
Lula ganha presentes de Flávio Bolsonaro e aliados
Ricardo Corrêa
Estadão
Uma eleição que registra empate técnico em um provável segundo turno, faltando ainda cinco meses para as eleições, é de previsão difícil. O momento, agora, porém, é favorável a Lula, depois de algum tempo em que, jogando parado, Flávio Bolsonaro contou com erros do governo e um cansaço da população com a gestão Lula para avançar.
E três fatores concomitantes contribuem para as duas semanas de alívio para o presidente após meses profundamente difíceis: a aceleração do uso da máquina, um discurso bolsonarista que resgatou o negacionismo da pandemia e, agora, o áudio que fez Flávio Bolsonaro ser apanhado no caso.
PODER DA MÁQUINA – O primeiro fator depende exclusivamente de Lula. E isso é o que no Brasil costuma garantir que quem está no poder vá crescendo paulatinamente ao longo da campanha, garantindo altos índices de reeleição. A máquina é muito poderosa se usada até o limite para benefício eleitoral. E Lula mostrou nos últimos dias que está disposto a testá-la até esse limite.
Até aqui, a principal ação havia sido a isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos, que registrou poucos dividendos eleitorais para Lula. Mas, agora, embora dois terços dos brasileiros digam que não foram contemplados pela medida, o sentimento entre aqueles que se dizem beneficiados melhorou. Isso é perceptível em todas as faixas, segundo a pesquisa Genial/Quaest.
Encorajado pela necessidade de reverter o crescimento que Flávio Bolsonaro vinha demonstrando, o governo colocou o pé no acelerador do uso da máquina nos últimos dias. E aí veio o Desenrola 2.0, de alto potencial eleitoral. Hoje, ainda há 43% dos brasileiros que não ouviram falar do novo programa, o que mostra ainda um espaço de melhora.
BOA IDEIA – Pois entre os que conhecem, 50% acham que é uma ideia boa por ajudar quem está endividado a sair do vermelho e mais 22% também acham boa, embora avaliem que não resolva propriamente o problema das dívidas. A rejeição popular ao programa é baixa em cenário de polarização: 23% consideram uma má ideia. Os números são bem semelhantes entre os independentes, público a ser conquistado na disputa, faixa na qual apenas 21% rejeitam a ideia.
Outras cartadas foram dadas nas últimas horas. Primeiro, com a revogação da chamada “taxa das blusinhas”. Segundo, com uma MP para tentar forçar a redução do preço dos combustíveis ou impedir que haja um aumento. Ninguém duvida que foi a taxa sobre pequenas compras internacionais o que mais pesou na popularidade do governo no início do atual mandato.
CAUTELA – Os efeitos da revogação agora tenderiam a ser positivos, mas é preciso cautela. Ao revogar a taxa, o governo trouxe de volta a discussão sobre sua aplicação e há nítidas dificuldades de justificar as razões pelas quais, apenas no período eleitoral, resolveu mudar de ideia. Ainda assim, derrubar a taxa seria melhor do que mantê-la, do ponto de vista de discurso de campanha.
Sobre a MP para os combustíveis, depende muito de como se dará sua implementação. Se servir apenas para compensar um aumento que a Petrobras já sinalizou que fará, o efeito será pequeno. Nos dois casos, com impostos estaduais ainda mantidos e com a dificuldade do cidadão de distinguir quem lhe cobra o quê, os efeitos não tendem a ser tão expressivos.
E para o futuro, vem toda a discussão da escala 6×1 que, implantada ou não, só por ser debatida, já ajuda o governo a emparedar o discurso da oposição e se colocar do lado da faixa majoritária da população. Se precisar, virá discussão sobre tarifa zero ou que mais for necessário para quem está no governo tentar vencer, exatamente como fizeram as gestões anteriores. O céu, e não o orçamento, é o limite. E o resto se vê depois, como é costume no Brasil.
SEM RUMO – Enquanto isso, os aliados do principal adversário de Lula perderam o rumo. Sem espaço para discutir o caso Master nos últimos dias, após o estouro da operação contra o aliado do centrão Ciro Nogueira, pisando em ovos na relação com o STF e vendo o governo ganhar espaço na agenda com as reuniões com Trump e anúncios, o bolsonarismo passou dias mirando na decisão da Anvisa de suspender lotes de produtos da Ypê.
Erro grosseiro pois, junto com as reclamações de que haveria perseguição política contra uma empresa brasileira, vieram cenas e discursos bizarros que fizeram lembrar o negacionismo da época da pandemia. Ali estava um enorme calcanhar de aquiles da gestão Bolsonaro, principal responsável por sua derrota em 2022.
Ao contrapor a mesma Anvisa que era bombardeada a cada vacina que era aprovada e ao oferecer cenas de gente fingindo beber detergente, os bolsonaristas deram um presente para a esquerda. Que casou com o evento de Lula em lembrança às vítimas da pandemia, no qual Janja fez referência à polêmica da vez. E também com discursos de Lula e de Alexandre Padilha que levam ao questionamento sobre o que aconteceria se quem bebe detergente tivesse que administrar uma nova pandemia pelos próximos quatro anos.
AÚDIO – Quando o cenário já parecia começar a favorecer o petista, veio o áudio em que Flávio pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro e as mensagens em que diz que estará com o banqueiro sempre. Implodindo o discurso do senador sobre o caso Master e abrindo um caminho para que outros nomes à direita possam tentar surfar em seu derretimento.
Para Lula o benefício depende do tamanho do estrago. Se for exagerado e viabilizar outro candidato, pode virar uma armadilha. O tamanho da encrenca para Flávio, porém, dependerá de quanto tempo levará para que o bolsonarismo consiga retomar um rumo no debate para conter o impacto da pancada. Até lá, Lula agradece.