terça-feira, dezembro 13, 2022

Respeito ao outro e cansaço da polarização




As pessoas podem estar cansadas da radicalização. Querem informação serena, independente, bem apurada, sem carimbo ideológico. 

Por Carlos Alberto Di Franco (foto)

Nicolau da Rocha Cavalcanti, jornalista, amigo e colega neste espaço opinativo, escreveu recentemente um texto certeiro: “Há um déficit de confiança nas relações sociais: o outro – quem pensa diferente – deixou de ser merecedor da presunção de boa-fé; não se concebe uma saída honrosa para a voz discordante. Nota-se também uma carência de ponderação, de equilíbrio: todas as afirmações são taxativas; não há tons intermediários. E há ainda uma ausência de afetividade, de sensibilidade: não basta discordar do adversário, é preciso torná-lo desprezível aos olhos de todos”. Assino embaixo. É preciso recuperar a capacidade de escuta, a abertura ao diálogo, a confiança no outro.

A cultura do cancelamento está instalada. Faz estragos na sociedade. Também no nosso ofício informativo. Precisamos, todos, reinvestir no jornalismo factual de qualidade. Menos adjetivo e mais substantivo.

A crise do jornalismo não pode ser explicada exclusivamente pelo fenômeno da disrupção digital. Sua raiz mais profunda está em equívocos na condução do noticiário e das coberturas. O problema, frequentemente, está no conteúdo.

Pesquisas, inúmeras, dão uma pista precisa: as pessoas estão cansadas do olhar cinzento da imprensa. Ler jornal deixou de ser prazeroso. O negativismo permanente é uma forma de falsear a verdade. A vida, como os quadros, é composta de luzes e sombras. Precisamos denunciar com responsabilidade. Mas devemos, ao mesmo tempo, mostrar o lado positivo da vida.

Em recente artigo publicado no Orbis Media Review, o cientista político João Arantes fez uma análise interessante que mostra que a polarização pode estar se transformando num álibi para justificar a perda de qualidade do jornalismo. A polarização existe, mas ela não é absoluta. Somente enxerga a polarização como um fato absoluto quem está, de uma forma ou de outra, completamente envolvido ou tomado por ela.

A verdade de que a ignorância e o extremismo podem existir em qualquer movimento político não ofusca, entretanto, uma outra verdade: a de que existem justificativas legítimas para estes mesmos movimentos. A incapacidade dos jornais de entender aqueles a quem devem reportar é a causa das críticas que frequentemente desabam sobre nós.

Recentemente, lembra João Arantes, a jornalista americana Batya Ungar-Sargon fez uma excelente análise sobre as eleições americanas de meio de mandato, as chamadas midterms. Pelo péssimo desempenho de Biden na presidência dos EUA, a expectativa era de que os republicanos tomariam, de forma avassaladora, o controle de ambas as casas do Congresso, que haviam sido perdidas juntamente com a derrota de Trump em 2020. O previsto não aconteceu. Os republicanos até conseguiram maioria na Câmara, embora por uma margem muito inferior à esperada, enquanto o Senado permanecerá sob controle dos democratas.

O que muitos viram como uma derrota dos republicanos Sargon viu como uma derrota da polarização. Vale uma longa citação: “As pessoas que decidiram os resultados eram americanos comuns, cansados da atmosfera política superaquecida que está sangrando sobre a vida cotidiana. São pessoas que não passam o dia inteiro no Twitter, assistindo a TV a cabo ou programas no YouTube, que estão cansadas das lutas no Facebook, brigas de família durante o dia de Ação de Graças e só querem um retorno à normalidade, aos bons e velhos tempos em que se podia debater as coisas de forma cordial”.

“Converse com qualquer pessoa de classe média ou trabalhadora sobre política e, em determinado momento, é provável que ela te diga o quão farta está de como tudo se tornou controverso. Embora nos digam incessantemente sobre o quão polarizados estamos, a verdade é que os americanos não se odeiam; eles odeiam os partidos políticos – ambos os partidos políticos.”

“Em disputa após disputa, os eleitores recompensaram candidatos que apresentaram as ideias mais razoáveis. Eles votaram em candidatos que poderiam ser imaginados – candidatos que talvez tenham sido vistos – conversando com alguém de quem eles discordam. Vitórias foram dadas a membros de ambos os partidos que conseguiram demonstrar, em suas declarações, em suas campanhas, com seu comportamento ou retórica, uma disposição para ultrapassar esta divisão que aliena tantos americanos.”

Todas essas afirmações podem valer ouro para jornalistas que polarizam, eles próprios e por vezes sem perceber, a disputa política para um lado ou para o outro, ou que não encontram uma audiência com a qual dialogar. A verdade é que, além do público que tem uma opinião política consolidada, há também uma parcela considerável da população que está cansada das disputas atuais e que não encontra um conteúdo que lhe satisfaça a curiosidade.

Estou convencido de que boa parte da crise da imprensa pode ser explicada pelo isolamento de algumas redações, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir os seus leitores.

A polarização talvez não seja exatamente o que se imagina. As pessoas podem estar cansadas da radicalização. Querem informação serena, independente, bem apurada, sem carimbo ideológico.

Profissionalismo pode ser o melhor caminho para dialogar com a audiência. Uma bela oportunidade para o jornalismo.

O Estado de São Paulo

Região carente de confiança e progresso - Editorial




Recente melhora econômica na América Latina é frágil numa região incapaz de superar seus problemas sociais

Com desempenho econômico medíocre pelo menos desde o início da década passada, que não lhe permite avançar na redução das desigualdades sociais nem lhe dá condições de competir com os países que se modernizam e crescem, a América Latina parece conformada. A economia regional deve crescer entre 3,0% e 3,5% em 2022, mas no ano que vem voltará ao ritmo decepcionante observado há tempos, com expansão de 1,6% a 1,7%, segundo estimativas de organizações como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Melhoras na percepção de clima econômico, como as detectadas na Sondagem Econômica da América Latina divulgada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), podem alimentar algum otimismo, mas são frágeis. Com pouquíssimas exceções, esse indicador tem se mantido em nível muito baixo desde 2013. Problemas estruturais antigos, e bem conhecidos, e outros mais recentes, como a pandemia e a eclosão do conflito armado na Ucrânia, com todos os desdobramentos na economia mundial, limitam a expansão e o progresso da região e minam a confiança de sua população e de seus dirigentes empresariais.

Fatores conjunturais favoráveis, como a alta dos preços das commodities das quais a região é grande exportadora, propiciaram a melhora do desempenho da economia latino-americana em 2022, levando-a registrar expansão igual à observada antes da pandemia. Mas as incertezas globais diante da guerra na Ucrânia, com a persistência de problemas de suprimentos de combustíveis e alimentos, e a elevação das taxas de juros decidida pelos bancos centrais dos principais países ocidentais já afetam a economia mundial e serão ainda mais notadas em 2023.

É essa sensação mista de retomada da normalidade no presente e de volta aos velhos problemas em 2023, e talvez também em 2024, que parece limitar a melhora do Indicador de Clima Econômico (ICE) entre o terceiro e o quarto trimestres deste ano, de acordo com a pesquisa do IBRE/FGV. O ICE teve alta expressiva de 11,8 pontos entre os dois trimestres, sobretudo por causa da melhora observada no Brasil, mas continua em nível desfavorável. Alcançou 66,5 pontos, bem abaixo dos 100 pontos que separam a zona favorável da desfavorável.

A pesquisa afere também aquilo que os entrevistados apontam como entraves para o crescimento econômico: falta de inovação, infraestrutura inadequada, falta de confiança na política econômica, falta de competitividade internacional, corrupção, aumento na desigualdade de renda, clima desfavorável para investidores estrangeiros, instabilidade política, barreiras legais e administrativas para investidores, falta de mão de obra qualificada, dificuldade no fornecimento de insumos e falta de capital.

Observáveis, em maior ou menor grau, em todos os países da América Latina, esses problemas têm em comum também o fato de que sua solução depende, em sua grande maioria, de decisões políticas ou de ações administrativas do poder público bem formuladas e capazes de se manter no tempo. É disso que a América Latina carece.

O Estado de São Paulo

Veja o que a Força Aérea fala sobre os voos que o avião alemão está fazendo sobre a Amazônia




Por Murilo Basseto 

A Força Aérea Brasileira (FAB) informa nesse domingo, 11 de dezembro, que está acompanhando o experimento científico inédito na Amazônia, que está sendo feito por uma aeronave alemã dotada de sondas e antenas especiais, como mostrado pelo AEROIN neste final de semana.

Segundo a FAB, por dois meses, dezembro e janeiro, no chamado CAFE-Brazil (Chemistry of the Amazonian Atmosphere-Field Experiment in Brazil), a atmosfera amazônica será analisada em detalhes, com o avião especial citado acima, um barco da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), medidas na torre ATTO (Amazon Tall Tower Observatory) e um novo radar em Balbina, localizada a cerca de 150 km ao Norte de Manaus.

O experimento CAFE-Brazil é uma parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a Universidade de São Paulo (USP) e a UEA, tendo do lado alemão a coordenação do Instituto Max Planck de Química.

Os cientistas pretendem compreender os processos químicos naturais na interação entre a floresta, a atmosfera e o intenso ciclo hidrológico, que são acoplados por processos ainda não conhecidos totalmente. Os resultados devem ajudar a explicar como, por exemplo, a floresta influencia no clima da região e os impactos das mudanças climáticas no funcionamento do ecossistema amazônico.

Com isso, a FAB recebeu solicitação do Ministério da Defesa para autorizar o sobrevoo, em território nacional, da aeronave alemã HALO (High Altitude and Long Range Research Aircraft), do Centro Aeroespacial Alemão (DLR). Após análise minuciosa do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE), assessorou-se pela continuidade dos aspectos operacionais, relacionados ao voo.

Os voos, que cobrirão toda a Amazônia, seguirão padrões definidos para medir perfis verticais do solo à alta atmosfera e com extensos transectos horizontais. O plano também inclui os chamados voos em hélice, durante os quais o HALO irá espiralar de baixas altitudes até uma altitude de 15 quilômetros.

As medições da aeronave serão fundamentais para descobrir como os processos de oxidação atmosférica ocorrem na troposfera acima da floresta amazônica e como eles influenciam a formação e o crescimento de partículas de aerossóis, que são de importância central como núcleos de condensação de nuvens.

Para acompanhar o experimento, o COMAE enviou o Major Especialista em Fotografia Edinelson Ferreira de Sena, Doutorando em Geociências Aplicadas, para participar como observador aéreo e analista dos sistemas sensores aeroembarcados, com o propósito de proporcionar a segurança necessária ao cumprimento dos planejamentos e execução dos voos em território nacional.

“Ter a oportunidade de conhecer o projeto e vivenciar esse experimento é algo único, pois a ciência é fundamental para definição de estratégias de preservação e conservação da Floresta Amazônica. Além disso, como especialista em Sensoriamento Remoto, considero justo e perfeito colocar em prática metodologias inovadoras de coleta e análise de dados, em prol da ordem e do progresso do Brasil”, finaliza o Major Sena.

AEROIN

Qual o preço de uma maioria no Congresso?




Para atrair MDB, PSD e União, Lula terá que ceder pontos de sua agenda

Por Bruno Carazza* (foto)

Eliminados da Copa, voltamos à programação normal da política brasileira. Minutos antes do confronto com a Croácia, Lula anunciou o nome dos primeiros cinco ministros escalados para o seu time. Na próxima semana, enquanto Argentina, Croácia, França e Marrocos disputam as semifinais, a PEC da Transição deverá ser aprovada na Câmara dos Deputados.

Na tradição anglo-saxônica, referências a animais são muito comuns para descrever situações e atitudes. Bull (touro) indica o mercado em alta, enquanto bear (urso) é usada para indicar pessimismo; diretores do Banco Central que colocam o controle da inflação acima de todas as outras prioridades são considerados hawks (falcões); já os mais preocupados com os efeitos da política monetária sobre o crescimento econômico são os doves (pombos).

Foi também na bolsa de valores que surgiu a expressão lame duck (pato manco). No início ela foi empregada para descrever um investidor atolado em dívidas. Como a ave com a pata machucada, ele não conseguiria mais acompanhar a manada - outro termo do mundo animal utilizado nas finanças.

O termo lame duck foi incorporado pela política para descrever um político em final de mandato, que não conseguiu se reeleger ou em breve passará o bastão para um sucessor. Como “rei morto, rei posto”, todas as atenções se voltam para o futuro governante, enquanto o atual se arrasta mancando até o encerramento da sua missão.

Jair Bolsonaro inovou na prática do lame ducking. Enquanto líderes normais passam os últimos dias no poder cumprindo a agenda protocolar, encerrando processos e colaborando com a transição, o atual presidente brasileiro saiu completamente de cena, fechando-se num silêncio constrangedor até mesmo para seus seguidores.

Lula aproveitou-se do abatimento pós-eleitoral de Bolsonaro para não apenas dominar o noticiário, como também para adiantar o encaminhamento de soluções para problemas que teriam que ser enfrentados somente após primeiro de janeiro.

A negociação da PEC da Transição com o Congresso cumpre, assim, diversos papéis na estratégia do início de governo de Lula e foi muito facilitada pelo vácuo de poder deixado por Bolsonaro.

Agindo como presidente de fato nos dois meses que antecedem sua posse, o petista abre espaço no orçamento para algumas das suas promessas de campanha, obtém uma licença para furar o teto durante metade do mandato, limpa a pauta para o começo do próximo ano legislativo e de quebra ainda mapeia a base com a qual poderá contar a partir da posse.

No primeiro teste de um governo que nem começou ainda, Lula aprovou a PEC da Transição de goleada no Senado, com 64 votos a favor e apenas 16 contrários - o patamar mínimo para a vitória era 49 senadores de acordo. No placar do plenário, a oposição à proposta fura-teto de Lula foi exercida majoritariamente por nomes bolsonaristas do PL, PP e Podemos.

É bom lembrar, contudo, que a mesma expressão lame duck também é empregada para designar as últimas reuniões de uma legislatura. Assim como acontece com os presidentes, de quatro em quatro anos alguns senadores e deputados vivem a experiência de, derrotados nas urnas, participar de votações sabendo que dali a algumas semanas cederão suas cadeiras para outros representantes.

No Senado atual, haverá uma mudança de 22 cadeiras no ano que vem, pois dos 27 senadores em final de mandato, apenas 5 foram reeleitos - Romário (PL-RJ), Wellington Fagundes (PL-MT), Omar Aziz (PSD-AM), Otto Alencar (PSD-BA) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Alguém poderia argumentar, portanto, que a aprovação da PEC da Transição não seria uma demonstração de força de Lula para o próximo governo, pois contou com a ajuda de senadores lame ducks e há uma leva de bolsonaristas prontos para assumir em fevereiro do ano que vem: Damares Alves (Republicanos-DF), Magno Malta (PL-ES), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Sergio Moro (União Brasil-PR), Tereza Cristina (PP-MS), Jorge Seif (PL-SC), Cleitinho Azevedo (PSC-MG), Rogério Marinho (PL-RN), entre outros.

Acontece que, segundo meus cálculos, mesmo levando em conta a mudança de composição do Senado no ano que vem, ainda assim a PEC da Transição seria aprovada.

A explicação para a confortável margem de vitória de Lula na sua primeira prova legislativa está no apoio maciço recebido de partidos da centro-direita não identificados com o bolsonarismo - mais especificamente MDB (12 votos a favor), PSD (10) e União Brasil (6).

Não por acaso, trata-se das três principais legendas que estão se reunindo com Lula nas últimas semanas para a expansão da base do futuro governo. Com 136 deputados e 14 senadores eleitos pela sua coligação (incluindo aí o PDT), o petista precisa atrair outras siglas grandes para formar uma maioria sólida no Congresso.

Ao orientarem seus membros a votarem a favor da PEC da Transição, lideranças do MDB, PSD e União Brasil deixam claro para Lula seus cacifes - e assim aumentam seu poder de barganha na busca por ministérios e estatais no futuro governo.

Ao ceder espaço para grupos políticos com os quais não possui afinidades ideológicas em nome da formação de uma bancada forte no Congresso, Lula também terá que renunciar a algumas pautas de sua plataforma de campanha que são contrárias ao interesse desses grupos mais à direita.

Aparentemente, a primeira concessão de Lula foi o orçamento secreto, tão criticado durante os discursos de candidato, mas agora devidamente “amaciado” nas suas falas como presidente eleito. Mesmo que o Supremo condene a constitucionalidade das emendas de relator, os petistas já admitem uma solução ao agrado de Arthur Lira, Ciro Nogueira e Valdemar da Costa Neto. PP e PL, aliás, deram 6 votos para a PEC da Transição no Senado.

Esse é o preço oculto do presidencialismo de coalizão brasileiro, que o novo governo começará a pagar em primeiro de janeiro de 2023. Ministérios, cargos e orçamento nós conseguimos mensurar; porém, quais são os pontos do seu programa de governo que Lula abdicará para ter o apoio de MDB, PSD e União Brasil e integrantes do Centrão?

*Bruno Carazza é mestre em economia e doutor em direito, é autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro” (Companhia das Letras)”.

Valor Econômico

Restauração




Mensagem central do petista na campanha foi voltar à idade de ouro

Por Demétrio Magnoli (foto)

Restauração — o retorno à “idade de ouro”. Na campanha eleitoral, foi essa a mensagem central de Lula. O Brasil embarcaria numa máquina do tempo, voltando à era supostamente gloriosa dos mandatos lulistas anteriores. A nomeação de Mauro Vieira para o Itamaraty indica que o discurso era para valer.

O martelo, porém, só foi batido após uma disputa subterrânea no círculo mais próximo do presidente eleito. Vieira, último ministro de Relações Exteriores de Dilma Rousseff, pertence à facção liderada por Celso Amorim, o chanceler de Lula 1 e Lula 2. Amorim preferia voltar à cadeira que ocupou entre 2003 e 2010 ou, ao menos, entregá-la à embaixadora Maria Laura Rocha, sua subordinada direta entre 2008 e 2010. Mas a escolha de Lula, um insucesso tático, evitou-lhe uma derrota estratégica.

A verdadeira alternativa à facção de Amorim era Jaques Wagner. O ex-governador da Bahia e ex-ministro da Casa Civil de Rousseff representava uma contestação dos paradigmas ideológicos que, no passado, orientaram a política externa lulista. No fim, apesar de tudo, prevaleceu o impulso de restauração.

As linhas gerais da nova/velha política externa de Lula 3 já estão escritas no muro. São quatro sinais, que formam um desenho.

1. Sabotagem da candidatura de Ilan Goldfajn ao BID

A operação fracassada foi conduzida publicamente pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, mas derivou de articulação oculta de Amorim. Goldfajn, um economista que preza os fundamentos e despreza a inflação, não fará do BID uma plataforma econômica para a ideia terceiro-mundista da unidade latino-americana.

2. Adiamento da visita de Lula a Washington

Nesse caso, ao contrário da sabotagem a Goldfajn, a facção de Amorim aparentemente prevaleceu. Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, veio ao Brasil com a missão de promover um encontro entre Lula e Joe Biden ainda em dezembro, antes da posse.

A meta era oferecer um inequívoco respaldo americano ao desenlace eleitoral, ajudando a secar os delírios golpistas que circulam num setor minoritário das Forças Armadas. Ao mesmo tempo, tratava-se de reativar a cooperação EUA-Brasil, assentando-a na política climática. O adiamento da visita presidencial veicula uma mensagem: o governo Lula não está interessado numa parceria estratégica com os Estados Unidos. Prefere, no lugar dela, o caminho que conduz ao “Sul Global” — na prática, o fórum do Brics, com destaque para China e Rússia.

3.Reforma do Conselho de Segurança da ONU

O Conselho da ONU, com seus cinco integrantes permanentes e direito a veto, nasceu da Segunda Guerra Mundial. A ideia de reforma entrou na agenda internacional na década de 1990, mas nunca decolou, devido à ausência de algum consenso mínimo: não se cede poder à toa.

Hoje, sob as nuvens de chumbo da rivalidade EUA-China e da guerra na Ucrânia, inexiste espaço para a retomada do debate. Mesmo assim, Amorim apressou-se em recolocar o tema no centro da agenda da política externa brasileira. A insistência obsessiva não se destina a descortinar novos horizontes, mas a fabricar um discurso “anti-imperialista” de denúncia das potências (ocidentais) e da ordem internacional.

4. Guerra e paz na Ucrânia

Na campanha, Lula colocou um sinal de equivalência entre Putin e Zelensky —entre a potência agressora e a nação agredida. Circula a ideia de que o novo presidente almeja desempenhar um papel de protagonista numa iniciativa internacional para encerrar a guerra na Ucrânia. Fala-se, no entorno lulista, em “negociações” e “paz”, mas nunca na integridade territorial ucraniana.

Paz sem desocupação: a fórmula coincide, exatamente, com os objetivos imediatos de Putin, que pretende congelar temporariamente o conflito, interrompendo a contraofensiva da Ucrânia e ganhando tempo para reorganizar as forças invasoras assediadas. Nesse ponto, Lula segue os passos de Bolsonaro, adotando uma espécie de “neutralidade pró-Rússia” que viola os princípios explícitos inscritos em nosso texto constitucional.

Restauração: “O tempo passou na janela e só Carolina não viu”.

O Globo

Lula e a esquerda jurássica - Editorial




O Brasil de 2023 é muito diferente do de 2003. Se Lula precisou ser pragmático no 1.º mandato, distanciando-se da esquerda retrógrada, esse movimento é agora ainda mais necessário

Em 2003, ao assumir pela primeira vez a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva precisou ser pragmático na condução do governo, afastando e ignorando velhas bandeiras da esquerda. A atitude realista de Lula – que se manifestou em várias áreas, especialmente na política econômica – foi fundamental para os resultados obtidos em seu primeiro mandato. Sem responsabilidade fiscal e sem a reforma da Previdência de 2003 articulada pelo governo do PT – para citar apenas dois tópicos –, o desempenho do primeiro governo Lula teria sido inteiramente diferente.

Agora, 20 anos depois, é de reconhecer que o País a ser governado por Lula está ainda mais incompatível com os dogmas e práticas de uma esquerda jurássica: inchaço da máquina pública, desleixo com a inflação, economia moldada pela estatização, hostilidade à atividade empresarial, especialmente ao agronegócio, submissão a um sindicalismo atrasado e ao corporativismo de setores do funcionalismo público. Se, em 2003, o Brasil não tinha nada a ganhar com essa compreensão asfixiante de sociedade e de Estado, agora é que precisa dela menos ainda.

Ao voltar ao Palácio do Planalto 20 anos depois da posse de seu primeiro mandato, Lula encontrará um país diferente. Certamente, há muitos desafios que permanecem: a pobreza e a miséria, as desigualdades sociais, a baixa qualidade da oferta educativa para tantas crianças e jovens, o racismo em suas diversas modalidades e expressões, problemas de infraestrutura, limitações da rede pública de saúde, entraves ao crescimento econômico, entre outros pontos. Muita coisa foi feita nessas duas décadas, houve avanços significativos em algumas áreas, mas também se observam retrocessos, como a volta da fome, e problemas que ainda estão longe de ser resolvidos satisfatoriamente, como a falta de saneamento básico para muitas famílias.

De toda forma, o Brasil de 2023 é muito diferente daquele de 2003. Basta pensar, por exemplo, no atual agronegócio e em sua relevância para a economia brasileira. O desenvolvimento econômico do campo produziu mudanças sociais importantes: novas situações de vida, novas dinâmicas sociais, novas demandas políticas. Até agora, a esquerda mostrou-se alheia a tudo isso, como se o campo não fizesse parte de seu horizonte – como se fosse outro país.

A grande questão é que, na Presidência da República, Lula não pode ignorar essa nova realidade social e econômica. E aqui a defasagem é gritante. Ao longo dessas duas décadas, a esquerda não mudou sua visão sobre o campo, não tendo produzido nenhuma proposta séria de política pública para o setor. O movimento parecia justamente o oposto. Além de não ter afinidade política com o agronegócio, o PT tratou muitas vezes com desdém e hostilidade quem empreende no campo.

O anacronismo de parte da esquerda também é patente no que se refere às relações trabalhistas. Durante a campanha eleitoral, em vez de apresentar uma proposta minimamente articulada sobre o mundo contemporâneo do trabalho, esquerdistas pareciam estar pregando para funcionários sindicalizados dos anos 60 do século passado. Em vez de apresentar soluções para as questões reais que afligem o trabalhador brasileiro, o PT falava em revogar a reforma trabalhista de 2017, aquela que, entre outros avanços, extinguiu o imposto sindical.

Mesmo nas áreas em que continua havendo grandes deficiências, como educação e saúde, os desafios agora são em boa medida diferentes dos de duas décadas atrás. A população mudou, envelheceu. Não há nenhum tempo a perder. A educação das novas gerações é ainda mais decisiva. Novas políticas públicas foram implementadas, e mais do que nunca é preciso aproveitar o que deu certo.

Verifica-se também outro panorama internacional. A visão geopolítica da guerra fria, tão cara à esquerda, está ainda mais ultrapassada, ainda mais distante dos interesses nacionais.

Se Lula quer governar para o Brasil real, seu terceiro mandato precisará ser ainda mais pragmático. Não é uma questão de implicância com a esquerda. Parte dela simplesmente parou no tempo.

O Estado de São Paulo

Tumulto em Brasília; PF isola hotel de Lula e bolsonaristas queimam veículos




O Comando de Operações Táticas da Polícia Federal (PF) e a tropa de choque da Polícia Militar do Distrito Federal cercaram nesta segunda-feira, 12, o hotel do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após grupos extremistas darem início a ações violentas em Brasília. Os ataques começaram horas após a cerimônia de diplomação de Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O tumulto foi iniciado depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou a prisão temporária do indígena José Acácio Serere Xavante, apoiador do presidente Jair Bolsonaro. A prisão foi decretada a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) por indícios de crimes de ameaça, perseguição e manifestações antidemocráticas em vários pontos de Brasília.

Os atos ocorreram, de acordo com a PF, em frente ao Congresso, ao Aeroporto Internacional, em shoppings, na Esplanada dos Ministérios e em frente ao hotel onde Lula e o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin estão hospedados.

Segundo relato de testemunhas, a confusão começou após a Polícia Federal prender um dos manifestantes bolsonaristas que se diz indígena. Revoltados, grupos começaram a tocar fogo em veículos e no meio de vias no centro de Brasília. Pelo menos dois ônibus e vários carros foram incendiados pelos manifestantes.

Um grupo incendiou um ônibus no Eixo Monumental – principal via pública da capital federal – e outros carros foram danificados em frente à Polícia Federal. Vestidos de verde e amarelo, manifestantes tentaram invadir a sede da PF. No Setor Hoteleiro Norte, manifestantes foram contidos com bombas de efeito moral e gás de pimenta.

Em nota, a Polícia Militar do Distrito Federal informou que o tumulto começou após a prisão de um líder indígena. “Índios tentam invadir o prédio da PF na Asa Norte”, destaca o comunicado, ao afirmar que a PM deslocou guarnições “para controlar a situação com a aplicação das forças táticas e Batalhão de Choque”.

O Supremo Tribunal Federal (STF), em nota no Twitter, afirmou que o ministro Alexandre de Moraes atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) e “decretou a prisão temporária, pelo prazo de dez dias, do indígena José Acácio Serere Xavante, por indícios da prática de crimes em atos antidemocráticos.”

“Segundo a PGR, Serere Xavante vem se utilizando da sua posição de cacique para arregimentar indígenas e não indígenas para cometer crimes, mediante ameaça de agressão e perseguição do presidente eleito (Lula) e de ministros do STF”, afirmou a Corte, na rede social. “A prisão se fundamentou na necessidade de garantia da ordem pública, diante da suposta prática dos crimes de ameaça, perseguição e abolição violenta do estado democrático de direito.”

Mais cedo, a Polícia Militar do Distrito Federal também já havia reforçado a segurança no hotel de Lula após uma discussão entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e militantes petistas.

Estadão / Dinheiro Rural

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Tropa de choque da PM e grupo de elite da PF cercam hotel de Lula em Brasília

O Comando de Operações Táticas da Polícia Federal (PF) e a tropa de choque da Polícia Militar do Distrito Federal cercaram nesta quarta-feira, 12, o hotel do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após grupos extremistas darem início a ações violentas. Os ataques começaram horas após a cerimônia de diplomação de Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Um grupo incendiou um ônibus no Eixo Monumental – principal via pública da capital federal – e outros carros foram danificados em frente à Polícia Federal. Vestidos de verde e amarelo, manifestantes tentaram invadir a sede da PF. No Setor Hoteleiro Norte, manifestantes foram contidos com bombas de gás de pimenta.

Em nota, a Polícia Militar do Distrito Federal informou que o tumulto começou após a prisão de um líder indígena. “Índios tentam invadir o prédio da PF na Asa Norte”, destaca o comunicado, ao afirmar que a PM deslocou guarnições “para controlar a situação com a aplicação das forças táticas e Batalhão de Choque”.

Mais cedo, a Polícia Militar do Distrito Federal também já havia reforçado a segurança no hotel de Lula após uma discussão entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e militantes petistas.

Estadão / Dinheiro Rural

Alexander Dugin, o filósofo fascista.




A carreira de Dugin é um espelho do percurso ideológico do seu país, que passou do caos intelectual dos últimos dias do império soviético ao revanchismo agressivo da era mais recente de Putin.

Por Owen Matthews, historiador e jornalista

Desde a década de oitenta que o professor de filosofia Aleksandr Dugin acredita que o destino manifesto da Rússia é um poder cristão ortodoxo e imperial inteiramente diferente do liberalismo ocidental, e completamente na sua contramão. Em pessoa, o rosto estriado e barbudo de Dugin e a sua fogosa autoconfiança, fazem dele uma encarnação moderna de um starets, ou homem sagrado, de um romance de Tolstoi. Contudo, o seu dogmatismo apaixonado — disparando longas citações de Martin Heidegger e de Karl Haushofer, de dedo espetado no peito do interlocutor — é também muito característico da confusão da intelligentsia soviética recente entre informação e conhecimento, factos e verdade. Como muitos pensadores da sua geração, Dugin disfarça um fanatismo e autoconfiança implacáveis com as roupagens do debate intelectual.

A carreira de Dugin é um espelho do percurso ideológico do seu país, que passou do caos intelectual dos últimos dias do império soviético ao revanchismo agressivo da era mais recente de Putin. Filósofo académico de formação, Dugin tornou-se um dissidente anticomunista na década de oitenta. Ao contrário de muitos dissidentes, contudo, rejeitava a ideia de que a Rússia deveria tornar-se uma democracia liberal ao estilo ocidental. Ao invés, advogava a visão de um nacionalismo étnico russo, misturado com uma religiosidade mística, tornando-se o fundamento do seu próprio tipo especial de fascismo russo. Em 1988, Dugin fundou um grupo político ultranacionalista e antissemita, chamado Pamyat (“Memória”), que postulava que o sagrado Império Russo, estabelecido por Deus, fora sequestrado, comprometido e, em última análise, destruído pelos judeus bolcheviques sem Deus. Na febril mistela ideológica da política pós-soviética, o antissemitismo aberto de Dugin não o impediu de ajudar a escrever o programa político do recém-reformado Partido Comunista da Federação Russa.

Em 1993, Dugin persuadiu o escritor radical Eduard Limonov a juntar-se a um novo movimento mais ativamente revolucionário, a que chamaram “Frente Bolchevique Nacional” (FBN). O símbolo da FBN era uma foice e martelo de cor preta, inscritas num círculo branco, contra um fundo vermelho — a nova suástica do fascismo russo. Quatro anos depois, Dugin publicou dois tratados cruciais. Um foi o Fundamentos de Geopolítica (o título é uma piscadela de olhos a Klaus Haushofer, um pensador nazi euro-asiaticista), que foi depois adotado como manual na Academia do Generalato das forças armadas russas.1 O outro foi o Fascismo: Sem Fronteiras e Vermelho, que, não tão oficialmente, iria tornar-se o modelo ideológico da fase final do putinismo. Dugin descreveu a Rússia em transição de uma forma de capitalismo liberal ocidental e corrupta para uma forma de “capitalismo nacional”, que por seu turno iria transformar-se num “genuíno, verdadeiro, radicalmente revolucionário e consistente, fascismo fascista”, na Rússia.2

Na visão de Dugin, “o fascismo russo é uma combinação de conservadorismo nacional natural e um desejo apaixonado por verdadeiras mudanças”.

Sem a corrupção imposta pelos liberais ocidentais, a Rússia poderia dedicar-se ao seu verdadeiro destino imperial. “Nós, os conservadores, queremos um estado forte e sólido, queremos ordem e uma família saudável, valores positivos, o reforço da importância da religião e da igreja na sociedade”, escreveu Dugin em 2012, altura em que trabalhava já com o Kremlin. “Queremos uma rádio e televisão patrióticas, queremos especialistas patrióticos, clubes patrióticos. Queremos meios de comunicação que exprimam interesses nacionais”.3 Também invetivava contra a Internet — “um fenómeno que vale a pena proibir, porque não traz seja o que for de bom seja para quem for” — e apelou a “todos os russos ortodoxos […] para se unirem em torno do presidente da Rússia, na última batalha entre o bem e o mal, seguindo o exemplo do Irão e da Coreia do Norte”.4

Dugin idealizava Putin pessoalmente, apesar de se opor às políticas económicas liberais dos tecnocratas do Kremlin que o rodeavam. “Putin está em todo o lado, é tudo, é absoluto e é indispensável”, disse-me Dugin em 2007.5 Antes de inícios de 2012, contudo, e como os outros membros bolcheviques nacionalistas, Dugin considerava que fazia parte da oposição nacionalista radical ao Kremlin. Porém, quando os protestos generalizados abalaram Moscovo e São Petersburgo, na sequência do regresso de Putin para um terceiro termo na presidência, o principal ideólogo do Kremlin, Vladislav Surkov, decidiu que a retórica fervorosa de Dugin deveria passar a desempenhar um papel útil no novo coro ideológico de Putin. Em fevereiro de 2012, Dugin foi convidado para fazer uma comunicação num comício “antilaranja”6 orquestrado por Surkov, para se opor aos protestos pró-ocidente.

“O império americano global esforça-se por pôr todos os países do mundo sob o seu controlo”, disse Dugin às multidões pró-Kremlin em 2012, que incluíam muitos dos antigos membros do movimento de Surkov, Nachy.

    Eles chegam pela quinta coluna, que pensam que lhes permite tomar para si os recursos naturais e ser senhores de países, povos e continentes. Invadiram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia. A Síria e o Irão estão nos planos. Mas o objetivo deles é a Rússia. Nós somos o último obstáculo que se atravessa no seu caminho para construir um império global do mal. Os seus agentes na Praça Bolotnaya [de Moscovo] e no governo estão fazendo tudo para enfraquecer a Rússia e permitir-lhes pôr-nos totalmente sob controlo externo. Para resistir a esta ameaça muito séria, temos de ficar unidos e de estar mobilizados! É preciso não esquecer que somos russos! Que durante milhares de anos protegemos a nossa liberdade e independência. Derramámos mares de sangue, o nosso e o de outros povos, para tornar a Rússia grande. E a Rússia será grande! Ou então não existirá. A Rússia é tudo! Tudo o mais é nada!7

Todas as afirmações que na boca de Dugin pareciam tão radicais em 2012, seriam adotadas em 2021 — mesmo palavra por palavra — pelo próprio Putin.

Em inícios de 2014, Dugin estava profundamente envolvido em política prática, e estava ainda, em grande parte, fora do controlo do Kremlin. O seu maior projeto era levar as suas políticas radicais para os círculos pró-Moscovo da Ucrânia. Oleg Bahtiyarov, um dos membros do movimento “União Juvenil Eurasiática da Rússia”, fundado por Dugin, foi preso pelo Serviços de Segurança da Ucrânia (SBU) em março de 2014, por treinar um grupo anti-Maidan de duzentos membros que planeava tomar o Rada e outros edifícios do governo em Kiev. Chamadas de Skype intercetadas pelo SBU mostravam que Dugin dava instruções aos separatistas do sul e leste da Ucrânia. Dugin não estava ainda em completa sintonia ideológica com o Kremlin. Em julho de 2014, juntou-se a Igor Girkin nas críticas amargas a Putin, por não apoiar os separatistas de Donbas, quando estes recuaram perante os ataques do exército ucraniano regular. Segundo Dugin, o Kremlin fora impedido de levar a cabo uma invasão completa de Donbas por um grupo a que chamou “sexta coluna” — oficiais que rodeavam Putin e que fingiam lealdade, mas que eram de facto “a mesma ralé norte-americana” dos ativistas da oposição, abertamente traidores e pró-americanos: a “quinta coluna”.8,9 Em 2020, Vladislav Surkov — o homem que trouxe Dugin para a corrente dominante da política — deu efetivamente consigo acusado de ser um destes traidores secretos.

Em agosto de 2022, Dugin pagou um preço trágico pelo papel que desempenhou para pôr Rússia em guerra, quando um carro armadilhado lhe matou a única filha, Daria Dugina, que tinha trinta anos. Dugin e a televisão russa culparam o SBU, descrevendo Daria como uma “mártir” que “morrera pela Rússia”.10 Os ucranianos afirmaram que o ataque foi uma operação do SFS a fingir-se do SBU. Mas ninguém teve dúvidas de que Daria pagara com a vida pelas ideias do pai.

Owen Matthews: Overreach: The Inside Story Of Putin’s War Against Ukraine (Londres: Mudlark, 2022), pp. 115–119.

Crítica

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