Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Saiu o quê, do encontro de Aécio Neves com o Lula, terça-feira, no Palácio do Planalto? Nada, esperam os tucanos. Muita coisa, dizem os dirigentes do PMDB. Entre a decisão de não deixar o PSDB e a oportunidade de tornar-se candidato presidencial dos peemedebistas, o governador mineiro hesita, tornando-se o presidente da República o fiel da balança. Como ainda parece muito cedo para resolver, a conversa deve ter ficado nas preliminares.
Aécio sabe que o PT lançará candidato, ou candidata, a menos que prospere a tese do terceiro mandato. Mesmo assim, se ele for escolhido pelo PSDB ou pelo PMDB, e se passar para o segundo turno contra um adversário do governo (bom dia, governador José Serra), espera contar com o apoio do presidente Lula. Importa, assim, preservar boas relações, aliás, ótimas, com o Palácio do Planalto.
Quanto ao acordo entre o PSDB e o PT, em Belo Horizonte, o pleito do governador é de que o presidente lave as mãos e não se manifeste contra. A direção nacional do PT vetou o entendimento, mas como os companheiros da capital mineira mantêm-se a favor, melhor seria que o presidente ficasse à margem.
Enquanto isso permanece a confusão no ninho tucano, por conta da disputa entre Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin, pela indicação do partido à Prefeitura de São Paulo. Até pouco se tinha a impressão de que Alckmin levaria a maior parte dos companheiros a respaldá-lo, mas o governador Serra mostra-se irredutível. Pretende ver cumprido à risca seu compromisso com o prefeito Kassab, assegurando assim o apoio do DEM à sua candidatura presidencial. O resultado desse choque imprevisto pode muito bem redundar na vitória de Marta Suplicy, do PT.
Vai a Lima
Decidiu o presidente Lula comparecer a Lima, no Peru, para a reunião de cúpula dos presidentes e primeiros-ministros da União Européia, América Latina e Caribe, na sessão de encerramento, amanhã. Ficaria estranha sua ausência, mesmo se representado pelo vice-presidente José Alencar.
Do diálogo entre os governantes, porém, espera-se muito pouco, a menos que o presidente Chavez, da Venezuela, produza alguma surpresa. Debater o aquecimento global, a escassez de alimentos, a energia alternativa e temas correlatos servirão apenas para engrossar as prateleiras dos respectivos ministérios de Relações Exteriores com novos volumes de discursos que ninguém lerá.
Exemplo
A mais importante das leis elaboradas no Brasil foi também a mais curta: "Está extinta a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário."
Um exemplo para ninguém botar defeito, sugerindo nesses 120 anos decorridos que a moda poderia pegar em torno de outros temas. Que tal o Congresso aprovar e o presidente da República sancionar um projeto assim: "Está extinta a corrupção no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário."
Há quem proponha um paralelo: "Está extinta a impunidade no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário." Saber da aplicação dessas leis seria muito mais difícil do que reconhecer a escravidão permanecendo entre nós, mesmo através de outras práticas. Corrupção e impunidade constituem manchas tão hediondas quando a escravidão.
Assistir aos telejornais, ouvir o noticiário no rádio ou ler o jornal virou sessão de tortura. Multiplicam-se as denúncias sobre todos os tipos de roubalheira praticados entre nós. Não escapam os poderosos, sejam ministros, parlamentares, empresários e altos funcionários públicos. Da mesma forma, desenvolvem-se em cascata os mecanismos capazes de impedir a punição da imensa maioria dos responsáveis. Na base da pirâmide acontece o mesmo. Do narcotráfico ao roubo nos pesos, nos serviços e nos produtos à venda, a lambança é igual.
O País clama por outra abolição, mas o que se vê é o círculo se fechando. Só falta mesmo aparecer a aliança formal entre a corrupção e a impunidade na forma de um novo partido político. Seria o PCI, em condições de formar-se em cada um dos 5.940 municípios nacionais. Imbatível em qualquer eleição, nem despertaria oposição.
Não dá para entender
Acaba o governo de anunciar um programa para beneficiar as empresas exportadoras. Serão 266 bilhões de reais a menos que os industriais pagarão de impostos. Coisa digna de todos os elogios, não fosse...
Não fosse o fato de que, para vender lá fora, nossas empresas se viram desoneradas de uns tantos encargos, mas se quiser ampliar o mercado interno, nada feito. Os impostos continuarão pela hora da morte, acrescidos da completa falta de apoio governamental, quando se trata de produzir e consumir no limite de nossas fronteiras.
Se a queda do dólar atrapalha as exportações, vem logo o Banco Central para comprar a moeda estrangeira e obstar a natureza das coisas. Nessa hora não há livre mercado nem concorrência aberta.
Um dia, quem sabe daqui a séculos, chegaremos à conclusão de que mais vale prover a própria casa e a própria família do que ceder aos cantos de sereia internacionais. Porque cada vez mais dependemos de decisões tomadas lá fora.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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