sábado, junho 18, 2022

Em busca do populismo perdido




O governo Bolsonaro não foi populista na economia pela maior parte do tempo por questões que não dependem dele, como a pandemia, e – faça-se justiça – por algum freio de Guedes, que vem, no entanto, fazendo concessões cada vez maiores. Agora, o presidente quer recuperar o tempo perdido no final do jogo. 

Por Fernando Dantas (foto)

A lógica do populismo econômico é maximizar o bem-estar no presente, mesmo à custa de tornar pior o futuro.

É óbvio que essa conta não fecha. Como se manter no poder se o futuro um dia vai virar presente, tornando necessário arcar com o custo da irresponsabilidade passada?

O populista, claro, não tem resposta satisfatória para esse problema. Na prática, o que se vê são duas situações típicas.

Na primeira, o populista promove uma bonança insustentável, se mantém no poder enquanto ela dura, e perde eleitoralmente quanto a conta chega.

Se o sucessor for não populista, a tendência é que tente arrumar a casa, mas frequentemente apenas para ser trocado de novo por um populista, quando a população cansar da disciplina – que naturalmente não tem como ser justamente distribuída em países muito desiguais, o que o populista incorpora em seu discurso político.

É raro o caso, em países subdesenvolvidos, desiguais e instáveis, em que um não populista consiga colher o fruto que plantou em termos de políticas responsáveis – isto é, é raro que os benefícios postergados dessas ações se transformem em trunfo eleitoral para o não populista.

Antes disso, provavelmente, um populista voltará ao poder atacando a injustiça do aperto de cinto, e em seguida aproveitará qualquer melhora institucional que o não populista tenha implantado para turbinar uma nova bonança até que esta se torne insustentável. E o ciclo segue.

A segunda situação, pior, é aquela em que o populista se mantém no poder mesmo depois que a conta chega, minando as instituições democráticas até implantar na prática uma ditadura, como na Venezuela.

O controle total ou parcial das informações, a repressão da oposição política, a manipulação institucional e a capacidade de distribuir favores para grupos específicos (muito ligada ao país dispor de muitos recursos naturais, como o petróleo na Venezuela e Rússia) substituem a bonança econômica como meio de o populista se manter no poder.

Jair Bolsonaro é sem dúvida um populista – de direita, no caso –, mas que não conseguiu produzir nenhuma bonança econômica. Hoje, no mundo, ele não está sozinho nessa situação. A pandemia deixou um rastro econômico muito difícil em quase todos os países.

No mundo rico, em especial nos Estados Unidos, a atividade econômica e o mercado de trabalho voltaram com tudo, mas junto com inflação inusitadamente alta, o que é péssimo em termos de popularidade governamental.

No Brasil, a inflação disparou sem que nada exuberante tenha ocorrido na atividade e com o mercado de trabalho ainda numa situação muito ruim. O estrago em termos de popularidade presidencial é ainda pior.

O Brasil não é uma exceção no mundo em desenvolvimento. Outros países se encontram em situações parecidas, embora a alta de inflação brasileira seja particularmente aguda, tirante aberrações como Argentina e Turquia.

Não houve nos últimos anos, portanto, meios de fabricar um bonança econômica artificial, nem que governantes com inclinações populistas assim o desejassem.

Mas é preciso reconhecer que Bolsonaro, ao tomar como ministro da Economia Paulo Guedes, autointitulado liberal e ortodoxo, também criou limites para si mesmo em termos de promover populismo econômico.

Longe de esta coluna avaliar positivamente a gestão econômica do atual governo. Basta recuar no tempo para verificar que as críticas a Guedes foram muito mais frequentes que os elogios.

Mas é justo apontar que medidas como reforma da Previdência, manutenção – mesmo com graves adulterações mais para o final do mandato – do teto de gastos, autonomia do Banco Central e moderação do crédito dos bancos públicos não constituem, de forma alguma, uma agenda populista – bem pelo contrário.

Houve ainda o marco do saneamento, a recente privatização da Eletrobrás e diversos avanços microeconômicos na área de crédito e financeira em geral (como o pix, de sucesso espetacular).

Mas o sinal mais claro de “não populismo” econômico de Bolsonaro é o fato de que se caminha – salvo alguma mirabolante mágica para fazer gastos eleitoreiros – em 2022 para uma redução dos gastos federais como proporção do PIB de cerca de 1,5 ponto porcentual (pp) em comparação aos quase 20% de 2018. Que haja queda nesse quesito durante um mandato presidencial é inédito desde a redemocratização.

Talvez seja exatamente essa percepção de Bolsonaro de que, apesar de todo seu instinto populista, ele caminha para provavelmente perder a eleição que o está deixando tão alvoroçado em relação à questão dos combustíveis.

Para o populista, nada é pior do que terminar a guerra derrotado e ainda com uma parte substancial da frota intacta. É preciso partir para o tudo ou nada e perder até o último navio na tentativa de se reeleger.

Mesmo assim, talvez porque o presidente ainda tenha esperança de sair vitorioso em outubro, o PLP dos combustíveis tal como proposto pelo Executivo joga a perda permanente – líquida do aumento estrutural de arrecadação – de receita de cerca de 0,6 pp do PIB nas costas dos Estados.

São movimentos desesperados e provavelmente inúteis de um presidente de alma populista diante da iminência da derrota (obviamente, segundo a fotografia deste momento – a disputa eleitoral “só acaba quando termina”).

O Estado de São Paulo

As eleições da desilusão




Bolsonaro está liquidando o antipetismo

Por César Felício (foto)

A se confirmar o resultado que se prenuncia para a eleição presidencial, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, ela merecerá ser estudada por representar uma quebra de tendência. Um livro recente mostra o tamanho do paradoxo da eleição deste ano e uma pesquisa internacional dá uma pista de uma possível explicação.

A direita no Brasil estava em fase de esplendor até o começo deste ano, conforme os artigos de Antonio Lavareda, em parceria com Vinicius Silva Alves; e de Helcimara Telles, junto com Carlos Freitas, publicados no livro “Eleições municipais e pandemia”.

Nas eleições de 2018, a direita teve 58,7% dos votos por uma vaga na Câmara dos Deputados. Na disputa pelas prefeituras em 2020, 54,3%, de acordo com o levantamento do artigo assinado por Lavareda. Não se trata de raio em céu azul: a onda da direita se elevou abruptamente na eleição para deputado em 2014 e na disputa municipal de 2016, o que permite enxergar um encadeamento nas disputas.

Em 2012, 29,6% da população era governada por prefeitos filiados a partidos direitistas. Em 2020, esta porcentagem subiu para 53,3%, de acordo com artigo de Helcimara e Freitas.

A decorrência lógica seria uma situação tranquila para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, desde que ele abandonasse a roupagem outsider e entrasse para um partido grande, alicerçado em máquina partidária. Foi o que fez pela metade. Sem nunca deixar de colocar o golpismo em seu horizonte. Bolsonaro foi para um partido grande e tem uma rede competitiva de candidatos a governador.

Nada indicava um cavalo de pau do eleitorado para a esquerda. Aí veio a vida real e veio Lula. Na vida real o país foi submetido à interminável pandemia, à gestão desta crise por Bolsonaro e ao impacto da catástrofe na economia.

Lula tinha algo como 40% nas pesquisas de intenção de voto quando foi retirado da disputa presidencial, em 2018, e oscila entre 40% e 48% na maioria das pesquisas de agora. Ele se posicionou à frente de Bolsonaro nas pesquisas praticamente desde o momento em que voltou ao cenário, em março do ano passado.

Hoje o ex-presidente está no mesmo patamar que o atual tinha ao fim do primeiro turno nas eleições de 2018, e Bolsonaro quase do mesmo tamanho que o do petista Fernando Haddad em 2018 (29%). Para onde foi o antipetismo que vitaminou a onda de direita?

A investigação das razões de tal fenômeno obviamente ainda não fechou. E nem o quadro atual mostrado pelas pesquisas é definitivo. Mas o levantamento do Instituto Reuters, intitulado “Digital News Report 2022”, divulgado quarta-feira, indica um dado de certo modo surpreendente: o brasileiro, que consome cada vez mais notícias pelo modo digital, em que Bolsonaro impera, está cada vez mais refratário a receber notícias. Fonte de notícia no caso brasileiro é Facebook, You Tube, Whats App e até Tik Tok para nada menos que 64% dos brasileiros, de acordo com o levantamento. É onde Bolsonaro e o bolsonarismo imperam, como personagem e como tema.

Segundo a pesquisa, a proporção de pessoas que evitam deliberadamente consumir notícias pulou de 27% em 2017, ano do início da escalada bolsonarista, para 54% agora, a maior variação registrada no conjunto de 46 países pesquisados. Estão saturadas.

Consideram as informações que recebem ou deprimentes, porque a realidade brasileira por óbvio deprime, ou falsas, já que essa percepção aumentou à medida em que a mídia tradicional foi perdendo o protagonismo.

A exaustão do eleitor, em grande medida, é o esgotamento do internauta. Talvez haja um efeito colateral das “fake news”. Talvez cansaço da pandemia, de Bolsonaro, de Bolsonaro lidando com a pandemia, da incúria na administração, dos pseudoproblemas levantados pelo presidente, todos os dias, enquanto não se enxerga saída para a enrascada em que se vive no mundo real.

Isto pode indicar, e aqui se entra no terreno da hipótese, que a decepção em relação ao presente leva eleitores a buscar o refúgio em um passado idealizado, em relação ao qual toda desconstrução que se fez e que se faz é relativizada. Lula teve 46,4% dos votos em 2002 e 48,6% em 2006. Dilma conseguiu 46,9% em 2010 e 41,6% em 2014. Haddad devolveu o PT ao patamar das eleições presidenciais dos anos 90, ao ficar com 29,3%. A quebra da tendência se deu pela desilusão. A desilusão talvez esteja movendo a engrenagem novamente.

Comparação absurda

Reclamou o presidente Jair Bolsonaro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não ter sido tão cobrado pela mídia e pela sociedade pela execução da freira norte-americana Dorothy Stang em 12 de fevereiro de 2005 quanto ele está sendo agora pelo assassinato do jornalista inglês Dom Philips e do indigenista Bruno Pereira. É verdade, ele não foi. Mas é importante ressaltar que o comportamento da autoridade máxima do País foi diferente.

Ao se tornar pública a execução da freira com seis tiros na cabeça, Lula, segundo registrou o jornal “O Globo”, “determinou empenho máximo” e convocou uma reunião governamental de emergência, da qual saiu uma força-tarefa para esclarecer o crime.

Também foi diferente o comportamento do presidente José Sarney por ocasião do assassinato do sindicalista Chico Mendes em 22 de dezembro de 1988. Por meio do general chefe do SNI, Sarney se disse “consternado” e enviou imediatamente para o Acre o chefe da Polícia Federal, Romeu Tuma, e o secretário-geral do Ministério da Justiça.

No caso de Bolsonaro, ao se tornar público o desaparecimento de Phillips e Pereira, o comportamento foi outro. O presidente disse que ambos partiram para “uma aventura” ao transitarem pelo Vale do Javari, destacou que eles não tinham aval da Funai para entrarem em uma terra indígena e por fim disse nesta quarta-feira, quando já era iminente a constatação do duplo homicídio, que Phillips era mal visto na Amazônia por suas matérias contra garimpeiros.

No afã de eximir-se de responsabilidade, faltou pouco para Bolsonaro insinuar um duplo suicídio. Apenas ontem o presidente demonstrou empatia, ao postar em rede social uma mensagem protocolar de pêsames e conforto às famílias de Phillips e Pereira. Escandalosa também pode ser a forma como se lida com o problema, além do próprio problema.

Valor Econômico

Remédio amargo contra a inflação - Editorial

 




Brasil e EUA elevam juros para deter a alta do custo de vida; se o tratamento funcionar, a retomada do crescimento se dará em condições muito mais seguras

Crédito apertado e caro, terapia contra um forte surto inflacionário, vai dificultar os negócios e a criação de empregos nas duas maiores economias das Américas, neste ano e talvez no próximo. Se o tratamento funcionar, Brasil e Estados Unidos poderão retomar o crescimento, em seguida, em condições muito mais seguras e com maior vigor. No mesmo dia, quarta-feira, os bancos centrais dos dois países determinaram novo aumento dos juros básicos, o tratamento mais comum contra a alta dos preços ao consumidor. A taxa brasileira foi elevada de 12,75% para 13,25% ao ano e atingiu o mais alto patamar em cinco anos e meio. A americana subiu 0,75 ponto e alcançou o intervalo de 1,5% a 1,75%. Foi a maior variação desde 1994.

No Brasil, os preços no dia a dia do consumo aumentaram 0,47% em maio e 11,73% em 12 meses. Nos Estados Unidos, a alta mensal foi de 1% e a variação acumulada em 12 meses bateu em 8,6%, a maior taxa em quatro décadas. As duas economias foram afetadas pelo aumento de custos de matérias-primas, especialmente do petróleo, e por desarranjos nas cadeias internacionais de suprimentos. Desajustes iniciados na fase da pandemia foram agravados por efeitos da invasão da Ucrânia pela Rússia. Os danos causados pela onda inflacionária são muito diferentes, no entanto, nos dois países.

No Brasil, a forte alta de preços é socialmente mais desastrosa, porque a pobreza é maior, e mais pessoas são duramente afetadas pelos custos de bens e serviços essenciais como alimentos, gás de cozinha e energia elétrica. Além disso, as condições do mercado de trabalho são muito piores no Brasil. O desemprego tem ficado abaixo de 4% nos Estados Unidos e acima de 10% no Brasil. As condições dos desempregados são muito mais graves neste país, onde pesquisa recente apontou a existência de 33 milhões de pessoas com fome e de 125 milhões em insegurança alimentar.

Novos aumentos de juros deverão ocorrer. Os dirigentes do Federal Reserve, o banco central americano, reiteraram a disposição de avançar em sua política até levar a inflação à meta, isto é, ao ritmo anual de 2% sustentável no longo prazo. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom), órgão formulador da estratégia do Banco Central (BC), reafirmou o propósito de conduzir a inflação até um patamar próximo da meta, fixada em 3,25% para 2023, com limite de tolerância de 4,75%.

No ano passado o aumento dos preços ao consumidor chegou a 10,06%, superando de longe o centro da meta (3,75%) e o teto (5,25%). No cenário de referência do BC, os preços devem subir 8,8% neste ano, ultrapassando amplamente, de novo, o centro do alvo (3,5%) e o limite de tolerância (5%). No mesmo cenário, a inflação em 2023 poderá chegar a 4%. Mas o compromisso é alcançar um resultado bem próximo do objetivo, de 3,25%.

Novo aumento de juros está previsto para a próxima reunião do Copom, nos dias 2 e 3 de agosto. Segundo a nota emitida na quarta-feira à noite, o ajuste poderá ser inferior ou igual ao decidido na última reunião. A taxa básica poderá, portanto, chegar a 13,5% ou 13,75%. Em qualquer caso, o arrocho continuará e os juros permanecerão muito altos até o fim do ano, mesmo na hipótese de alguma redução nos últimos meses de 2022.

Qualquer trégua na política só fará sentido se houver claros sinais de recuo da inflação. É cedo para apostar nessa mudança. Por enquanto, as pressões inflacionárias são muito fortes e os consumidores continuam pressionados pelos significativos aumentos acumulados em 12 meses. Além disso, a instabilidade cambial permanece, principalmente por causa das incertezas quanto às contas públicas e à condução da política econômica. Novas altas do dólar podem pressionar os preços internos e realimentar a inflação. Também a elevação de juros nos Estados Unidos mexe com os fluxos financeiros e torna desaconselhável uma redução da taxa básica no Brasil. Sem um afrouxamento sensível da política monetária no País, qualquer melhora das condições de negócios até o fim do ano será provavelmente modesta, embora muito bem-vinda.

O Estado de São Paulo

Vínculo de vice com agronegócio arrisca anular "bônus" de gênero na chapa




Eventual descarte do general Braga Netto como vice pode sugerir que o carimbo militar já deu o que tinha que dar

Por Maria Cristina Fernandes (foto)

Se o presidente da República vai abandonar a lógica do vice como um seguro anti-impeachment para colocar, na sua chapa, uma parlamentar do Centrão, com ascendência sobre uma bancada, como a ruralista, com 180 votos, é porque para ser derrubado, precisa, antes, ser eleito.

O eventual descarte do general Braga Netto como vice pode sugerir que o carimbo militar já deu o que tinha que dar. Não apenas frustrou a tutela como lambuzou-se de bolsonarismo. Sua substituição pela deputada Tereza Cristina (PP-MS) não deixaria de ser uma demonstração de que o capitão deu uma fraquejada e agora precisa que lhe arrumem votos. A dúvida é se a ex-ministra da Agricultura o faria.

Se o comando da Agricultura deu a Tereza Cristina uma boa avaliação entre empresários do setor, por outro lado, também dificulta a execução da missão que viria a ter na chapa presidencial. A rejeição de Bolsonaro entre as mulheres dá-se, entre outros motivos, pela associação do presidente com a violência no campo e o desmatamento, pautas das quais a ex-ministra, pelo cargo que exerceu no governo, terá dificuldade de se dissociar.

Se Tereza Cristina enfrentou, no governo, a oposição de nomes como o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tampouco é uma ministra associada a pautas ditas “femininas”, como, por exemplo, Damares Alves, ex-titular da Pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no Brasil.

Na Câmara dos Deputados a atuação de Tereza Cristina sempre esteve muito mais vinculada à Frente Parlamentar da Agricultura e à Comissão da Agricultura do que às comissões mais tradicionalmente ocupadas por mulheres como educação, saúde ou seguridade social.

Basta ver como se dá a corrida pelo Senado no Mato Grosso do Sul, vaga disputada pela ex-ministra da Agricultura até que sua adesão à chapa bolsonarista venha a se confirmar. Seu principal adversário é um ex-colega de Esplanada, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

A saída da ex-ministra da disputa lhe é prejudicial, segundo avaliam aliados do ex-ministro da Saúde. Isso porque a disputa hoje no Estado se divide entre os que “vendem carne” e os que “compram carne”. Mandetta, apesar de relações familiares no agronegócio, busca, por sua passagem na Câmara e, principalmente, no ministério, granjear votos no segundo bloco. E teria mais facilidade em fazê-lo se fosse capaz de antagonizar com quem, como Tereza Cristina, se identifica, mais claramente, com os que “vendem carne”.

O ex-ministro mantém uma relação próxima com o PT que já governou o Estado (de 1999 a 2007) e vai lançar um professor universitário sem experiência eleitoral para o Senado. Seu primo, o senador Nelson Trad, candidato ao governo pelo PSD, não hostiliza nem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem Bolsonaro.

A associação da ex-ministra Tereza Cristina com o agronegócio arrisca fortalecer Bolsonaro onde ele já tem voto sem ajudar naqueles setores que o presidente não conquistou. Então por que cogitá-la como parceira de chapa? Uma hipótese é a facilidade que a ex-ministra teria para convencer o agronegócio a colaborar financeiramente com a campanha, faculdade da qual Braga Netto é desprovido.

A outra hipótese é que, com a saída de Tereza Cristina do páreo do Senado no Mato Grosso do Sul, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) poderia vir a desistir da disputa presidencial para tentar a reeleição. Esta hipótese, porém, é completamente descartada, tanto por interlocutores da senadora quanto pelo meio político local.

Ao colocar, novamente, o nome de Tereza Cristina na roda, o grupo político de Bolsonaro pode até pretender medir a temperatura da candidatura presidencial de Simone Tebet, sem, contudo, ser capaz de desviar a senadora de sua rota.

A presença de uma representante de um Estado agrícola, por excelência, na disputa presidencial, pode dividir mais o apoio dos empresários do agronegócio do que aquele do eleitorado do Centro-Oeste. O agronegócio contabiliza os benefícios auferidos com Bolsonaro, mas teme os limites impostos pelo mercado internacional à escalada presidencial contra o clima e os direitos humanos.

Os efeitos sobre o eleitorado advindos da entrada da senadora emedebista na disputa presidencial, porém, ainda não se fizeram sentir. No Mato Grosso do Sul, as pesquisas indicam que Lula polariza com Bolsonaro, de quem está atrás por um percentual de votos mais reduzido do que pretendia a retaguarda presidencial.

Valor Econômico

Entrada do Brasil na OCDE ainda desperta ceticismo - Editorial




O presidente Jair Bolsonaro ainda estava nos Estados Unidos na semana passada quando foi confirmado que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — uma espécie de “clube dos países ricos” — aprovou o roteiro de acesso do Brasil. A boa notícia o levou a afirmar que o país vai assim “deixando para trás alianças com ditaduras socialistas e consolidando parcerias benéficas para a nossa nação”. Havia, porém, uma notícia, revelada pelo GLOBO, sobre a qual o governo não fez comentário: as exigências para o Brasil receber a aprovação final da OCDE. A não ser que faça mudanças radicais na política para o meio ambiente, será muito difícil para o governo cumpri-las.

Não se trata apenas de proteger a Amazônia, Pantanal e qualquer outro bioma, critério que se tornou comum entre os requisitos exigidos de aspirantes a integrar organismos multilaterais como a OCDE. É preciso, também, reforçar as agências de controle ambiental, combater a impunidade e a violação de regras nessa área, além de fornecer garantias de que a violência contra ambientalistas será investigada e punida com rigor.

O grande desafio para Bolsonaro é dar apoio a agências ambientais, depois de passar três anos e meio de governo fazendo o contrário. Foi metódica sua política de desmonte das estruturas de fiscalização e punição do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para não falar no clamor mundial em torno do assassinato do indigenista Bruno Pereira, com passagem pela Funai, e do jornalista britânico Dom Phillips, cujos restos mortais foram enfim descobertos na região do Vale do Javari, na Amazônia.

Em sua primeira viagem internacional como chefe de Estado, em março de 2019, Bolsonaro visitou o então presidente americano, Donald Trump, e parecia ter conquistado como trunfo o apoio dos Estados Unidos à entrada do Brasil na OCDE. A posição americana consta dos acordos firmados naquela viagem. Foi certamente frustrante para Bolsonaro saber que os Estados Unidos decidiram dar prioridade à Argentina e à Romênia. Depois que a informação veio a público numa carta do então secretário de Estado, Mike Pompeo, a diplomacia americana teve de se desdobrar para reafirmar a posição favorável ao ingresso do Brasil.

Os eleitores substituíram os republicanos Trump e Pompeo pelos democratas Joe Biden e Antony Blinken, mais preocupados com a Guerra na Ucrânia do que com a fila de espera à porta da OCDE. O candidato Bolsonaro à reeleição precisa agora dizer o que pensa das reformas do Estado que prometeu e não fez, da abertura da economia ao exterior e da situação das contas públicas que se deteriora a cada medida demagógica e eleitoreira que emana de sua aliança com o Centrão. Precisa explicar tudo isso e também sua política desastrosa para o meio ambiente. Naturalmente a OCDE, por precaução, deverá esperar as eleições de outubro antes de voltar a examinar a candidatura brasileira.

O Globo

PF diz que espião russo está preso no Brasil




Agente de Moscou se passava por brasileiro e foi deportado da Holanda. Segundo inteligência holandesa, ele tentava se infiltrar no Tribunal Penal Internacional, que investiga acusações de crimes de guerra na Ucrânia.

O serviço de inteligência da Holanda disse nesta quinta-feira (16/06) ter desmascarado um agente da inteligência militar russa que se passava por brasileiro para se infiltrar no Tribunal Penal Internacional(TPI), que está investigando acusações de crimes de guerra na Ucrânia.

Identificado como Sergey Vladimirovich Cherkasov, de 36 anos, o russo voou para a Holanda usando uma identidade falsa construída cuidadosamente durante 12 anos. Mas as autoridades holandesas negaram sua entrada no país e o colocaram no voo seguinte de retorno ao Brasil. O episódio ocorreu em abril, mas só agora foi revelado.

Ele se apresentava como cidadão brasileiro de 33 anos chamado Viktor Muller Ferreira. Segundo as agências de notícias Reuters e AFP, a Polícia Federal informou que o russo está preso no Brasil e será processado por uso de documentos falsos após ser deportado da Holanda.

"Operação de longo prazo"

Cherkasov tentou se infiltrar no TPI através de uma vaga que obteve para estágio no tribunal.

"Esta foi uma operação do GRU [serviço de inteligência militar da Rússia] de longo prazo e de vários anos, que custou muito tempo, energia e dinheiro", disse Erik Akerboom, chefe do Serviço Geral de Inteligência e Segurança Holandês (AIVD).

A agência holandesa disse que deu o passo incomum de divulgar informações detalhadas sobre o caso para expor o funcionamento da inteligência russa e a ameaça que representa para outras instituições internacionais.

"Se o oficial da inteligência tivesse obtido acesso ao TPI, ele poderia reunir informações e recrutar fontes; teria sido capaz de influenciar processos criminais", afirma o comunicado. "Por se apresentarem como estrangeiros, eles [espiões] têm acesso a informações que seriam inacessíveis a um cidadão russo."

"Melhor feijoada de Brasília"

O órgão publicou em sua página na internet um documento de quatro páginas apresentando a biografia fictícia do suposto espião como cidadão brasileiro. O AIVD afirma que o documento foi provavelmente escrito em meados dos anos 2010 pelo próprio Cherkasov, para ajudá-lo a memorizar os detalhes de sua vida fictícia.

No texto, ele diz ter nascido em 4 de abril de 1989, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, e descreve sua vida pessoal conturbada por dificuldades financeiras e abandono paterno.

O documento, com muitos erros de português, também traz detalhes sobre um clube onde ele gostava de ouvir música eletrônica e fala sobre seu restaurante favorito em Brasília, que tem "a melhor feijoada da cidade".

"Cherkasov usava uma identidade de fachada bem construída, pela qual ele escondia todos os seus laços com a Rússia em geral, e com o GRU em especial", diz o comunicado do AIVD.

A polícia brasileira informou à Reuters que Cherkasov entrou no Brasil em 2010 e assumiu a identidade falsa de um brasileiro cujos pais morreram. Passando-se por brasileiro, morou na Irlanda e nos Estados Unidos por vários anos, segundo o comunicado da PF, acrescentando que ele havia retornado ao Brasil para preparar sua mudança para a Holanda.

Expulsões

O TPI, também conhecido como o Tribunal de Haia, é um tribunal global permanente de crimes de guerra com 123 Estados-membros. A Corte abriu uma investigação sobre crimes de guerra na Ucrânia poucos dias depois que o presidente russo, Vladimir Putin, enviou suas tropas para invadir o país em 24 de fevereiro.

Os holandeses expulsaram mais de 20 russos acusados de espionagem nos últimos anos. Eles incluem quatro pessoas acusadas em 2018 de hackear a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), dois acusados de espionagem no setor corporativo de alta tecnologia em 2020, e 17 agentes suspeitos credenciados como diplomatas que foram expulsos após a invasão da Ucrânia neste ano.

A Rússia nega todas as acusações e reagiu às últimas medidas com a expulsão de 15 diplomatas holandeses e funcionários do consulado do país em Moscou e São Petersburgo.

Deutsche Welle

Os degradantes vídeos racistas com crianças africanas feitos para entretenimento por youtubers chineses




'Sou um monstro negro', repetem as crianças no vídeo

Em fevereiro de 2020, apareceu um vídeo degradante nas redes sociais da China, no qual um grupo de crianças em condições de pobreza de diferentes partes da África repetiam em mandarim insultos racistas que eram ditados a elas por um cinegrafista anônimo.

Este formato da gravação se tornou popular nos últimos anos na China: vídeos de felicitações personalizados, nos quais pessoas de algum lugar da África, muitas delas negras e menores de idade, enviam saudações em um idioma que elas mesmas muitas vezes não entendem.

Tudo isso enquanto dançam e "se divertem" em volta de um quadro negro, na qual a mensagem de felicitação está escrita com giz de diferentes cores.

Os repórteres Runako Celina e Henry Mhango, da equipe do programa de TV Africa Eye, da BBC, decidiram investigar o vídeo com conteúdo racista de 2020 para tentar revelar a história por trás de sua gravação.

"Depois que a polêmica desapareceu das redes, eu não conseguia esquecer. Como uma mulher negra morando na China, o vídeo ficou gravado na minha cabeça. Onde foi gravado? Por que foi feito? Quem é esta pessoa que pegou um grupo de crianças felizes e animadas e as fez gritar algo tão degradante?", questionou Runako.

Após meses de investigações meticulosas e análises forenses do vídeo, a equipe da BBC conseguiu encontrar algumas respostas.

O vídeo

O "vídeo do QI", como Runako e Henry se referem a ele, é apenas um de uma infinidade de vídeos racistas encontrados nas redes sociais da China.

Mas para Runako, este vídeo teve um impacto diferente. Um dos fatores que mais gerou polêmica quando foi divulgado em 2020, foi o uso de um termo que as crianças repetem durante a gravação.

"A palavra que as crianças estão usando [no vídeo] é 'heigui'", explica Runako, que pode ser traduzida como "monstro negro" ou "demônio negro".

"Mas, na verdade", ela acrescenta, "é o equivalente chinês da palavra que começa com 'N' em inglês e que é um dos piores insultos raciais".

Como ponto de partida para sua busca, Runako decidiu entrar em contato com especialistas em análise forense de vídeo para tentar encontrar detalhes que ajudassem a identificar o local da gravação.

Por meio de elementos geográficos, topográficos e de sinalização, os especialistas conseguiram identificar que o vídeo do QI havia sido gravado em uma pequena cidade rural do Maláui, no sudeste da África.

Investigação de campo

Sabendo que precisaria de alguém que conhecesse bem o lugar, Runako decidiu se juntar a Henry Mhango, repórter investigativo local que trabalhou para o programa Africa Eye revelando casos de abusos de direitos humanos, corrupção e crimes violentos no Maláui.

'O jornalista Henry Mhango, do Maláui, ajudou a desvendar os bastidores do vídeo'

"Quando [Runako] me mostrou o vídeo do QI, fiquei chocado: as crianças que gritavam aquelas frases degradantes eram do Maláui. Aconteceu bem debaixo do nosso nariz, escondido à vista de todos", contou Henry.

Armado com nada mais do que coordenadas geográficas, Henry foi até o local onde as evidências apontavam que o vídeo havia sido gravado.

"A cidade está localizada em uma área perfeita para fazer negócios de forma discreta. Está escondida na zona rural e só se conecta às rodovias por estradas de terra."

Foi lá que, pela primeira vez, Henry ouviu um nome. Ou melhor, um apelido: "Susu", que significa "tio" em mandarim.

O jornalista descobriu que Susu chegou para viver na região há alguns anos e havia gravado centenas de vídeos com a população local.

Segundo contaram alguns moradores da cidade, eles o receberam acreditando que tinha vindo ensinar os pequenos a falar mandarim.

Além disso, dizem os repórteres, não é incomum ver hoje cidadãos chineses no Maláui.

Devido ao crescente esforço de Pequim para expandir sua influência na África — por meio de investimentos em infraestrutura e a presença de empresas e tecnologias chinesas —, os moradores locais começaram a se acostumar com a presença de estrangeiros no país.

Isso também levou alguns residentes a acreditar que, por meio dos vídeos, Susu conseguiria trazer ajuda econômica da China para melhorar as condições da população empobrecida.

A decepção

Os moradores entrevistados pela equipe da BBC disseram que, apesar das horas que as crianças passavam com Susu, elas nunca aprenderam mandarim.

Sabiam dizer algumas palavras, porque haviam aprendido durante a gravação dos vídeos, mas nunca aprenderam o significado do que estavam dizendo.

Para piorar ainda mais a situação, de acordo com a população local, muitas das crianças que gravavam vídeos com Susu haviam deixado de ir à escola.

'Muitos dos vídeos de Susu continham conteúdo degradante, zombando da pobreza das pessoas na África'.

"Em vez de se tornarem os líderes do amanhã, eles vão crescer sem educação. Vão acabar pedindo dinheiro ou roubando", disse uma mãe aos jornalistas da BBC.

Mas, embora Runako e Henry soubessem que estavam se aproximando de Susu, eles ainda não tinham uma imagem clara de que aparência este homem realmente tinha.

"Selfies e blogs nos deram um primeiro vislumbre de quem poderia ser o dono [dos vídeos], um homem de 20 e poucos anos. Entre as postagens, encontramos uma única foto de uma carteira de identidade nacional e finalmente conseguimos um nome: Lu Ke", explicou Runako.

"Mas será que este homem é Susu, o mesmo que eu tenho seguido na web? E mais importante, é ele quem fez o vídeo do QI?"

Xiao Gulah, a 'marca' dos vídeos

Bright é um menino de 6 anos que vive na pequena cidade rural de Kamwendo, no oeste do Maláui, perto da fronteira com a Namíbia.

Aos 4 anos, ele foi um dos rostos preferidos de Susu para seus vídeos.

Mas ele não era só o preferido de Susu, como também da audiência: Bright viralizou nas redes sociais da China, e virou uma espécie de "marca não oficial" para este tipo de conteúdo.

Nestes círculos, Bright é conhecido como Xiao Gulah.

Nas páginas da web que oferecem estes vídeos, é comum ver conteúdos acompanhados de uma foto em que Bright aparece com os polegares para cima, como num gesto de aprovação.

O que Runako e Henry descobriram por trás da imagem doce e inocente do menino no papel de Xiao Gulah foi uma história triste e vergonhosa de abuso infantil.

"[Susu] nos beliscava quando cometíamos um erro e quando fazíamos algo mal, nos batia com um pau", disse o menino aos repórteres, enquanto sua mãe olhava com tristeza.

"Quando eu tentava levar ele embora, o homem voltava e o levava. É muito doloroso para o meu coração. Nunca vimos nenhum benefício", explicou a mulher.

Susu, o racista

Os jornalistas da BBC tinham cada vez mais informações sobre os vídeos, mas havia um ponto-chave a esclarecer: foi Susu quem gravou o vídeo do QI?

Para descobrir, a equipe do programa Africa Eye entrou em contato com um jornalista chinês para se passar por um empresário que queria contratar os serviços de Lu Ke. Ele levaria uma câmera escondida com ele.

Em uma das várias conversas que tiveram, Susu começou a falar sobre seu trabalho com negros na África.

"Não os trate como se fossem seus amigos", disse ele ao repórter.

"Nunca tenha pena deles, você tem que se lembrar disso. Nunca tenha pena deles. Não importa sua situação familiar, nunca tenha pena deles. É assim que você deve tratar os negros", Lu Ke aparece dizendo em um dos vídeos.

'Não os trate como se fossem seus amigos', disse Susu ao repórter

Com frases tão explícitas como as que foram capturadas no vídeo, os repórteres da BBC decidiram que havia chegado a hora de buscar respostas sobre o vídeo do QI.

Chamaram então Lu Ke novamente para mostrar o vídeo e perguntar se era dele.

"Sim, este é meu", ele aparece respondendo com naturalidade.

Mas depois de alguns segundos, como se tivesse lembrado de algo, Susu volta atrás: "Não, espera, este vídeo não é meu. Meu amigo fez [...] Sugiro que você não tenha este vídeo no seu telefone. Não deixe as pessoas negras verem isso."

Segundo Runako, parecia que Susu havia deixado escapar um segredo, uma visão que se consolidou alguns segundos depois, quando mencionou a polêmica que havia sido gerada com a publicação original do vídeo.

Ficando rico

A equipe da BBC descobriu que Susu estava ganhando muito dinheiro com seus vídeos.

Em uma das conversas gravadas com a câmera escondida, ele aparece se gabando de gravar mais de 380 vídeos em um único dia, algo que representaria um rendimento de pelo menos US$ 11 mil em menos de 24 horas.

Quando Runako perguntou à mãe de Bright se ela havia recebido algum tipo de pagamento pelo trabalho do filho, a mulher disse que não.

"É muito doloroso para mim, porque meu filho sofreu muito. [Ele] fazia ele gritar até que saltassem suas veias [do pescoço] durante três dias seguidos e no quarto, ele voltava doente. No quarto dia, o homem chinês chegava com um pedaço de frango, dividia com ele e o levava para trabalhar de novo."

Os familiares de outras crianças que apareceram no vídeo também reagiram com sofrimento.

A avó de um dos meninos disse, quase chorando, que Susu havia "lucrado com os pobres".

O confronto

Após meses de investigação, e munidos de provas contra ele, os jornalistas finalmente decidiram confrontar Lu Ke em sua casa.

Diante do olhar curioso dos moradores, Runako, acompanhada por Henry, se aproximou determinada.

"Todos os garotos locais te chamam de Susu, certo?", Runako perguntou.

"Sim, sim."

"Qual é a razão para fazer estes vídeos?"

"Quero difundir a cultura, a música e a dança chinesas. Inclusive as palavras chinesas, a língua chinesa."

"Nossas fontes dizem que você bate nos meninos."

"Não fiz isso."

"Vimos o vídeo em que os faz dizer: 'Sou o diabo negro'. Você fez?"

"Não fiz este vídeo."

"Isso é considerado exploração, você sabia disso?"

"Eu não os explorei."

'Susu negou as acusações'

A investigação da BBC levou a ministra de Segurança Interna do Maláui, Jean Muonaowauza Sendeza, a afirmar que Susu havia violado as leis de proteção à criança e teria que responder perante as autoridades.

Ela disse ao jornalista Henry Mhango que "o ato de proteção e justiça infantil foi violado, e usaremos este ato para que este indivíduo enfrente a lei". "Não permitiremos que estrangeiros insultem nossos filhos, nossos cidadãos."

A polícia do país africano também anunciou o início de uma investigação.

Uma investigação agridoce

'Cansados depois de uma conversa infrutífera, na qual Susu negou tudo o que a equipe do programa Africa Eye havia conseguido comprovar, Runako e Henry deixaram a cidade com uma sensação ambígua'.

"Passei muito tempo analisando os vídeos de Susu, me preocupando com o que estava acontecendo nos bastidores. Agora, sabia a verdade", diz Runako.

"Mas enquanto me preparava para deixar Henry, esta descoberta parecia agridoce: doce porque junto a Henry havia conseguido descobrir um dos piores exemplos do racismo que todos nós [pessoas negras] enfrentamos, tanto no continente quanto na diáspora."

"Mas amargo porque nós dois sabíamos que isso era maior que Susu: sim, nós tínhamos interrompido o negócio de um homem. Mas esta indústria segue crescendo, com crianças de verdade, como Bright, sendo exploradas diariamente para entreter pessoas em lugares muito, muito distantes..."

Henry concorda:

"Quando olho para o meu país, penso em todas as pessoas que ainda enfrentam a pobreza [...] Susu se aproveitou de sua boa fé. Veio para o Maláui e traiu nossas crianças..."

BBC Brasil

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