Publicado em 16 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet
Em estilo conservador, Moro defende os valores familiares
Bruno Boghossian
Folha
Nenhuma investida de Sergio Moro na corrida presidencial pareceu tão intensa até aqui quanto a busca pelo voto conservador. O ex-juiz escalou um advogado evangélico para coordenar essa área da campanha e se reuniu com mais de 50 líderes religiosos. Na última semana, ele disse que pretende lutar contra a “sexualização precoce” de crianças.
Não há candidato que defenda o contrário, então a promessa de Moro poderia ser encarada como uma proposta vazia para enfrentar um problema inexistente. Essa plataforma, no entanto, lembra o jogo sujo que o bolsonarismo explorou para demonizar adversários e assegurar o domínio do eleitorado conservador.
JOGADA ARDILOSA – Em 2018, Jair Bolsonaro transformou a questão num ponto central da campanha. Ele dizia que a esquerda distribuiu na rede pública de ensino um livro infantil que “estimula precocemente as crianças para o sexo”. Depois de eleito, usou o tema para esconder os fracassos de seu governo e afirmou ter zerado “aquela sexualização na escola”.
O bolsonarismo trabalhou para difundir uma falsa ameaça que só o capitão poderia combater. Apoiado por influenciadores e líderes religiosos, inundou as redes sociais com desinformação e ataques à educação sexual.
Sem apresentar nenhum programa consistente, uniu em torno de sua candidatura cerca de dois terços do eleitorado evangélico, um segmento notadamente conservador.
DEFENSOR DA FAMÍLIA – Moro parece disposto a buscar um atalho nesse lamaçal para tomar esses votos de Bolsonaro. Uma maioria significativa (87%) dos eleitores evangélicos dizem conhecer o ex-juiz, mas só 8% votam nele no primeiro turno. Segundo o Datafolha, só 5% dos entrevistados desse grupo o identificam como o candidato “que mais defende os valores da família tradicional brasileira”.
O coordenador da campanha de Moro no eleitorado evangélico, Uziel Santana, disse que o ex-juiz se apresenta como um “conservador moderado”.
Em alguns casos, porém, o candidato caminha em terreno próximo dos desvarios bolsonaristas.