terça-feira, setembro 20, 2022

A campanha no funeral da rainha




De certa forma, presidente erra de rainha. Ele deveria ir ao funeral de Vitória, uma grande puritana

Por Fernando Gabeira (foto)

Na semana passada, escrevi um longo artigo afirmando que a campanha política no Brasil é imprevisível. Mesmo com marqueteiros, estrategistas e análises minuciosas na mídia, os fatos escapam ao nosso controle. Quem diria que o Auxílio Brasil — que atropelou tudo para investir R$ 60,7 bilhões na salvação de Bolsonaro — não teria efeito algum entre os mais pobres?

Retomo o tema da imprevisibilidade, com uma nova pergunta: o que você diria se perguntassem no início do ano qual o papel da rainha da Inglaterra nas eleições do Brasil?

Certamente responderia com uma gargalhada. Proclamamos a República ainda no século XIX, não temos laços com a monarquia. A morte da rainha Elizabeth seria apenas uma notícia de destaque, nada mais.

No entanto, para enfatizar a força do acaso, a passagem da rainha foi terrível para a campanha de Bolsonaro. Ele esperava que o grande esforço e a grande transgressão do 7 de Setembro turbinassem sua posição nas pesquisas. Mas o tema foi ofuscado em seguida pela notícia da morte de Elizabeth.

Agora, Bolsonaro vai aos funerais em Londres para recuperar o prejuízo. Conseguirá? Tenho dito que a única forma de alterar o quadro seria ressuscitar a rainha.

Embora presidente do país do Novo Mundo, Bolsonaro disse que Elizabeth é nossa rainha. Isso certamente a agradaria, mas, se ele se apresentasse como “o imbrochável”, certamente ouviria do fundo do caixão forrado de chumbo:

— I beg your pardon.

De certa forma, Bolsonaro erra de rainha. Ele deveria ir ao funeral de Vitória, uma grande puritana, o que fortaleceria sua campanha de costumes, Deus, pátria e família.

Bolsonaro prega algo que não vive, mas talvez isso fosse comum no regime vitoriano. Sempre houve exceções, como sir Richard Burton. No século XIX, ele afirmava que as mulheres inglesas gozavam; não se tratava apenas de abrir as pernas, fechar os olhos e pensar nas glórias do Império britânico, como aconselhavam os mais velhos.

Certamente, Burton era uma espécie de marxista cultural de sua época, embora tenha vindo ao Brasil em busca de riquezas minerais, um tema que agrada Bolsonaro. Talvez não agrade tanto os mineiros que se lembram de suas montanhas perdidas. Os meninos seguem para a escola. Os homens olham para o chão. Os ingleses compram a mina, como diziam os versos de Carlos Drummond de Andrade sobre Itabira.

Se Elizabeth era a rainha de Bolsonaro, Charles é seu rei. Seria uma amizade improvável. O novo rei é preocupado com a destruição ambiental. Não quer que seus netos o vejam como cúmplice omisso da devastação do planeta. Mais um marxista cultural?

De novo, concluo que a única rainha que atenderia a sede eleitoral de Bolsonaro seria Vitória . Ainda assim, Bolsonaro não poderia se apresentar a ela aos brados de “imbrochável, imbrochável”. No lugar de um civilizado “I beg your pardon”, ouviríamos:

— Guardas, levem esse louco.

Depois de Londres, Bolsonaro terá ainda uma nova cartada: dirá na ONU que seu governo protege a Amazônia, que a fumaça que cobre a região não é de fogo e que as imagens de satélite sobre o desmatamento são apenas grosseiras manipulações.

São duas oportunidades em que tentará se passar por presidente do Brasil, depois de ter vivido quase quatro anos apenas o papel de um aloprado, como ele próprio chegou a se definir.

Nas próximas eleições, deixarei um espaço muito maior para o imprevisto, até para o Sobrenatural de Almeida, como diria Nelson Rodrigues. Se me perguntarem qual o papel das imagens do telescópio espacial James Webb nas eleições, humildemente, vou considerar.

Como entender uma viagem do presidente a Londres para um funeral, depois de ele ter desprezado a morte de quase 700 mil pessoas em seu país? Eleições são mesmo imprevisíveis.

O Globo

Ministério não é panaceia - Editorial




Vença Lula ou Bolsonaro, crescerá o número de Ministérios. Mas isso de nada serve ao País se o governo não for capaz de formular boas políticas norteado pelos interesses da sociedade

O petista Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro parecem concordar que há uma solução mágica para todos os problemas do País: a criação de Ministérios. O demiurgo de Garanhuns, até o momento, prometeu criar nada menos do que dez pastas. O incumbente, mais quatro. 

A desfaçatez de Bolsonaro chega a ser ainda mais evidente: afinal, ele foi eleito em 2018 prometendo formar um governo “enxuto”, com apenas 15 Ministérios, o suficiente, em suas palavras, para representar “os interesses da população, e não dos partidos políticos”. Pois Bolsonaro não só criou mais oito pastas durante o mandato, como agora promete criar outras quatro, caso seja reconduzido ao cargo.

Se Lula for eleito, seu governo poderá ser composto por 32 Ministérios a partir de 2023 – 9 a mais do que a atual configuração da Esplanada. Isso inclui o desmembramento de pastas que já existem, como os Ministérios da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, da Economia e da Justiça e da Segurança Pública, além da recriação de outras, como o Ministério da Pesca, da Cultura e do Planejamento. Lula prometeu ainda a criação de um Ministério dos Povos Originários. “Se a gente criou o Ministério da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos e o da Pesca, por que a gente não pode criar um Ministério para tratar das questões indígenas?”, disse o petista durante um comício em Brasília.

Já Bolsonaro pretende recriar os Ministérios da Pesca, hoje vinculado ao Ministério da Agricultura; do Esporte, vinculado à pasta da Cidadania; da Indústria e Comércio, hoje sob a alçada do Ministério da Economia; e da Segurança Pública, que desde o governo de Michel Temer compõe o Ministério da Justiça.

É inegável que há um forte simbolismo na criação de um Ministério. É uma sinalização inequívoca para a sociedade de que a área abarcada pela pasta é considerada prioritária para o governo que a criou. A questão é que símbolos não resolvem problemas. Políticas públicas bem concebidas e executadas, sim.

Um governo pode ter 40 Ministérios e não cuidar bem das questões mais prementes para a população. Pode ter poucas pastas e também não solucioná-las. O ponto principal, portanto, não é o número de Ministérios. Cada governo organiza sua estrutura administrativa da forma que julgar mais conveniente. Fundamental é haver disposição genuína para governar tendo os interesses de todos os segmentos da sociedade como norte indesviável.

A história recente do País está cheia de exemplos de Ministérios que foram criados apenas para acomodar interesses políticos, no melhor cenário, ou abrigar apaniguados do governante de turno para fins de corrupção, no pior. Há até uma expressão para essa forma descarada de patrimonialismo: a entrega do Ministério com “porteira fechada”, ou seja, o “donatário” de uma parte da administração pública tem liberdade para fazer o que bem entender, nem sempre dentro da lei.

O regime presidencialista, combinado com um quadro multipartidário, implica uma divisão do poder político que se reflete na configuração da estrutura do Poder Executivo. Em tese, nada há de ruim nisso. O que é inaceitável é governar por força do pensamento mágico, como se a mera criação de Ministérios fosse, por si só, a solução para os problemas do País. Ou, pior, conceber Ministérios para comprar apoio político e, dessa forma, evitar a eventual responsabilização do mau governante. Sejam muitos ou poucos, os Ministérios devem organizar a administração de forma a bem servir a sociedade.

O problema é que tanto Lula como Bolsonaro, a menos de 20 dias da eleição, ainda não deixaram claro quais são seus planos concretos de governo, razão pela qual não se sabe qual será a serventia dos prometidos novos Ministérios, caso saiam do papel. Certamente há muitos eleitores crentes de que a batelada de Ministérios de Lula e Bolsonaro estará a serviço de um projeto sólido de País. Mas não se pode condenar os eleitores que suspeitam de que se trata de mais um festival de voluntarismo populista, e que, passado o entusiasmo da criação dos Ministérios, seja o da Pesca, seja o dos Povos Originários, os nobres propósitos darão lugar aos interesses privados dos que apoiam o governo em troca de benesses. Para isso, nem mesmo um Ministério do Espírito Público daria jeito. 

O Estado de São Paulo

Família real, líderes mundiais e milhares se reúnem para funeral da rainha Elizabeth II; acompanhe




Monarca com o reinado mais longevo do Reino Unido, que morreu no último dia 8, aos 96 anos, será enterrada em Windsor ao lado de seus pais e do príncipe Philip

A nação britânica dá seu último adeus à monarca com o reinado mais longevo na história do país nesta segunda-feira (19). A família real, líderes mundiais e milhares de espectadores acompanham em Londres os últimos momentos da cerimônia de despedida da rainha Elizabeth II.

Poucas pessoas vivas se lembram de um tempo antes da rainha Elizabeth II.

Seu reinado de sete décadas começou após a Segunda Guerra Mundial, perseverou nos últimos espasmos do império britânico, a insegurança da Guerra Fria e o alvorecer de um novo milênio, fornecendo um contrapeso ao ritmo implacável das mudanças.

Para cada um desses 70 anos, a Rainha permaneceu o elemento central na psique coletiva britânica. Sua morte, aos 96 anos, mergulhou o país no luto e em uma nova era desconhecida.

Mas, nesta segunda-feira (19), a nação dirá seu último adeus. O Reino Unido parou para o funeral de Estado de Elizabeth II, que deve ser um dos eventos mais vistos da história recente.

Primeiro funeral de Estado na Grã-Bretanha desde a morte de Winston Churchill, em 1965, esta segunda-feira marca o clímax de um longo período de luto que viu os britânicos comparecerem em massa para se juntar às comemorações de Elizabeth.

Milhares fizeram fila por várias horas para ver seu caixão no Westminster Hall do Parlamento britânico, e eventos memoriais foram realizados em vilas, cidades e vilarejos de todo o país.

O rei Charles III, filho e herdeiro de Elizabeth que assumiu o trono em meio a uma onda de luto nacional, se juntou ao resto da família real na Abadia de Westminster para homenagear sua mãe.

Após o serviço fúnebre, a rainha realizará sua jornada final enquanto seu caixão é levado para Windsor e a falecida monarca é enterrada em cerimônia privada – o fim de um período sombrio de transição e o último ato da longa e importante segunda era elisabetana da Grã-Bretanha.

O funeral de Estado começou às 7h, no horário de Brasília.

Fique conosco enquanto o conduzimos por este momento histórico para a família real britânica e para o Reino Unido.

Rainha Elizabeth II é sepultada

Em comunicado oficial, o site da família real confirmou: “A Rainha foi enterrada junto com o Duque de Edimburgo, na Capela Memorial Rei Jorge VI”.

Príncipe Harry e esposa ficam na segunda fileira no funeral da rainha

O príncipe Harry e sua esposa, Megan Markle, sentaram-se na segunda fileira durante a cerimônia fúnebre da rainha Elizabeth II na Abadia de Westminster nesta segunda-feira (19).

Por abdicarem das obrigações e status da realeza britânica, o casal ficou posicionado atrás do rei Charles III, da rainha consorte, Camilla, do príncipe Andrew e da princesa Anne.

Harry e Megan ficaram ao lado da princesa Beatrice e seu esposo, Edoardo Mapelli Mozzi, além de outros membros da monarquia britânica.

Prefeito de Londres agradece às pessoas em luto que prestaram homenagem à rainha

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, agradeceu às “centenas de milhares” de pessoas que viajaram para Londres para prestar homenagem à rainha Elizabeth II.

Khan também deu seus “sinceros agradecimentos” nesta segunda-feira à equipe de aplicação da lei, serviço de emergência, transporte e outros que “trabalharam incansavelmente para tornar isso possível em nossa cidade”.

Família real deixa a Capela de Saint George

O rei Charles III e Camilla, a rainha consorte, saíram da capela após a cerimônia póstuma.

Eles pararam para agradecer ao deão e outros envolvidos no evento, antes de deixar o local.

Os dois foram acompanhados por outros membros da família real.

Joias são retiradas do caixão e rainha Elizabeth II é sepultada em Windsor

Antes do hino final, “Christ is made of sure foundation”, o Joalheiro da Coroa removeu a Coroa do Estado Imperial e o Orbe e Cetro do caixão da rainha.

Com ajuda, o joalheiro as passou ao deão de Windsor para colocar no altar.

Então, o caixão da rainha Elizabeth II foi baixado no Royal Vault, a cripta real abaixo da Capela de Saint George, onde muitos membros da família real foram enterrados.

O rei Charles III colocou um uniforme de Elizabeth II no caixão de sua falecida mãe.

Este é o último momento em que o público verá o caixão da monarca.

No entanto, à medida que a cerimônia em Windsor chega ao fim e o caixão está abaixo da capela, o dia não acabou para a família real britânica.

O evento marcou o fim dos arranjos cerimoniais públicos para a falecida monarca. Porém um funeral privado será realizada para a família ainda nesta segunda.

Nesta ocasião, de fato a rainha será transferida para a Capela Memorial do Rei George VI, localizada em outro lugar dentro da Capela de Saint George, onde ela será sepultada ao lado de seu amado marido de 73 anos, príncipe Philip.

A Capela Memorial é onde o pai e a mãe da rainha foram enterrados e onde permanece um caixão com as cinzas de sua irmã, princesa Margaret.

Ao final do serviço, foi tocado novamente o hino nacional britânico “God Save the King” e a família real deixou a Capella.

Na saída, o rei Charles III e a rainha consorte Camilla pararam para agradecer o deão e outros envolvidos na cerimônia.

A dupla foi seguida pelos outros membros da realeza.

CNN

Pode a monarquia ser democrática?




O voto do cidadão em pouco difere daquilo que nas relações privadas apelidamos de contrato de adesão, onde a liberdade do cidadão se limita a dizer “sim” ou “não” à totalidade de um programa político. 

Por Rodrigo Adão da Fonseca (foto)

Por estes dias, o mundo assiste com respeito e até espanto, às cerimónias fúnebres da Rainha Isabel II. Como monarca, ela chefiou não apenas o Reino Unido, mas, ao longo do seu reinado, 32 Estados independentes, 14 dos quais à data da sua morte. Liderou ainda a Commonwealth, uma comunidade de 53 países de inspiração britânica, a Casa Real de Windsor, a Igreja de Inglaterra, e as Forças Armadas do Reino Unido. O seu reinado, sem nunca ter sido eleita, por direito recebido de forma hereditária, durou 70 anos. De todo o mundo surgem manifestações de apreço pelo seu papel e peso na História – as mais impressionantes do próprio Reino Unido, onde pessoas de todas as idades, origens sociais e crenças esperaram horas a fio (em alguns casos, mais de 24 horas), para poderem velar por breves instantes o seu corpo em câmara ardente –, mas também críticas, sobretudo dirigidas, não tanto à pessoa da rainha Isabel II, mas da instituição que representa – a Monarquia – por ela não ser “democrática”.

A Monarquia não é seguramente “democrática”, mas não deixa de ser compatível com o que consideramos hoje ser um Estado de Direito moderno, como é o caso do Reino Unido, convivendo bem com outras instituições, elas próprias, democráticas. Até porque, não sendo fã de inerências monárquicas não posso também esquecer – e aqui recordo – que a palavra “democracia”, sendo usada com frequência como um lugar-comum, abarca toda uma série de conceitos que a transcendem. À democracia são imputadas com frequências funções (e virtudes) que correspondem ao exercício da liberdade ou à normal tutela daquilo que é um Estado de Direito, estando hoje profundamente em crise.

Não é de agora, a confusão vem de longe, e não é inocente: há forças políticas, normalmente de esquerda, que tentam imputar à democracia a ideia de que ela só se realiza quando prossegue um determinado programa político específico. Para este núcleo de pessoas, a democracia só se concretiza na eleição daqueles que perseguem e defendem certas e determinadas políticas, devendo haver “resistência” quando a vontade popular se encaminha para outro tipo de escolhas, as quais, sendo expressão do voto ou do sentir popular, passarão a “não ser democráticas”. Neste quadro de pensamento, democracia e liberdade são habitualmente apresentadas como faces de uma mesma moeda. E se me parece consensual que sem democracia não existe liberdade, há muito que defendo que no jogo de forças entre ambos os conceitos o papel da democracia tem sido excessivamente valorizado. A democracia em si não tem o valor social que por vezes muitos lhe atribuem: ela é apenas uma forma de governo das sociedades, que se impôs pelos seus méritos na generalidade dos países desenvolvidos, mas assiste apenas na afirmação da soberania popular como princípio fundamental, não sendo, contudo, condição suficiente para a realização da pessoa na comunidade: tal só ocorre quando se defendem as liberdades.

A democracia é condição necessária, é o sistema de governo que permite que a globalidade dos cidadãos possam escolher os seus governantes. A democracia serve para organizar um poder que emana da generalidade dos cidadãos. Na verdade, e na impossibilidade de existir uma tutela direta exercida pelos cidadãos sobre todos os elementos da gestão comunitária, torna-se necessário definir um processo de escolha dos que, sob mandato, vão gerir a esfera pública. A democracia diz, portanto, respeito à questão quem governa. E pressupõe que a escolha reside em cada um dos cidadãos. Tem, assim, uma justificação funcional, sendo esse o seu valor social.

Valor esse que está profundamente depauperado em várias democracias ocidentais. Com o crescimento exponencial do Estado, grande parte das relações sociais passaram a ser arbitradas e mediadas por canais democráticos, criando dificuldades e tensões insanáveis entre aquilo que são as regras do jogo político e a efetiva protecção das liberdades concretas. O alargamento do papel do Estado, para lá da protecção dos direitos fundamentais, administração da justiça e de safety nets bem contratualizadas, concentrando na ação coletiva um conjunto de funções tidas como sociais e de regulação, conduziu-nos a um modelo de sociedade que privilegia excessivamente liberdades prescritivas (ou ditas positivas), em detrimento ou esvaziando liberdades negativas básicas (tais como as apresentaram Stuart Mill ou Isaiah Berlin). Ora, o recurso aos mecanismos democráticos para regulação de inúmeros aspetos da nossa vida social conduz às perplexidades a que assistimos em inúmeros países ocidentais, em que uma larga franja da população, não se revendo nos que presidem ao poder político, não compreende que grande parte da sua agonia é fruto, precisamente, da excessiva concentração de funções na esfera estatal, que lhes restringe – para lá do que é necessário – as liberdades individuais.

Em muitos casos, a democracia tem-se tornado numa ditadura da maioria, reduzindo as liberdades individuais. Tal é resultado da tentação de querer imputar “valores” à própria democracia, como se um sistema de governo funcional tivesse em si mesmo uma dimensão de promoção de valores ou de um dado programa político – que não tem (ou, dito de outra forma, não deveria ter). Em Portugal, por estes dias, vivemos precisamente este drama perante a falência óbvia dos sistemas de saúde e de segurança social, sem que nenhuma força política tenha a coragem de dizer por medo de “sacrilégio”, o que é mais do que sabido: temos Estado a mais na saúde e na previdência.

É por isso curioso assistir a tão significativo enaltecimento da Monarquia, num tempo em que é evidente em tantos Estados que escolheram o republicanismo que muitos cidadãos se sentem defraudados com a resposta política.

Desde logo, o desalento é transversal, não sendo monopólio de nenhuma área política. Mas como poderia o resultado ser diferente? Como poderia não haver desilusão, se a desproporção que existe entre as expectativas que os cidadãos colocam nos políticos e no Estado, tal a multiplicidade de funções que se concentram na esfera Estatal, e a forma como a “soberania popular” é exercida, é enorme?

Desde logo, o exercício da democracia, que se traduz no voto, é hoje quase um expediente. Os cidadãos, num só ato, por intermédio de um único voto, têm de escrutinar milhares de decisões com impacto direto sobre a sua esfera individual, num processo de síntese complexo e por vezes contraditório. Num só voto, temos de expressar tudo o que pensamos – quando pensamos – sobre educação, saúde, reformas, economia, cultura, e coisas até que ignoramos existir, mas que impactam na nossa vida quotidiana, num exercício que é completamente frustrante. O processo eleitoral perdeu, no atual contexto, a sua vocação contratualista, o seu carácter de agência, para se tornar num cálculo para-matemático onde buscamos desesperadamente um mínimo denominador comum que sustente a nossa decisão. Em boa medida, o voto do cidadão em pouco difere daquilo que nas relações privadas apelidamos de “contrato de adesão”, onde a liberdade do cidadão se limita a dizer “sim” ou “não” à totalidade de um programa político.

Acresce que a omnipresença da esfera pública aliada à imposição da escolha democrática tem vindo a enfraquecer de sobremaneira quer o vínculo contratualista quer os mecanismos de controlo do fenómeno político, criando o ambiente propício para que à volta do Estado gravitem uma pluralidade de interesses particulares ou corporativos que, capturando os mecanismos de decisão, redistribuem entre si, sob a proteção de um complexo manto legal, os frutos do poder concentrado, fora da tutela da generalidade dos cidadãos. O Estado e os seus agentes têm o monopólio do uso da força, da lei, dominam uma rede de interesses, de subvenções, desenvolveram retóricas que justificam a(s) sua(s) própria(s) existência(s), atuando numa teia intrincada e de difícil compreensão, ainda assim percetivelmente incoerente e incongruente com muitos dos fins que assume(m) perseguir.

Não obstante as dificuldades que enfrenta a sociedade britânica, no Reino Unido, a Monarquia tem funcionado como elemento de defesa da tradição, ou seja, de tudo aquilo que é considerado válido e resiste à erosão dos tempos, sendo os monarcas mais apreciados que os próprios políticos. Numa comunidade onde a lei tem esse carácter consuetudinário, com uma forte marca da intemporalidade, a Monarca, não tendo sido eleita, teve uma enorme aceitação do Povo, não apenas pelo que foi, mas pelo que representa – uma tradição, um sistema legal, e um tipo de sociedade que os britânicos querem proteger. E o facto de o Reino Unido, nas suas boas (e más) escolhas, ter sido capaz de manter a sua marca, continuando a ser uma das nações mais prósperas e emblemáticas do mundo, com instituições políticas de excelência, faz com que grande parte dos cidadãos do mundo olhem para a sua monarquia como algo que lhes merece a atenção e – diga-se – admiração e respeito.

Apesar de ter crescido rodeado de histórias de reis e rainhas, e do meu próprio nome me ter sido dado em homenagem direta a um rei visigodo que dedicou a sua vida à reconquista, algures no século VIII, nunca tive simpatias monárquicas. A democracia tem, mesmo onde ela apresenta inúmeras fragilidades, uma importante virtude: a democracia e o voto popular, como nos ensina Popper, funcionam como válvula de escape, exprimindo-se na capacidade de despedir ou expulsar governos, sendo isso bem mais importante do que propriamente na concessão de um mandato para um programa político. O voto é cada vez mais uma reação, uma penalização, do que propriamente uma adesão a um conjunto de medidas propostas que acentuem o carácter contratualista que deveria existir entre eleitores e eleitos. Uma eleição é, aliás, a derradeira forma de expulsar governos sem recurso à violência ou à insurreição (algo que irresponsavelmente tantos fingem ignorar no caso angolano, ao permitirem que o MPLA se perpetue sem legitimidade no exercício da governação). Tal não significa que um Estado de Direito não possa ser virtuoso, próspero, e bem governado, num equilíbrio entre instituições eleitas democraticamente, chefiadas por um Monarca, se tal merecer o acolhimento da maioria da população, e a aristocracia perceber que o seu estatuto é muito mais um fardo, e muito menos, um direito.

Atrevo-me a escrever que no mundo complexo em que vivemos, em que as cidadanias são cada vez mais globais (não se identificando as pessoas comuns estritamente com os limites daquilo que é o seu território de origem vinculado a uma ideia de soberania), em que os cidadãos têm aspirações pessoais próprias e uma potencial autonomia individual para as realizar que colide com a excessiva presença do Estado na tomada de decisões que deveriam ser suas, as principais preocupações dos cidadãos descomprometidos deveriam ser, desde logo, a clara redução das funções que devem estar concentradas nas mãos do Estado, e que são limitadoras das suas liberdades concretas; e a procura de mecanismos eficazes de tutela dos agentes públicos. Precisamos de menos democracia (no sentido de devolver aos cidadãos inúmeras decisões que hoje estão concentradas na esfera pública, funcionando burocraticamente sob decisão coletiva), e de mais Estado de Direito (no sentido dos cidadãos terem os seus direitos, liberdades e garantias protegidos por via legal, e tutelados num quadro efetivo de separação de poderes). Ao contrário do que muitos enunciam, o que protege um cidadão comum é o bom funcionamento da lei, num contexto de uma efetiva separação de poderes, e não a democracia. Aquilo que realiza o indivíduo é o exercício concreto, por si próprio, das suas liberdades, e não tanto a transferência em massa para terceiros de uma fatia significativa daquilo que são as suas aspirações, que tendem a ser capturadas por agentes por conta de interesses conflituantes com os do cidadão comum.

Este tema, como disse, não é propriamente novo, apesar das suas ramificações permanecerem atuais. A esse propósito recomendo uma nota muito simples mas clara – “A frustração do ideal democrático” – do André Azevedo Alves, a propósito de um texto de Hayek, incluído numa das suas obras fundamentais: Law, Legislation and Liberty.

Observador (PT)

Hungria autocrática - Editorial




País não é considerado democracia plena pela UE; embate com Orbán está no início

Na quinta-feira (15), o Parlamento Europeu em Bruxelas, na Bélgica, classificou o governo do nacionalista ultraconservador Viktor Orbán —um aliado de Jair Bolsonaro (PL)— de "autocracia eleitoral".

O termo é empregado para definir regimes que, mesmo mantendo ritos da democracia, como eleições periódicas, concentram poder desproporcional no governante. Autocratas tipicamente atacam as instituições e esvaziam a possibilidade de alternância.

Essa tem sido a história recente da Hungria, que aderiu à União Europeia em 2004. Desde 2010, quando Orbán ascendeu ao poder pela segunda vez, sendo reeleito desde então, o país tem entrado em choque com as normas do bloco continental em várias frentes.

Entre elas listam-se concentração da mídia, deterioração do Estado de Direito e ataques a direitos de migrantes e refugiados, pessoas LGBTQIA+ e mulheres.

Em abril, o Fidesz, partido de Orbán, conquistou 135 das 199 cadeiras no Parlamento, em eleição vista como pouco equilibrada por observadores internacionais.

Estão em jogo bilhões de euros destinados a Budapeste no Orçamento compartilhado de €1,1 trilhão do bloco europeu para 2021-27. As regras da UE condicionam o acesso aos fundos de recuperação pós-pandemia ao respeito interno a princípios do Estado de Direito.

A resolução do Parlamento Europeu deste mês e uma decisão judicial da mais alta corte do bloco em fevereiro servem de apoio político e jurídico para que a Comissão Europeia, o Poder Executivo da UE, leve a cabo um longo processo de embate com Orbán.

Embora seja uma medida extrema, o corte de recursos talvez seja a única solução para deter a erosão da democracia húngara. Vale lembrar que mesmo diante de ameaças por parte da UE, o projeto autocrata continua a todo vapor.

Apenas neste ano, há exemplos diversos. O líder iliberal deu início à fusão dos três maiores bancos no país, controlados por seus aliados, logo após a vitória eleitoral de abril. Em julho, criticou países abertos a acolher imigrantes e "misturar populações".

Poucos dias atrás, o governo húngaro decretou que grávidas serão obrigadas a escutar as batidas do coração do feto caso decidam submeter-se a um aborto.

Não são atitudes de quem mostra alguma disposição ao diálogo e à moderação. A missão civilizatória da UE está diante de um desafio.

Folha de São Paulo

Bolsonaro Paz e Amor, ma non troppo.




Nos últimos dias, Bolsonaro chamou Lula de "capeta" e reafirmou que a eleição deste ano consiste em uma luta do bem contra o mal. E tem gente que cai nessa esparrela maniqueísta, de ambos os lados. 

Por Diogo Schelp

Atrás do ex-presidente e ex-presidiário Luis Inácio Lula da Silva na maioria das pesquisas de intenção de voto, o presidente Jair Bolsonaro, em sua cruzada por um segundo mandato, critica os institutos e diz que o que vale é o "datapovo". Aliados e analista políticos alinhados seguem o bonde, descendo os tanques sobre as pesquisas. Isso apesar de a campanha de Bolsonaro ter sido a que mais gastou com pesquisas próprias: foram 2,2 milhões de reais em dois levantamentos, conforme informado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Outra prova de que, no fundo, Bolsonaro e seu entorno acreditam em pesquisas é a versão "paz e amor" do candidato que tem prevalecido nas últimas semanas.

Bolsonaro amenizou as acusações contra as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral brasileiro, calibrou o discurso para parecer mais palatável ao eleitorado feminino, diminuiu os ataques frontais aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e até manifestou arrependimento por ter feito, no auge da pandemia, declarações minimizando a gravidade da doença e a dor de suas vítimas ("dei uma aloprada", justificou ele ao ser questionado sobre ao comentário "não sou coveiro" em resposta a uma pergunta sobre os mortos da covid-19). Também se apresenta como um pai dos pobres — ele que antes chamava o Bolsa Família de "Bolsa Farelo" e de "voto de cabresto" e que relutou em apoiar o Auxílio Emergencial para socorrer os necessitados na pandemia.

Eis a versão Bolsonaro Paz e Amor, ou o mais próximo que se consegue chegar de uma versão menos "polêmica" do presidente. Para os apoiadores mais empedernidos do presidente, aqueles que aceitam qualquer absurdo saído da sua boca ou da sua caneta, contanto que ele continue impedindo a "ameaça do comunismo", aconteça o que aconteça, seu voto pertence ao ex-capitão.

Mas, para se reeleger, Bolsonaro precisa conquistar mais do que apenas os votos de sua base mais leal. E as pesquisas eleitorais dizem exatamente sobre quais setores ele precisa avançar: as mulheres, os pobres e os moderados que não querem a volta de Lula, mas não gostam dos ataques do presidente às instituições da República e da sua indiferença à tragédia pandêmica. O Bolsonaro Paz e Amor está falando para estes públicos.

Tudo isso lembra a estratégia do Lulinha Paz e Amor que permitiu ao então candidato petista, depois de três tentativas malfadadas, se eleger pela primeira vez presidente, em 2002, deixando de lado as partes mais radicais do seu discurso de esquerda e estendendo as mãos para o empresariado e para as políticas pró-mercado.

Lula, nas eleições deste ano, porém, concorre mais como uma versão original dele mesmo do que com a carcaça suavizada de 2002. Fala mal de banqueiros, faz tiradas machistas achando que está obtendo o efeito contrário e admite que não tem planos concretos para a economia.

Já a nova versão de Bolsonaro é "paz e amor", mas não muito (ma non troppo, no bom italiano das partituras musicais). Isso porque sua versão autêntica continua na estratégia de demonizar o adversário e seus apoiadores, jogando gasolina na polarização política de viés nefasto — aquela marcada por profunda intolerância em relação a quem não compartilha da paixão irracional pelo mesmo líder ou grupo político.

Lula também faz esse jogo. Já equiparou Bolsonaro a um "demônio" e não se cansa de associar seus apoiadores ao fascismo ou à Ku Klux Klan.

Nos últimos dias, Bolsonaro chamou Lula de "capeta" e reafirmou que a eleição deste ano consiste em uma luta do bem contra o mal. E tem gente que cai nessa esparrela maniqueísta, de ambos os lados.

Gazeta do Povo (PR)

Ditadores esclarecidos




Os que, à direita e à esquerda, sonham com a vinda de líderes autoritários, devem ter cuidado. A probabilidade do líder autocrático que toma o poder vir a ser um “ditador esclarecido” não é muito alta. 

Por João Caetano Dias (foto)

Foi Manuela Ferreira Leite que, um dia em 2008, afirmou que certas reformas não se podem fazer em democracia. “Não é possível fazer uma reforma da justiça sem os juízes, fazer uma reforma da saúde sem os médicos”. E proferiu uma frase que foi repetida vezes sem conta, quase sempre decontextualizada: “E até não sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia”. Também Friedrich Hayek terá escrito que “houve muitos casos em que sob governo autoritário as liberdades individuais estavam mais seguras que em algumas democracias”. Na cabeça de Hayek estariam outros ditadores, mas poucos podem exemplificar melhor a afirmação do filósofo do que Mustafa Kemal Atatürk.

Não há muitas personalidades políticas no mundo que acolham um culto de personalidade tão visível como Atatürk, na Turquia. Atatürk é, ainda hoje, idolatrado por grande parte da população e respeitado mesmo por aqueles que recentemente reverteram alguns princípios básicos de kemalismo.

Herói da Batalha de Gallipoli, Atatürk adquiriu uma aura de vencedor pouco comum num Império Otomano envergonhado por sucessivas derrotas militares e por contínuas perdas territoriais, e humilhado pelos aliados que ocuparam a capital e pretendiam esquartejar o que sobrava do velho Império. O Tratado de Sèvres foi a gota de água que transbordou os limites da desonra otomana. Atatürk, desobedecendo às ordens do então Sultão Mehmed VI, instalou-se em Ancara com um grupo de seguidores fiéis. Restabeleceu um parlamento à revelia do poder de Istambul, e conseguiu unir o exército na Guerra da Independência motivando-o com um discurso de forte pendor nacionalista. As forças turcas conseguiram vitórias militares importantes, nomeadamente contra a Grécia, que tinha invadido parte da Anatólia e ambicionava apoderar-se dos territórios da Trácia e da costa do Mar Egeu.

A vitória militar dos exércitos liderados por Atatürk tornou o Tratado de Sèvres inaplicável e os aliados acabaram por conformar-se com a nova realidade. As fronteiras da Turquia Moderna foram redefinidas num novo acordo, o Tratado de Lausanne e mantém-se estáveis até aos dias de hoje. Atatürk tornou-se no 1º presidente da Turquia e liderou o país até à morte, em 1938.

Depois de terminar com o sultanato e com o califado, os religiosos foram afastados do poder, tanto a nível nacional como a nível local onde detinham a gestão das cidades e das aldeias. O uso de símbolos religiosos em atos administrativos foi proibido, as ordens religiosas foram fechadas bem como as madraças, onde os estudantes apenas se dedicavam ao estudo do árabe e do Corão. Atatürk considerava este ensino nefasto, anti-científico, um desperdício de recursos humanos e contrário aos interesses do país moderno a que aspirava.

Por imposição do presidente, a Turquia abandonou o alfabeto árabe e adotou o latino, com o argumento de que tudo o que era importante no mundo era publicado em línguas que usavam este alfabeto e os turcos tinham de estar capacitados para acompanhar a evolução das ideias e da ciência. O alfabeto árabe foi proibido em todas as comunicações oficiais e deixou de ser ensinado aos jovens.

A Turquia investiu fortemente no sistema educativo e a taxa de alfabetização cresceu fortemente. As mulheres foram incluídas no ensino obrigatório e passaram a poder dispensar o véu, sendo que em cerimónias oficiais o véu foi formalmente afastado. Ganharam direito de voto e o divórcio deixou de ser uma prerrogativa do homem. Atatürk aproveitou-se da lei antiga para divorciar-se por sua livre vontade e uns dias depois, alterou a lei para atribuir direitos equivalentes a homens e mulheres.

Outras transformações foram mais curiosas. Por exemplo, todos os turcos foram obrigados a escolher um apelido que deveria ser transmitido aos seus descendentes, como acontecia na Europa que o presidente admirava. Na Turquia otomana era comum dar apenas um nome aos recém-nascidos. Ao próprio Atatürk tinha sido dado apenas o nome de Mustafa. Na escola militar, um professor, para o distinguir de outros Mustafas, adicionou-lhe o sobrenome Kemal. Mas a confusão administrativa na Turquia era tremenda, com a multiplicação de nomes iguais e as dificuldades de identificação que por vezes surgiam. Todos os turcos puderam – foram obrigados – a escolher um sobrenome e Mustafa Kemal escolheu para ele próprio, Atatürk, literalmente o Pai dos Turcos. Por lei, mais ninguém poderá usar o mesmo sobrenome.

As mudanças produzidas na Turquia com Atatürk foram a todos os níveis, impressionantes. Mas há uma verdade que não pode ser escamoteada: muitas alterações só puderam avançar porque o idolatrado Atatürk era, de facto, um ditador. Um ditador que cometeu muitos dos mesmos pecados de todos os outros ditadores da história. Atatürk nunca hesitou em livrar-se dos adversários, com condenações à morte por tribunais especiais e prendendo e exilando oposicionistas. Excetuando um pequeno interregno, a Turquia de Atatürk foi um país de partido único.

Apesar de ninguém na própria Turquia ter dúvidas que Atatürk foi um ditador, a grande maioria dos turcos aplaude sem reservas a sua liderança. Sem ser pela força, a Turquia nunca poderia ter sido modernizada, porque o clero não o permitiria e a grande maioria da população não concebia o poder separando o estado da igreja. Atatürk é o protótipo do ditador esclarecido. O ditador que foi sempre bom para o povo. O ditador que lutava pelos turcos contra as forças que condenavam a Turquia ao atraso e à pobreza. O homem que tornou a Turquia num país moderno. O pai dos turcos.

O culto ao ditador é omnipresente na Turquia, onde a sua imagem está em todo o lado. Foi-lhe construído um grandioso mausoléu em Ancara, há milhares de estátuas de Atatürk espalhadas por toda a Turquia e até há uma lei que proíbe ofensas à memória do ex-ditador. Nos últimos anos, a imagem de Atatürk transformou-se também num símbolo de resistência à re-islamização do país que o partido conservador de Erdoğan tem realizado. Uma bandeira de Mustafa Kemal Atatürk numa janela é, cada vez mais, uma declaração de que quem vive naquela casa se opõe ao AKP, o Partido da Justiça e Desenvolvimento que governa a Turquia desde 2002.

Manuela Ferreira Leite tinha razão quando dizia que certas mudanças não podem ser feitas em democracia e algumas das transformações dos anos 20 e 30 na Turquia demonstram-no. Mas para quem nunca tinha vivido em democracia, o que estava em causa não era perder a liberdade. Era apenas experimentar outra forma de autocracia. E, para o bem do povo turco, o ditador que substitui o sultão, foi efetivamente um dos poucos casos em que sob um governo autoritário as liberdades individuais cresceram e foram mais protegidas.

Mas no mundo das democracias liberais em que vivemos, a resistência a qualquer tentativa de eliminar direitos políticos, sociais e económicos seria vigorosa e tal possibilidade afigura-se quase como inconcebível. Mesmo para aqueles que, tanto à direita como à esquerda, sonham com a vinda de líderes autoritários, recomenda-se cuidado. A história sugere-nos que a probabilidade do líder autocrático que toma o poder vir a ser um “ditador esclarecido” não é muito alta.

Observador (PT)

STF - abuso e insegurança jurídica




É hora de todos, também os ilustres ministros do Supremo Tribunal Federal, fazerem uma sincera autocrítica. 

Por Carlos Alberto Di Franco (foto)

O momento atual do Brasil é de paixões exacerbadas: eleições que se aproximam, candidatos em campanhas sem limites, nervos à flor da pele. Pouca razão e excesso de emoção.

É em momentos assim que se exige uma maior ponderação de todos. Também de nós, jornalistas. Hoje, mais do que nunca, é importante que se viva a virtude da prudência, no sentido tomista: a arte de, serenamente, coletar todos os dados da realidade que possam ser úteis para a sua compreensão.

Mas não podemos esquecer que as eleições passam, as paixões esfriam, as candidaturas e os mandatos também se esvaem. Todavia, há coisas que permanecem, e muitas vezes causam danos de difícil reparação para a vida de um país.

Uma delas é a destruição da ordem jurídica, que no Brasil de hoje é visível a olho nu e, infelizmente, está sendo causada pela conduta de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que é – ou ao menos deveria ser – o principal responsável pela garantia do cumprimento e da estabilidade do ordenamento jurídico.

O que se vem observando, lamentavelmente, é exatamente o contrário: várias decisões de ministros do STF (na maioria das vezes monocráticas) que, em vez de estabilizarem a ordem jurídica, a destroem, atropelando direitos fundamentais e, muitas vezes, também as instituições incumbidas da preservação e do cumprimento do Direito junto com o Poder Judiciário, como é o Ministério Público.

São precedentes perigosos, que acabam servindo de mau exemplo e, pouco a pouco, se propagam para outros órgãos do Poder Judiciário.

É o que se vê com a instauração do assim denominado “inquérito das fake news” (posteriormente, de forma jocosa, chamado por Marco Aurélio Mello – ele mesmo ex-ministro do STF – de “inquérito do fim do mundo”).

Esse inquérito foi instaurado em 2019 pelo então presidente da Corte, o ministro Dias Toffoli. Depois da instauração, sem que se fizesse nenhum sorteio do ministro responsável pela condução do inquérito, ela foi atribuída ao ministro Alexandre de Moraes.

O que motivou a instauração do inquérito foi a publicação de matéria da Revista Crusoé que trazia uma referência ao ministro Dias Toffoli durante apuração feita na Operação Lava Jato.

A instauração desse inquérito se deu mediante uma interpretação bastante alargada do artigo 43 do Regimento Interno do próprio STF, que prevê a possibilidade de instauração de inquérito em caso de infração à lei penal na sede ou dependência do tribunal e se isso envolver autoridade ou pessoa sujeita à sua jurisdição.

E esse inquérito – que tramita até hoje, já decorridos mais de três anos – tem permitido a tomada de uma série de medidas flagrantemente ilegais e inconstitucionais, contra pessoas que nem mesmo são julgadas no STF – o que, por si só, torna abusivas as medidas determinadas por seus ministros.

Acrescente-se que não pode haver a acumulação das posições de vítima, investigador, acusador e julgador que profere a decisão final. Tal poder, inconstitucional e autoritário, tem ocorrido com frequência assustadora.

Atualmente, num evidente desvirtuamento da interpretação deste artigo 43 do Regimento Interno, tudo é trazido para o arbitrário inquérito: blogueiros, jornalistas, partidos políticos, “empresários bolsonaristas”, etc. A liberdade de expressão, garantia maior da Constituição, foi para o ralo do autoritarismo judicial.

As decisões de Alexandre de Moraes ferem o princípio do juiz natural, previsto na Constituição federal de 1988. Em poucas palavras, este princípio significa que todas as pessoas têm o direito de serem julgadas pelo juiz estabelecido na Constituição e nas leis, que preveem expressamente quais são as matérias e quais são as pessoas que podem ser julgadas por um determinado juiz. É importante registrar que um juiz que não tenha competência para julgar uma pessoa não pode determinar medidas cautelares e coercitivas contra ela (uma prisão preventiva, uma busca e apreensão, por exemplo). É isso, rigorosamente, o que está acontecendo.

Já se vão semanas desde que o STF, na figura do ministro Alexandre de Moraes, deu mais uma cartada em seu assalto às liberdades e garantias individuais ao ordenar uma série de medidas cautelares contra empresários, em razão de conversas privadas entre eles num grupo de WhatsApp. O fim do sigilo sobre os documentos relativos a essa operação apenas escancarou o que já se intuía: a ausência completa de base legal para medidas como busca e apreensão de celulares, quebra de sigilos bancário e telemático, suspensão de contas em mídias sociais e até bloqueio de contas bancárias.

Além disso, os advogados dos investigados no inquérito das fake news, do STF, e em alguns de seus desdobramentos, como os inquéritos dos atos antidemocráticos e das mídias digitais, completaram dois anos sem vistas e sem acesso à íntegra dos autos desses processos. Uma ilegalidade e flagrante desrespeito ao direito de defesa.

É hora de todos, também os ilustres ministros do STF, fazerem uma sincera autocrítica. Golpes não dependem apenas de tanques. Podem ser desfechados pelo medo, pela leniência e pela omissão.

O Estado de São Paulo

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