Flávio e o caso do filme do cavalo doido que pode não ter recebido os milhões de Vorcaro, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
21/05/2026 às 07:00
Atualizado em 21/05/2026 às 09:01
Foto: Ton Molina/Arquivo/Agência Senado
Flávio Bolsonaro
Não é possível dizer ainda que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República subiu no telhado depois do vazamento de suas conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento de "Dark Horse", filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sob prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Mas também não dá para imaginar que o envolvimento dos Bolsonaro com aquele que é apontado como provavelmente o maior fraudador da história do sistema financeiro brasileiro vá ficar impune, como a primeira pesquisa a respeito do impacto do noticiário sobre o caso acabou de provar.
Mesmo porque, pelo andar da carruagem, novas revelações deverão se seguir à primeira, ampliando o estrago sobre o nome com que a grande família sonhava em voltar ao poder contra o lulopetismo. Desde o princípio, já se comentava que Flávio talvez fosse, entre os membros do clã, aquele com maior telhado de vidro, dado seu histórico complicado, do qual podem ser pincelados o caso das 'rachadinhas' no período em que foi deputado estadual na Assembleia do Rio de Janeiro e o mal explicado episódio da compra de uma mansão em Brasília, integralmente financiada, coincidentemente, pelo BRB que pretendia adquirir o Master.
Isso não foi suficiente para que o pai acatasse a ideia de apoiar a candidatura do governador Tarcísio de Freitas (SP), de longe o melhor nome que a direita poderia apresentar à sucessão presidencial, nem o de outro membro da família, a exemplo do da ex-primeira-dama Michele. O resultado é que o vazamento do áudio colocou visivelmente a campanha bolsonarista na defensiva, a ponto de não só o candidato como aliados admitirem que novas revelações poderão ocorrer, complicando ainda mais o cenário para o 01, o que pode forçá-lo, inclusive, a renunciar ao projeto eleitoral ou, em caso de insistência, chegar às urnas muito desidratado.
É claro que, para o chamado bolsonarista raiz, pouco importa o acordo de Flávio com um ex-banqueiro preso cuja instituição financeira aplicou um golpe na praça de cerca de R$ 60 bi, lesando de pequenos correntistas a fundos de pensão e outros clientes mais poderosos, públicos e privados. Reféns do próprio radicalismo, o que eles desejam, como se vê por meio das redes sociais, é derrotar o presidente Lula e o PT, independentemente das qualidades daquele nas mãos de quem desejam entregar os destinos do país. Para o time dos eleitores cativos do bolsonarismo, portanto, não há o que discutir.
Mas eles não são em número suficiente para decidir a eleição, o que significa que, de fato, Flávio precisará do apoio de cidadãos esclarecidos e independentes que votem de maneira racional. Para esse grupo que, em 2022, reconhecendo as aspirações golpistas de Jair, ajudou a eleger Lula e dava sinais de que se afastaria do petista agora em outubro, o filho do ex-presidente pode deixar de ser uma opção, principalmente se novos fatos começarem a surgir. Pior ainda se ficar provado, como se comenta em Brasília, que, ao contrário do que a família vem sustentando até agora, os R$ 62 milhões extraídos de Vorcaro não foram empregados no filme.
*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.