Publicado em 17 de junho de 2023 por Tribuna da Internet

Bolsonaro tinha forte apoio entre os oficiais mais jovens
Patrik Camporez e Mariana Muniz
O Globo
Na análise que fez dos dados do celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, a Polícia Federal encontrou uma série de mensagens em grupos de WhatsApp que defendiam abertamente um golpe no país após a eleição do ano passado, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro.
Ao Globo, um dos integrantes do grupo batizado como “Dosssss!”, o tenente-coronel Gian Dermário da Silva, que comandava o 7º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, afirmou que as conversas eram discussões de “possibilidades”, apenas “conjecturas”.
QUERIA INTERVENÇÃO – No grupo, o coronel Gian defende “uma ação por parte do PR e FA, que espero que ocorra nos próximos dias”. PR é uma referência ao presidente e FA, Forças Armadas. Naquele momento, milhares de apoiadores de Bolsonaro se concentravam em frente a quartéis pelo país pedindo a anulação das eleições e uma intervenção militar.
O militar afirma ainda que as tropas deveriam agir independentemente da adesão ou não de seus comandantes. “Confio muito em nós, mas somente em nós”, disse o coronel, acrescentando. “Já pensem na proteção das nossas famílias”, acrescentou.
Questionado pelo Globo sobre as mensagens, o tenente-coronel afirmou não se lembrar o contexto, mas confirmou seu teor. “Não me lembro (direito), mas são só conjecturas, possibilidades, pois estudamos muito os vários tipos de conflitos atuais que ocorrem atualmente pelo mundo, em todos os aspectos. É a nossa profissão, estudar essas variações atuais, apenas isso” — afirmou o militar ao ser questionado pelo Globo sobre as mensagens.
CEM INTEGRANTES – Segundo ele, o grupo conta com cerca de cem integrantes. A maior parte são militares da ativa e da reserva da região Centro-Oeste. Outro militar a participar das conversas no WhatsApp é o comandante 1º Batalhão Logístico de Selva, coronel Márcio Nunes de Resende Júnior. Em uma das mensagens, ele afirma que se Bolsonaro acionasse o artigo 142 da Constituição, “não haverá quem segure as tropas”. “Ou participa ou pede para sair”, escreveu.
Ele se referia ao artigo da Constituição deturpado por bolsonaristas para passar a interpretação de que as Forças Armadas seriam um poder moderador. A tese já foi refutada inclusive pelo comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, que reforçou caber ao Supremo Tribunal Federal interpretar a Constituição.
Ao Globo, o coronel Márcio Resende disse preferir não comentar o teor das mensagens.
IRONIZANDO MORAES – Em diversos momentos, os integrantes do grupo se referem ao ministro Alexandre de Moraes de uma forma jocosa, com apelidos. Um deles, não identificado pela PF, ameaçou diretamente Moraes: “Vai ter careca sendo arrastado por blindado em Brasília?”.
Em nota, o Exército afirmou que “opiniões e comentários pessoais não representam o pensamento da cadeia de comando do Exército Brasileiro e tampouco o posicionamento oficial da Força”. “Como Instituição de Estado, apartidária, o Exército prima sempre pela legalidade e pelo respeito aos preceitos constitucionais. Os fatos recentes somente ratificam e comprovam a atitude legalista do Exército de Caxias”, afirma. “Eventuais condutas individuais julgadas irregulares serão tratadas no âmbito judicial, observando o devido processo legal. Na esfera administrativa, as medidas cabíveis já estão sendo adotadas no âmbito da Força”, completa.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – As novas revelações sobre esse grupo de golpistas terão consequências nas Forças Armadas, que preferem puni-los internamente. Aliás, ninguém pode afiançar se haverá punições ou não, mas é certo que estes oficiais estão sendo colocados no freezer e nenhum deles chegará ao generalato. Além disso, será proibida a participação de militares da ativa nestes grupos de WhatsApp junto com reservistas. Mas será difícil que ocorram punições mais rigorosas. (C.N.)






