Jarbas Passarinho
Exemplo de tenacidade e de coerência, a seringueira do interior do Acre, frágil de saúde, mas gigantesca no idealismo de vencer os mais duros óbices de realizar seu ideal, alfabetizada aos 14 anos pelo Mobral, aprovada no atalho do supletivo, logo ultrapassou os umbrais da recente universidade de Rio Branco, onde se graduou em História. Aos latifundiários de outros Estados da União, no boom de povoar a Amazônia com a pata dos bois avançaram seus investimentos nas terras baratas do Acre. A devastação da floresta, onde a seringueira não era mais que o espantalho da riqueza da borracha, que chegou a ser a segunda fonte de exportação do Brasil dos tempos de exportador de sobremesa (café e açúcar).
Restavam nas matas os imbatíveis remanescentes dos áureos tempos, que começaram a fenecer quando o aventureiro Wickman conseguiu, com preciosa ajuda da aduaneira de Belém, mandar para a Inglaterra, como presente a Sua Majestade Britânixa, 70 mil sementes da hevea brasiliensis. Elas geraram as futuras plantations britânicas no então Ceilão, hoje Sri Lanka que acabaram com os 40 anos de bonanças e dos mitos dos donos das terras acendendo charutos com cédulas de libras esterlinas.
De início ligou-se a Chico Mendes o condotieri dos resistentes às motosserras que abatiam as seringueiras, seu último ganha pão. Passaram os seringueiros a abraçar, todos em círculo, as árvores impedindo a fúria depredadora. Um celerado, que chegara ao Acre pensando enriquecer na pecuária, mandou o filho matar Chico Mendes. O PT aproveitou-se, como o fez em todas as áreas de povos espoliados, para transformá-lo em mártir da ecologia, do que ele entendia tanto quanto minha avó entendia de logaritmo neperiano ou de física quântica. Mártir ele o foi, de fato, abatido traiçoeiramente como nos filmes americanos do far west, Marina perdia um símbolo da resistência ao capitalismo devastador honrou-lhe sempre a memória e, ministra, criou o Instituto Chico Mendes. Mas percebeu que teria de vencer na própria sociedade injusta. Logo alfabetizou-se.
Numa comunidade eclesial de base, onde lhe ensinaram um catolicismo que nela não durou, impregnaram-na dos ensinamentos que têm por base, como depois alertaria João Paulo II, cada vez menos o eclesiástico e cada vez mais a crítica – justa – de Marx ao capitalismo selvagem, o do laissez faire, produtor da injustiça social, palavras que Hayek repudia, ao dizer que as diferenças nascem dos incapazes na competição do mercado. Marina, então, foi o símbolo do PT, que ela sempre viu como um partido de transformação do capitalismo no socialismo utópico da igualdade.
Seu belo exemplo de vida, o PT usou para fazer do Acre um dos primeiros Estados da federação a ser dominado, com a ajuda preciosa da Igreja engajada. Na política chegou à mais alta Casa do Congresso, o Senado. Nele desfraldou o galhardete da ecologia e do indianismo. Elevada à condição de ministra do Meio Ambiente, dedicou-se à ecologia.
Ligou-se aos ambientalistas radicais que trocaram a eloqüência do silêncio pelas ações audazes. Dentre eles destaca-se o Peace Corps e nele foi buscar para compor seu Ministério. Capobianco lhe foi de grande influência e valia, tido como radical, mas de quem li uma frase que sintetiza o ambientalismo racional: não fazer um preservacionismo que impeça qualquer projeto que não atinja qualquer parte da floresta. A isto chamamos de conservação da floreta utilizada sem predação.
Mas o grande líder que tinha como irmão de pensamento e de luta, foi mudando pouco a pouco do que era em 1990. No seu primeiro quadriênio, como Marina reconhece, ele deu todo apoio. Depois cansou de se opor aos transgênicos, exigiu pressa do Ibama na aceitação dos projetos de hidrelétricas do Rio Madeira e outros que estariam retardando "o espetáculo do crescimento". A opção estava tomada: O PAC acima de tudo. Submeteu a ministra a constrangimentos públicos. Antes que recebesse por telefone a exoneração, não a pediu, ao contrário demitiu-se, o que Lula só soube depois de tornada pública pela mídia.
Hosanas à dignidade de Marina.
Fonte: JB Online
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