exigências e prazos da Lei Complementar 210/2024, votada e aprovada para incorporar determinações do Supremo Tribunal Federal”, afirmou o ministério comandado por Gleisi Hoffmann, em nota.

O governo acelerou a reserva das emendas na terça-feira. Até segunda-feira, havia empenhado (termo do jargão técnico que se refere à etapa do processo orçamentário, quando o dinheiro é reservado para o pagamento) cerca de R$ 896 milhões. Na terça, esse montante subiu para R$ 1,7 bilhão – uma alta de R$ 832 milhões. Os pagamentos, no entanto, se mantiveram quase no mesmo patamar. Eram R$ 408 milhões na segunda e subiram para R$ 409 milhões na terça.

Os dados analisados pelo Estadão/Broadcast, no entanto, mostram que as emendas de muitos deputados e senadores ainda não foram pagas. Alguns dos congressistas autores de emendas que não foram liberadas são do núcleo duro da base de apoio ao Palácio do Planalto, como o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ). Ao todo, 48 deputados e senadores do PT ainda não tiveram recursos de suas emendas pagos.

A lista, no entanto, conta com deputados e senadores de diversos partidos de centro que costumam ajudar o Palácio do Planalto em votações importantes. Além dos maiores partidos do Centrão, também há congressistas de siglas como Podemos, PSDB, Cidadania, Avante e Solidariedade entre os que não receberam emendas.

A seguir, o número de parlamentares de cada partido que não tiveram suas emendas liberadas pelo Poder Executivo até o momento:

Os dados do Siop mostram que 144 deputados votaram contra o governo mesmo tendo emendas deste ano empenhadas e pagas.

Alguns parlamentares, como o ex-líder do PL na Câmara Wellington Roberto (PB) e o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), tiveram mais de R$ 10 milhões em emendas empenhadas e mesmo assim votaram para derrubar o ato do governo. Cajado, por exemplo, teve R$ 11,7 milhões em emendas reservadas e R$ 3,2 milhões em emendas pagas. Roberto teve R$ 10,8 milhões em emendas empenhadas e R$ 750 em recursos pagos.

Há uma série de deputados que votou na noite de quarta-feira, 25, para impor a derrota ao governo Lula e que não tem emendas registradas na base de dados do Siop (alguns, por exemplo, por serem suplentes ou terem assumido mandatos neste ano).

Entre os 55 deputados que votaram a favor de manter o decreto de aumento do IOF mesmo sem suas emendas deste ano terem sido pagas, 39 são do PT, 9 do PSOL, 3 do PCdoB, 2 do PSB, 1 do PSD e 1 do MDB.

Essa divisão mostra como, dentre os deputados que estiveram ao lado do governo na derrota sofrida na noite de quarta-feira, poucos foram os que não tiveram emendas liberadas, a não ser aqueles do núcleo duro de partidos de esquerda. No conjunto de partidos de centro e direita que se convencionou chamar de Centrão, apenas Hugo Leal (PSD-RJ) e Elcione Barbalho (MDB-PA) votaram com o governo, mesmo sem que suas emendas tenham sido liberadas até o momento.

Líderes partidários ouvidos pelo Estadão/Broadcast disseram que o não pagamento das emendas parlamentares é um assunto recorrente em suas bancadas.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que a falta do pagamento para boa parte da Casa é uma “prova de como o governo não está preocupado com o Brasil”. O PL é o principal partido da oposição, mas alguns de seus deputados costumam ajudar o governo em votações mais importantes, como foi o caso da reforma tributária, por exemplo. “As emendas ajudam os municípios e instituições de todo o País”, afirmou.

Sóstenes disse ainda que recebe todos os dias reclamações sobre emendas não liberadas pelo governo. O tema das queixas na liderança do PL também gira em torno das emendas impositivas não pagas dos anos de 2023 e 2024.

O líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG), afirmou que a falta de pagamento de emendas de deputados da sua bancada foi um dos fatores que influenciaram no distanciamento da sigla do governo, ampliado com a saída de Carlos Lupi do Ministério da Previdência Social, depois da operação que investiga descontos indevidos no INSS.

Para Heringer, a falta de pagamento aos 347 congressistas é um fator determinante no relacionamento conflituoso entre Executivo e Legislativo. Assim como Sóstenes, o líder do PDT relatou receber cobranças de parlamentares diariamente.

“Sem dúvida (é um fator que dificulta a relação do governo com o Congresso). Recebo reclamações da bancada todos os dias”, disse Heringer, que reforçou que a falta de emendas é um dos motivos do distanciamento do PDT e o Palácio do Planalto.

O líder do Republicanos na Câmara, Gilberto Abramo (MG), por sua vez, disse à reportagem que “o Congresso manifestou recusa ao aumento do IOF já no decreto” e que a derrubada do ato “era apenas uma questão de tempo”. Na quarta-feira, 25, Câmara e Senado aprovaram projeto de decreto legislativo que sustou o aumento de alíquotas do IOF baixado pelo governo Lula. Na Câmara, 383 deputados votaram para derrubar o ato do governo, contra 98 apoios para manter. No Senado, a votação em desfavor do decreto de Lula foi simbólica.

Gabriel Hirabahasi e Gabriel de Sousa, Estradão ConteúdoPolitica Livre

Malafaia critica em protesto delação de Cid, cobra direita e ataca Moraes

 Foto: Reuters/Folhapress

Silas Malafaia durante protesto em apoio a Bolsonaro na Paulista29 de junho de 2025 | 16:42

Malafaia critica em protesto delação de Cid, cobra direita e ataca Moraes

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Organizador do ato em defesa de Jair Bolsonaro (PL) neste domingo (29), na avenida Paulista, o pastor Silas Malafaia atacou o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo sobre a trama golpista no STF (Supremo Tribunal Federal). Malafaia chamou Moraes de ditador e chegou a dizer que o ministro tem sangue nas mãos. O pastor também dedicou parte de seu discurso a desmantelar a delação de Mauro Cid, que foi ajudante de ordens do ex-presidente.

Ao longo das últimas semanas, Malafaia já vinha criticando Moraes e o STF por não terem anulado o acordo de colaboração de Cid. O pastor tem utilizado como base uma reportagem da revista Veja, que diz que Cid teria criado uma conta falsa no Instagram para dar detalhes de sua delação a outros envolvidos no processo.

Moraes é frequentemente chamado por Malafaia de “ditador da toga”. Após a prisão e soltura de Gilson Machado, ex-ministro do Turismo de Bolsonaro, em 13 de junho deste ano, o pastor gravou um vídeo acusando Moraes de ter mandado prender Machado para criar uma “cortina de fumaça” em torno da reportagem sobre as conversas de Cid no Instagram, publicada um dia antes.

“Por que Alexandre de Moraes dá uma ordem para prender o coronel Mauro Cid e imediatamente cancela? Sabe por quê? Ele pensou rápido: ‘se eu prender o coronel Cid, a delação dele cai. E, se a delação dele cai, toda a sustentação da denúncia do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que está jogando a reputação dele na lata do lixo, cai, sustentada na delação fajuta do coronel Cid”, disse Malafaia, discursando no alto do palanque.

“Ele prende o Gilson Machado [ex-ministro do Turismo do governo Bolsonaro] para desviar a atenção da reportagem da Veja. Gilson é empresário. Está proibido de sair do Recife pela vaidade, pelo absurdo e pela injustiça de Alexandre de Moraes. Até quando o Supremo Tribunal Federal vai bancar o ditador Alexandre de Moraes?”, perguntou o pastor.

No ataque ao STF, Malafaia relembrou o caso de Clériston Pereira da Cunha, mais conhecido como Clezão, empresário baiano que invadiu a sede dos Três Poderes no 8 de janeiro. Acusado de associação criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, Clezão morreu, em novembro de 2023, durante um banho de sol, na Penitenciária da Papuda, em Brasília.

“Tem sangue nas mãos de Alexandre de Moraes, ditador, tu vai dar conta a Deus. Clezão era membro da minha igreja”, disse Malafaia. “O sangue desse justo clama diante de Deus.” Nesse momento, os manifestantes começaram a entoar gritos de “assassino, assassino”.

Ele aproveitou ainda para criticar a decisão do Supremo de responsabilizar diretamente as big techs por postagens ilegais de seus usuários. “O STF acaba de dar um jeito de instituir a censura nas redes sociais. O Supremo Tribunal Federal decide que as big techs serão obrigadas a removerem seus conteúdos sem ordem do Judiciário. Em nenhuma nação democrática do mundo plataforma decide o que é legal ou ilegal. E tem tanta subjetividade, vou dar uma. O que é atentar contra as eleições? Quem são as plataformas para definir o que é atentar contra as eleições?”.

Por fim, Malafaia cobrou os representantes de seu campo político no Congresso. Segundo ele, apenas parte da direita é séria. “Sabe por que um cara desse [Moraes] não toma um impeachment? Porque nós temos uma direita prostituta, vagabunda, que se vende. Nós temos uma direita séria, mas grande parte da dela é um bando de vagabundo, vendilhão.”

O pastor organizou as últimas manifestações em defesa de Bolsonaro e dos bolsonaristas na avenida Paulista. Em todas elas, criticou Moraes e o STF, embora em intensidades distintas. No último ato, realizado em abril deste ano, ele chamou Moraes de cínico e manipulador e criticou também o alto comando do Exército por não ter saído em defesa de Bolsonaro no julgamento sobre a trama golpista.

“Cadê esses generais de quatro estrelas, do alto comando do Exército? Cambada de frouxos, cambada de covardes, cambada de omissos. Vocês não honram a farda que vestem. Não é para dar golpe, não, é para marcar posição”, disse ele à ocasião.

Em fevereiro do ano passado, o pastor fez um discurso um pouco mais brando, apesar das críticas a Moraes e ao STF, e afirmou que Bolsonaro é “o maior perseguido político da nossa historia”.

Juliana Arreguy e Gustavo Zeitel, Folhapress

Liberdade de expressão está sendo metralhada no STF e Fachin reage

Publicado em 29 de junho de 2025 por Tribuna da Internet

Mudanças no STF: Fachin inicia transição para assumir presidência da Corte  no lugar de Barroso

Edson Fachin considera intocável a liberdade de expressão

Mario Sabino
Metrópoles

A discussão no plenário do STF sobre a abolição do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que resultará na instauração formal da censura prévia e da censura política no Brasil, é pedestre, para dizer o mínimo.

Esta semana, tivemos mais uma etapa dessa caminhada prosaica com final previsível. O ministro Dias Toffoli, por exemplo, comparou liberdade de expressão a metralhadoras para defender que as plataformas digitais sejam responsabilizadas sobre o conteúdo que veiculam.

REFLEXÃO GROTESCA – “Agora, eu tiro da minha plataforma a metralhadora de venda porque ela está proibida e eu não tenho que pagar indenização ao pai dessa vítima”, disse o ministro, apontando o que seria o absurdo da atual legislação, e espero sinceramente que essa metáfora não lhe tenha tomado muito tempo de reflexão.

A ministra Cármen Lúcia, por sua vez, inventou a expressão “discurso de ódia” para relativizar o direito de xingar e enfatizar que as mulheres seriam um dos alvos preferenciais dos selvagens nas redes sociais.

“Direito de criticar eu acho que tem, direito de vaiar tem, direito de aplaudir também nós temos. Agora, direito de xingar… aí é diferente”, afirmou a ministra, antes de se concentrar no caso de postagens misóginas.

DITO ESPIRITUOSO – “Não é discurso de ódio, é discurso de ódia”, continuou ela, aparentemente muito satisfeita com o seu dito espirituoso.

“Sou insuspeita para falar do que falam de mim. Xingam. Muitas vezes, acho que têm, sim, o direito de xingar. O que não têm é o direito de cercear, de levar à morte pessoas, instituições e a própria democracia”.

Exagerar ameaças, fazer comparações mortíferas, pintar quadros apocalípticos, tudo isso faz parte das estratégias discursivas que justificam a instauração da censura como panaceia, mas há maneiras mais refinadas de fazê-lo, até literariamente.

CENSURA COLATERAL -Edson Fachin foi a voz da razão na mais recente sessão. Ele se juntou a André Mendonça para mostrar o óbvio: obrigar as plataformas a remover conteúdos sem a necessidade de ordem judicial — o contrário, portanto, que consta do artigo 19 do Marco Civil da Internet — significará implantar a censura no Brasil, terceirizando-a.

Haverá o risco de “censura colateral”, afirmou o ministro, de maneira cristalina, sem recorrer a metáforas estapafúrdias e truques baratos de linguagem.

“A adoção de controle de discurso dos usuários não faz parte do estado de direito democrático”, explicou Edson Fachin, que acrescentou: “A necessidade de ordem judicial para se remover conteúdo por terceiro parece ser a única forma constitucionalmente adequada de compatibilizar a liberdade de expressão com regime de responsabilidade ulterior.”

 

HÁBITO DE LEITURA – É uma pena que o hábito de leitura seja tão pouco difundido no Brasil, inclusive entre os que se consideram iluministas.

Houvesse uma discussão séria sobre liberdade de expressão por aqui, seria inevitável debruçar-se sobre o livro Free Speech: a History from Socrates to Social Media, do advogado dinamarquês Jacob Mchangama, o mais notório defensor da liberdade de expressão no cenário internacional.

No livro, ele destrói um dos argumentos que, com ares de erudição, vem sendo utilizado no STF para instaurar a censura no Brasil a fim de salvaguardar a nossa democracia: o da ‘falácia de Weimar”.

DIZ MCHANGAMA -Leia-se o que escreveu Jacob Mchangama: “Um dos argumentos mais comuns e intuitivamente atraentes para limitar a tolerância à intolerância — parafraseando o filósofo austríaco Karl Popper — nas democracias modernas é a ‘falácia de Weimar’.

Ele argumenta que, se a República de Weimar tivesse feito mais para proibir a propaganda totalitária, a Alemanha nazista — e, portanto, o Holocausto — poderia ter sido evitada. Assim, as democracias modernas não podem se dar ao luxo de cometer o mesmo erro.

Mas essa é uma conclusão questionável por uma série de razões. Inclusive porque houve constantes tentativas de silenciar tanto Hitler quanto o Partido Nazista. Mas essas tentativas ajudaram a aumentar o interesse e a simpatia pelos nazistas, transformando monstros em mártires. Talvez o dado mais assustador é que os nazistas usaram as leis de emergência de Weimar para estrangular a própria democracia que as leis deveriam proteger.”

DISCURSO DE “ÓDIA” – Quando ao ‘discurso de ódio” ou de “ódia”, como quer a ministra Cármen Lúcia, Jacob Mchangama esclarece qual é sua fonte impura:

“Após a Segunda Guerra Mundial, o imperativo de proibir a propaganda nazista foi cinicamente explorado por outro regime totalitário. A União Soviética de Stalin usou a falácia de Weimar para fazer lobby, com sucesso, pela introdução de restrições ao discurso de ódio no direito internacional dos direitos humanos. Isso não apenas ajudou a legitimar a repressão à dissidência no bloco soviético, mas também forneceu cobertura legal sob a lei internacional para estados de maioria muçulmana ansiosos por adotar uma proibição global da blasfêmia.”

Mas hoje a liberdade de expressão é que está sendo metralhada no STF com argumentos pedestres, ultrapassados e perigosos.

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