sexta-feira, maio 13, 2022

A Petrobras e a cólera de Bolsonaro

 




Alguém ainda leva a sério a indignação do presidente Jair Bolsonaro com o critério de preços adotado pela Petrobras? A Bolsa e o mercado financeiro começam a ignorar.

Por Celso Ming (foto)

Já foram sacrificados três bodes expiatórios por conta desse teatro: dois presidentes da Petrobras, Roberto Castello Branco e Joaquim Silva e Luna e, agora, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

O maior indício de que Bolsonaro apenas finge indignação é o fato de que seus ministros não o acompanham nesse jogo. Alguém já ouviu alguma declaração do ministro Paulo Guedes que endosse as declarações de Bolsonaro de que “o lucro da Petrobras é um estupro”? Nem tampouco Bento Albuquerque tocou a mesma partitura. Tanto não tocou, que está demitido.

Há fortes razões para acreditar que o governo Bolsonaro está satisfeito com os benefícios que obtém da política de paridade internacional de preços.

Os polpudos dividendos, royalties e receita com impostos pagos pela Petrobras são diretamente proporcionais aos preços praticados por ela. Desde 2019 foram nada menos que R$ 447 bilhões que proporcionaram grande alívio ao caixa do Tesouro. Se a indignação de Bolsonaro fosse sincera, teria nomeado para a Petrobras presidentes comprometidos com o controle de preços e teria usado os recursos pagos pela companhia para pagar subsídios aos caminhoneiros e consumidores de gasolina.

Bolsonaro finge que é vítima da Petrobras porque não quer a vinculação da alta de preços dos combustíveis com sua campanha eleitoral.

O pré-candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nesse particular, pensa igualzinho a Bolsonaro. Não chega a dizer, como ele, que “o lucro da Petrobras é crime”, mas tem afirmado que, se eleito, “abrasileirará os preços da Petrobras”, embora não diga como.

Qualquer outro critério que viesse a ser adotado implicaria não só artificializar a política de preços dos combustíveis, como, também, afastaria os investidores nas cinco refinarias, que têm de ser vendidas por imposição do Cade.

Um controle de preços dos combustíveis, como querem Bolsonaro e Lula, produziria distorções. A mais importante delas seria o praticamente inevitável certo desabastecimento, uma vez que cerca de 20% dos combustíveis, especialmente o diesel, são importados a cotações do mercado internacional.

O atraso dos preços internos calculados nesta quartafeira é de 17% para a gasolina e de 13% para o diesel, como mostra o gráfico. Por isso, vêm aí mais reajustes. Quantas cabeças ainda terão de rolar para dar conta da cólera do presidente Bolsonaro? 

O Estado de São Paulo

Bolsos e mentes - Editorial

 




Benesses variadas fazem parte da estratégia de Bolsonaro para cooptar militares

Jair Bolsonaro (PL) seduz setores das corporações armadas com um ideário que vai da defesa de policiais e militares envolvidos em operações controversas até a apologia da ditadura, qualificação que rejeita, instaurada após o golpe de 1964.

"Meu Exército" é como o capitão reformado gosta de se referir à Força que deixou há mais de 30 anos para seguir carreira política. Sempre que pode, Bolsonaro usa a identificação com a caserna como instrumento de intimidação política e institucional —a atual pressão do Ministério da Defesa sobre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é apenas o exemplo mais recente.

Mas não é apenas com ideologia que o mandatário busca cooptar militares. Os bolsos das fardas também têm sido agraciados com benesses de dimensões e justificativas variadas em seu governo, em contraste com restrições orçamentárias enfrentadas pela maioria dos setores da administração.

Um exemplo vexatório é o da portaria editada em abril do ano passado para permitir o acúmulo de remunerações em valor acima do teto salarial do serviço público, hoje de R$ 39,3 mil mensais.

Embora válida também para civis, a medida foi particularmente proveitosa para militares inativos que ocupam postos na gestão federal, casos do próprio Bolsonaro, em menor escala, do vice, Hamilton Mourão, e de ministros.

Como noticiou a Folha, o general da reserva Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria-Geral da Presidência, engordou seus contracheques em R$ 350,7 mil ao longo de 12 meses graças à norma, recebendo ao todo R$ 874 mil no período.

Seu congênere Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, foi o segundo maior beneficiário na caserna, com R$ 342 mil de um total de R$ 866 mil. Ao todo, 43 reservistas se beneficiaram da portaria —que tem amparo legal, ressalve-se, mas claramente dribla o propósito do teto.

Há agrados mais amplos e custosos aos fardados. Por ocasião da reforma previdenciária, em 2019, eles obtiveram uma reestruturação vantajosa de carreira, o que destoa do controle de reajustes e contratações corretamente aplicado ao restante dos servidores.

Em consequência, dados do Tesouro Nacional apontam que o gasto federal com pessoal militar ativo cresceu 5,7% acima da inflação sob Bolsonaro até 2021, enquanto os desembolsos com os funcionários civis tiveram queda de 8,4%.

O problema está menos na despesa mal justificada do que numa relação imprópria entre presidente e Forças Armadas, que inclui uma distribuição despropositada de cargos no Executivo e nas estatais —e aberrações como o envolvimento, voluntário ou não, na ofensiva contra o processo eleitoral.

Folha de São Paulo

O preço a ser pago pelo desespero bolsonarista




Na área mais estratégia para a inserção nacional na economia mundial, o Brasil de Bolsonaro é guiado por uma visão de curto prazo e predatória

Por Maria Cristina Fernandes 

O presidente Jair Bolsonaro foi capaz, em 2018, de convencer incautos empresários de que mais do que no capitão, se deveria confiar em Paulo Guedes como guardião do gasto público e arauto da privatização.

O jogo montado om a substituição de Bento Albuquerque por Adolfo Sachsida no Ministério de Minas e Energia sinaliza que Bolsonaro redobra a aposta na mesma estratégia.

Sem apoio militar ao golpe, Bolsonaro vê se dá pra ganhar no voto. A primeira aposta é no controle de tarifas até outubro. Empacota como o preço a pagar por um segundo mandato que, aí sim, entregará privatizações. Como se isso resolvesse o nó dos combustíveis. O mercado de óleo de soja é privado e nem por isso o preço dos últimos 12 meses deixou de subir 24%.

A segunda aposta é no futuro da parceria com o Centrão, a partir da garantia de recursos orçamentários para a construção dos gasodutos para as termelétricas. Trata-se daquele projeto que tem meia dúzia de beneficiários entre os empresários do setor, algumas dezenas de sócios no Congresso Nacional e 216 milhões de vítimas, em todo país, pelo custo fiscal e ambiental que acarreta.

É este o pacote do MME. Na área mais estratégica para a inserção nacional na economia mundial, o Brasil de Bolsonaro é guiado por uma visão de curto prazo e predatória.

O ex-assessor especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia costuma ser vinculado a Paulo Guedes, mas, na verdade, é um bolsonarista raiz. Nega a dívida histórica com a escravidão e foi capaz de dizer, na pandemia, que a melhor vacina para país seria avançar na agenda de reformas.

Não espanta, portanto, que, na Petrobras, tema-se a mudança no MME como prenúncio da adesão do governo ao projeto de lei, já aprovado pelo Senado, que institui uma banda de flutuação do preço do combustível a ser bancada, majoritariamente, pelo caixa da empresa.

A aprovação do projeto livraria o Tesouro de bancar a conta do subsídio aos combustíveis, obsessão de Bolsonaro frente a uma inflação dos últimos 12 meses de mais de 12% que hoje se apresenta como o maior empecilho à sua reeleição.

A perspectiva de tirar a conta do subsídio do Tesouro, aliada a uma inflação que valoriza as receitas e deprime as despesas com funcionalismo, dão a ilusão de controle fiscal e de que o bolsonarismo, afinal, compensa.

Pressionado por Bolsonaro, Bento Albuquerque buscava convencer o presidente da empresa, José Mauro Coelho, seu ex-braço direito, e o Conselho de Administração da necessidade de reajustar a tarifa. Como os conselheiros têm CPF, resistiram.

Sachsida é capaz de submeter suas convicções liberais à ideia de que um subsídio é a saída possível. E chega ao Ministério junto com a articulação do projeto de lei que daria um formato legal ao subsídio e livraria os conselheiros de responder legalmente pelo congelamento de preço.

Sachsida assumirá o posto com o discurso de que preparará a companhia para a privatização no segundo mandato Bolsonaro. É o botão que encontra sua casa. A Petrobras bancaria a reeleição perdendo valor de mercado e, num eventual segundo mandato, seria colocada à venda num preço mais condizente com o liberalismo predatório de Sachsida e Guedes.

O pacote, ou operação-casada, da substituição no MME, passa ainda pela benevolência, na Economia, com o custeio do projeto dos gasodutos. Esta operação já estava em curso quando o Centrão bancou a nomeação de Rodolfo Landim e Adriano Pires, respectivamente, sócio e consultor de Carlos Suarez, um dos grandes beneficiários dos gasodutos. As nomeações para a Petrobras, avalizadas pelo ex-ministro, foram abortadas por conflito de interesses.

Nem os conflitos nem os interesses desapareceram. Apenas mudaram de foco e urgência. O interesse maior do presidente é a reeleição. E o do Centrão, a continuidade de um projeto de poder que passa pelos projetos dos quais é sócio. Ambos os interesses colidem com os destinos da nação.

Já se tentou empurrar os custos desse gasoduto para o contribuinte de todas as formas. Por último, a ofensiva, que ainda enfrentava resistência dos Ministérios das Minas e Energia e da Economia até a queda de Bento Albuquerque, era fazer com que os recursos do pré-sal bancassem o projeto.

Até hoje o governo da ex-presidente Dilma Rousseff é alvo da ojeriza empresarial por ter patrocinado uma medida provisória de redução das tarifas e renovação das concessões na energia elétrica a um custo de R$ 105 bilhões. As benesses às termelétricas já custaram ao país R$ 80 bilhões. A extensão dessa prebenda aos gasodutos acresce R$ 100 bilhões a esta conta. Já passou da hora de se perguntar quanto a fatura de mais quatro anos dessa aliança custará.

Disputa congestionada

A Proposta de Emenda Constitucional que eleva de 65 para 70 anos a idade limite para nomeação aos tribunais superiores ressuscita, pelo menos, dois candidatos ao Supremo Tribunal Federal, o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Humberto Martins, e seu antecessor, João Otávio de Noronha. O primeiro é aliado-mor do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e o segundo, foi o aglutinador da bancada mineira, a começar do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), pela criação do Tribunal Regional Federal da 6ª Região, em Belo Horizonte. A ressurreição congestiona a disputa pelas vagas dos ministros Ricardo Lewandowski e Rosa Weber em 2023. Mas o Centrão já arrumou um jeito: a apresentação de outra PEC, no fim do ano, aumentando de 11 para 15 o número de ministros do STF.

Comandante sem tropa

Tem recuo à vista no enfrentamento militar com o Tribunal Superior Eleitoral, Corte com a qual as Forças Armadas colaboram há décadas sem intercorrências. O general Heber Portella participava constrangido das reuniões da Comissão de Transparência do TSE em que se expuseram questionamentos abusivos das Forças Armadas. Tão abusivos quanto as notas assinadas pelo ministro da Defesa, Paulo Sergio Oliveira. Como o comandante-em-chefe arriscava ficar sem tropa, o ministro foi obrigado a recuar.

Valor Econômico

Segredos de caças russos podem estar nas mãos dos EUA




Caças russos do tipo Sukhoi Su-35 se apresentam em desfile.

Os Estados Unidos e o Reino Unido conseguiram recuperar partes do caça russo Sukhoi Su-35, que foi abatido pelo exército da Ucrânia. Entre os itens estão recursos eletrônicos importantes, incluindo a mira de longo alcance da aeronave, que é uma das mais avançadas da Rússia.

As agências de inteligência dos Estados Unidos têm interesse no o sistema infravermelho e de busca e rastreio de alvos, o IRST OLS-35, para conseguir, assim, comprovar as reais capacidades do dispositivo e detectar possíveis deficiências.

Outro recurso que pode estar nas mãos das nações ocidentais são o radar de missão e os sistemas de guerra eletrônica do Su-35.

Com a queda do caça, a maior parte dos componentes foi danificada, mas os destroços ainda podem fornecer informações para a inteligência norte-americana.

Outro caça abatido nas proximidades de Kiev, o Su-34, nos primeiros dias do conflito, também forneceu mais pistas sobre as capacidades da frota russa.

Yahoo / DefesaNet

Generais do Planalto deviam imitar o almirante Bento Albuquerque e dizer não a Bolsonaro




Por Eliane Cantanhêde (foto)

Ao demitir o almirante Bento Albuquerque do Ministério de Minas e Energia, o presidente da República deixa uma dúvida no ar, na terra e no mar: até quando a cúpula das Forças Armadas vai aceitar desaforos e se render aos caprichos ideológicos e interesses eleitorais do capitão insubordinado Jair Bolsonaro?

O presidente já demitiu os generais Fernando Azevedo e Silva, Edson Pujol, Joaquim Silva e Luna, Carlos Alberto Santos Cruz e Otávio Rego Barros, entre outros, enquanto se agarra ao general Intendente Eduardo Pazuello, aquele do “um manda, o outro obedece”, e manipula escancaradamente o Ministério da Defesa.

OUTRAS DEMISSÕES – De quebra, Bolsonaro também demitiu os comandantes da Marinha, almirante de esquadra Ilques Barbosa, e da Aeronáutica, brigadeiro-do-ar Antônio Carlos Bermudez. Entre generais, almirante e brigadeiros demitidos, estamos falando da elite militar, os mais respeitados, mais preparados. É o caso de Bento Albuquerque.

O consolo é que foram jogados pela janela, por terra ou ao mar não por seus defeitos, mas por suas qualidades, por estarem do lado certo da história, contra atos golpistas, conspirações, interferência dos filhos na gestão pública, ingerência política na Petrobras e, agora, também pela recusa de endossar o mais novo jabuti eleitoral.

É O CENTRÃODUTO – Vamos a esse jabuti, descoberto pelo repórter André Borges, do nosso Estadão: a articulação do Centrão, com aval do Planalto, para despejar a bagatela de R$ 100 bilhões (R$ 100 bi!) de verbas públicas num projeto de construção de gasodutos do “Rei do Gás”, o empresário Carlos Suarez, o S da empreiteira OAS.

Depois do petrolão do PT, chegamos ao ‘centrãoduto’ da era Bolsonaro. O almirante Bento Albuquerque está fora, assim como os generais da Defesa deveriam pular rapidamente do barco de ataques ao TSE, às urnas eletrônicas e às eleições, acabando com as marolas e a espuma sobre golpes. A história está de olho, os Estados Unidos e as democracias mundo afora, também.

Estadão / Tribuna da Internet

Bolsonaro e suas marionetes




Por Merval Pereira (foto)

O presidente Jair Bolsonaro, em meio à crise entre as Forças Armadas e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão dos questionamentos reiterados, alguns até já respondidos, do representante dos militares na Comissão de Transparência das Eleições (CTE) sobre as urnas eletrônicas, abriu o jogo num “sincericídio” que lhe é peculiar. Disse que, como comandante em chefe das Forças Armadas, seu representante na comissão só poderia seguir suas orientações. Com isso, assumiu a autoria da tentativa de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro com questionamentos sem base técnica, muitos fora do prazo legal.

O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, pediu em seguida ao TSE que centralizasse as informações nele, e não no representante das Forças Armadas na comissão. Uma demissão branca do general indicado por escolha do Palácio do Planalto, que não aceitara a sugestão dos técnicos do TSE de colocar um almirante especialista em tecnologia da informação que já tinha contato com os ministros.

O fato de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter determinado a unificação dos inquéritos das notícias falsas sobre as urnas eletrônicas e das milícias digitais é um sinal forte de que as investigações até agora reuniram indícios sobre a atuação dos dois grupos que chegam ao Planalto.

Bolsonaro voltou a insistir ontem nas críticas às urnas eletrônicas e reagiu ao que considerou uma ameaça, sem citar diretamente a decisão de Moraes. É uma situação que todos pressentiam havia meses e que agora está oficializada. O ataque às urnas eletrônicas faz parte de uma estratégia eleitoral a cada dia mais evidente.

O presidente levou, em sua comitiva para a feira agropecuária de Maringá, o ministro da Defesa apenas para indicar que continua tendo o apoio das Forças Armadas em sua cruzada. A inclusão das Forças Armadas na CTE deveu-se a uma decisão anterior do TSE, que já as incluíra entre os órgãos fiscalizadores das eleições. Não foi uma jogada política do ministro Luís Roberto Barroso, que presidia o TSE. Nem uma novidade.

Em 2021, quando Bolsonaro passou meses atacando as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral, dizendo que havia fraude, que ele tinha ganhado no primeiro turno em 2018, acendeu uma luz de advertência no TSE. Mas o governo perdeu a votação do voto impresso no Congresso, e parecia que o problema estava superado. Só que não.

No segundo semestre, o Datafolha revelou que quase 30% da população desconfiava da urna. Bolsonaro conseguira quebrar uma confiança que ninguém questionava até aquele momento. Barroso, que presidia o TSE, tomou duas providências: criou a CTE e fez campanhas de esclarecimento a favor da credibilidade das urnas. No começo deste ano, uma nova pesquisa do Datafolha constatou que 82% dos brasileiros aprovavam as urnas eletrônicas, mostrando que a situação fora revertida.

Mas a ação do representante das Forças Armadas na CTE começou a revelar que Bolsonaro não desistira do plano de desacreditar as urnas eletrônicas. A presença de um representante dos militares na comissão tinha explicações, uma histórica: eles participaram da concepção das urnas. Mas existia também uma razão contemporânea, pois eram considerados parceiros do TSE devido à distribuição das urnas nos locais mais remotos do país.

Uma resolução do TSE de 2019 decidiu quais seriam as entidades fiscalizadoras das eleições. Entre elas estavam incluídas as Forças Armadas, além de Polícia Federal, Ministério Público e partidos políticos. Quando Barroso montou a CTE, chamou universidades, órgãos da sociedade civil como a Transparência Internacional e os já definidos pelo TSE como fiscalizadores das eleições. Quer dizer, se quisessem, os militares já poderiam fiscalizar as eleições, mesmo que não tivessem sido incluídos na comissão.

Barroso sugeriu nomes, que foram aceitos, entre os quais o senador Antonio Anastasia pelo Senado, o ministro Benjamin Zymler pelo TCU. Para o Ministério da Defesa, foi sugerido o nome de um almirante da área de tecnologia que já interagira com o TSE anteriormente. O ministro Braga Netto mandou um general da Inteligência. Barroso classifica como “uma vacina” o comentário, em palestra a alunos brasileiros de uma universidade alemã, dizendo que os militares estavam sendo orientados para desacreditar as urnas eletrônicas.

Em seguida, depois de o ministro da Defesa ter dito que ele cometera “uma ofensa grave” às Forças Armadas e que o comentário era “irresponsável”, o representante dos militares na comissão fez exatamente o que se temia. A crise continua.

O Globo

Almirante Bento vira homem ao mar

 





Por Luiz Carlos Azedo (foto)

É mais um oficial-general de quatro estrelas de grande prestígio nas Forças Armadas defenestrado por Bolsonaro de forma humilhante, por discordâncias com o Centrão e o presidente da República

O almirante de esquadra Bento Albuquerque foi demitido, ontem, do cargo de ministro de Minas e Energia, inesperadamente, pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), a pretexto de que teria se omitido em relação aos aumentos dos combustíveis, sobre os quais não tem nenhuma responsabilidade direta, porque a decisão é da Petrobras. O real motivo da demissão, porém, foi sua discordância com o chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, e os partidos do Centrão, quanto à aprovação de um projeto bilionário de construção de uma rede de gasodutos interligando oito estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, para o qual pretende se destinar cerca de R$ 100 bilhões do lucro do pré-sal. O projeto beneficia diretamente o empresário Carlos Suarez, ex-sócio-fundador da empreiteira OAS, que tem o monopólio de distribuição de gás nos estados beneficiados.

Bento é mais um oficial-general de quatro estrelas de grande prestígio nas Forças Armadas defenestrado por Bolsonaro de forma humilhante, por discordância com o Centrão e o presidente da República. Soube da demissão pelo Diário Oficial. Fez uma carreira militar considerada exemplar: foi observador militar nas Forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) nos setores de Sarajevo, Bósnia e Herzegovina e Dubrovnik, na ex-Iugoslávia; comandante da Base de Submarinos Almirante Castro e Silva; comandante em chefe da Esquadra e secretário de Ciência Tecnologia e Inovação da Marinha.

É considerado um dos pais do submarino nuclear brasileiro, pois foi um dos negociadores dos acordos de parceria estratégica do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) entre a França e o Brasil. Posteriormente, foi comandante da Força de Submarinos e chefe do Gabinete do comandante da Marinha. Em 2016, assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia e Inovação da Marinha e, posteriormente, a Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM). Agora, é o 20º ministro demitido por Bolsonaro.

Sua oposição ao Brasoduto custou sua cabeça. O projeto é um velho conhecido do Congresso, que já rechaçou a proposta 10 vezes, pela maioria dos parlamentares e pelo próprio governo. Agora, com apoio do Centrão e do novo ministro, as possibilidades de aprovação são maiores e vão ao encontro dos interesses eleitorais de Bolsonaro e seus aliados.

Grande beneficiário do projeto, Carlos Suarez tem oito distribuidoras de gás no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e quatro autorizações para a construção desses gasodutos. Mas não tem recursos próprios para pô-los de pé. O projeto de financiamento com recursos do pré-sal, que seriam destinados ao reaparelhamento da Marinha, faz renascer das cinzas o velho lobby das empreiteiras no Congresso. Suarez é o S da construtora OAS, que fez acordo de delação premiada com a Operação Lava-Jato.

Resistência

A Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e Consumidores Livres (Abrace) faz forte oposição ao projeto, que chama de “Centrãoduto”. Segundo a entidade, o Brasoduto cria privilégios e não respeita critérios de planejamento, de contratações baseadas em eficiência e de modernização do mercado. A Abrace reúne mais de 50 empresas, responsáveis por 40% do consumo industrial de energia elétrica e 42% do de gás natural, entre as quais os grupos Gerdau, Nestlé e Votorantim. O Fórum das Associações do Setor Elétrico (Fase), que abarca 27 associações do mercado, também se opõe ao projeto.

O deputado Fernando Coelho Filho (União-PE), ex-ministro de Minas e Energia, é o relator do Projeto de Lei 414, que trata da modernização do setor elétrico, no qual o Centrão pretende embarcar o jabuti de R$ 100 bilhões. Segundo revelou ao blog do jornalista Tales Faria (UOL), o parlamentar não pretende incluir a proposta no seu relatório. Porém, mesmo contra a vontade, o projeto pode ser aprovado por meio de uma emenda.

Com a demissão de Bento Albuquerque, Coelho tentou voltar ao cargo de ministro de Minas e Energia, mas foi preterido por se opor ao projeto. O cargo caiu no colo do ex-secretário de Política Econômica da Economia, Adolfo Sachsida, servidor concursado do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), que integra a equipe econômica desde o início. O novo ministro é mais ligado a Bolsonaro do que ao ministro da Economia, Paulo Guedes, antes mesmo de este se incorporar à campanha eleitoral de 2018.

Ao jogar ao mar o almirante, Bolsonaro fez do limão uma limonada, dois dias depois de a Petrobras anunciar reajuste de 8,87% no preço do diesel nas refinarias, que passou de R$ 4,51 para R$ 4,91 o litro. Na semana passada, a estatal anunciou lucro de R$ 44,5 bilhões no primeiro trimestre de 2022, o que o presidente classificou como um “estupro”. Em 2021, o lucro foi de R$ 106 bilhões.

O almirante está sendo responsabilizado pelos políticos do Centrão pelos aumentos de combustíveis e da inflação, o que não passa de uma cortina de fumaça para o lobby bilionário dos gasodutos. Sachsida assume com a bandeira de privatizar a Petrobras e resolver o problema da alta dos combustíveis.

Correio Braziliense

Bolsonaro insinua guerra civil

 




Em discurso, presidente reapresenta seu programa, minimiza inflação e fala de povo armado

Por Vinicius Torres Freire (foto)

A inflação anual é a maior em quase 20 anos. Passou de 12% em abril. Deve permanecer acima de 10% até setembro, à beira da eleição. Em grande parte, é resultado de choques mundiais graves, piorados pela desvalorização brutal do real em 2020 e 2021.

Qualquer governo teria dificuldade de ao menos atenuar esses choques (Covid e suas sequelas, crise de energia, Guerra da Ucrânia etc.). Em um país com estabilidade econômica e política, a alta do dólar poderia ter sido menor.

É fácil perceber que a economia fica à deriva em um país desgovernado, submetido aos objetivos de um projeto autoritário e sob a regência da incompetência e de parlamentares negocistas.

O indivíduo que ocupa a cadeira de presidente procura então não apenas camuflar a ruína, mas o faz reafirmando seu programa de desmonte, "contra o sistema". Junta a fome com a vontade de poder autoritário, até mesmo por meio do conflito armado.

Faz tempo que a ingenuidade tola ou conivente afirma que Jair Bolsonaro lança cortinas de fumaça quando aparecem mais notícias sobre a ruína que promove. É uma verdade mal compreendida por quem a enuncia.

A fumaça é tóxica, uma arma química. A cada lançamento de gases venenosos o país e suas instituições são intoxicadas com ameaças mortais.

Nesta quarta-feira, por exemplo, Bolsonaro reafirmou seu programa de poder, desta vez o associando à possibilidade de guerra civil. Não é bem novidade, em sua carreira de crimes, em que já pregou o conflito armado, morte em massa, fuzilamentos, tortura e genocídio de indígenas.

"Somente os ditadores temem o povo armado. Eu quero que todo cidadão de bem possua sua arma de fogo para resistir, se for o caso, à tentação de um ditador de plantão", começou Bolsonaro, com sua defesa habitual do armamento civil. Armas serviriam para a defesa de ameaças externas (contra a invasão da Amazônia, por exemplo), mas não principalmente.

"Vocês sabem que a pior ameaça não é externa, é interna, de comunização do nosso país. Nós não chegaremos na situação em que vive atualmente a Venezuela", discursou o indivíduo que ocupa a cadeira de presidente da República.

O que é a "comunização"? Poderia ser qualquer coisa, pois Bolsonaro e sua seita já disseram que todos os governos, depois da ditadura até o dele, foram de esquerda. Já disse que venceu a eleição de 2018 no primeiro turno, mas foi roubado. Vale tudo. Mas Bolsonaro definiu o inimigo que pode ser objeto de revolta armada.

"Todos nós sabemos quem defende aquele regime e quem defende seu ditador. Não queremos cores diferentes da verde e amarela na nossa terra. Dizer a vocês que o outro lado quer exatamente o diferente de nós. Nós defendemos a família, nós somos contra o aborto, somos favoráveis ao armamento para o cidadão de bem, somos contra a ideologia de gênero, nós somos pela liberdade da nossa economia e somos acima de tudo pela nossa liberdade de expressão" —assim definiu o "outro lado", que defende a "comunização" do Brasil.

É um programa, é uma ameaça, é um projeto de subversão da ordem (não há Poderes instituídos, o Estado deixa de ter o monopólio legal da força, "inimigos" políticos em última ou em alguma instância podem ser objeto de revolta armada).

"E para vocês, família brasileira, a arma de fogo é uma defesa da mesma e é um reforço para as nossa Forças Armadas porque o povo de bem armado jamais será escravizado". As Forças Armadas teriam o apoio de algo como milícias.

Sim, parece um projeto de Venezuela, diga-se de passagem. Mais grave, por ora, é que a baderna e a subversão armadas entraram de vez na conversa, assim como Bolsonaro já normalizara tantas atrocidades. ​

Folha de São Paulo

Emendas reavivam estelionato eleitoral de Jair Bolsonaro - Editorial

 


Arthur Lira e Bolsonaro


As facções do Congresso que se aproveitam da apatia motivada do chefe do Executivo têm boas chances nas urnas em outubro

O presidente Jair Bolsonaro escapou de um impeachment pelo acordo com os partidos do Centrão, do qual resultou, como celebração do entendimento, as emendas do relator. Elas são a lembrança presente do estelionato eleitoral de Bolsonaro. Ao invocar a nova política e atacar a corrupção de governos do PT, Bolsonaro se elegeu e se engajou em práticas tão nocivas quanto as do mensalão como forma de se manter no poder. A bancada que elegeu em sua onda pseudomoralizadora também se locupletou com as emendas secretas, com a hipocrisia do presidente viralizando na bancada eleita.

O núcleo duro do bolsonarismo é simpático ao dinheiro - foram R$ 270 milhões repassados de forma obscura para obras Brasil afora, algo só revelado após exigência do Supremo Tribunal Federal. O deputado Eduardo Bolsonaro, o 02, fez uso de R$ 9,5 milhões, dos quais apartou R$ 300 mil para a cidade de Miracatu, onde seu tio, irmão do presidente, Renato Bolsonaro, é chefe de gabinete da prefeitura.

A tropa de choque ideológica, que não despreza oportunidades, foi pelo mesmo caminho. O major Vitor Hugo, candidato ao governo de Goiás pelo PL, encaminhou R$ 131 milhões para obras várias. A deputada Bia Kicis, que conseguiu se alçar a presidente da comissão mais importante da Câmara, a de Constituição e Justiça, serviu-se de R$ 32 milhões, com especial apreço à Codevasf, destinatário principal das emendas secretas, que recebeu um terço do dinheiro. Todos os dias chegam denúncias de obras inacabadas, abandonadas, pessimamente executadas ou superfaturadas pela estatal, cuja área de atuação só não chegou ainda ao Chuí por descuido. Seu presidente é um indicado pelo chefão da Casa Civil e orientador das emendas secretas, Ciro Nogueira (PP-PI). Carla Zambelli, que ameaça concorrer ao Senado por São Paulo, repassou R$ 25 milhões. Helio Lopes, seguidor compulsivo de Bolsonaro, obteve R$ 20 milhões. Luiz Philippe de Orleans e Bragança contentou-se com R$ 10 milhões.

Os ataques contra a corrupção do PT serviram para desviar a atenção dos métodos usados por ele para consolidar seu poder - semelhante nos fins, diferente nos meios. Se o mensalão - no qual o presidente do PL, ao qual o presidente se filiou, foi condenado e preso - comprou a prestações o apoio ao governo Lula, as emendas secretas abriram canal exclusivo de distribuição de verbas para quem se aproximou da cúpula do poder na operação de salvamento de um governo acuado. Uma diferença é que no mensalão e no petrolão o Ministério Público foi atuante, e agora, não.

A deterioração política expressa no descontrole do destino do dinheiro público, incentivada pelo Executivo, prosperou com o avanço da centro-direita no Congresso, como havia progredido sob os governos petistas com o mesmo arco partidário. Só agora, com dois meses de atraso, o Congresso cumpriu parcialmente as exigências de transparência feitas pela ministra Rosa Weber, do STF. Em uma pilha desorganizada de prestação de contas de 343 deputados e 64 senadores, pode-se aferir que a cúpula dos partidos que comandam o Congresso ficou com a maior parte das verbas distribuídas, bolsonaristas incluídos.

O nepotismo é uma praga crônica e um Congresso conservador é uma instituição que preza acima de tudo a família. A campeã de emendas secretas, com R$ 399,2 milhões, foi Eliane Nogueira, genitora do chefão do Orçamento da República e ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, suplente no Senado de seu filho. Em qualquer país civilizado, o que não é o caso do Brasil, seria um escândalo e atrairia a atenção da Justiça. Em seguida vêm os maiorais do Congresso, como o presidente da Câmara, Arthur Lira, com R$ 357,4 milhões, que não esqueceu o pai, prefeito de Barra de São Miguel (agraciado com R$ 6 milhões) e seu reduto eleitoral, Arapiraca (R$ 45 milhões). Como quase toda a turma do Centrão, Lira enviou a maior parte do dinheiro das emendas para a Codevasf e suas empresas “de ponta”.

Os então líderes do governo no Senado, Fernando Bezerra, com R$ 256,6 milhões e Eduardo Gomes, líder do Congresso, com R$ 243 milhões, estão no top ten das emendas escondidas. Ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), coube R$ 180,3 milhões, dinheiro para ele bem utilizado porque os 853 municípios de Minas “são uma síntese do Brasil” (Folha, ontem). Há um retrocesso evidente, mas as facções do Congresso que se aproveitam da apatia motivada do chefe do Executivo têm boas chances nas urnas em outubro.

Valor Econômico

Falsa democracia mata e solta




Por José Nêumanne* (foto)

    A pretexto de poupar bons servidores, reforma da Lei da Impobridade Administrativa, feita por inimigos de Moro e da Lava Jato, impede a punição do desgoverno Bolsonaro pela tragédia de Manaus

    Não foi por falta de crimes: 31 brasileiros morreram em Manaus, durante a pandemia da covid 19, por falta de oxigênio e por terem servido de cobaias na tentativa de provar o negacionismo da equipe dirigente do Ministério da Saúde, sob a chefia do general da ativa Eduardo Pazuello. Não foi por falta de provas: o Ministério Público Federal denunciou o ex-ministro e dois ex-responsáveis pela “gestão” da pasta, Hélio Angotti e Mayra Pinheiro, por omissão flagrada e ululante. Nem por desconhecimento de causa: contra o combate atroz do chefe do desgoverno, Jair Bolsonaro, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, ouviu fatos, versões contra e a favor e reuniu vasta documentação comprobatória. E o juiz federal Diego Oliveira, da 9.ª Vara Cível Federal na capital do Amazonas, declarou-se, na sentença, impedido de puni-los pela exigência do dolo dos agentes, incluída pela maioria parlamentar necessária na revisão da Lei da Impobridade Administrativa.

    Também nenhum cidadão de bem, que ainda há no Brasil, por incrível que possa parecer, terá como argumentar que a tétrica rasura não tenha sido exaustivamente apontada por procuradores, jornalistas e outros responsáveis pela vigilância dos atos do Congresso Nacional. Tudo foi denunciado, explicado e argumentado. Agora é tarde, parodiando Luís Vaz de Camões, Pazuello, Angotti e Mayra estão impunes em razão da existência de inúmeros servidores, que, ao contrário deles, poderiam ser erradamente punidos pela adoção do evidente dolo eventual. A CPI acabou e os responsáveis pelo afogamento a seco de 31 cidadãos brasileiros condenados à execução cruel pela irresponsabilidade alheia de funcionários públicos fardados ou de jaleco, tiveram seus delitos liminarmente anistiados sem sequer a deferência de um decreto de graça de seu chefão. Sob o silêncio cúmplice ominoso de uma esquerda incapaz de pedir perdão pelos pecados de sua lavra e de um centro incapaz de perceber o que dista do próprio umbigo, a direita estúpida e negacionista goza as delícias do poder ilimitado sem freios, penas ou confissões. O Brasil não é um país, é uma pústula. A república, uma récua de assaltantes.

    Em tal panorama o que será a tal democracia, que em nome da igualdade de todos perante os rigores da lei, festeja a falácia dos desiguais em prejuízo dos desvalidos? A liberdade, feita farsa na boca imunda do oficial terrorista que planejou atentados a bomba em bivaques em nome do combate sindical pelo aumento indevido do soldo pessoal e intransferível, mata aos magotes. Comparado com o capitão incapacitado por insuficiência de massa encefálica de se submeter ao aperfeiçoamento dos oficiais, o “nobre/’ mártir da liberdade de expressão que ordena colegas meganhas a dispararem na “caixa dos peitos” dos manifestantes do outro lado é um mísero coitado. Mas, tornado o comandante improvisado do pelotão do fuzilamento do direito à opinião do inimigo desarmado, virou o ai-jesus de patriotas de araque que confundem a pátria mãe com uma oportunidade infinita e imperdível de negócios escusos e polpudos.

    Daniel Silveira, Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes e os ególatras em busca de inexistente luz própria são atores da tragicomédia surreal dos que atuam como vacas de uma presepada com roteiro imoral e cínico. Nenhum coleguinha com juízo impediu que Dias Toffoli introduzisse uma anta fardada no Supremo Tribunal Federal. Em busca dos cinco minutos de fama, já que não têm como chegar ao bilhão de reais do retrato de Marilyn Monroe pintado por Andy Warhol, seus pareceiros de fantasia de paz em conflitos de mequetrefes beijaram o dólmã dos milicos pendurados nas tetas do bolsonarismo e não têm mais como se livrar da volúpia dos que, nunca tendo visto tanto mel, não conseguem se afastar dos enxames. Nada podem fazer para obstar a ousadia do ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, doidinho para atuar na nova missão “gloriosa” das Forças: a de restaurar o voto de bico de pena na República Caduca. Não faltou exegeta político de ocasião que fizesse cara de paisagem diante do pré-golpe da substituição do obscuro general Heber Portela na mensagem a Garcia que seus antigos companheiros de farda tentaram na arapuca Proconsult para fazer da minoria de Moreira vitoriosa contra a maioria de Brizola. Em conluio, claro, com a vergonhosa substituição do bicho do delegado dos tempos antigos pelas roletas atuais do almanaque do Exército.

    No dia em que o intendente incompetente, que, não nos esqueçamos, já montara seu bivaque em Manaus, foi agraciado pela comunidade do Centrãoduto, recebeu o indulto antecipado à própria incapacidade, a advogada Luciana Pires assumiu a causa da delegada Fátima Belém. Ninguém precisava associar a proprietária de R$ 1,8 milhão em dinheiro vivo em casa às tramoias jurídicas do príncipe herdeiro Flávio Bolsonaro no peculatário-geral carioqueiro da Alesp. Mas como não fazê-lo, se também foi na quarta-feira 11 que o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro pediu a anulação da denúncia contra o chocolateiro das grifes? E não pode ter sido por outro motivo que não fosse o excesso de provas. O mesmo que levou o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, magistrado das encrencas elitistas, usou para inocentar o compadre Michel Temer, ameno companheiro de vôos transatlânticos.

    Na pocilga cívica em que um oficial ressuscita o Proconsult para garantir a permanência do “mau” militar (apud Geisel) no Alvorada, o inocentão dos sítios emprestados e das coberturas descobertas se faz de doidinho de faroeste. Ou seja, o pleito parodia chanchadas da Atlântica em réquiem profano de profundo mau gosto. Arre égua, Satanás!

    *Jornalista, poeta e escritor

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