Publicado em 21 de setembro de 2022 por Tribuna da Internet

Charge do Tiago Recchia (Arquivo Google)
Carlos Newton
Sob o título “É natural haver divergência entre pesquisas eleitorais”, o jornalão O Globo publicou há três dias um curioso editorial, com o maior destaque, e que serviu de manchete para a Editoria de Opinião. E tem como base a afirmação de que “a campanha eleitoral foi tomada nos últimos dias por intenso debate a respeito da discrepância no resultado de pesquisas de opinião”.
Como editor da Tribuna da Internet, leio todos os jornais, revistas e portais de política. Por isso, tenho certeza de que não havia “intenso debate a respeito”. Apenas Bolsonaro e seu entorno criticam as pesquisas, como sempre fazem. E, com toda certeza, na mídia houve apenas um artigo contestando as pesquisas, e saiu justamente aqui na TI, no dia 16, sob o título “Escolha sua pesquisa! Lula lidera com 15%, empate técnico ou Bolsonaro à frente com 13 pontos”. Dois dias depois, veio a réplica de O Globo, que desconheceu as pesquisas favoráveis a Bolsonaro (Paraná e Brasmarket).
DAVID E GOLIAS – Deve ser coincidência. Não parece viável que a direção de O Globo tenha saído de seus cuidados para contestar a Tribuna, único órgão da mídia nacional que faz cobertura do inquérito que investiga os herdeiros de Roberto Marinho, acusados de crimes fiscais, lavagem de dinheiro e outros delitos graves.
Diz o editorial do jornalão: “Na corrida presidencial, a distância entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro foi de 15 pontos percentuais no Datafolha, 12 no Ipec e oito no Quaest. Na disputa pelo governo mineiro, a diferença entre o líder Romeu Zema e o desafiante Alexandre Kalil é de 28 no Datafolha, 18 no Quaest e 16 no Ipec. No Rio, o governador Cláudio Castro livra 15 pontos sobre Marcelo Freixo no Ipec, dez no Quaest e apenas quatro no Datafolha (na prática, um empate). São números desconcertantes para quem quer conhecer os fatos”, admite o editorial.
JUSTIFICATIVA – A seguir, vem a argumentação de O Globo, que torce por Lula com a mesma intensidade que eu torço por Ciro Gomes.
Após reconhecer que “os resultados despertaram incredulidade”, alega o editorial. “A discrepância entre as pesquisas presidenciais pode ser facilmente explicada pelo percentual de eleitores de baixa renda que os institutos entrevistaram em suas amostras: 57% no Ipec, 50% no Datafolha e 38% no Quaest. Apenas este último trata os dados para que correspondam às informações disponíveis sobre renda, embora os demais façam outros ajustes”, diz, acrescentando:
“Pelas últimas sondagens do IBGE, os brasileiros de baixa renda são estimados em 44% da população, mas, como o último Censo foi feito há 12 anos, ninguém sabe com precisão. Isso dá aos institutos certa latitude para tratar suas amostras de acordo com o que consideram mais fidedigno diante do cenário atual. É esse tipo de escolha que pode abrir espaço a diferenças nos resultados que ultrapassem a margem de erro”.
Caramba, amigas e amigos! Será que O Globo acredita mesmo nisso?
DIZ O ESPECIALISTA – Para contrapor esse argumento pueril de O Globo, vamos lembrar recente entrevista do cientista político Andrei Roman, criador do instituto AtlasIntel, que mais acertou resultados nas eleições presidenciais americanas em 2020 e teve a maior aproximação, entre todas as pesquisas, nos resultados apurados nas eleições de capitais brasileiras naquele ano.
Na opinião do especialista, ao contrário do que afirma O Globo, o atraso no Censo do IBGE em nada prejudica as pesquisas:
“Eu confio mais na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) para me dizer qual é a distribuição de renda da população do que no Datafolha. A PNAD, do IBGE, tem uma amostra de centenas de milhares de domicílios, é uma pesquisa muito confiável a partir de uma metodologia científica altamente precisa e que basicamente serve para a criação de todas as políticas públicas em relação à pobreza no Brasil. Existe sim uma flutuação, mas ainda assim a PNAD é uma âncora”, salienta Andrei Roman.
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P.S. – Diante dessa situação, volto a expor meu argumento. Não haveria maiores polêmicas se os institutos divulgassem apenas a pesquisa espontânea, na qual a primeira pergunta é: “Em quem você vai votar”. Simples assim. Todos os eleitores então saberiam que ainda há 30% de indecisos, brancos e nulos. Com isso, haveria uma eleição muito mais limpa e menos direcionada do que essa sinistra polarização entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, dois candidatos que o Brasil deveria esquecer. (C.N.)