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Zema tenta ser alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo
Pedro do Coutto
A política brasileira costuma impor um dilema permanente aos candidatos que tentam romper a lógica da polarização. Em teoria, existe um amplo espaço para um nome capaz de dialogar com eleitores cansados da disputa entre o presidente Lula da Silva e o grupo político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Na prática, porém, transformar esse espaço potencial em votos tem se revelado uma tarefa muito mais difícil do que sugerem as análises de bastidores.
É exatamente esse desafio que a reportagem de Caio Sartori, publicada por O Globo neste domingo, coloca em evidência ao analisar a estratégia do governador de Minas Gerais, Romeu Zema. O mineiro procura construir uma candidatura presidencial que se apresente como alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo, preservando pontes com setores do eleitorado conservador, mas evitando ficar completamente subordinado ao núcleo político da família Bolsonaro.
EQUAÇÃO DISTANTE – O problema é que os números disponíveis até o momento mostram que essa equação permanece distante de produzir os resultados esperados. Pesquisas recentes de intenção de voto indicam que a disputa presidencial continua organizada em torno de dois grandes polos. Lula mantém uma base eleitoral consolidada, enquanto Flávio Bolsonaro, apontado como possível representante do campo bolsonarista, concentra a maior parte do eleitorado identificado com a direita.
Nesse cenário, Zema aparece muito atrás dos dois principais concorrentes, sem conseguir converter sua elevada aprovação em Minas Gerais em competitividade nacional. Esse fenômeno não representa uma novidade na política brasileira. Desde a redemocratização, diversos candidatos tentaram ocupar o chamado “centro eleitoral”, apostando no desgaste das forças dominantes.
Em diferentes momentos, nomes como Marina Silva, Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, Simone Tebet e Sergio Moro buscaram romper a lógica da polarização. Em comum, todos encontraram um obstáculo semelhante: quando a disputa presidencial ganha intensidade, boa parte do eleitorado tende a migrar para candidaturas percebidas como efetivamente capazes de vencer.
DIFICULDADES – É justamente esse comportamento que ajuda a explicar as dificuldades enfrentadas por Romeu Zema. Embora sua gestão em Minas Gerais seja frequentemente elogiada por setores empresariais, analistas políticos apontam que notoriedade regional não se traduz automaticamente em densidade eleitoral nacional.
O governador construiu sua imagem associada à eficiência administrativa, ao controle das contas públicas e à redução do tamanho do Estado. São atributos relevantes, mas que não necessariamente despertam mobilização emocional em uma eleição presidencial marcada por identidades políticas muito fortes.
A polarização brasileira deixou de ser apenas uma divergência entre programas de governo. Ela passou a funcionar como uma disputa de pertencimento político. Nesse ambiente, muitos eleitores votam menos por afinidade com propostas específicas e mais pela necessidade de impedir a vitória do adversário. O chamado “voto negativo” tornou-se um dos principais motores das eleições nacionais.
TRABALHO DUPLO – Esse aspecto ajuda a compreender por que candidatos posicionados como alternativa encontram tantas dificuldades para crescer. Eles precisam convencer simultaneamente dois públicos distintos: aqueles que rejeitam Lula e aqueles que rejeitam Bolsonaro. Ao mesmo tempo, precisam evitar serem identificados como aliados de qualquer um dos dois polos, sob pena de perder justamente o discurso de independência que procuram construir.
No caso de Romeu Zema, existe ainda um fator adicional. O governador nunca rompeu completamente com o eleitorado bolsonarista. Pelo contrário, em diferentes ocasiões manifestou apoio ao ex-presidente e adotou posições convergentes em temas econômicos e de costumes. Essa aproximação facilitou sua aceitação entre eleitores conservadores, mas também limitou sua capacidade de atrair segmentos moderados que desejam uma alternativa efetivamente distante da polarização.
Ao mesmo tempo, a própria existência de Flávio Bolsonaro como possível candidato dificulta a estratégia mineira. Se o bolsonarismo apresentar um representante competitivo, a tendência natural é que grande parte do eleitorado de direita permaneça unificada em torno desse nome, reduzindo o espaço disponível para candidaturas paralelas. A recente pesquisa AtlasIntel/Bloomberg ilustra esse cenário ao mostrar Flávio Bolsonaro muito à frente de Zema nas simulações de primeiro turno.
MÁQUINAS PARTIDÁRIAS – Há também um componente estrutural frequentemente negligenciado. Disputas presidenciais exigem máquinas partidárias robustas, alianças nacionais, capilaridade regional e tempo suficiente para consolidar imagem pública em todos os estados. Minas Gerais oferece enorme importância eleitoral, mas sozinha não produz uma candidatura nacional competitiva.
Além disso, o ambiente político brasileiro continua profundamente nacionalizado. Temas como economia, inflação, segurança pública, relações internacionais e decisões do Supremo Tribunal Federal acabam ocupando espaço muito maior do que agendas administrativas estaduais. Isso favorece personagens que já participam diariamente do debate nacional.
Não significa que a candidatura de Romeu Zema esteja condenada ao fracasso. A política brasileira possui histórico de mudanças rápidas, especialmente quando crises econômicas ou fatos extraordinários alteram o humor do eleitorado. No entanto, até o momento, os dados sugerem que a aposta numa terceira via continua esbarrando no mesmo obstáculo que derrotou diversos projetos semelhantes nas últimas eleições.
POLARIZAÇÃO – O eleitor brasileiro frequentemente manifesta, em pesquisas qualitativas, o desejo de superar a polarização. Entretanto, quando chega o momento da escolha efetiva nas urnas, tende a retornar aos dois campos que concentram maior capacidade de disputa pelo poder.
Essa aparente contradição talvez seja uma das características mais marcantes da política nacional contemporânea. Existe demanda por renovação, mas ela ainda não encontrou uma liderança capaz de romper as barreiras construídas pela intensa identificação entre lulismo e bolsonarismo. Enquanto essa dinâmica permanecer predominante, candidaturas alternativas continuarão enfrentando um paradoxo difícil de resolver: representar o desejo de mudança sem conseguir convencer o eleitor de que possuem condições reais de vencer.
É nesse cenário que Romeu Zema tenta construir seu projeto presidencial. A estratégia faz sentido do ponto de vista político e busca ocupar um espaço teoricamente disponível. Os fatos, contudo, mostram que transformar esse espaço em votos continua sendo o maior desafio da sucessão presidencial brasileira.