domingo, novembro 27, 2022

A direita brasileira é o novo arraial de Canudos




Estamos diante de um governo Bolsonaro que se esfacelou, mas os conservadores de direita não se resumem aos bolsonaristas, e menos ainda se resumem a personagens caricatos em frente dos quartéis. 

Por André Marsiglia Santos (foto)

O Brasil nunca foi um só e isso passa muito longe de ser um problema. No entanto, um Brasil insiste em perseguir o outro, sob pretexto de unificar a nação. O Brasil perseguido, antigamente, habitava recantos geográficos distantes do litoral. Atualmente os recantos não são mais geográficos, mas ideológicos. Aqueles que adotam valores religiosos ou identificados com a ideologia de direita e do conservadorismo são considerados hoje distantes do litoral do pensamento e se tornam alvos das tentativas de unificação. Unificar, na prática, significa combater. Unir os dois Brasis quer dizer enterrar o outro, o diferente, até vingar só uma visão, a visão única, que será chamada de democrática.

O discurso de existência de dois Brasis que precisam se unir é antigo. Quando Euclides da Cunha, na função de correspondente de guerra do jornal O Estado de São Paulo, visitou o arraial de Canudos, o governo de então, embora estivesse diante de simples religiosos, fez crer a todos que enfrentava um levante monarquista antidemocrático, e que os dois Brasis, uma vez cindidos, careciam de unificação. A unificação veio da forma como o Brasil costuma resolver seus problemas: com postura autoritária. Nas palavras do próprio Euclides, em sua obra Os Sertões, o arraial de Canudos “caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados” (…) “No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas”.

Corridos os séculos, estamos na mesma. Eleito o presidente Lula, diante de uma multidão de insatisfeitos, o discurso das altas Cortes de nosso Judiciário é: precisamos combater as tentativas de levante antidemocrático. O discurso de Lula: precisamos unificar os dois Brasis. A mensagem é clara: sob o risco da agressão dos insatisfeitos, cabe ao governo e ao Judiciário agredi-los e restituí-los às profundezas ideológicas de onde saíram. Quando o crânio de Antônio Conselheiro, líder de Canudos, foi levado ao litoral, ao Brasil democrático, ao Brasil pensante, Euclides conta que “deliravam multidões em festa”, diante daquele “terribilíssimo antagonista”, diante daquele crânio com as “linhas essenciais do crime e da loucura”.

Unir um Brasil multifacetado social e culturalmente é uma ambição antiga e burra, pois autoritária. O Brasil não se une com 5 mil soldados ou com 5 mil decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rugindo na frente dos insatisfeitos. O Brasil resultante dessa união forçada é tudo menos democrático. O Brasil precisa se respeitar.

Estamos diante de um governo Bolsonaro que se esfacelou, mas os conservadores de direita não se resumem aos bolsonaristas, e menos ainda se resumem a personagens caricatos em frente dos quartéis. Nada mais inábil do que julgar que a direita conservadora seja composta pelos que urram e marcham.

Enquanto enxergarmos os Brasis cindidos de forma autoritária, exigindo que se unifiquem, ridicularizando o diferente como grotesco, acusando-o de terrorismo à democracia, a liberdade de expressão, premissa da livre troca de ideias entre diferentes, será um incômodo a ser extirpado pelos tribunais. O debate político será não muito mais do que uma troca de acusações e os políticos serão eleitos não por terem melhores ideias, mas por terem as melhores táticas para extirpar seus oponentes.

Teremos dois Brasis que, por não se respeitarem, se rejeitam, odeiam-se, enfrentam-se e, quando se alternam no poder, fazem do governo uma guerra contra tudo que se construiu antes, e da oposição, uma diária antessala para o golpismo.

*André Marsiglia é advogado.

Revista Crusoé

Democracia militante e loucura política




A internet abriu, mais uma vez, a caixa de Pandora de toda a loucura política. 

Por Fernando Schüler* (foto)

Dia desses deparei com uma curiosa nota do Banco Rodobens. Com as contas bloqueadas, por uma decisão de nossa Suprema Corte, acusado de financiar “atos antidemocráticos”, envolvendo aqueles caminhões indo a Brasília, o banco candidamente explicava que “não tinha nada com isso”. Seu negócio era fazer “leasing operacional” de caminhões, para transportadores, Brasil afora, dizia a nota. Fiquei me perguntando (talvez não devesse) com que base de informações nossa Suprema Corte toma decisões como essa. “Talvez não tenham checado direito”, foi a melhor explicação que obtive. De fato, a empresa não tinha nada a ver com aquilo, mas não é esse o ponto aqui. O bloqueio das suas contas é apenas um dos exemplos citados no pedido de abertura de uma CPI, no Congresso Nacional, esta semana, para investigar a enorme sequência de abusos cometidos contra direitos fundamentais de nossa democracia, nestes anos tristes. Há coisas bem mais graves acontecendo, e não faço ideia se a CPI vai prosperar. O ponto é que há uma ferida aberta, na democracia brasileira, e quem não emigrar para Portugal ou para o Canadá, e tem alguma responsabilidade com o país, deveria se preocupar com isso.

O caso da Rodobens ilustra o que muita gente vem chamando de “democracia militante”, no Brasil atual. A ideia é elegante e foi desenvolvida pelo jurista alemão Karl Loewenstein, no mundo sombrio da Alemanha dos anos 30, em meio ao desmoronamento da República de Weimar, diante do nazismo. Loewenstein exilou-se nos Estados Unidos e escreveu extensamente sobre como a democracia deve prever mecanismos de defesa contra os extremismos, incluindo-se aí a suspensão de certas garantias diante de ameaças “existenciais” a sua própria sobrevivência. Ele acusava a inépcia da “cegueira legalista” para perceber como as democracias podem se tornar o “cavalo de Troia pelo qual o inimigo entra na cidade”. A tese referia-se ao nazismo, e serviu para algumas medidas protetivas no redesenho da democracia alemã, no pós-guerra. Ao longo do tempo, no entanto, o argumento correu o mundo. Foi usado para combater movimentos ora à direita, ora à esquerda, e ressurgiu com força aqui pelos trópicos, nos últimos anos, diante da ascensão de Bolsonaro e sua “nova direita”. Muita gente acha que é assim que deve ser. Há, porém, quem ache o contrário. Que nada temos a ver com a Alemanha, que é preciso tomar cuidado com a “falácia do Hitler” e que nosso problema real é o oposto: o desrespeito a direitos fundamentais por parte de quem deveria ser intransigente na sua proteção.

Nessa visão, andamos em um caminho perigoso. Em nome da “democracia militante”, o professor Marcos Cintra foi sumariamente banido das redes sociais, acontecendo o mesmo com o empresário Luciano Hang, aparentemente, por “não dizer nada” em um diálogo irrelevante, em um grupo também irrelevante (e privado) no WhatsApp. Em nome da “democracia militante”, um partido comunista minúsculo foi censurado e banido, por supostamente “ameaçar a democracia” em um tuíte que quase ninguém leu. Em seu nome, a censura prévia voltou com força, ao país, sem a menor cerimônia, e quarenta e tantas empresas tiveram suas contas bloqueadas, dias atrás, por um suposto crime de “abuso de reunião”. O caso levou a um ainda tímido protesto de seccionais da OAB, contrariadas com uma decisão feita “sem qualquer notificação prévia dos supostos envolvidos, nem mesmo o Ministério Público, sabidamente fiscal da lei”. Algo que agride “consagrados princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório”.

De minha parte, acho fascinante o argumento da “democracia militante”. Em primeiro lugar, porque ele extrai de uma situação efetivamente excepcional, que foi a ascensão do nazismo, uma régua a ser aplicada, não raro de modo vulgar, nas democracias em pleno funcionamento. Democracias em que o contínuo mal-estar da polarização e do ódio digital facilmente se confunde com tipos variados de “risco existencial”, como tantas vezes escutei, no Brasil atual. Outro aspecto fascinante é dado pelas seguintes perguntas: quem teria a prerrogativa de decidir quem é o inimigo existencial e a quem deveríamos entregar o poder de agir para além das leis e da Constituição, uma vez definida a situação “excepcionalíssima”? E mais: que instrumentos a democracia militante nos daria para nos proteger dela mesma? Se um ministro decide censurar e banir um deputado, mesmo que a Constituição diga claramente que ele não pode fazer isso, o que fazer? E se um filme é censurado, quando as leis dizem que isso não pode ser feito? Uma hipótese é ir levando. Lançar uma nota, dar explicação, fazer de conta que tudo está bem, tomar cuidado para “não sair da linha”, como escuto por aí. É possível imaginar que, em democracias avançadas, existam mecanismos para controlar o “leviatã militante”. Mas, nas democracias em que esses mecanismos parecem nunca funcionar, como deveríamos agir, exatamente?

Nesses casos, o risco é uma sutil inversão: não mais a democracia, mas a “autoridade militante”. A autoridade que, devendo funcionar como juiz imparcial, subitamente surge como jogador. A imagem disso foi aquela multidão ofendendo ministros, em Nova York, e a frase do ministro Barroso: “Perdeu, mané”. Entendo o seu desconforto. Ele é um sintoma. Está no olhar, está nas palavras: o mané, o gado, o “xucro”. E vice-versa. O outro como o desprezível, do qual devemos nos “desintoxicar”, como li de um intelectual animado por estes dias. O curioso é que um dia já foi assim com a cisão religiosa. O protestante já foi tóxico, assim como o judeu. Foi exatamente para lidar com essa “vontade de domínio” que inventamos a democracia liberal. E parecemos esquecer, de tempos em tempos.

A internet complicou tudo isso porque deu voz ao vulgo, ao homem comum, e abriu, mais uma vez, a caixa de Pandora de toda loucura política. Dias atrás dei uma olhada nos trend topics do Twitter (não recomendo) e estava lá: “Ladrão não sobe a rampa”, “Malafaia na cadeia”, e um recorrente “Vai tomar no c…”, talvez a síntese perfeita de nosso atual debate digital. O ponto é que há um trade-off aí: quanto maior a carga de barulho e radicalismo, disseminado na sociedade, maior a exigência de que as instituições andem na trilha oposta, com frieza e distanciamento. Do contrário, surge um duplo problema de legitimidade: das instituições, que começam a ser vistas não como árbitros, mas como partes do jogo, e dos interessados em desestabilizar essas mesmas instituições, vendo o seu radicalismo ganhar ares de virtude, diante da falta de isonomia e do “ativismo” de quem deveria agir nos estritos limites da lei. Uma república se faz precisamente da recusa da “tentação militante”, que jamais deve migrar do universo fraturado e hostil de nossas sociedades abertas para o universo das instituições. O desafio está posto.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

A esquerda latino-americana e o sequestro de biografias




Os bajuladores da ditadura cubana pensam e fazem parecer que Milanés seguia sendo como eles. 

Por Leonardo Coutinho (foto)

No dia da morte do cantor cubano Pablo Milanés, o ditador de Cuba, Miguel Díaz-Canel, deixou uma mensagem de condolência no Twitter. O texto é frio. Díaz-Canel fala de “desaparecimento físico” e de uma “voz inseparável de nossa geração”. A razão do tom protocolar é simples. Milanés, que por décadas foi um apoiador do regime ditatorial da ilha, atuando como um instrumento de soft power por meio de suas músicas (algumas delas sensacionais), há pelo menos dez anos era um crítico duro do regime.

No ano passado, quando os agentes da repressão metiam a borduna e prendiam manifestantes nas ruas de Cuba, Milanés foi às redes sociais e deixou o seu recado. Deixou sua solidariedade para quem apanhava nas ruas por pedir liberdade. Quase ninguém prestou atenção nele.

Dez anos antes, em 2011, Milanés já havia marcado de forma definitiva o seu rompimento com a ditadura. Em uma carta-aberta, criticou as agressões físicas às mulheres do Movimento Damas de Branco – que defende os direitos humanos e pede a libertação dos presos políticos em Cuba –, a censura à imprensa e o silêncio dos intelectuais de seu país frente ao monstro totalitário em que se transformou o regime.

Milanés demorou muito para enxergar o que reluzia mais do que o sol. Muitíssimo, mas percebeu e expressou seu desalento. Quase ninguém prestou atenção nele.

Criticado por artistas que ainda seguem bajulando a ditadura cubana, Milanés endureceu sem perder a ternura: “Meus 53 anos de militância revolucionária me concedem o direito, que muito poucos exercem em Cuba, de me manifestar com liberdade, a mesma exigida por meus princípios, sem nenhum compromisso (…) com os dirigentes cubanos, os quais admirei e respeitei; mas, não são deuses, nem eu sou fanático, e quando sinto que posso fazer uma repreensão e dizer não, digo sem medo e sem reservas”.

Milanés morreu em Madri e foi sepultado por lá. Isso não é apenas um detalhe. Ele vivia há anos na Espanha, tendo sido transformado em uma espécie de “exilado”. Mesmo sendo um homem de esquerda dura, ele foi cancelado por não ter aceitado mais se comportar como um cão.

Díaz-Canel foi protocolar com a morte de Milanés, mas sua matilha fez o serviço de sequestrar a biografia de Milanés e reposicioná-la em seu favor. Tal como ladrões de túmulo, líderes bolivarianos e seus xerimbabos agiram rápido. O ex-presidente da Bolívia e cocaleiro Evo Morales e o venezuelano Nicolás Maduro engrossaram o uivo revolucionário. Atrás deles, vieram os seguidores de sempre. Os brasileiros Randolfe Rodrigues e Guilherme Boulos, o chavista Ernesto Villegas e o ex-líder das Farc Rodrigo Lodoño.

Os bajuladores da ditadura cubana que pensam e fazem parecer que Milanés seguia sendo como eles.

Milanés não foi o primeiro e não será o último artista a experimentar o expurgo por criticar a “revolução”. Na Nicarágua de Daniel Ortega, o padre e poeta Ernesto Cardenal, um dos símbolos do sandinismo, se transformou em um pária. Em seu velório, seu caixão quase foi violado pelos manifestantes em fúria. A argentina Mercedes Sosa enfrentou em vida a acusação de ser sionista, como se sua recusa em não fazer boicote a Israel e sua simpatia pelo país fossem um gesto de traição à revolução.

Para quem não liga o nome à pessoa, Mercedes foi possivelmente a artista que mais incorporou o papel de ser a voz da unidade latino-americana e expressou elementos da cultura e das aspirações por democracia e liberdade na região – embora os conceitos de “democracia” e “liberdade” tenham sido sequestrados pela esquerda, que os tratava como algo que não seria possível de alcançar sem a revolução e o socialismo.

Milanés morreu longe de sua terra. Morreu achincalhado por muitos companheiros de jornada. Morreu sem ver sua Cuba livre. Ao que tudo indica, profanarão o seu legado e escolhas, transformando-o em mais uma peça de museu. Do museu das ditaduras.

Gazeta do Povo (PR)

Seis partidos concentram verbas de emendas do relator

 

Seis partidos concentram verbas de emendas do relator

por Mateus Vargas | Folhapress

Imagem sobre Seis partidos concentram verbas de emendas do relator
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

PP, PL, PSD, MDB, União Brasil e Republicanos dominam a distribuição das verbas das emendas de relator, mostra levantamento do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e do Observatório do Clima.
 

As entidades identificaram os padrinhos de R$ 5,8 bilhões já pagos em 2022 a partir desses recursos que se tornaram moeda de troca do governo Jair Bolsonaro (PL) em negociações com parlamentares. Os seis partidos respondem por 81% dos valores indicados por deputados e senadores.
 

Na liderança, os parlamentares do PP emplacaram R$ 706 milhões, e R$ 127 milhões são atribuídos ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Ele é o maior beneficiado da verba já desembolsada.
 

O levantamento cruzou dados de ofícios dos parlamentares com informações da execução do Orçamento entre janeiro e o fim de outubro.
 

No total, há R$ 16,5 bilhões aprovados para emendas de relator em 2022. Foram empenhados R$ 8,64 bilhões, etapa em que o recurso é reservado para uma despesa, e o governo pagou R$ 7 bilhões.
 

Em geral, a maior parte do recurso é empenhada nos últimos dias de dezembro.
 

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), criticou a distribuição das emendas de relator durante a campanha, mas a equipe de transição de governo não deve se esforçar agora para mudar a forma de distribuição da verba.
 

Esse tipo de emenda também é conhecida como RP9 e é caracterizada pela falta de transparência sobre quem pede a distribuição da verba.
 

Alessandra Cardoso, assessora do Inesc, diz que o levantamento reforça a necessidade de o STF (Supremo Tribunal Federal) declarar esse tipo de emenda inconstitucional.
 

"Ainda que a maior parte vá para a saúde ou educação, o critério de repartição não é pela necessidade, prioridade ou republicano, é um critério político e ligado a esses grupos de interesse", disse Cardoso.
 

Para ela, o modelo está drenando "toda a capacidade do Estado de executar o Orçamento discricionário".
 

Dos partidos que dominam as indicações de emendas, PSD, de Gilberto Kassab, e MDB se aproximaram de Lula e têm integrantes na equipe do governo de transição.
 

"Hoje, de cada R$ 100 reservados para despesas não obrigatórias, como para o combate ao desmatamento, pelo menos R$ 15 são distribuídos sem nenhuma transparência, de acordo com a vontade de parlamentares", disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
 

Ele afirma que "esse é o dinheiro que falta para combater o crime ambiental, para as farmácias populares e para matar a fome de milhões de brasileiros que hoje não têm o que comer".
 

Após cobrança do STF por maior transparência sobre as emendas, o Congresso passou a divulgar neste ano na internet ofícios de parlamentares com as indicações de distribuição da verba.
 

Ainda assim, os parlamentares encontraram brechas para esconder o verdadeiro padrinho da emenda. Isso porque pessoas registradas no sistema como "usuário externo", que não são deputados ou senadores, têm assinado as indicações.
 

O levantamento conseguiu identificar cerca de R$ 1,85 bilhão pago pelo governo em 2022 a partir da indicação feita por esses usuários.
 

A PF (Polícia Federal) prendeu em outubro os irmãos Roberto Rodrigues de Lima e Renato Rodrigues de Lima, que atuavam como intermediários na captação da verba de RP9 para a saúde.
 

Na análise feita pelo Inesc e pelo Observatório do Clima, Roberto aparece como padrinho de pagamentos que somam cerca de R$ 31,3 milhões.
 

A análise dos dados pelas entidades exigiu extrair manualmente os dados de dezenas de ofícios de parlamentares e cruzar com CNPJs encontrados nas informações da execução do Orçamento.
 

Não foi possível atribuir a autoria da indicação de outro R$ 1 bilhão pago de RP9, pois mais de um parlamentar ou "usuário externo" havia direcionado a verba ao mesmo CNPJ.
 

O Fundo Municipal de São Gonçalo (RJ) está no topo da lista de destinos das indicações deste ano, com R$ 126,2 milhões, sendo que R$ 120 milhões têm como padrinho um "usuário externo", o funcionário da prefeitura da cidade Carlos Pereira Júnior.
 

O segundo principal destino das indicações é a Codevasf, estatal envolvida em escândalos de corrupção e clientelismo durante a gestão de Bolsonaro, como revelou série de reportagens da Folha.
 

O TCU (Tribunal de Contas da União) entregou à equipe de Lula um relatório com críticas à gestão de diversos órgãos da administração federal. Nesse documento, os auditores apontam que a Codevasf não faz "análise criteriosa" sobre o interesse social e a necessidade das obras, e que aumentou a dependência da estatal sobre as emendas parlamentares.
 

Depois de Lira e Carlos Pereira Júnior, os nomes no topo da lista de autores de indicações de RP9 já pagas são o senador Jader Barbalho (MDB-PA), Dener Bolonha, funcionário do Hospital do Amor, em Jales (SP), e o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB).
 

A lista de autores das indicações tem 2.031 nomes extraídos dos ofícios divulgados pelo Congresso, sendo que o levantamento conseguiu cruzar pagamentos de 1.454 deles.
 

A diferença ocorre porque nem todas as indicações são executadas --as emendas RP9 não são impositivas. Em alguns casos ainda é praticamente inviável apontar quem emplacou a liberação da verba por causa da falta de transparência.
 

A equipe de Lula teme que uma decisão do STF contra as emendas RP9 atrapalhe na aproximação do futuro governo com Lira. Peça-chave na negociação com o Congresso para aprovar a PEC da Transição, o presidente da Câmara defende a continuidade das emendas RP9.
 

Para Alessandra Cardoso, a dificuldade de mudar o rumo da distribuição dessa verba no Congresso reforça a importância do julgamento do STF.
 

"A gente espera que esse caminho seja encaminhado o mais rápido possível. O que estamos vendo é um sangramento absurdo desses recursos, sem que haja prioridades", disse ela.
 

Hoje há quatro tipos de emendas: as individuais (com a mesma cota para cada deputado e senador), as de bancada, de comissão e as do relator. A proposta de Orçamento para 2023, que está em discussão no Congresso, tem cerca de R$ 19 bilhões reservados para esse tipo de verba.

Bahia Notíicias

Ao ameaçar processar pastores, Lula provoca surpresa e revolta nas bancadas evangélicas


Juíza nega pedido de Lula para receber visitas de religiosos uma vez por  semana | Notícias Gospel

Lula precisa rezar muito até ser perdoado pelos pastores

Denise Rothenburg
Correio Braziliense

 A Frente Parlamentar Evangélica não gostou de ver o presidente eleito dizendo que poderia responsabilizar pastores por mortes na pandemia. Uma nota assinada pelo coordenador da FPE, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), mostra a revolta das bancadas evangélicas.

Os parlamentares consideraram a fala de Lula “um claro intuito de perseguir preconceituosamente a comunidade evangélica, visto que não se referiu a nenhuma outra organização religiosa, sindical ou a qualquer outro segmento da sociedade que defende a ampla liberdade de escolha de seus integrantes”, diz o texto.

CASO ASSUMA… – A nota inclusive conclama os evangélicos a refletir sobre os fundamentos e princípios que nortearão a República, “caso Lula assuma e permaneça” na Presidência.

Se já está difícil o futuro governo conseguir uma maioria folgada que aprove uma PEC, como a da transição com tudo o que o governo deseja, imagine agora, depois dessa reação da bancada.

A avaliação geral é a de que Lula tem que descer do palanque a passar a falar como presidente eleito, buscando agregar e não cobrar ou ameaçar segmentos. Até aqui, enquanto a PEC é discutida no Senado, o clima na Câmara periga azedar antes mesmo de o texto começar a tramitar.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – O problema é que Lula está se sentindo o máximo. Já marcou uma série de viagens internacionais que nada têm a ver com interesses comerciais e diplomáticos do país. Acha que vai se tornar o político mais importante do mundo. Quando acordar do sonho e perceber que é apenas um ex-presidiário, que ganhou uma segunda chance para evitar a reeleição de Bolsonaro, pode ser tarde demais. (C.N.)

Sinceramente, a equipe de transição parece mais coluna social do que grupo de trabalho


Copa do Mundo: Alckmin e integrantes da equipe de transição assistem no  CCBB estreia do Brasil | Política | G1

Na arquibancada da transição, não cabem mais torcedores

Hélio Schwartsman
Folha

Com mais de 400 integrantes e aumentando, a equipe de transição de governo de Luiz Inácio Lula da Silva parece mais um recorte de coluna social do que um grupo de trabalho. Desde que não tenham se esquecido de incluir algumas pessoas que vão efetivamente reunir informações para depois repassá-las aos futuros ministros, facilitando os primeiros passos da futura administração, não penso que seja um mal.

Eu diria até que, depois de quatro anos de trevas sob Bolsonaro, o país precisava de algo assim, um espaço simbólico no qual indivíduos com as mais diferentes orientações políticas e ideológicas possam se reunir civilizadamente para traçar diagnósticos e debater políticas públicas.

EXEMPLO DE FROTA – O presidente eleito também está usando as nomeações para sinalizar que, de sua parte, não haverá disposições revanchistas.

Prova-o o convite a Alexandre Frota para que se incorporasse à equipe. Frota, que acabou desistindo de assumir o posto, é um ex-bolsonarista que se elegera deputado como um dos mais estridentes críticos do PT e de Lula.

É claro que nem tudo é só festa. Nomeações de antigos desafetos inevitavelmente provocam ciumeiras nas fileiras petistas. A vantagem do centralismo democrático que Lula exerce sobre o partido é que esses movimentos potencialmente desestabilizadores nunca vão muito longe. Ninguém ousa bater de frente com o chefe.

HAVERÁ FRUSTRAÇÕES – O problema com o clima ultra-agregador da transição é que ele não pode durar para sempre. Há um número máximo de semanas que o presidente eleito pode usar para ganhar tempo enquanto vai montando uma equipe, não de transição, mas de governo.

Muito em breve, Lula terá de tomar decisões sobre ministérios e políticas que deixarão mais gente frustrada do que satisfeita.

Nada muito surpreendente. Governar é basicamente arbitrar vencedores e perdedores e encimar as questões do dia a dia da administração com alguns grandes gestos simbólicos.

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Fernando Haddad substituindo Lula na Febraban, um equívoco duplo


Sensação doi a de que havia uma expectativa além da conta

Pedro do Coutto

Na sexta-feira, Fernando Haddad representando o presidente eleito, Lula da Silva, almoçou com a Federação Brasileira de Bancos. A repercussão, como era esperada, foi grande, uma vez que Haddad teve o seu nome destacado na imprensa nos últimos dias como possível ministro da Fazenda no governo que se inicia em 1º de janeiro de 2023.

Acredito que houve um equívoco duplo, pois nem Fernando Haddad estava à vontade no almoço e nem o mercado interpretou como normal a representação; e, assim, considerou que a presença de Haddad era para encaminhar o diálogo entre o governo eleito e o mercado financeiro.

INTERPRETAÇÃO ERRADA – Não tem cabimento a interpretação, pois Haddad não estava com o seu nome indicado para algum ministério ou sequer o governo deve satisfação ao famoso mercado para nomear alguém para o Ministério da Fazenda ou da Economia. É claro que o diálogo entre o governo e o empresariado, no caso o mercado financeiro, é comum. Mas isso na medida do interesse de ambas as partes.

Não se pode nomear alguém por ter o nome bem aceito no mercado. E nem esse pode esperar que tenha uma oportunidade para se manifestar a favor ou contra um componente do governo federal. Portanto, interpretar a presença de Haddad como uma representação direta do presidente Lula é um exagero.

Tão exagerado que houve uma frustração do que se chama mercado, que também usa uma mão de tigre, para aceitar ideias da nova administração que se instala no país. Haddad em seu discurso falou sobre generalidades, pois não tinha delegação de Lula para falar em seu nome. Disse o que achava dentro do limite. A atmosfera de decepção não é uma consequência lógica do encontro. A sensação que ficou é que havia uma expectativa além da conta.

BOM SENSO – Haddad referiu-se a pontos óbvios, que partem do bom senso, a exemplo da melhor qualidade de gasto público, como destacou a reportagem de Lucas Bombana, na Folha de S. Paulo deste sábado. No Estado de S. Paulo, a matéria sobre o almoço foi de Fernanda Guimarães.

A reportagem do O Globo sobre o encontro foi de autoria de João Sorima Neto, Rennan Setti, Mariana Barbosa e Vitor da Costa destaca que o almoço resultou numa frustração no mercado e alguns banqueiros consideraram o discurso genérico e sem senso de urgência. Mas esqueceram que Haddad não é o presidente da República e nem poderia falar em seu nome.

Foi, portanto, conforme coloquei no título da matéria, um duplo equívoco, tanto de Lula, quanto da Febraban, ao transformarem um almoço cordial numa pré-estreia de anúncio de programa que só compete a um presidente da República revelar.

DEVANEIO – Em uma entrevista pelo telefone a Alexa Salomão, o economista Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central, esclareceu que o convite que está sendo divulgado para que ele assuma a pasta do Planejamento, não passa “de um devaneio de algumas agências de notícias”. Ele disse que, por razões pessoais, e pelo seu momento na vida, não tem intenção alguma de ter cargos em Brasília. Mas, digo, entre ter intenção e aceitar alguma convocação vai uma distância muito grande.

A equipe econômica da transição conta também com os economistas André Lara Resende, Nelson Barbosa e Guilherme Melo.  Os pontos em destaque são os que se referem à questão da PEC do Orçamento que será encaminhada a partir de amanhã ou terça-feira pelo próprio presidente Lula da Silva em Brasília. Logo, se verifica que se a PEC do Orçamento será articulada por Lula, Haddad não poderia antecipar pensamentos presidenciais no almoço com a Febraban.

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