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Por José Montalvão
Existe um ditado popular, cunhado pela sabedoria do povo, que define com perfeição o comportamento da nossa classe política: "Pimenta nos olhos dos outros é refresco". Durante anos, o Brasil assistiu a uma enxurrada de vazamentos de informações sigilosas. Enquanto o alvo dessas indiscrições eram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), membros do atual governo ou qualquer figura que não orbitasse em torno do Centrão e da direita, esses mesmos grupos permaneceram calados, omissos e, muitas vezes, aplaudindo os bastidores devassados.
Contudo, a roda da história gira. Esqueceram que o pau que dá em Chico, também dá em Francisco. Agora que o vazamento atingiu em cheio o núcleo deles, o silêncio complacente transformou-se em indignação barulhenta e corrida aos tribunais.
O Caso Flávio Bolsonaro e a Reação da Oposição
O exemplo mais recente dessa mudança de postura envolve o senador Flávio Bolsonaro. A articulação para reclamar e exigir uma investigação rigorosa sobre novos vazamentos partiu diretamente da base de aliados do parlamentar, que hoje atua na oposição ao governo federal.
Os aliados de Flávio, que antes assistiam a vazamentos contra adversários sem maior contestações, agora denunciam o que classificam como um "vazamento seletivo e criminoso" ao STF. O cenário mudou, e os desdobramentos dessa reação política evidenciam o desespero de quem se viu do lado vulnerável da linha:
Corrida ao STF: O senador e coordenador de campanha Rogério Marinho (PL-RN) reuniu-se com o ministro do STF André Mendonça para pedir a apuração imediata do caso. A equipe alega que há cerca de 7 terabytes de informações sob sigilo absoluto e que apenas áudios específicos foram divulgados de propósito.
A Tese da Perseguição: A defesa e os aliados de Flávio Bolsonaro afirmam categoricamente que as conversas foram retiradas de contexto e vazadas de maneira direcionada e seletiva para prejudicar sua pré-candidatura à Presidência.
Por que Não Reclamaram Antes?
A pergunta que o cidadão consciente deve fazer é simples: por que esses mesmos políticos não demonstraram o mesmo rigor e o mesmo apetite por justiça quando os vazamentos destruíam reputações alheias? O crime de violar o sigilo judicial só passa a existir quando o CPF do atingido pertence ao próprio grupo?
A defesa do devido processo legal, do sigilo de justiça e da inviolabilidade das investigações não pode ser uma bandeira de conveniência. Ou o vazamento de relatórios e áudios sigilosos é um crime contra o Estado Democrático de Direito em qualquer circunstância, ou aceita-se o vale-tudo institucional. O que não dá é para aplaudir o vazador de ontem e pedir a prisão do vazador de hoje.
Conclusão: A Moralidade de Conveniência
O direito às garantias constitucionais deve ser universal. Investigar vazamentos criminosos é um dever da Justiça, e o senador tem o direito de exigir que a lei seja cumprida. Porém, o episódio deixa nua a hipocrisia de Brasília.
Na política do "pirão primeiro", a ética é elástica: serve como escudo para os amigos e como espada para os inimigos. Quando o feitiço vira contra o feiticeiro, as lágrimas de indignação perdem o crédito perante uma população que já cansou de assistir a esse teatro de dois pesos e duas medidas.
Blog de Dede Montalvão: Analisando os bastidores do poder com independência e coerência.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025
