quinta-feira, maio 12, 2022

Rússia diz estar observando de perto configuração de fronteiras da OTAN

 





A Rússia está observando atentamente qualquer coisa que possa afetar a configuração das fronteiras da aliança militar ocidental Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em resposta à visita do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, à Suécia e Finlândia nesta quarta-feira.

Espera-se que tanto a Suécia quanto a Finlândia tomem decisões neste mês sobre a candidatura à adesão à aliança militar ocidental.

Rússia não quer guerra na Europa, diz chanceler russo

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse nesta quarta-feira que Moscou não quer a guerra na Europa, mas que os países ocidentais estavam interessados em ver a Rússia derrotada em sua campanha militar na Ucrânia.

"Se você está preocupado com a perspectiva de guerra na Europa --não queremos nada disso", disse Lavrov em uma entrevista coletiva em Mascate, após conversas com seu homólogo de Omã.

"Mas chamo sua atenção para o fato de que é o Ocidente que está constantemente e persistentemente dizendo que, nesta situação, é necessário derrotar a Rússia. Tire suas próprias conclusões", acrescentou.

Reuters / DefesaNet

Quais armas a Alemanha está enviando para a Ucrânia




Blindado de combate antiaéreo Gepard

Por Christoph Hasselbach

A Alemanha vem fornecendo armas leves para a Ucrânia e já se comprometeu a enviar sistemas pesados, como tanques e artilharia. Veja lista de equipamentos enviados por Berlim – e outros que Kiev deseja receber.

O Gepard (alemão para "guepardo") é um blindado antiaéreo, ou tanque antiaéreo, com dois canhões de 35 mm. Ele pode ser usado contra aeronaves e helicópteros que voam em altitudes de até 3.500 metros (11.500 pés), mas também contra alvos terrestres levemente blindados, como veículos de infantaria e tanques de transporte.

Isso significa que o Gepard pode ser usado tanto como arma defensiva quanto ofensiva. No entanto, ele não teria chance contra um tanque de guerra por causa de seus canhões de calibre relativamente pequeno. O Gepard tem um alcance de cerca de 550 quilômetros (340 milhas) e pode atravessar corpos d'água sem equipamento adicional especial.

O que a torna relevante para uma missão na Ucrânia é que a arma foi desenvolvida, entre outras coisas, para combater helicópteros de ataque, como a aeronave soviética-russa Mil Mi-24 "Hind".

O Gepard foi introduzido em 1976 e foi por muito tempo a espinha dorsal das defesas aéreas militares alemãs, bem como dos exércitos holandês e belga. Mas nesses países, o Gepard foi aposentado há cerca de 20 anos. Já a Alemanha não usa o blindado desde 2012. A Romênia é o único Estado-membro da Otan que ainda usa o Gepard. O Brasil, por sua vez, adquiriu 34 veículos usados da Alemanha em 2013.

Como a maior parte dos Gepard que ainda se encontram na Alemanha estão parados há quase uma década, eles devem primeiro ser colocados em operação novamente antes do envio para a Ucrânia.

Outro desafio para colocar os veículos em operação na Ucrânia é que o blindado antiaéreo demanda bastante da tripulação devido aos seus sistemas eletrônicos complexos, incluindo equipamentos de radar e controle de incêndio. De acordo com Johann Wadephul, porta-voz para assuntos de defesa do partido alemão União Democrata Cristã (CDU), o treinamento de tripulações demanda pelo menos seis meses. Por essa razão, ele defende o envio de tanques Leopard 1 ou de veículos de combate de infantaria Marder, que têm sistemas menos complexos.

A Alemanha anunciou o envio de 50 Gepards para a Ucrânia, mas Berlim ainda tenta contornar uma escassez de munição para o veículo. A Suíça, fabricante dessa munição, já afirmou que não pretende se envolver na operação para não se desviar de sua política de neutralidade. Dessa forma, resta à Alemanha procurar munição em países que ainda usam o Gepard, como a Romênia e o Brasil.

Obus autopropulsado PzH 2000

Esta é uma arma de artilharia blindada autopropulsada com calibre 155 mm. No modo de rajada, seu canhão pode disparar três projéteis em nove segundos, dez projéteis em 56 segundos e – dependendo do aquecimento – lançar entre 10 e 13 projéteis por minuto continuamente. O remuniciamento é automatizado.

Os alvos podem ser destruídos a uma distância de 30 a 56 quilômetros, dependendo da munição usada. As empresas Krauss-Maffei Wegmann e Rheinmetall forneceram os primeiros veículos para a Bundeswehr (Forças Armadas da Alemanha) em 1998 e continuam a desenvolver versões mais avançadas.

Ao contrário do tanque de combate Leopard, o obus autopropulsado deve efetuar pausas durante disparo contínuo, o que o torna inferior a um tanque de combate em confronto direto. No entanto, o PzH 2000 pode ser camuflado após um disparo com o objetivo de evitar contrafogo.

O obus pode ser deslocado a velocidades de até 60 km/h. Seu alcance é de cerca de 420 quilômetros e ele pode atravessar corpos d'água até uma profundidade de 1,5 metro.

O obus foi usado com sucesso em missões no Afeganistão em 2006 e 2007 em conjunto com apoio aéreo. Segundo a ministra da Defesa da Alemanha, Christine Lambrecht, a Bundeswehr tem cerca de 100 obuses em seu inventário, dos quais cerca de 40 estão operacionais. O chanceler federal Olaf Scholz prometeu à Ucrânia sete obuses, mas, assim como os Gepard, primeiro eles teriam que passar por manutenção, algo que deve se arrastar até o verão europeu.

Veículo de combate de infantaria Marder

Os veículos de infantaria Marder (alemão para "marta", um mamífero carnívoro semelhante a uma doninha) transportam tropas para o combate, fornecem fogo de apoio e um local protegido de onde os soldados podem atirar. Isso torna o Marder um sistema particularmente versátil. O veículo tem capacidade para seis ou sete militares, conta com uma metralhadora de 20 mm e mísseis guiados Milan que podem ser usados contra alvos terrestres e aéreos.

O veículo também possui um sistema de ventilação de proteção contra ataques nucleares, biológicos e químicos e pode atravessar corpos d'água de até dois metros de profundidade.

O veículo fez sua estreia em 1971. Ele é ainda mais antigo que o Gepard e está sendo gradualmente substituído na Alemanha pelo seu sucessor, o Puma. No entanto, o Marder ainda segue em serviço na Bundeswehr e em vários outros países. Ele provou sua utilidade tanto nas campanhas do Kosovo quanto no Afeganistão. Isso foi possível graças a atualizações contínuas ao longo dos anos.

Tanque de combate Leopard 2

O Leopard 2 é o carro-chefe da indústria alemã de armamentos. O tanque de combate, desenvolvido pela empresa Krauss-Maffei Wegmann, entrou em produção em 1978 e foi atualizado várias vezes desde então. A Bundeswehr não planeja substituí-lo pelo menos até 2030.

Mais de 3.600 Leopards 2 foram fabricados até hoje, tendo sido exportados para mais de uma dezena de países. Dessa forma, existem várias variantes do modelo, cada uma adaptada às necessidades específicas dos países compradores. Há também fabricantes licenciados no exterior.

Seu antecessor, o Leopard 1, também foi um modelo bem-sucedido de exportação e ainda é usado por vários exércitos ao redor do mundo.

O canhão de 120 mm do Leopard 2 pode ser usado para atingir alvos fixos e móveis. Ele tem capacidade de atingir alvos em movimento mesmo ao se deslocar em terrenos acidentados.

O Leopard pode atravessar corpos d'água de até quatro metros de profundidade com equipamento adicional. Sua proteção contra armas nucleares, biológicas e químicas é projetada para durar até 48 horas.

O tanque pode atingor velocidades superiores a 60 km/h, mas seu peso superior a 60 toneladas costuma ser um desafio para atravessar pontes.

De acordo com militares canadenses e dinamarqueses, o Leopard 2 provou seu valor nas operações no Afeganistão, principalmente por causa de seu alto nível de proteção contra ataques. Ele também já foi usado pela Turquia em operações no norte da Síria.

O governo alemão ainda não se comprometeu a enviar à Ucrânia veículos Marder ou tanques Leopard 2. Andrij Melnyk, o embaixador ucraniano em Berlim, vem pedindo publicamente "a rápida exportação de 88 tanques Leopard 2, 100 veículos Marder, obuses autopropulsados ​​​​e muito mais".

Lançador de mísseis Stinger

O Stinger é um lançador de mísseis terra-ar guiado por infravermelho. Uma arma leve, lançada sobre o ombro, o Stinger foi originalmente desenvolvido nos Estados Unidos pela empresa Raytheon no início dos anos 1980. O equipamento é hoje também fabricado na Europa, inclusive na Alemanha.

Projetados para abater aeronaves a baixas altitudes, os lançadores funcionam como um sistema de defesa aérea portátil. Após ser disparado pelo artilheiro, o míssil rastreia seu alvo automaticamente a um alcance de até cerca de 4 mil metros. A ogiva explode com um pequeno atraso após o impacto, geralmente contra o tanque de combustível, aumentando o efeito.

Durante a Guerra do Afeganistão (1979-1989), centenas de Stingers foram enviados para os guerrilheiros mujahidins. A arma se mostrou extremamente eficaz e fácil de usar contra helicópteros soviéticos.

A Alemanha já forneceu à Ucrânia 500 mísseis Stinger dos estoques da Bundeswehr desde o início da guerra.

'O Stinger é um míssil terra-ar. Arma foi usada com sucesso durante a primeira Guerra do Afeganistão contra as forças soviéticas'

Arma antitanque Panzerfaust 3

A Bundeswehr e outras forças armadas nacionais usam o Panzerfaust 3 como equipamento antitanque. O nome remete à antiga Panzerfaust usada pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial. A moderna versão da arma, semidescartável e sem recuo, é fabricada pela Dynamit Nobel da Alemanha desde 1992. A Panzerfaust 3 é disparada a partir do ombro contra alvos estacionários até 400 metros de distância e alvos móveis até 300 metros de distância.

Tem capacidade para penetrar até 300 mm de aço blindado. Com o uso de munição específica, também se mostra eficaz contra bunkers, podendo penetrar até 240 mm de concreto armado.

A Alemanha forneceu à Ucrânia milhares dessas armas ainda no início da guerra.

Armas leves variadas

Até o final de abril, a Alemanha também havia enviado à Ucrânia 100 metralhadoras, 100 mil granadas de mão, 2 mil minas, cerca de 5.300 cargas explosivas e mais de 16 milhões de cartuchos de munição de vários calibres, para uso em fuzis de assalto e metralhadoras pesadas.

O envio foi confirmado por membros do governo ucraniano. Já o governo alemão evitou fornecer estimativas sobre o envio de armas leves.

Deutsche Welle

Eleições 2022: o papel e as polêmicas dos militares na votação para a Presidência

 

MAY



Nas últimas semanas, um debate que parecia ter sido superado com a redemocratização do Brasil, em 1985, voltou à tona: o papel das Forças Armadas no processo eleitoral brasileiro.

Por Leandro Prazeres, em Brasília

O tema voltou a ser discutido, principalmente, depois que o presidente Jair Bolsonaro (PL) passou a levantar dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas, criticar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acusá-lo de recusar sugestões feitas pelo Exército sobre o funcionamento do sistema eleitoral.

Em uma live, Bolsonaro chegou a afirmar que as Forças Armadas não se limitariam a "participar como espectadoras" das eleições deste ano.

Mas afinal: qual é o papel definido, até agora, para as Forças Armadas durante as eleições deste ano? Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que, apesar das afirmações do presidente, o papel dos militares nas eleições deverá se limitar ao transporte de urnas eletrônicas para locais de difícil acesso, garantir a segurança da votação em municípios onde haja possibilidade de conflitos e participar do processo de fiscalização do processo eleitoral.

Os especialistas, no entanto, são unânimes: não cabe às Forças Armadas o papel de "revisora" das eleições.

Forças Armadas x TSE

A tensão em torno de qual o papel a ser desempenhado pelas Forças Armadas neste ano começou há pelo menos um ano quando o presidente Bolsonaro e alguns de seus aliados intensificaram suas críticas ao sistema eleitoral. Sem apresentar provas, Bolsonaro levantou dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas.

Alegando supostas falhas no sistema de urnas eletrônicas, Bolsonaro defendeu a implantação de um sistema de contabilização de votos impresso, em que os números digitados por cada eleitor nas urnas sejam impressos e depositados em uma urna de acrílico como forma de garantir segurança em caso de acusações de fraude.

Em julho, o então ministro da Defesa e atualmente cotado para ser vice na chapa de Bolsonaro, general Braga Netto, defendeu o debate sobre o chamado voto impresso e disse que a discussão era "legítima".

Uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) chegou a tramitar no Congresso Nacional, mas ela não obteve os votos necessários e foi derrotada, em agosto de 2021.

Todo esse debate se acentuou ao mesmo tempo em que as principais pesquisas de intenção de voto passaram a mostrar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a frente de Bolsonaro na disputa pela Presidência da República.

Logo após a derrota da PEC do voto impresso, os militares voltaram à cena. Eles foram convidados pelo TSE para fazer parte da Comissão de Transparência das Eleições (CTE), criada em setembro de 2021 pelo então presidente do tribunal, Luiz Roberto Barroso.

A comissão tinha o objetivo de receber sugestões de diversas entidades da sociedade para ampliar a segurança do processo eleitoral. Entre os órgãos convidados estavam a Polícia Federal e as Forças Armadas.

'Para especialistas, Forças Armadas incorporaram discurso do presidente Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas'

E é justamente a participação dos militares nessa comissão que deu ainda mais munição para o debate sobre a atuação das Forças Armadas durante as eleições.

Isso porque os militares enviaram um conjunto de 88 questões ao TSE sobre quais medidas seriam tomadas diante de supostas fragilidades no sistema encontradas por eles.

A lista de perguntas feitas pelos militares é dividida em cinco grandes grupos: dúvidas sobre o teste de integridade das urnas eletrônicas; nível de confiança nos sistemas de votação e apuração dos votos; solicitação de documentos, listas, relatórios e informações sobre as políticas do TSE; funcionamento das urnas; e propostas de aperfeiçoamento da transparência do tribunal.

Em suas respostas, o TSE voltou a defender que o sistema eleitoral do país é seguro e rejeitou a maior parte das propostas feitas pelos militares.

Analistas avaliam que as perguntas feitas pelo Exército desconsideram o histórico de segurança apresentado pelas urnas eletrônicas, em uso desde 1996, e incorporam elementos do discurso de Bolsonaro que coloca em xeque o sistema eleitoral.

A temperatura ficou ainda mais alta depois que o ex-presidente do TSE e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Roberto Barroso, disse que as Forças Armadas estariam sendo "orientadas" a atacar o processo eleitoral.

"Desde 1996 não tem nenhum episódio de fraude. Eleições totalmente limpas, seguras. E agora se vai pretender usar as Forças Armadas para atacar. Gentilmente convidadas para participar do processo, estão sendo orientadas para atacar o processo e tentar desacreditá-lo", afirmou Barroso.

Em resposta, o Ministério da Defesa rechaçou a declaração do ministro e a classificou como "irresponsável".

E em meio a esse cenário, Bolsonaro voltou a levantar dúvidas sobre a segurança das eleições.

Em um evento no dia 27 de abril, ele chegou a dizer que os militares teriam sugerido uma apuração paralela dos votos feita pelas Forças Armadas.

Para isso, segundo ele, bastaria a instalação de um "cabo" para que os dados da votação fossem enviados a um computador dos militares.

"Uma das sugestões é que, [com] esse mesmo duto que alimenta na sala secreta os computadores, seja feita uma ramificação um pouquinho à direita para que tenhamos do lado um computador também das Forças Armadas para contar os votos no Brasil", disse.

Na semana seguinte, no dia 27 de abril, o presidente disse, em uma transmissão em suas redes sociais, que os militares não teriam um papel passivo durante as eleições.

"Convidaram as Forças Armadas. Repito, as Forças Armadas não vão fazer papel de chancelar apenas o processo eleitoral, participar como espectadores do mesmo. Não vão fazer isso", disse.

Dois dias depois, o presidente do TSE, Edson Fachin, disse que não há "poder moderador" para intervir na Justiça Eleitoral.

"Não há poder moderador para intervir na Justiça Eleitoral", disse Fachin, em uma entrevista.

"Colaboração, cooperação e, portanto, parcerias proativas para aprimoramento, a Justiça Eleitoral está inteiramente à disposição. Intervenção, jamais.", afirmou o ministro.

Transporte, fiscalização e acesso a sala-cofre

O ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Ayres Britto, que comandou o tribunal entre 2008 e 2010, disse à BBC News Brasil que, desde a redemocratização, o papel exercido pelas Forças Armadas nas eleições têm se resumido a transportar urnas para regiões de difícil acesso e garantir a segurança da votação em municípios ou localidades onde haja possibilidade de conflito.

O ex-ministro ressaltou que isso só acontece quando a Justiça Eleitoral requer a ação dos militares e que, neste ano, esse papel não deverá ser diferente. Ele diz ainda que não cabe aos militares o papel de "revisor" das eleições.

"Desde a volta da democracia, os militares só atuam nas eleições por determinação da Justiça Eleitoral. Em geral, a atuação deles se limita a distribuir urnas e garantir a segurança em alguns locais de votação sempre que solicitado", afirmou o ex-ministro.

Procurado pela BBC News Brasil, o TSE informou que, desde 2019, as Forças Armadas também estão habilitadas a atuar como fiscalizadoras do processo eleitoral.

Entre as instituições que podem exercer este papel estão os partidos políticos, polícia federal e entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Segundo o TSE, as Forças Armadas podem participar de todas as fases do processo de fiscalização das eleições, inclusive da contabilização dos votos.

"Os integrantes da CTE (Comissão de Transparência Eleitoral) poderão participar de todas as etapas do processo eleitoral, inclusive com acesso à sala-cofre", disse o TSE em nota enviada à BBC News Brasil. Sala-cofre é onde são armazenadas cópias físicas dos programas que serão usados durante as eleições.

'Ayres Britto, ex-presidente do TSE, diz que as Forças Armadas nas últimas eleições tem se resumido a transportar urnas'

Ayres Britto, faz uma ressalva, porém. Segundo ele, os militares não podem atuar como "mentores" do processo eleitoral.

"As Forças Armadas não são um poder e nem um ministério. Elas não podem atuar como mentores do processo eleitoral, determinando o que pode ou não pode ser feito. Elas atuam apenas como colaboradores", diz o ex-ministro.

Outro ex-ministro do TSE e advogado especializado em direito eleitoral, Henrique Neves, diz que ainda que as Forças Armadas participem como fiscalizadoras das eleições e integrantes da comissão de transparência, o TSE não é obrigado a acatar as recomendações.

"As Forças Armadas não podem atuar como revisoras das eleições. Os militares podem fiscalizar e fazer parte da comissão de transparência, mas por lei, não há nada que obrigue o tribunal a acatar essas sugestões", disse o ex-ministro.

Preocupação e alerta

Para a pesquisadora do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e de Opinião Pública da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Carolina Botelho, as manifestações dos militares até o momento devem ser vistas como uma tentativa de intervenção no processo eleitoral.

Segundo ela, desde a redemocratização, em 1985, as Forças Armadas vinham atuando dentro de suas atribuições sem fazer interferências na esfera política.

Ela afirma, no entanto, que esse histórico muda em abril de 2018, quando o então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas fez uma postagem no Twitter às vésperas do julgamento de uma ação sobre a prisão do ex-presidente Lula que foi interpretada por alguns analistas como uma ameaça aos ministros do STF.

Para a pesquisadora, o teor dos questionamentos sobre o funcionamento do sistema eleitoral feitos pelo Exército deve ser visto como uma "intervenção" dos militares no processo das eleições.

Ela ressalta, porém, que não é possível afirmar o tamanho do apoio que essa corrente tem dentro do meio militar.

"Esses questionamentos devem, sim, ser vistos como uma intervenção indevida dos militares no processo eleitoral. O que não sabemos, no entanto, é qual é a dimensão da parcela de militares envolvidos nessa tentativa de intervir. Há uma opacidade na instituição que nos impede de ver isso na sua totalidade", afirma Carolina Botelho.

Para o professor de Teoria Política da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Hesaú Rômulo, o grande número de militares na gestão do presidente Jair Bolsonaro torna mais difícil indicar onde termina o governo e onde começam as Forças Armadas.

Por conta dessa particularidade, ele avalia que o comportamento dos militares às vésperas das eleições deste ano é atípico.

"O simples fato de estarmos tendo esse tipo de debate mais de 30 anos depois da redemocratização mostra que a atuação dos militares nos últimos anos mudou. De certa forma, os militares tomaram pra si a função de revisores do processo eleitoral, ainda que isso não exista na nossa legislação", afirma o professor.

Na avaliação do ex-ministro Ayres Britto, porém, apesar do clima tenso, a atuação dos militares nas eleições deste ano não ultrapassou as regras institucionais.

"Até agora, as Forças Armadas têm atuado somente no campo da colaboração, inclusive enviando suas sugestões. Não avalio que houve avanço de nenhum sinal. Agora, se o presidente está fazendo uso político disso, isto é um outro problema", avalia o ex-ministro.

BBC Brasil

Pró-russos da região de Kherson, tomada por Moscou, pedirão anexação a Putin




As autoridades pró-russas da região ucraniana de Kherson (sul), ocupada por Moscou desde março, anunciaram que vão pedir ao presidente Vladimir Putin sua anexação à Rússia, enquanto um governador russo acusou a Ucrânia de bombardear uma cidade do sudoeste do país.

Uma pessoa morreu e seis ficaram feridas em um ataque contra Belgorod, segundo seu governador, Viacheslav Gladkov, que acusou as autoridades ucranianas de terem atacado a aldeia de Solokhi, destruindo uma casa.

Após o fracasso da tentativa de tomar Kiev, a capital da Ucrânia, a Rússia busca consolidar suas conquistas territoriais no sudeste e estender sua ofensiva na região do Donbass (leste).

A conquista de Kherson, único êxito militar real de Moscou desde o início da invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro, pode permitir a criação de uma ponte terrestre ligando a Crimeia, a região separatista pró-russa de Donetsk (no Donbass) e o território russo.

"Haverá uma solicitação [ao presidente russo] para fazer com que a região de Kherson seja sujeito pleno da Federação da Rússia", declarou Kirill Stremusov, chefe-adjunto da administração cívico-militar deste território situado ao norte da península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.

A tomada de Kherson pode permitir a criação de uma ponte terrestre que ligue a Crimeia, a região separatista pró-russa de Donetsk (no Donbass) e o território russo.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que "corresponde aos habitantes da região de Kherson decidir se devem fazer um pedido" ao presidente Vladimir Putin, uma perspectiva considerada absurda pelas autoridades ucranianas.

"Os invasores poderiam pedir inclusive para unir Marte ou Júpiter, mas o exército ucraniano vai libertar Kherson", disse Mikhailo Podoliak, conselheiro do presidente ucraniano, Volodimir Zelensky.

Mas o custo da feroz luta da Ucrânia tem sido alto.

Um total de 561 soldados da Guarda Nacional da Ucrânia morreram e outros 1.697 ficaram feridos desde o início da guerra com a Rússia, informou nesta quarta-feira o chefe deste corpo, Oleksiy Nadtochy.

Tanto a Rússia quanto a Ucrânia costumam ser econômicos na divulgação de suas baixas, mas em meados de abril, o presidente Zelensky informou que entre 2.500 e 3.000 soldados ucranianos perderam a vida.

- Contraofensiva em Kharkiv -

Os serviços de Inteligência americanos acreditam que Putin pretende criar uma ligação terrestre da Crimeia até a Transnístria, território controlado pela Rússia na Moldávia na fronteira sudoeste da Ucrânia.

Esta via, que passa por Kherson, representa também a conquista total de Mariupol, no mar de Azov, onde cerca de mil soldados ucranianos permanecem entrincheirados nos túneis quilométricos da siderúrgica Azovstal.

Ali morreu o filho Irina Yegorchenko, Artem, esmagado por uma estrutura que colapsou. "Esta manhã me escreveram que morreu. E de repente me senti aliviada", disse a mulher de 43 anos à AFP.

"Poderia ter sido pior se tivesse sido capturado (...) É mais fácil saber que teu filho está morto do que saber que está cativo, ferido ou morrendo de fome", explicou a mãe.

O chefe do Estado-maior ucraniano disse na noite de quarta-feira que os russos mantinham sua ofensiva no leste, tentando tomar Rubizhne e Liman, na região de Donetsk.

Mais ao norte, as autoridades de Kiev anunciaram ter recuperado quatro povoados próximos à importante cidade de Kharkiv, segunda mais populosa do país antes da guerra.

"Os ocupantes estão sendo expulsos gradualmente", disse o presidente Zelensky.

Os distritos norte e nordeste de Kharkiv, que tinham cerca de 1,5 milhão de habitantes antes da guerra, são bombardeados há semanas por foguetes russos.

A situação contrasta com a calma renovada em Kiev, que ficou quase vazia após o início da invasão russa, que recuperou quase dois terços de seus 3,5 milhões de habitantes voltaram, assegurou nesta terça o prefeito da capital, Vitali Klitschko.

- "Nenhuma possibilidade" de cessar-fogo imediato -

O secretário-geral da ONU, António Guterres, que se reuniu recentemente com Putin, considerou importante manter a comunicação com a Rússia, apesar de atualmente não existir "nenhuma possibilidade de um acordo de paz ou de cessar-fogo imediatos".

"Esta guerra não vai durar eternamente" e "se a gente quer resolver um problema, tem que discutir com quem o causou ou com quem pode resolvê-lo", argumentou.

Os combates no leste parecem afetar pela primeira vez o fornecimento de gás russo que transita pela Ucrânia, alimentando os temores de que a invasão russa provoque uma grave crise energética na Europa.

O operador do gasoduto ucraniano GTSOU afirmou que o gigante energético estatal russo Gazprom tinha "deixado de fornecer gás" no ponto de trânsito de Sokhranivka, devido às interferências do exército russo.

O volume de gás que transita por essa região representa um terço do total que transita pela Ucrânia para a Europa, segundo a Naftogaz.

A Gazprom negou que houvesse motivos para que o operador ucraniano declarasse "força maior" e disse que era impossível redirecionar todos os fornecimentos.

- Ajuda dos EUA -

A invasão da Ucrânia levou Suécia e Finlândia a contemplarem se incorporar à Otan, apesar das advertências da Rússia, e a assinar acordos de Defesa e proteção mútua com o Reino Unido.

"A adesão da Otan não seria contra ninguém", declarou o presidente finlandês, Sauli Niinistö.

A Ucrânia pressiona os países ocidentais para obter mais apoio militar.

O presidente da República Tcheca, Milos Zeman, um aliado próximo de Putin antes da guerra, autorizou 103 cidadãos tchecos a irem combater na Ucrânia em apoio às forças de Kiev.

Nos Estados Unidos, a Câmara de Representantes aprovou na noite de terça-feira um pacote de quase 40 bilhões de dólares em ajuda para a Ucrânia.

O texto, que inclui um componente econômico e humanitário, assim como armas e munições, ainda deve ser votado em breve pelo Senado antes de ser promulgado pelo presidente Joe Biden. 

AFP / Estado de Minas

A encenação de Moscou e os limites da "globalização"




Se o desfile exibido por Putin teve algum efeito, foi alimentar a ilusão dos seus fiéis e reforçar o caráter alegadamente patriótico da guerra, destituído de valores ideológicos propriamente ditos. 

Por Manuel Villaverde Cabral (foto)

Se não fosse sinistra, a manifestação anunciada sem cessar desde a invasão bélica da Ucrânia pelo presidente da actual Federação Russa – o antigo membro do KGB Vladimir Putin – seria uma mera fantochada para consumo propagandístico interno. Provavelmente, o dito presidente atacara o país vizinho no final de Fevereiro passado esperando acabar com a Ucrânia em meia dúzia de dias a tempo de celebrar a vitória na manifestação militar do passado dia 9 para gozo da população local. Enganou-se e agora pretende fazer crer à Rússia que foi a NATO que borrou a festa… Mal comparado, faz pensar na manipulação de qualquer população sujeita a ditaduras durante décadas, como sucedeu e ainda sucede frequentemente em Portugal!

O simples facto de um perigoso aldrabão de feira como Putin impingir aos seus eleitores tais artimanhas verbais é suficiente para perceber por que razão ainda está em guerra e não se atreveu, felizmente, a lançar as bombas nucleares com que ameaçou a Europa desde a primeira hora! Tais processos não só o desqualificam, como também não abonam a favor da «opinião pública» russa… Podendo parecer o oposto, o mais lamentável de tudo é a aparente sintonia entre Putin e os seus chamados «siloviki», os quais parecem contudo já encarar a hipótese de o substituir.

Em suma, nada se alterou na actual situação bélica: nem a Rússia consegue esmagar a Ucrânia nem esta tem dimensão e meios para pôr termo aos ataques daquela mesmo com o apoio militar que tem recebido. Se o desfile exibido por Putin teve algum efeito, foi alimentar a ilusão dos seus fiéis e reforçar o carácter alegadamente patriótico da guerra, destituído de valores ideológicos propriamente ditos. Pelo nosso lado, a União Europeia tem-se mostrado muito aquém da sua potencialidade bélica, entregando a defesa da Ucrânia à NATO e, em especial, aos Estados Unidos.

O caso da total dependência de combustíveis russos por parte da Alemanha não é único mas tem revelado, desde o início da guerra, uma gravíssima fragilidade político-militar vis-à-vis de regimes puramente ditatoriais e militarizados como a Rússia e aliados, entre os quais se encontram infiltrados aqueles que assumem o seu lugar no xadrez bélico internacional… Portugal também não é dos que mais se activam contra Putin.

O comportamento da Alemanha e de outros membros da UE mostrou os limites políticos da «globalização económica» em curso há décadas e que contribuiu, entretanto, para desenvolver exponencialmente não só países como a China, cuja organização manifestamente totalitária é herdada do regime soviético, mas também da Índia, cuja organização aparentemente democrática não a impediu de fabricar armamento nuclear, possivelmente para se defender da vozinha China mas não menos preocupante. Só estes dois países somam actualmente mais de 3 biliões de pessoas!

Ninguém ignora que a «globalização» promovida pelos Estados Unidos desde há meio-séculodesenvolveu a economia mundial de forma espectacular. Este modelo económico da cooperação mundial acabou, porém, por atingir um ponto limite perante países com comportamentos militares e políticos situados no limite da incompatibilidade manifestada faz agora mais de dois meses pela Rússia e pelos ambíguos sinais político-militares emitidos pela China. É este o enorme preço humano, e não só, que a Ucrânia e os seus actuais aliados da NATO estão agora a pagar.

Foi esta a situação a que a globalização económica levou a Alemanha e alguns outros países ocidentais de menor porte a arrastar toda a UE devido à dimensão da sua dependência Alemanha perante a Rússia e os seus potenciais aliados. É bom não o esquecer e começar a tomar medidas não só económicas mas também políticas e militares contra as consequências a que a globalização nos levou e que já marcara a retracção dos Estados Unidos perante o fosso em que se tinha metido há 20 anos no Afeganistão perante o protesto dos mesmos espectadores que haviam protestado na altura em que a América se meteu naquele atoleiro equiparável a outros como o Irão, etc..

Estas parecem ser as consequências políticas e até militares da aparentemente pacífica dependência económica e não só. Isso era já de esperar de algum modo das iniciativas liberais tomadas na década de ’70 do século passado que já permitiram, entretanto, a absorção de territórios como Hong-Kong e o próprio território de Macau por parte da China sem qualquer possibilidade de retorquir. Noutra escala, maior e mais próxima do ocidente, está agora a Ucrânia da qual a Rússia pretende apropriar-se no todo ou pelo menos em larga parte. Foi isso que só a imediata mobilização dos Estados Unidas e parte da NATO tiveram coragem de deter, ao mesmo tempo que nos faziam tomar consciência dos limites da «globalização» e, muito concretamente, do mortífero ataque de uma Rússia lamentavelmente incapaz de se reconstruir após a liquidação do pretenso comunismo soviético.

Observador (PT)

Putin se prepara para uma longa guerra, alertam EUA




Para chefe da inteligência dos EUA, guerra na Ucrânia não deve acabar com conquista de Donbass, no leste. Putin conta com queda no apoio ocidental a Kiev e só usaria arma nuclear se percebesse "ameaça existencial", diz.

A Inteligência dos Estados Unidos alertou nesta terça-feira (10/05) que o presidente russo, Vladimir Putin, está se preparando para uma longa guerra na Ucrânia e que uma eventual conquista da região de Donbass pela Rússia não deve encerrar o conflito.

Em audiência no Senado, a diretora da Inteligência Nacional dos EUA, Avril Haines, afirmou também que Moscou conta com uma diminuição do apoio ocidental a Kiev.

Segundo Haines, os objetivos estratégicos de Putin provavelmente não mudaram desde o início da invasão, apesar da retirada de tropas russas na região de Kiev e concentração no leste ucraniano, onde separatistas apoiados por Moscou enfrentam forças de segurança ucranianas há anos. Ela alertou que o líder russo pretende expandir o conflito para além da região de Donbass e que a guerra pode entrar numa fase mais imprevisível, volátil e sanguenta nos próximos meses.

"A natureza incerta da batalha, que está se transformando numa guerra de desgaste, combinada com a realidade de que Putin enfrenta um descompasso entre suas ambições e as atuais capacidades militares da Rússia, provavelmente significa que nos próximos meses poderá se avançar numa direção mais imprevisível e numa escalada da violência", avaliou Haines.

A diretora disse que Putin poderia buscar "meios mais dramáticos" para atingir seus objetivos, incluindo a imposição da lei marcial na Rússia e a mudança na produção industrial para sustentar o esforço de guerra, além de realização de novos testes nucleares como alerta ao Ocidente. Ela avaliou ainda que o uso desse tipo de armamento seria aprovado pelo líder russo somente se ele percebesse uma "ameaça existencial" ao seu regime.

Haines acrescentou também que Putin "provavelmente" conta com um enfraquecimento do apoio dos Estados Unidos e da União Europeia à Ucrânia, quando a escassez de alimentos se agravar e os preços de energia subirem ainda mais.

Ela ressaltou que Putin pretende criar uma ligação terrestre entre a Crimeia e a Transnístria, na vizinha Moldávia, mas para isso, necessita de uma mobilização militar maior. Haines afirmou que, apesar da escala da ofensiva russa, suas forças atuais podem não ser grandes ou fortes o suficiente para capturar e manter o território que deseja.

Avanço ucraniano

O alerta foi feito num momento de impasse no conflito, segundo altos funcionários da inteligência dos Estados Unidos. Desde que a Rússia se retirou a região de Kiev, vem tentando cercar tropas ucranianas na região de Donbass, usando como base a cidade de Izyum, perto de Kharkiv. As Forças Armadas da Ucrânia, no entanto, resistem a ataques em três direções e lançaram um contra-ataque.

Nesta terça-feira, a Ucrânia anunciou a recuperação de quatro vilarejos na região de Kharkiv, a segunda maior cidade do país. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, afirmou que tropas russas estão sendo gradualmente afastadas da área.

Enquanto tentam assumir o controle total sobre a cidade de Rubizhne, os russos procuram evitar o avanço das forças ucranianas em Kharkiv.

Segundo a agência de notícias Reuters, militares ucranianos recolheram corpos de soldados russos mortos em batalhas em duas vilas próximas à Kharkiv.

A Ucrânia afirmou também nesta terça-feira que os russos estão bombardeando Sumy e Tchernihiv, além de continuar os ataques à siderúrgica Azovtal, o último bastião da resistência em Mariupol.

Deutsche Welle

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