sábado, novembro 12, 2022

Americanos escolhem equilíbrio - Editorial




Ao punir os democratas sem referendar os republicanos, eleitores mostram que sua democracia vai bem

Enquanto a apuração das eleições de metade do mandato nos EUA é concluída, a disputa pelo Senado segue apertada e deve ser decidida só em dezembro, num segundo turno na Geórgia. Na Câmara, os democratas devem perder a maioria. Apesar disso, os republicanos estão frustrados. Pela conjuntura econômica e por padrões históricos – o partido do presidente sempre é punido –, seu desempenho deveria ter sido bem melhor.

A questão do aborto – após a Suprema Corte devolver a decisão sobre sua legalização aos Estados – ajudou os democratas em alguns lugares. Sobretudo, a estratégia de denunciar o radicalismo dos republicanos Maga – Make America Great Again, o movimento de Donald Trump – rendeu dividendos. Com efeito, candidatos trumpistas fracassaram em Estados onde a vitória era plausível. No dia das eleições, Trump tripudiou: “Se os republicanos ganharem, eu deveria receber todo o crédito; se perderem, ninguém deve me culpar”. Mas muitos devem estar pensando se não é o contrário. Sua reputação de rolo compressor eleitoral está desmoronando.

De fato, desde que venceu a impopular Hillary Clinton em 2016, Trump só perdeu: primeiro, o controle do Congresso em 2018; depois, a reeleição em 2020. Seus militantes no partido ainda lhe dão alavancagem nas primárias, mas as urnas provaram que ele é incapaz de vencer a desconfiança de republicanos moderados e eleitores independentes, muito menos de virar votos democratas. Durante sua escalada à presidência, muito se falava dos apoiadores envergonhados. Agora, é possível que entre os quadros do partido esteja emergindo o fenômeno inverso: dos opositores envergonhados. Mas eles podem perder a vergonha se encontrarem um adversário competitivo, como o governador da Flórida, Ron DeSantis: combinando populismo conservador com competência administrativa, ele conquistou enclaves democratas e maiorias negras e hispânicas em uma campanha de reeleição esmagadora que transformou um Estado historicamente dividido em republicano.

Enquanto os democratas celebram seu desempenho, o risco é de complacência. Eles acusam os republicanos de exagerar problemas como a economia, a criminalidade e a imigração ilegal, e com razão. Mas exageros só rendem votos quando há algo a exagerar: a inflação de fato está alta; a violência, escalando; e as fronteiras, um caos. E, se os exageros democratas sobre ameaças à democracia também têm base na realidade, é questionável a viabilidade eleitoral de continuar a se apresentar como bastião das liberdades contra o trumpismo, sem que os eleitores comecem a desconfiar de exaustão e oportunismo. Em coletiva após as eleições, o presidente Joe Biden, questionado sobre o que faria diferente nos próximos anos, respondeu: “Nada”.

Ao dividir o governo entre uma presidência democrata e uma Câmara republicana, o eleitorado mostrou mais pragmatismo do que o tribalismo em Washington e nas mídias sugere. Ele forçou as lideranças partidárias a uma solução de compromisso, atando as mãos de um lado e de outro, enquanto busca melhores opções para 2024.

O Estado de São Paulo

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