terça-feira, maio 10, 2022

O voto jovem que pesa na eleição

 




Por Fernando Gabeira (foto)

Começo a escrever sobre a campanha de 2022 abordando um tema sobre o qual não tenho verdades. Se for esperar clareza cristalina, entretanto, corro o risco de ver a campanha acabar sem tocar nele, na adequação ao tempo de hegemonia digital nas eleições.

Começo pelo que me pareceu o episódio mais importante da campanha na semana passada. Foi o movimento vitorioso de atração de jovens para o primeiro voto, realizado por artistas brasileiros com o apoio de Leonardo DiCaprio. Bolsonaro sentiu o golpe e foi às suas redes sociais pedir que DiCaprio se calasse. Ordens do capitão.

Por coincidência, na preparação para o trabalho do ano, estou lendo o fascinante livro de Hunter S. Thompson sobre a campanha americana de 1972 (“Fear and loathing: on the campaign trail ’72”). Hunter escrevia para a Rolling Stone, e o alvo de sua cobertura eram 25 milhões de jovens, entre 18 e 25 anos. Era um número considerável, esperança para derrotar Richard Nixon. Nixon venceu, Hunter ficou arrasado, mas seu livro tornou-se um best-seller. Foi escrito em quartos de hotéis e precisava mesmo vender porque cobertura de campanha é cara: hotéis, transporte, comida.

A linguagem de Hunter era mais próxima da juventude, pela sinceridade. Fazia um jornalismo que dissolvia as fronteiras do subjetivo e do objetivo, da literatura e da reportagem. Os amigos diziam que não levava segredo da campanha para contar em casa. Publicava-os antes.

Aquela experiência jornalística foi memorável, mas aconteceu há 50 anos, em plena era analógica, quando a Rolling Stone era uma espécie de vanguarda. No mundo digital, um grupo de artistas conseguiu produzir um fato sem mediações. Bolsonaro percebeu isso e quis participar, ainda que no papel de vilão. Não é certo que todos os votos jovens sejam contra ele, mas a intuição bolsonarista acerta ao supor que a maioria dos novos eleitores o rejeita.

A última coisa que pretendo é dar conselhos. Também estou um pouco confuso. Trabalho como comentarista de TV. Na verdade, sou repórter de campo, mas, com a pandemia, cumpri essa função. Agora, faço as duas coisas e comento depois de um dia de cinema andarilho e um tempinho de atualização.

Meus colegas de Brasília trabalham intensamente e bem. Mas às vezes tenho a impressão de que comento cenas do deserto: uma caravana ao longe, esparsos camelos. A vida está distante, nas ruas, nas redes. E a lógica deste novo mundo é inquietante. Na campanha do Brexit, a empresa Cambridge Analytica trabalhou pela saída do Reino Unido da União Europeia com mensagens contraditórias para as bolhas na internet. Aos caçadores, dizia que a caça seria mais fácil; aos defensores nacionais, anunciava que as regras seriam mais rígidas. Como os grupos não falam entre si e, quando falam, não creem uns nos outros, a tática deu certo.

Quando um candidato diz certas coisas sobre guerra para um segmento, em encontro presencial, não percebe que, apesar dos aplausos, o que voa para as redes, via smartphone, se transforma numa arma para os adversários. Infelizmente, quando se trata da Ucrânia, direita e esquerda transigem com os crimes de Putin em todas as mídias.

Em tão curto espaço para tão amplo tema, concluo provisoriamente assim: Bolsonaro, apesar de sua ignorância, sabe se mover no mundo digital.

Para combatê-lo, a esperança não é apenas o voto jovem, mas sobretudo a juventude que se move nas redes sociais, os humoristas que falam a linguagem mais franca, assim como a solitária Rolling Stone fazia há 50 anos.

Não seria nada exagerado se nos sentássemos, antes da cobertura da campanha, discutindo que mundo é este, qual a sua lógica, caminhos e armadilhas?

Afinal, estão quase todos em busca da eterna juventude do voto, válida para todas as idades.

O Globo

A mente moralista brasileira

 



Para conectar com brasileiros de outras matrizes, urge entender sua configuração mental

Por Felipe Moura Brasil (foto)

Jonathan Haidt cresceu em família judia nos subúrbios de Nova York. Para a geração de seus avós, Franklin Roosevelt, do Partido Democrata, foi o herói que derrotou Hitler.

Haidt ainda frequentou a Universidade de Yale, onde ser de esquerda, esnobando republicanos, era moralmente correto, como admite no livro A mente moralista – Por que pessoas boas são segregadas por política e religião.

“Nós apoiávamos políticas esquerdistas porque queríamos ajudar as pessoas, mas eles apoiavam políticas direitistas por puro interesse próprio (abaixe meus impostos!) ou racismo velado (pare de financiar programas sociais para minorias!). Nunca consideramos a possibilidade de existir mundos morais alternativos nos quais reduzir os danos (ajudando as vítimas) e aumentar a justiça (buscando a igualdade de grupo) não fossem os principais objetivos.”

Só na Índia, onde estudou psicologia cultural, Haidt fez de tudo para se “encaixar em outra matriz”. Quando voltou, os direitistas não lhe soaram mais “tão loucos”. Ele passou a reconhecer em cada lado “visões profundamente conflitantes, mas igualmente sinceras, de uma boa sociedade”, livrandose da “conclusão que a raiva moralista exige: nós estamos certos, eles estão errados. Pude explorar novas matrizes morais, cada uma apoiada por suas próprias tradições intelectuais. Parecia um tipo de despertar.”

Seu segundo “despertar” foi o livro Conservatism, do historiador Jerry Muller. “Como esquerdista ao longo de toda a vida, presumi que conservadorismo = ortodoxia = religião = fé = rejeição à ciência. Portanto, como ateu e cientista, eu era obrigado a ser de esquerda.” Mas Muller quebrou seus preconceitos sobre o tema, assim como Edmund Burke, Friedrich Hayek e Thomas Sowell. “Comecei a ver que eles haviam alcançado uma visão crucial da sociologia da moralidade que eu nunca vira”, confessa Haidt, elogiando os “intelectuais conservadores, não o Partido Republicano”.

Para o Brasil de hoje, polarizado entre populismos de esquerda e direita que emulam cartilhas partidárias americanas e desvirtuam tradições, o desprendimento do professor doutor é tão exemplar quanto sua teoria dos alicerces morais (Cuidado/dano, Liberdade/opressão, Justiça/trapaça, Lealdade/traição, Autoridade/subversão, Pureza/degradação), que mostra como esquerdistas e direitistas dão diferentes pesos a cada um.

Para estabelecer conexões com brasileiros de outras matrizes, abduzidos ou não pela propaganda de Lula e Bolsonaro, urge entender suas configurações mentais.

O Estado de São Paulo

A parte da elite que apoia o atraso - Editorial




Seduzidos pelas canetadas populistas de Bolsonaro, alguns empresários flertam com o apoio à sua reeleição, atentando não só contra os interesses nacionais, mas contra o seu próprio

Desde as eleições de 2018, entrou na cena pública um escrete de folclóricos empresários bolsonaristas, tão histriônicos e incorrigíveis como o seu “mito”. Mas, às vésperas de novas eleições, segundo a colunista do Estado Adriana Fernandes, novas lideranças empresariais têm flertado com o apoio à reeleição de Jair Bolsonaro. Com assombrosa capacidade de abstração, elas excluem de seus cálculos a mistura de estagnação econômica, autoritarismo político, indigência administrativa, instabilidade institucional e degradação moral que é o governo Bolsonaro.

A psique infantil e insegura do presidente; as afrontas ao decoro e à liturgia do cargo; as relações obscuras com milicianos; a truculência no debate público; as crises institucionais artificiais; as calúnias ao sistema eleitoral e as ameaças de descumprir a vontade das urnas; a degradação da administração federal; o obscurantismo que asfixia a educação, a cultura e a ciência; a devastação do patrimônio ambiental; o nanismo diplomático que, oscilando entre a negligência geopolítica e os insultos a parceiros internacionais, resultou num descrédito sem precedentes; o escárnio pelas minorias; a sabotagem às medidas de contenção do vírus da covid-19 e à imunização, resultando em milhares de mortes evitáveis; o descompromisso com as reformas e privatizações, malgrado suas tonitruantes promessas eleitorais; o sequestro do Orçamento com os fisiologistas do Centrão e a deterioração das contas públicas; os indícios de corrupção na compra de vacinas, verbas escolares e licenças a criminosos ambientais; a captura da máquina pública para fins eleitoreiros; a predisposição a privilegiar interesses familiares sobre os corporativos, os corporativos sobre os de governo e os de governo sobre os de Estado – nenhuma dessas mostras de incompatibilidade com os deveres de um estadista parece pesar na intenção de voto desses empresários.

Tampouco os motiva a estratégia do “voto útil” contra o suposto “mal maior”, questionável, mas compreensível, ante a ameaça do mandarinato lulopetista de recobrar o poder e restabelecer seu desenvolvimentismo irresponsável, sua hostilidade ao livre mercado, os gastos descontrolados, o aparelhamento do Estado e a capilarização da corrupção, tendo como corolário o retrocesso socioeconômico.

Não, as razões são mais primárias e constrangedoras: uma mescla de egoísmo e credulidade.

Entusiasmados com uma momentânea melhora nos indicadores econômicos, afagados por benefícios, créditos e isenções sacados a golpes da caneta presidencial, encantados pelos gráficos fabricados no Ministério da Economia e pelas gesticulações do seu “superministro”, esses empresários parecem comprar um pacote de inovações “estruturais” prometidas para o próximo mandato.

A novidade não é a insensibilidade com o opróbrio da esmagadora maioria de seus conterrâneos, a fome, o desemprego, a inflação que corrói a renda das famílias pobres. Essa indiferença é moeda corrente em parte significativa das elites nacionais. O surpreendente é a ignorância em relação aos seus próprios interesses. Com tantos anos de experiência, essa parcela do empresariado parece que ainda não entendeu que os votos comprados pelo populismo hoje cobram juros escorchantes amanhã, seja pela fuga de capitais, escassez de investimentos públicos, deterioração do capital humano e degradação institucional, seja pelos demais ingredientes que alimentam a estagnação da economia, a incivilidade nas ruas ou a rapacidade das classes políticas.

Que esse engano é autoengano, ou seja, que ainda resta um laivo recôndito de preocupação republicana, depreende-se do relato da colunista Adriana Fernandes, segundo o qual “o apoio à reeleição é ainda envergonhado”.

Diversas vezes a elite empresarial e suas associações se manifestaram contra os desmandos de Bolsonaro na área ambiental, educacional, sanitária ou diplomática. É hora de se mobilizarem para expor tudo o que há de vergonhoso no voto de seus colegas seduzidos pelo canto desafinado da sereia bolsonarista. Se não for pelos interesses nacionais, que seja ao menos para preservar seus próprios interesses.

O Estado de São Paulo

Assim como a jabuticaba, o golpe com data marcada é coisa nossa

 



Por Ricardo Noblat (esq.)

Se o golpe militar é o degrau mais alto que Bolsonaro pretende escalar para não deixar o poder, os demais degraus até que se chegue lá se tornam automaticamente possíveis.

É sobre a naturalização do golpe em curso. Antigamente, golpe se temia, mas anunciado não era. Caso seus sinais se tornassem explícitos, os conspiradores negavam o golpe.

Havia os pregadores do golpe, mas que não participavam diretamente dos seus preparativos. Davam palpites, quase sempre desprezados. E ajudavam a criar o clima para o que viria.

A luz do dia fazia mal à tessitura do golpe, por isso ela avançava à noite e em segredo. Os conspiradores temiam falar ao telefone, porque ele poderia estar grampeado pelo governo.

Sim, pelo governo. Golpe era sempre contra o governo de então. De 1930 para cá, só houve um golpe promovido pela situação: o de 1937, sob o comando do presidente Getúlio Vargas.

Vargas chegou à Presidência por meio do que é chamado de Revolução de 30. Derrotado na eleição daquele ano, encabeçou o movimento militar golpista e derrubou o presidente eleito.

Para ficar onde estava, ele deu o golpe de 1937, que instituiu o Estado Novo. Governou até 1945, foi deposto por um golpe, voltou eleito em 1950 e matou-se em 1954, para não ser golpeado outra vez.

A história da República brasileira está repleta de tentativas bizarras de golpes que falharam. O suicídio de Vargas com um tiro no coração adiou por 10 anos o golpe que se consumou em 1964.

O presidente Jânio Quadros protagonizou curiosa tentativa de golpe a favor. Eleito com votação estupenda, renunciou seis meses depois e levou com ele a faixa presidencial.

Queria voltar com ela no peito e nos braços do povo para governar com poderes especiais. Tomaram-lhe a faixa tão logo desembarcou em São Paulo, deixando Brasília para trás. Não lhe deram mais.

O tempo passou, mas a tentação do golpe não passou. Agora, os conspiradores estão nem aí para a luz do dia, o telefone que possa estar grampeado, os pregadores que se metem a dar palpites.

O golpe é trombeteado em jornais, rádio, televisão e redes sociais pelo presidente e os seus comparsas. Há fóruns a respeito, mesas-redondas, enquetes e até data prevista para que ele ocorra.

A dúvida, apenas, é se ele será um golpe preventivo ou reparador, se acontecerá na noite do primeiro turno, se no intervalo entre o primeiro e o segundo, ou se logo depois do segundo turno.

O golpe preventivo evita o anúncio da derrota de Bolsonaro, o reparador repara o estrago de uma derrota. Talvez fosse indicado realizar pesquisas para avaliar qual será a melhor alternativa.

Ao fim e ao capitão ninguém poderá dizer que foi surpreendido e acusar o governo de falta de transparência. À jabuticaba, coisa nossa, se juntará o golpe cantado em prosa e verso.

Jornal Metrópoles

Não há só 'uma' direita nem só 'uma' esquerda




A democracia liberal funda-se na concorrência parlamentar e civilizada entre direita e esquerda democráticas, não na ‘guerra civil de classes’ entre direita e esquerda. 

Por João Carlos Espada (foto)

1 Há precisamente um mês, a 9 de Abril, foi publicado na América um livro que vem dominando o debate público educado na imprensa, rádio e televisão. Chama-se The Right: The Hundred Year War for American Conservatism (Basic Books); o autor é Mathew Continetti, ‘senior fellow’ do muito distinto American Enterprise Institute for Public Policy Research, com sede em Washington, DC. Não é impossível que esse debate venha a chegar à Europa — e eu certamente acredito que seria muito desejável que pudesse chegar cá.

Apesar de o título da obra começar pelo singular ‘The Right’, Mathew Continetti enfatiza que sempre houve na América várias ‘direitas’ no interior daquilo que é por vezes designado por ‘a Direita’. E recorda que, talvez em boa parte por isso mesmo, esse termo ‘a Direita’ foi em regra particularmente usado e preferido por uma certa esquerda — em regra, a chamada esquerda radical, que vê o debate político como luta de classes, entre ‘o povo contra as elites’ e entre ‘a esquerda contra a direita’.

Um traço curioso da época actual é que a designação ‘a Direita’ está hoje a ser retomado com entusiasmo por certos sectores que se reclamam da Direita e se dizem inimigos da esquerda — bem como inimigos da própria direita democrática e moderada (que raramente usa essa expressão ‘direita’, preferindo, na América, as expressões “conservadores’ ou ‘Republicanos’).

2 Após uma longa e detalhada análise historiográfica das várias correntes conservadoras ou republicanas na América desde a década de 1920, Continetti é claro na identificação de vários elementos distintivos entre essas correntes.

Entre eles, o autor sublinha, em primeiro lugar, a distinção entre ‘isolacionismo vs. multilateralismo’. O isolacionismo, em regra associado ao proteccionismo económico, também chamado “anti-globalismo”, foi dominante entre os Republicanos antes e durante o início da II Guerra Mundial (chegando a ter tonalidades pró-nazis e anti-semitas, ainda que marginais). Esse isolacionismo anti-globalista ficou de tal forma desacreditado que só com o multilaterismo anti-comunista e pró-democracia de Ronald Reagan, na década de 1980, a política externa Republicana retomou credibilidade — e, em rigor (felizmente também, em meu entender), supremacia.

Um segundo elemento distintivo tem a ver com a imigração. Também na década de 1920 até ao início da II Guerra, o discurso anti-imigração era dominante entre os Republicanos. Foi também Ronald Reagan quem restabeleceu a tradição mais antiga dos Republicanos a favor da imigração, distinguindo entre imigração legal, que apoiou, e ilegal, que condenou. Reagan recordou que a América é uma nação feita de e por imigrantes — e que estes devem continuar a ser bem recebidos, desde que aceitem e assumam os chamados ‘valores americanos’ consagrados na Constituição.

Em terceiro lugar, Continetti recorda a antiga distinção entre contra-revolucionários e conservadores — hoje de novo em voga entre muitos que se reclamam “do povo contra as elites”. Continetti observa que os contra-revolucionários (expressão usada por eles próprios) adoptaram a estrutura intelectual e o vocabulário do marxismo. Concebem o debate político como luta de classes — entre uma ‘classe dominante’ associada ao estado e uma ‘classe popular’ que tenta resistir ao controlo pelas elites. Para defender a chamada ‘classe popular’, autores contra-revolucionários atacam os Republicanos moderados como ‘traidores’ e proclamam a necessidade de ‘regime change’ —só que neste caso trata-se da mudança do próprio regime constitucional americano. E esse ‘regime change’ será promovido pelos MARs: “Middle American Radicals” (por vezes também associados ao chamado ‘Tea Party’).

3 Continetti observa que estas ideias radicais gozam hoje de grande popularidade entre os eleitores republicanos. É este caldo de cultura contra-revolucionário, alimentado por uma deriva revolucionária entre os Democratas, expressa pelo patético sr. Bernie Sanders, que gerou o sucesso eleitoral do sr. Trump (o qual, como aqui repetidamente chamei a atenção, continua a nunca abotoar o casaco e a insultar aos gritos os adversários, numa clara postura revolucionária e ungentlemanly, que nunca seria admitida num Gentlemen’s Club).

Mas Continetti certeiramente recorda que, também na década de 1920, ideias semelhantes gozavam de grande popularidade entre os eleitores republicanos — e depois estiveram 40 anos no deserto (‘in the wilderness’), até que o conservadorismo liberal clássico dos Republicanos gerou o saudoso Ronald Reagan (em aliança atlântica com a não menos saudosa Margaret Thatcher).

4 Felizmente, acrescenta Continetti, permanecem no partido Republicano conservadores não revolucionários que ‘compreendem que o conservadorismo foi fundado na oposição aos extremos, quer da revolução quer da contra-revolução. Que negam que as instituições políticas, sociais e culturais da América já não possam ser reparadas. Que sustentam que este país permanece digno do nosso orgulho e da nossa defesa. Que negam que estejamos numa guerra civil, quente ou fria. Que sustentam que os nossos adversários políticos ainda são nossos concidadãos. Que sabem que o nosso (demasiado grande) aparelho de estado não é um regime totalitário. […] Ainda há conservadores que permanecem leais aos princípios e instituições dos Fundadores da América e da liberdade ordeira que está no seu coração.”

5 Talvez possa ser aqui ainda brevemente recordado que um problema político-intelectual muito semelhante — embora de tonalidade dominante contrária — esteve presente em Portugal após o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, e no plano cultural, muito depois disso, até hoje.

Tratava-se da dicotomia “Fascismo ou Revolução”, que tinha como seu principal adversário o socialista democrático Mário Soares — então designado como ‘o homem dos americanos’. Mário Soares simplesmente recusou com Olímpico (e, como ele próprio disse, ‘burguês’) desprezo essa ‘dicotomia infeliz’ entre a chamada ‘Esquerda unida contra a Direita’, também expressa no slogan ‘O Povo Unido jamais será vencido’ ou no slogan ‘Fascismo ou Revolução’. E Soares proclamou corajosamente a prioridade da democracia liberal pluralista, fundada na concorrência parlamentar, pacífica e civilizada, entre esquerda democrática e direita democrática, bem como na firme oposição comum contra a esquerda e direita revolucionárias.

6 Voltarei seguramente a este assunto. Para já, gostaria de recordar o livro de Jerry Z. Muller, Conservatism: An Anthology of Social and Political Thought from David Hume to the Present (Princeton University Press, 1997), e sobretudo o clássico de Lord Quinton, The Politics of Imperfection: The Religious and Secular Traditions of Conservative Thought in England from Hooker to Oakeshott (1978).

Observador (PT)

O inimigo institucional




Bolsonaro estendeu a sua noção de inimigo ao Supremo, um pilar da democracia, e não somente ao seu adversário principal na eleição, Lula.

Por Denis Lerrer Rosenfield* (foto)

O cenário político brasileiro entrou numa zona cinzenta, de contornos indefinidos, em que o jogo partidário normal está derrapando para o confronto institucional. Não se trata apenas de um embate eleitoral, próprio do jogo democrático, mas sinaliza para algo mais, a saber, a própria existência de instituições democráticas. No momento em que as próprias instituições são questionadas e sua legitimidade é posta em dúvida, a política deriva para uma espécie de não política no sentido clássico do termo, isto é, pode concretizar-se em soluções autoritárias, que se situam fora do cenário propriamente democrático.

A partir da condenação do deputado Daniel Silveira, da base de apoio bolsonarista, pelo Supremo Tribunal Federal, o presidente Bolsonaro aproveitou-se da ocasião para deslanchar toda uma campanha contra o Supremo enquanto instituição, vindo, na sequência, a questionar o processo de apuração da urna eletrônica, chamando as Forças Armadas para si, como se fizessem parte de sua base de apoio, quando são instituições de Estado. Há, claramente, aqui um apagamento de fronteiras constitucionais. Assim se conduzindo, ele tornou o próprio Supremo o seu novo inimigo, o que significa dizer que a própria democracia pode estar a perigo. Note-se que o alvo não é Lula ou outro competidor, mas uma instituição republicana, sem a qual o regime democrático desmorona. O inimigo torna-se institucional.

Não se trata, aqui, de defender a decisão específica do Supremo, considerada inclusive por não bolsonaristas como excessiva em sua pena, além de criar problemas, no que diz respeito à cassação do mandato, com o Poder Legislativo, que teria essa cassação como uma atribuição sua. Outros poderiam argumentar, com certa dose de razão, que o inquérito das fake news já teria ido longe demais. No entanto, não é isso que está em questão, uma vez que o presidente Bolsonaro, por sua vez, no uso de suas prerrogativas presidenciais, recorreu ao indulto individual como se estivesse a defender a liberdade, um princípio constitucional. Deu, assim, um passo político temerário, colocando-se na posição de revisor constitucional, quando não tem essa prerrogativa. Anulou, dessa maneira, a divisão de Poderes.

Trata-se de uma autoatribuição sem nenhuma base constitucional. O indulto é, sim, uma prerrogativa sua para ser utilizada com o objetivo de suspender a pena dos criminosos, não lhe cabendo discutir as razões da condenação. Reiterando, ele não é uma suprema instância cujo poder reside acima do próprio Judiciário. Seria ele, segundo uma tal concepção, um poder correcional das decisões de um Supremo que cessaria de ser supremo. Em outras palavras, tal formulação é de cunho claramente autoritário, a partir da qual as portas estariam abertas para ele “corrigir” qualquer decisão de nossa mais alta Corte, o que significaria dizer que poderia descumprir qualquer decisão dela derivada. Poderia não acatar, por exemplo, uma decisão do Supremo relativa aos resultados da urna eletrônica, como se coubesse a ele decidir sobre esses resultados. A crise institucional estaria instalada.

Note-se que Bolsonaro chegou a utilizar a expressão “comoção social” para justificar o seu ato de indulto, quando não houve nenhuma manifestação deste tipo, salvo o barulho já usual de suas redes sociais, que são ainda mais atiçadas quando seus objetivos políticos assim o exigem. Sugeriu que haveria uma profunda insatisfação social com a condenação de Daniel Silveira, quando ela concerne somente à própria bolha bolsonarista. A imensa maioria dos cidadãos brasileiros está preocupada com a inflação, com o desemprego, com a baixa renda e com suas necessidades mais imediatas.

Desde uma perspectiva eleitoral, o atual mandatário procurou unicamente aumentar a coesão do grupo dos seus apoiadores, cansados e desiludidos com a falta de cumprimento de suas promessas, exemplificada em sua aliança com o Centrão, em sua “conversão” à “velha política”.

A política bolsonarista, conforme assinalado em outros artigos, é de cunho schmittiano, baseada na distinção entre amigo e inimigo. Há uma clara estratégia a esse respeito, embora as oportunidades para reiterá-la resultem das intervenções, muitas vezes improvisadas, do presidente. Recuos fazem igualmente parte desta sua estratégia, como moderações repentinas, a exemplo das recentes manifestações de rua. O inimigo é todo aquele que é designado como tal, não importa quem seja ou o que faça. Basta que tenha essa designação, que é atribuição daquele que assim o denomina. Pode ser qualquer um, seja alguém real, seja alguém imaginário, seja uma instituição.

No caso em questão, Bolsonaro estendeu a sua noção de inimigo ao Supremo, um pilar da democracia, e não somente ao seu adversário principal, Lula. Tivesse ele se restringido a este último, estaria ainda submetido às regras democráticas; extrapolando seu gesto, ele termina se situando para além dessas regras. Passa a democracia a ser o seu alvo.

*Professor de filosofia na UFRGS.

O Estado de São Paulo

O que há de verdade no discurso de Putin no Dia da Vitória

 




Ameaça nuclear pela Ucrânia? Invasão da Crimeia? Neonazistas no poder em Kiev? Otan surda? Fala do presidente russo no 9 de Maio conteve velhas e novas acusações. DW checou os fatos: a maioria é falsa.

Por Roman Goncharenko, Michel Penke e Joscha Weber

Durante a parada militar por ocasião do 77º aniversário da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista, falando da Praça Vermelha de Moscou, o presidente russo, Vladimir Putin, levantou acusações sérias contra a Ucrânia e o Ocidente. A equipe de checagem de fatos da DW examinou algumas assertivas centrais desse discurso.

Ucrânia não busca armamento nuclear

Alegação: "Em Kiev foi anunciada a possível aquisição de armas atômicas. O bloco da Otan começou a ampliar ativamente o potencial militar dos territórios fronteiriços com o nosso", declarou Putin.

Verificação da DW: Falso

Putin aparentemente se refere ao discurso do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, durante a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2022.

Lá ele mencionou o Memorando de Budapeste de 1994, que garante a inviolabilidade das fronteiras da Ucrânia, Belarus e Cazaquistão perante os países signatários. Além dos Estados Unidos e do Reino Unido, a Rússia reconheceu aí as fronteiras ucranianas. Em troca, Kiev entregou as armas nucleares herdadas da União Soviética ou, em parte, as destruiu.

Na Conferência de Munique, Zelenski sugeriu que poderia se retirar do Memorando, uma vez que a soberania ucraniana foi violada com a anexação da península da Crimeia por Moscou, em 2014.

Do ponto de vista jurídico, tal passo seria relativamente sem consequências, pois o acordo de Budapeste não se refere ao armamento atômico – que é tema do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, assinado no mesmo ano pela Ucrânia. Além disso, não há provas de qualquer tentativa ilícita, ou sequer de planos do país de obter esse tipo de armamento. Portanto a alegação de Putin é falsa.

Seu comentário sobre novas infraestruturas militares da Otan perto das fronteiras russas é enganosa. A aliança militar internacional, de fato, reforçou sua presença no Leste Europeu, porém respeitando as condições acordadas no Ato Fundador entre a Rússia e a Otan, de 1997, em Paris.

Ucrânia não se prepara para retomar territórios e não está super-armada

Alegação: Putin insistiu que a guerra seria "preventiva": antes, a Ucrânia teria se preparado abertamente para uma nova "mobilização no Donbass" e "invasão de territórios históricos russos, inclusive na Crimeia". Países da Otan também teriam fornecido armas ultramodernas aos ucranianos.

Verificação da DW: Falso

O governo ucraniano tem repetidamente afirmado que procura uma solução diplomática, não militar, do conflito na região do Donbass, no leste do país – onde se localizam as províncias pró-russas de Lugansk e Donetsk, reconhecidas por Putin como "repúblicas populares" pouco antes de marchar sobre a Ucrânia. Quando, no terceiro trimestre de 2021, a Rússia postou suas tropas ao longo da fronteira ucraniana, não houve qualquer sinal de uma reação militar ucraniana iminente.

O mesmo se aplica à Península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014 e transformada por ela numa fortaleza militar de fato, equipada com os armamentos mais modernos. Mesmo perante esses quadros, Kiev tem se engajado por soluções diplomáticas como a "Plataforma da Crimeia", com o fim de chamar a atenção para as violações dos direitos humanos na região.

Alguns países-membros da Otan, de fato, forneceram ao país sob invasão armas modernas, como mísseis antitanques, porém de modo hesitante e, de início, restrito. Só pouco antes da invasão, no fim de fevereiro, as entregas se intensificaram. Armas pesadas, como tanques blindados, só passaram a ser enviados depois da eclosão da guerra.

As alusões de Putin a "territórios históricos" russos são injustificadas. Com a dissolução da União Soviética, a Rússia reconheceu as fronteiras da Ucrânia. Assim, do ponto de vista do direito internacional, tanto a Crimeia como as províncias no Donbass são territórios ucranianos. Uma resolução das Nações Unidas de 2020 confirmou a condenação e o não reconhecimento da anexação da Crimeia por Moscou.

Ucrânia não está dominada por neonazistas

Alegação: Putin acusou a Ucrânia de estar sendo liderada por "neonazistas", com quem seria "inevitável" chocar-se. No Donbass, civis teriam "morrido pelos disparos arbitrários e ataques bárbaros de neonazistas".

Verificação da DW: Falso

A identificação da Ucrânia com "neonazistas" é uma assertiva falsa, apesar de insistentemente repetida por Vladimir Putin, seu governo e a mídia estatal russa. Como pretexto inicial para a invasão do país vizinho, Putin alegou a necessidade de "desnazificação" – conceito com que se descreve a política das Forças Aliadas vencedoras para com a Alemanha, ao fim da Segunda Guerra Mundial.

É falaciosa a comparação entre o regime nacional-socialista da Alemanha, de 1933 a 1945, e a atual Ucrânia, sob democracia constitucional: nem Kiev almeja a um sistema totalitário, nem há extremistas de direita no poder. É fato que membros radical-nacionalistas também integram o mal afamado Batalhão Azov, que combate os invasores russos no leste do país. Porém, nas eleições parlamentares de 2019, a frente unida dos partidos ultradireitistas não conseguiu mais de 2,15% dos votos.

Para o especialista em nacionalismo no Leste Europeu Ulrich Schmid, da Universidade de Sankt Gallen, a narrativa do Kremlin e seus seguidores é uma "insinuação pérfida": existem, sim, neonazistas no país, "mas na Rússia há pelos menos tantos grupos de extrema direita quanto na Ucrânia".

Essa posição conta com amplo respaldo científico: numa declaração publicada no periódico Jewish Journal, mais de 300 historiadores e pesquisadores classificaram como "propaganda" a suposta "desnazificação" da Ucrânia, concluindo: "Essa retórica é factualmente falsa, moralmente repulsiva e profundamente ofensiva para os milhões de vítimas do nacional-socialismo."

Em vez de diálogo, Rússia impôs exigências inaceitáveis à Otan

Alegação: "Em dezembro passado, propusemos firmar um acordo sobre garantias de segurança. A Rússia chamou o Ocidente para um diálogo honesto, busca de soluções de consenso sensatas, consideração pelos interesses recíprocos. Os Estados da Otan não quiseram nos escutar, o que significa que, na verdade, tinham bem outros planos", disse Putin.

Verificação da DW: Enganoso

O presidente russo se refere a um catálogo de exigências apresentado à Otan em 17 de dezembro de 2021. Entre as oito condições sobre as quais ambos os lados deveriam acordar, a fim de evitar um conflito, as principais eram o fim da ampliação da aliança militar para o leste e o recuo de suas tropas às posições adotadas em 1997.

Isso implicaria a retirada dos contingentes da Otan da Polônia, Hungria, República Tcheca, Bulgária, Romênia, países bálticos (Estônia, Letônia, Lituânia) e diversos Estados dos Bálcãs. Além disso, a aliança ocidental deveria abrir mão de atividades militares nas vizinhanças da Rússia – sendo a Ucrânia mencionada especificamente. Ficariam também banidos mísseis de curto e médio alcance baseados em terra capazes de alcançar o território dos signatários.

Observadores ocidentais consideraram parte das exigências incompatíveis com as diretrizes da Otan. Segundo seu Artigo 10º, a liberdade de se associar a ela é direito de todo Estado soberano, mesmo se tratando de um vizinho da Rússia. O país e sua antecessora, a União Soviética, ratificaram esse princípio fundamental em 1975, 1994 e 1997.

Em sua resposta, no fim de janeiro de 2022, a Otan rechaçou a exigência de que suspendesse a admissão de novos países-membros. Por outro lado, acedeu à reivindicação de uma melhora dos canais de comunicação entre Moscou e as capitais ocidentais, com vista à reabertura de representações na Rússia e em Bruxelas.

Além disso, o Conselho Otan-Rússia deveria passar a servir ao intercâmbio sobre manobras militares e política nuclear. O secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, dispôs-se, ainda, ao diálogo com Putin sobre controles armamentistas, desarmamento e transparência nos exercícios militares – exigindo, em contrapartida, a retirada das tropas russas dos territórios da Geórgia, Ucrânia e Moldávia.

Portanto os fatos não corroboram a versão do chefe do Kremlin, de ter proposto um "diálogo honesto" e não ser "escutado" pelo Ocidente.

Deutsche Welle

Guerra da Ucrânia faz Suécia e Finlândia enfrentarem demônio de entrar na Otan




Entre os diversos abalos sísmicos decorrentes da Guerra da Ucrânia, um dos mais sensíveis politicamente atinge a Escandinávia, onde Suécia e Finlândia discutem abandonar uma neutralidade militar histórica e se unir à Otan, a aliança comandada pelos Estados Unidos.

Apesar de parecerem uma unidade e, ao fim, a decisão de um influenciará na do outro, o jogo é bastante diferente para Estocolmo e Helsinque no debate. Tudo indica que ambos acabarão na Otan, para o desgosto de Vladimir Putin, mas o processo decisório sueco é mais intrincado.

O Partido Social Democrata, dominante na política sueca há décadas, está em consultas sobre o tema, assim como o Parlamento -que vai divulgar seu estudo acerca da questão na próxima sexta (13). “Será algo mais como prós e contras, não uma decisão”, diz o analista de segurança Mikael Holmström, do jornal Dagens Nyheter.

O demônio da entrada na Otan, diz Holmström, está domado na elite sueca. “Já o cidadão ordinário mal pensa nisso, porque o debate público foi desencorajado pelos sociais-democratas, historicamente contrários à adesão”, diz.

A Folha falou com outro Mikael, esse de sobrenome Andersson, um analista de sistemas de Estocolmo que talvez se encaixe na definição de cidadão ordinário dada por seu xará. “A guerra é terrível e acho que devemos entrar na Otan para nos proteger. Mas eu penso que no mesmo dia seremos alvo da Rússia”, diz.

Moscou é atenta a essa linha de raciocínio, e o Kremlin já fez questão de deixar público que uma entrada dos nórdicos na Otan levará ao posicionamento de armas nucleares perto de seu território. Ou seja, em Kaliningrado, o encrave russo entre Lituânia e Polônia, ou talvez na Belarus do ditador Aleksandr Lukachenko.

É retórica, dado que tais armas já podem estar em Kaliningrado, como atesta a Federação dos Cientistas Americanos, entidade referência no tema. Mas tem seu efeito.

Seja como for, Holmström considera que tudo indica o fim de 200 anos de neutralidade formal da Suécia, que veio após o antigo reino expansionista perder o que hoje é a Finlândia justamente para os russos, cuja terra havia sido invadida e tomada por Estocolmo no século 18.

É um processo natural. Nos últimos anos, o governo sueco aumentou suas metas de gasto militar visando justamente conter a ameaça russa. A partir de 1994, sua cooperação com a Otan cresceu exponencialmente, embora seu efetivo armado tenha caído de 850 mil homens para 30 mil (incluindo voluntários e paramilitares) e o dispêndio bélico, de 2,5% do PIB para 1%. “Ainda assim, a Rússia sabe desde os anos 1950 de que lado estamos”, diz o analista.

A situação é algo diversa na vizinha Finlândia. No inverno de 1939 a 1940, o país foi palco de uma invasão soviética não muito distante no discurso em Moscou hoje -Helsinque acabou lutando até 1944 ao lado da Alemanha nazista contra os comunistas, mas ao fim acertou-se com os Aliados, guerreou contra Berlim e pagou como multa 10% de seu território.

A política resultante desse trauma foi o estrito não alinhamento durante a Guerra Fria, substituído por uma progressiva integração à Europa depois de 1991, mas sempre evitando o palavrão aos ouvidos russo: entrar na Otan, um dos motivos colocados por Putin para o ataque ao vizinho.

Agora, com a invasão da Ucrânia, o clima no país mudou e a revisão da política será anunciada no dia 12 pelo presidente Sauli Niinistö. Com apoio popular alto, acima de 60%, a adesão é dada como certa. Não menos porque há diferenças na postura de defesa em relação à mais poderosa Suécia.

Estocolmo tem menos soldados que Helsinque, mas uma indústria bélica altamente sofisticada, que vende caças para o Brasil e produz de submarinos ao NLAW, a arma antitanque que leva terror às forças de Putin na Ucrânia. Resquício de sua postura altiva na Guerra Fria, a militarização do país surpreende visitantes que esperam uma pacata e pacifista terra nórdica.

Já a Finlândia é mais exposta, até por compartilhar 1.300 km de fronteiras terrestres, ainda que geladas e inóspitas, com a Rússia. “Os finlandeses sempre se apoiaram em duas pernas, os EUA e a boa relação com a Rússia. Agora, viram que não dá para confiar em Putin”, diz Holmström. “No mesmo dia em que a invasão da Ucrânia começou, Helsinque foi atrás da Otan.”

Sua adesão poderá ter o condão de tornar a decisão sueca um fato consumado. “Há muita cooperação militar entre os dois países, e se a Suécia ficar fora da Otan, estará isolada no norte da Europa. Será um alvo fácil para provocações russas”, afirma o analista.

Com efeito, desde que a guerra começou houve ao menos dois episódios em que o espaço aéreo sueco foi violado por aviões russos -num deles, a imprensa do país nórdico diz que havia armas nucleares a bordo de bombardeiros Su-24 escoltados por caças Su-27.

Apesar de todo o burburinho, há um fato que costuma passar despercebido das análise sobre o fim da neutralidade nórdica: na realidade, ela já foi algo descartada quando Suécia e Finlândia aderiram juntas à UE (União Europeia), em 1995.

“Se um Estado-membro é vítima de agressão armada em seu território, os outros Estados-membros devem ter uma obrigação de ajuda e assistência por todos os meios a seu dispor”, diz o artigo 42.7 do Tratado da União Europeia.

O texto até fala que, se forem membros da Otan, os Estados devem seguir “as fundações de sua defesa coletiva e o fórum de sua implementação”, mas objetivamente o que se diz que é suecos e finlandeses já gozam de certas prerrogativas de proteção sendo membros da UE.

Evidentemente, a coisa muda de figura com o artigo 5º da carta da Otan, que prevê a defesa mútua de membros sob ataque meramente porque colocam os Estados Unidos, maior potência militar da história, na equação.

Há, por fim, considerações sobre o impacto da provável adesão dos países, que afetam inclusive o Brasil. A indústria bélica sueca será beneficiada ou engolida pela Otan? “Eu vejo vantagens, como a entrega dos NLAWs aos milhares para a Ucrânia mostram”, diz Holström.

Mas e os caças Gripen, adotados em sua nova geração por Brasil e Suécia, e cuja manutenção nas próximas décadas seria favorecida por mais clientes externos, como ficariam? Afinal de contas, o F-35 americano já derrubou o sueco em duas competições importantes recentes, na própria Finlândia (64 aviões) e no Canadá (88).

“Eu creio que quem compra o F-35 quer uma relação próxima dos EUA, e isso não irá mudar”, afirmou o analista, não sem razão. Até a Alemanha, proponente da independência militar europeia, anunciou a compra do modelo após a crise na Ucrânia.

O desfecho da novela nórdica será indicado, mas talvez não resolvido, nesta semana. O debate sueco deve continuar até o dia 24, quando os sociais-democratas divulgarão sua posição, de olho na cúpula da Otan no fim de junho.

Ambos os países querem que a aliança forneça garantias de segurança durante o processo de adesão, que leva de oito meses a dois anos, temendo que os russos aprontem algo durante a análise. A Otan já disse que tais medidas podem ser combinadas, o que não tirará da alta tensão o interregno entre uma posição e outra.

POR IGOR GIELOW

FolhaPress / Daynews

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