quinta-feira, julho 13, 2023

Dinheiro liberado por Damares para ONGs foi parar em empresas de fachada e laranjas

Publicado em 12 de julho de 2023 por Tribuna da Internet

image.png

Damares Alves confraterniza com seu amigo “Pidão”

Tácio Lorran
Estadão

O antigo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado pela então ministra e hoje senadora Damares Alves (Republicanos-DF), bancou duas ONGs envolvidas num esquema de direcionamento de recursos públicos, contratações irregulares e falsificação de documentos.

O dinheiro repassado pelo ministério deveria ser usado na formação profissional de adolescentes e mulheres presidiárias e vítimas de violência, mas foi parar em empresas de fachada, cujos sócios são laranjas. Uma das organizações beneficiadas é ligada a um ex-deputado federal do Rio de Janeiro que já foi chamado de “amigo” e “pidão” por Damares.

PARCERIAS CORRUPTAS – Os desvios foram apontados em relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), que analisou quatro parcerias feitas nos primeiros anos de governo Bolsonaro entre o Ministério e as ONGs Instituto de Desenvolvimento Social e Humano do Brasil (IDSH) e Instituto Nacional de Desenvolvimento Humano (Inadh). O prejuízo é de, pelo menos, R$ 2,5 milhões aos cofres públicos.

O valor, no entanto, pode ser maior ainda, uma vez que a auditoria se limitou a uma parte dos convênios. As duas organizações acumulam mais de R$ 30 milhões em verbas públicas federais, segundo dados do Portal da Transparência analisados pelo Estadão.

Procurada, a senadora informou, por intermédio de sua assessoria, que foi sua gestão quem levou o caso à CGU. “Tal solicitação de auditoria foi realizada no dia 11 de fevereiro de 2022, por meio de ofício, diante de fortes indícios de irregularidades detectados por ocasião de análise e mapeamento de riscos”, diz nota de Damares.

DIZ DAMARES – A senadora informou ainda que uma das ONGs foi cobrada e teve que devolver R$ 1,1 milhão. A senadora disse desconhecer quem são os dois das duas entidades. Mas o relatório da CGU aponta que a gestão de Damares não sanou todas as irregularidades e ainda liberou recursos após serem apontadas as falhas.

As duas entidades receberam recursos públicos para executar ações sociais. As ONGs deveriam contratar gráficas e empresas de locação de equipamentos e de veículos para a realização de cursos de formação a mulheres e adolescentes em situação vulnerável. As contratações tinham que ser feitas por meio de licitação. Mas as entidades beneficiadas pela Pasta de Damares direcionaram a verba por meio de propostas fictícias ou simuladas.

Uma das empresas contratadas foi a Globo Soluções Tecnológicas. Ela recebeu R$ 11,7 milhões para locação de microcomputadores e máquinas de corte, macas, cadeiras de roda e ônibus. A empresa, porém, não possui funcionários e tem como sede, segundo dados da Receita, um barraco em Anchieta, no Rio de Janeiro.

SÓCIA-LARANJA – Hoje, a sócia-administrativa da empresa é Sara Vicente Bibiano. Ela é apontada como laranja, uma vez que foi beneficiária do auxílio emergencial durante a pandemia do novo coronavírus. O benefício foi destinado a pessoas de baixa renda, o que, em tese, conflita com os milhões de recursos recebidos por sua companhia. Além disso, Sara fez parte do conselho fiscal da Inadh, a ONG que contratou a Globo Soluções. A reportagem tentou contato com ela, mas não obteve sucesso.

Relatório da CGU aponta que a contratação dessa empresa violou os princípios de impessoalidade e não foi possível atestar que os serviços foram de fato realizados.

“Os recursos pagos à Globo Soluções Tecnológicas não foram aplicados de forma regular, pois não restou comprovada sua total execução, e estão em desacordo com os princípios da economicidade e da impessoalidade”, diz o documento da CGU.

“AMIGO” E “PIDÃO” – Outra empresa citada em relatório da CGU é a Total Service Rio LTDA. Ela tem como sócio Clayton Elias Motta, que foi secretário parlamentar do ex-deputado federal Professor Joziel (Patriotas-RJ). Na gestão de Damares, o parlamentar privava da amizade da então ministra.

Em 2022, ela chegou a fazer campanha pedindo votos para a reeleição do Professor Joziel. Não deu certo. Ele recebeu apenas 10.040 votos no Rio e não foi reeleito.

Defensor da pauta evangélica, Joziel foi eleito para a Câmara dos Deputados em 2018 quando recebeu apoio do senador Flávio Bolsonaro. Durante o mandato, ele se tornou um grande aliado de Damares. “Meu amigo, meu deputado querido, meu professor. Vou contar um segredo do deputado professor Joziel. Atenção: ele é pidão. Ele vive nos Ministérios pedindo recursos para o Rio de Janeiro”, afirmou a então ministra da Mulher, em vídeo publicado nas redes sociais.

MAIS MILHÕES – Como deputado, Professor Joziel destinou emendas ao orçamento para o ministério de Damares e indicou como beneficiário final o Instituto Desenvolvimento Social e Humano do Brasil. Joziel apadrinhou R$ 3,8 milhões remetidos pelo então Ministério da Mulher.

Essa entidade passou a ser agraciada com verbas públicas a partir de janeiro de 2019. Desde então, ganhou um total de R$ 13,4 milhões repassados pelo governo federal. O Estadão procurou o presidente do IDSH, Bruno Rodrigues. Ele afirmou que a prestação de contas foi feita devidamente e indicou um colega de trabalho para dar detalhes: Leandro Bastos Silva. “Se você ligar para ele, vai te esclarecer bastante coisa. Ele é o técnico, que programa as coisas tudinho”, explicou.

Leandro Bastos Silva foi secretário parlamentar do Professor Joziel, entre 2019 e 2022. Procurado, disse não ter “nada para falar”.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Damares Alves foi um dos grandes equívocos de Bolsonaro, em sua cobiça pelos votos evangélicos. Criou uma ministra tipo anta, que se tornou senadora e não tem a menor condição de representar seus eleitores. (C.N.)  

Em destaque

Vácuo deixado por Eduardo Bolsonaro abre guerra no PL por vaga ao Senado em SP

Publicado em 20 de janeiro de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Cassação de Eduardo embaralha jogo do Senado em S...

Mais visitadas