sábado, maio 14, 2022

"Militares querem o aparelhamento do Estado"

 




Para antropólogo que estuda Forças Armadas, ameaças golpistas são parte de estratégia para barganhar poder e verbas. Generais, longe de estarem sendo arrastados para crise com Justiça Eleitoral, são protagonistas da ação

Por João Pedro Soares

O impasse criado entre comandantes das Forças Armadas e ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um ambiente de tensão. Representados na Comissão de Transparência Eleitoral, os militares sugeriram, sem provas, que as urnas eletrônicas teriam problemas de segurança.

A hipótese foi descartada pelo TSE, mas deixou dúvidas sobre a postura que as Forças Armadas irão adotar nas eleições. Em meio às falas golpistas do presidente Jair Bolsonaro, o questionamento à transparência das urnas pelos militares levanta novas dúvidas sobre a estabilidade democrática do Brasil.

Para o antropólogo Piero Leirner, que pesquisa o meio militar há mais de três décadas, trata-se de mais uma "esticada de corda" das Forças Armadas. O especialista ressalta que o objetivo final não é claro. Porém, Leirner acredita que a ameaça recorrente à democracia sirva para barganhar maior presença no Estado.

DW Brasil: Como você enxerga a gravidade da tensão criada entre as Forças Armadas e o TSE?

Piero Leirner: A situação, por si, é muito grave, mas a reboque de um conjunto maior de elementos, em que as Forças Armadas definitivamente se imbricaram no processo político. Isso não vem de agora. Muito mais grave é eles terem deixado o Bolsonaro fazer campanha eleitoral dentro de instalações militares – da Aman por exemplo – desde 2014. Já evidencia que eles estavam tomados há muito tempo por uma ação política que visava a alguma coisa: um processo de aparelhamento do Estado. Isso é cada vez mais claro.

Existe um padrão nisso. Todo ano, tem uma hora em que começa uma tensão com as Forças Armadas. Elas brotam, entram no cenário, a imprensa toda discute, depois amansa, até brotar de novo. Cria-se uma alergia dentro do sistema político, que aparentemente agora subiu um pouco mais. A gente precisava ver exatamente aonde se quer chegar, porque não está muito claro para ninguém.

Considerando o histórico dos militares na política brasileira, a participação das Forças Armadas no processo eleitoral é apropriada?

Do ponto de vista global, é completamente anômalo as Forças Armadas de um país estarem envolvidas em processos eleitorais. Mais anômalo ainda é que elas vejam nisso um tema de segurança nacional. O que estão entendendo por segurança nacional, quando atrelam essa questão à votação? Assim, transformam a gente em uma espécie de república de bananas, sempre passando uma imagem subliminar de que só os militares garantem a normalidade democrática do país.

Isso surge agora como discurso, em uma espécie de "repeteco" do que estava acontecendo em 2018, em outros termos. Em fevereiro daquele ano, começou a aparecer em tudo quanto é lugar a ideia de que o Brasil estava na beira da anomia.

Nesse momento, eles decretaram a intervenção militar no Rio de Janeiro. Primeiro, empurrando a ideia da intervenção como se fosse um plano que tivesse saído da cabeça do [então presidente] Michel Temer. Hoje, temos elementos para suspeitar que isso saiu da cabeça dos generais Etchegoyen e Braga Netto. Eles elaboraram todo o esquema da intervenção e depois passaram para a imprensa como se isso fosse um negócio de última hora, "nós não queríamos etc.".

Como a intervenção federal de 2018 se relaciona com o momento atual?

Primeiramente, transmitiu para a sociedade inteira a ideia de que só os militares estavam resolvendo um problema gravíssimo para o Brasil. Isso foi uma espécie de propaganda subliminar do candidato que eles já estavam apoiando. Além disso, eles travaram todas as Propostas de Emenda Constitucional no Congresso.

Sob intervenção federal, não é possível aprovar nenhuma PEC. Então, o Temer não tinha como entregar nada, tudo o que que ele estava prometendo no último ano, para capitalizar isso e lançar um candidato qualquer da coalizão deles. Os militares travaram isso e conseguiram emergir o candidato "antissistema”.

O Bolsonaro não foi protagonista nesse processo, tem uma rede de construções. O que ele faz é uma ação por procuração, que veste muito bem no papel teatral que ele construiu, mas que sobretudo visa a obliterar, abafar um pouco a ação dos personagens que estão realmente construindo isso. E são os personagens que não estão só interferindo no processo eleitoral, mas em tudo. No momento em que o general Villas-Bôas faz o tuíte antes do julgamento do Lula, eles estavam no STF, no gabinete do Dias Toffoli.

Como você observa a relação dos militares com o STF?

Tudo tem que ser mantido dentro da ideia de que as eleições nesse país correm livres, sem interferências e, quando aparece uma interferência, as instituições correm para tentar fazer o ajuste dentro dos parâmetros burocráticos. Este é um discurso que já existiu em 2018, por exemplo, repetido ad nauseam: a ideia de que as instituições estavam funcionando normalmente, quando não estavam.

Se você olha a própria postura do STF hoje, julgando a parcialidade da Lava Jato, vai ver que aquele processo foi viciado. A eleição de 2018 está fraudada desde o começo. O mínimo que se esperava é ver a anulação de todo aquele processo, só que isso sequer é questionado. Toda essa coisa está cheia de códigos cifrados e gerando muito ruído. O aumento de tom deles em relação a esses questionamentos vem a reboque da mensagem que eles precisam afirmar, de que o Bolsonaro é quem está arrastando as Forças Armadas para esse processo.

Isso causa um apagamento da ideia de que são eles os protagonistas de toda essa ação. Fica parecendo que o Bolsonaro é o grande articulador e que está desestabilizando todas as instituições do país. De fato, parece que está mesmo, mas precisamos ver o quanto disso é uma aparência, e em que medida há um jogo tácito entre as próprias instituições.

Eu me recuso a crer que o STF, que participou de todos esses acordos em 2018, entre em uma situação agora se fingindo de vítima, como se os ministros não soubessem do que se trata e como se não tivesse um acordo de bastidor com as mesmas Forças Armadas que provocaram várias situações tácitas, de 2018 até agora.

Todo mundo sabia claramente da inconveniência do convite do Barroso aos militares. Era uma coisa tão óbvia, mas ninguém falou nada na hora, porque ele estava endossado dessa posição, construindo o discurso do consenso entre instituições. Mas ele sabia muito bem que estava assinando uma coisa que ia esquentar o clima em uma determinada hora, porque este é o interesse também, para depois apresentar o STF como a instituição que vai salvar a pátria dessa anomalia.

Mas qual seriam o interesse ou as amarras do STF com as Forças Armadas nesse jogo?

Nos últimos anos, todos os atores corporativos estatais produziram uma espécie de insurgência, na qual as corporações de segurança e de justiça pretendem ter uma centralidade na vida política, da qual você nunca mais vai se desfazer. Esta é a minha hipótese.

Portanto, instâncias do Judiciário e das Forças Armadas estão aparelhando o Estado e produzindo amarras internas, de modo que, qualquer que seja o resultado eleitoral daqui para frente, a gente vai ter um mecanismo de controle desses agentes estatais muito grande.

Seja com setores de informações, que estão na mão dos militares, seja nos setores de auditoria, compliance, na mão dessas burocracias que vêm de uma "audit culture”. Temos a CGU, AGU, enfim, as controladorias do Judiciário o tempo inteiro se enxertando nas decisões políticas dos outros poderes. Eu acho que este foi o acordo de longa duração.

O governo Bolsonaro foi feito para criar uma sensação de instabilidade geral no processo democrático, desde o primeiro momento. Justamente para provocar o consenso de que as instituições precisam retomar esse acordo sobre o seu próprio protagonismo. Ninguém mais, hoje, questiona a Justiça. Veja o nível de consenso que se fabricou. O único dissenso que se tem vem daqueles a que chamamos bolsonaristas. Cria-se uma guerra entre esses dois lados e não tem uma terceira interpretação sobre isso, alguém que chegue e diga que tem alguma coisa muito errada nesse negócio.

'Braga Netto esteve à frente da intervenção federal no Rio de Janeiro'.

O general Braga Netto agora é cotado para vice da chapa à reeleição. Qual é o seu papel na articulação do bolsonarismo?

Ele é o dono da chave do cofre do setor de informações. Na despedida do Villas-Bôas, Bolsonaro faz o seguinte discurso: tiveram três pessoas fundamentais para seu projeto se concretizar. Uma foi o Moro, que eliminou o PT, a outra foi o Villas Bôas, que permitiu que esse projeto fosse para frente com o apoio das Forças Armadas, e o terceiro foi o Braga Netto. Ele não disse o porquê, só deixou no ar.

Em uma entrevista, o Braga Netto diz o seguinte: a gente vai montar, no Rio de Janeiro, uma espécie de mini-GSI, um mini centro de operações que vai ser um laboratório para o Brasil. Olha como esses caras já estavam pensando o que ia ser o projeto do setor de informações militares dali para frente.

Ali, ele produziu a máquina do grampo, do dossiê, então ele tem guardadas todas as informações do que aconteceu lá no Rio em 2018, que não foi pouco: o assassinato da Marielle, a campanha do Bolsonaro... Como eu disse, o Braga Netto é o sujeito que tem a chave do cofre, é o cara que tem a capacidade de implodir tudo. Isso não é pouco.

Daí o convite para ele estar como vice na chapa que concorre à reeleição?

Se é que esse convite vai vingar, isso a gente precisa ver. Os militares não têm exatamente na cabeça a ideia de "eu vou apostar neste elemento aqui, Bolsonaro é o nosso candidato". Esta é uma novela cujo final vai sendo escrito conforme as coisas vão acontecendo, eles não têm o dom da onisciência e da manipulação da realidade.

Mas eles têm muita coisa na mão, eles têm coesão, informações e uma capacidade muito importante de produzir contrainformações que vão sair na imprensa de modo a atingir objetivos que eles queiram.

Todo esse processo que está sendo feito aqui é uma esticada de corda. A gente não tem com clareza nem quais são os objetivos, nem quem são os atores, mas a ideia é levá-los para uma mesa de negociação. Eles estão botando na mesa a ameaça justamente para ter uma garantia do que vai acontecer logo depois.

Se tem alguma hipótese central entre as que estou elaborando, é esta: não de que eles vão melar a eleição, é de que eles estão garantindo que vão ter uma posição na qual não vão ser traídos de 2023 para frente. A ideia de melar o processo não tem muito sentido, o custo disso para os próprios militares é muito alto, sendo que eles já têm posições muito garantidas.

O intuito sempre tem, como pano de fundo, drenagem de verbas para os militares. Desde o começo do governo Bolsonaro, de que se tratou? Houve perdas em todos os ministérios, menos no da Defesa, que invade a seara alheia. Como processo geral, vemos o seguinte: todo o Estado de bem-estar seca, e essas corporações ficam no centro do Estado. Esta é a ideia.

Deutsche Welle

Enquanto isso, no ‘porto seguro’...




Troca de canal: sai guerra ao TSE, entram demissão de militares e privatização da Petrobras

Por Eliane Cantanhêde (foto)

O presidente Jair Bolsonaro parou de crescer nas pesquisas e enfrenta rejeição alta, preço do diesel e da gasolina aumentando e inflação disparando. Como ele reage, entre uma motociata e outra? Atacando Supremo, TSE e urnas eletrônicas, dizendo que o lucro da Petrobras é um “estupro”, fritando ministros e presidentes da estatal em lives e lançando a ideia de privatização da mais importante e simbólica empresa brasileira.

Já demitiu o economista Roberto Castello Branco e o general Joaquim Silva e Luna e está indócil com o terceiro presidente da Petrobras, o químico industrial e ex-militar José Mauro Coelho. Mudam os nomes, não muda nada. Com perfis diferentes, os três concordam no principal: reprimir o preço dos combustíveis na marra é burrice, porque o efeito, bumerangue, seria contra o próprio interesse público.

Como derrubar os presidentes da Petrobras não funcionou, Bolsonaro subiu o tom e o status, demitindo o próprio ministro de Minas e Energia, almirante de esquadra Bento Albuquerque. E aí, vai mudar alguma coisa? Na prática, nada, mas o discurso já começou a entortar.

No primeiro pronunciamento, sem direito a perguntas, o novo ministro, Adolfo Sachsida, advogado com doutorado em Economia, só fez enrolar, distrair a plateia. Citou Deus, família e Bolsonaro, enalteceu a iniciativa privada e falou que o Brasil é um “porto seguro” para investimentos das “democracias ocidentais” – essas que, convenhamos, andam assustadas com o que ocorre por aqui.

E combustíveis? Inflação? Saídas possíveis? E a rede privada de gasodutos do “rei do gás”, com R$ 100 bilhões dos cofres públicos? Nenhuma palavra. Em vez disso, Sachsida, bolsonarista desde criancinha, aderiu às manobras diversionistas do chefe e lançou a privatização da Petrobras. Se a água está suja, joga o bebê fora. Mas, a cinco meses da eleição, a sete do fim do governo, qualquer bobinho sabe que é para enganar o bobo na casca do ovo.

Tem-se, assim, um respiro na guerra de Bolsonaro e sua tropa do Ministério da Defesa contra o TSE, mudando o canal para distrair o País com a ficção da privatização da Petrobras e mais um episódio da série de como jogar almirantes ao mar, brigadeiros no ar e generais na terra crua.

A reação se resume a muxoxos nos grupos de WhatsApp de oficiais da Marinha, deixando a desagradável sensação de que os militares estão anestesiados por salários, privilégios e a falsa sensação de poder. Quem manda, afinal? Ora, ora, o Centrão – que, ao contrário dos militares, defende as eleições e as urnas eletrônicas. Tá vendo? Para tudo há um consolo.

O Estado de São Paulo

Piora externa é desafio à reeleição de Bolsonaro




Choques simultâneos, tanto do lado da demanda quanto da oferta, podem dificultar as chances de reeleição de Bolsonaro

Por Humberto Saccomandi (foto)

Como a economia global poderá influenciar a eleição presidencial deste ano no Brasil?

Atrás nas pesquisas, o presidente Jair Bolsonaro precisa de um bom desempenho da economia brasileira no restante do ano para manter as chances de reeleição em outubro. Mas justamente quando o cenário econômico interno dá sinais de melhora, o cenário externo começa a piorar mais acentuadamente. Assim, é improvável que a economia global vá favorecer o presidente na reta final da disputa eleitoral. Pode até prejudicá-lo.

A economia global enfrenta atualmente vários choques simultâneos. Há os efeitos ainda da pandemia de covid-19, a desaceleração na China, os problemas derivados da guerra na Ucrânia, a alta da inflação global e o movimento de elevação dos juros pelo mundo. Tudo isso gera fortes pressões negativas, tanto do lado da demanda como no da oferta.

O choque na demanda (que já é claro na China e que começa a se espalhar pela Europa, mas ainda não pelos EUA) enfraquece o crescimento. O choque na oferta, causado principalmente pelos problemas nas cadeias globais e pela guerra na Ucrânia, aumenta os preços globais de uma série de produtos, de chips de carros a commodities agrícolas e energéticas - ontem os EUA previram uma queda da produção global de trigo neste ano, o que fez o preço subir 6%.

Essa combinação de choque de demanda e choque de oferta é pouco comum e ameaça gerar o fenômeno conhecido como estagflação, quando ocorre ao mesmo tempo uma estagnação econômica e inflação alta. Normalmente, a inflação sobe quando a economia está aquecida e cai quando ela esfria.

Apesar de a atividade econômica nos EUA ainda estar aquecida, o debate do momento no país é se a economia americana conseguirá ter um pouso suave, isto é, reduzir a inflação (que está no maior nível em 40 anos) sem gerar uma recessão. Autoridades americanas obviamente se dizem confiantes. Mas muitos economistas discordam. Na semana passada, o ex-secretário do Tesouro Larry Summers, um democrata, sugeriu que o pouso suave é muito improvável. Uma recessão nos EUA provavelmente não virá neste ano, mas crescem as apostas de que já está contratada para 2023. Assim, os agentes econômicos começam a se ajustar, o que por si só já induz a uma desaceleração.

A China, cuja demanda é vital para países exportadores de commodities, como o Brasil, atravessa possivelmente o pior momento econômico desde a crise do final dos anos 80. Os problemas nas cadeias de produção induzidos pela pandemia, a campanha do governo contra alguns setores, como as empresas privadas de tecnologia, e mais recentemente os lockdowns para conter a covid-19 infligiram um duro golpe à economia chinesa. A meta oficial de crescimento deste ano é de cerca de 5,5%, que já seria o menor desde 1991. Mas economistas privados já falam de expansão do PIB abaixo de 4%.

Na Europa, que esperava um ano de retomada após a pandemia, a guerra na Ucrânia está induzindo a uma inesperada freada da economia, causada principalmente pelo aumento dos custos da energia. A escala desse ajuste ainda é incerta e vai depender do desenrolar do conflito na Ucrânia, mas o risco de uma recessão no ano é grande. Dado divulgado ontem apontou queda na atividade econômica no Reino Unido em março.

A expectativa de que a inflação começasse a ceder, tanto no Brasil como no exterior, a partir deste segundo trimestre, também está incerta. Os preços dos combustíveis e da energia continuam aumentando (o preço médio da gasolina bateu recorde nos EUA nesta semana), o que continuará gerando reajustes de preços em toda a cadeia.

Para conter a inflação, o Fed (BC americano) já começou o processo de elevar as taxas de juros. O BCE deve fazer o mesmo a partir de julho. Isso encarece o dinheiro em todo o mundo e pode gerar crises da dívida em países altamente endividados.

Por fim, o conflito na Ucrânia deve continuar por um bom tempo ainda. O avanço russo, quando há, é muito lento. E Moscou não dá sinais de que vai recuar de seus objetivos, que parecem ser o de anexar partes do leste e do sul da Ucrânia. As sanções à Rússia e a Belarus continuarão em vigor enquanto não houver um acordo de paz.

Enfim, há um quadro consistente de deterioração do cenário econômico global, que deverá se manter ao longo do ano, talvez até se agravar.

Mas, para influenciar o processo eleitoral brasileiro, essa piora externa precisa ser sentida pelo eleitor daqui, o que poderia gerar mais insatisfação até as eleições. E eleitor insatisfeito geralmente pune o governo de turno. É improvável que o Brasil fique imune a essa piora, mas não está claro em que escala isso ocorrerá. Além disso, o governo pode adotar medidas para mitigar esse choque externo, pelo menos até as eleições.

A inflação possivelmente é o canal de contágio mais evidente, pois bate imediatamente no bolso do eleitor. Os preços dos combustíveis continuam sendo reajustados seguindo a cotação externa do petróleo. Produtos agrícolas também estão sendo reajustadas pelo preço internacional, como ocorre com o óleo de cozinha.

A persistência da inflação pode obrigar o Banco Central a estender o ciclo de aumentos dos juros, o que tende a frear mais a economia.

Uma desvalorização maior do real também poderá gerar mais pressão inflacionária. A moeda brasileira teve bom desempenho no ano, em relação aos demais emergentes, mas houve uma acelerada queda nas últimas semanas. Não está claro ainda qual será o ponto de equilíbrio.

A piora nos mercados financeiros globais também contagia o mercado brasileiro. Há ainda o risco, como alertou nesta semana a secretária-geral da Unctad, Rebeca Grynspan, em entrevista ao Valor, de um efeito dominó de insolvência nos países emergentes mais vulneráveis. O Sri Lanka foi a primeira pedra a cair.

Até agora o Brasil foi relativamente favorecido pelo aumento dos preços de commodities que exporta. O país deve bater recorde de exportação de grãos neste ano.

Mas as condições externas mais adversas ameaçam mudar esse cenário favorável. Isso pode já estar acontecendo, como sugere a deterioração do câmbio nas últimas semanas.

Sem querer, o amigo Vladimir Putin colocou um desafio grande à reeleição de Bolsonaro.

Valor Econômico

Terra corre perigo com buraco negro 'monstruoso' no centro da Via Láctea?

 




A massa de um buraco negro (parte mais escura da imagem) determina o tamanho de seu disco de acreção (aro laranja ao redor), ou o anel de emissão. O buraco está na depressão de brilho central. Sua "superfície" é chamada de horizonte de eventos, a fronteira dentro da qual até mesmo um raio de luz é dobrado sobre si mesmo pela curvatura no espaço-tempo. As regiões mais brilhantes no disco de acreção são onde a luz ganha energia à medida que se move em nossa direção, e acredita-se que é impulsionada pelo doppler, um efeito físico de ondas refletidas ou emitidas por um objeto, que estão em movimento em relação a quem está observando.

Um trabalho gigantesco, que envolveu centenas de cientistas, 5 anos de investigações e telescópios espalhados por oito lugares diferentes do planeta foi capaz de captar as primeiras imagens do Sagittarius A*, um buraco negro localizado no centro da Via Láctea, a galáxia em que se encontra o nosso Sistema Solar.

A descoberta, divulgada em 12 de maio, levantou uma dúvida pertinente na cabeça de muitas pessoas: será que esse buraco negro, uma estrutura que "suga" tudo o que está próximo dele, pode representar algum tipo de perigo para o planeta Terra?

A resposta é não, mas com uma ressalva. Os cientistas que fizeram parte do esforço internacional explicaram que o Sagittarius A* está suficientemente longe de nós (26 mil anos-luz, para ser mais exato) para representar ameaça futura.

Por outro lado, não está descartada a hipótese de nossa galáxia se fundir ou "colidir" com outra em alguns bilhões de anos, o que poderia aproximar perigosamente a Terra de um buraco negro. Vale destacar que esse é um cenário bastante improvável — e sobre o qual teríamos muitos avisos e alertas antes que algo ruim dessa magnitude virasse realidade.

Ao longo desta reportagem, você vai entender a importância dos achados recentes sobre o Sagittarius A* e porque o risco de o planeta Terra ser "sugado" por um buraco negro é uma possibilidade remota, de acordo com o que os cientistas sabem até o momento.

No coração da Via Láctea

O Sagittarius A*, também conhecido pela sigla SgrA*, é um gigantesco buraco negro que vive no centro da nossa galáxia, a Via Láctea.

O objeto tem impressionantes quatro milhões de vezes a massa do Sol e foi retratado pela primeira vez graças a um esforço colaborativo de centenas de cientistas, reunidos no projeto Event Horizon Telescope (EHT).

Na imagem divulgada pelo grupo, é possível ver uma região escura central onde reside o buraco negro, circundada por um anel de luz proveniente do gás superaquecido acelerado por imensas forças gravitacionais.

Para ter uma ideia, esse anel é aproximadamente do tamanho da órbita de Mercúrio em torno de nossa estrela, o Sol. Isso representa cerca de 60 milhões de quilômetros de diâmetro.

Felizmente, este "monstro" está muito, muito longe — cerca de 26 mil anos-luz de distância.

Localização do buraco negro Sagittarius A*

Essa é a segunda imagem do tipo a ser divulgada pelo EHT. Em 2019, o grupo compartilhou uma imagem de um buraco negro gigante que está no coração de outra galáxia, chamada de Messier 87, ou M87. Essa estrutura é mais de mil vezes maior que a SgrA*, com 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol.

"Mas a nova imagem da SgrA* é especial porque trata-se do nosso buraco negro supermassivo", avalia o professor Heino Falcke, um dos pioneiros por trás do projeto EHT, à BBC News.

"Esse buraco negro está no 'nosso quintal', e se você quiser entender como essas estruturas funcionam, o SgrA* é que vai te dizer, porque conseguimos visualizá-lo em detalhes", complementa o cientista alemão-holandês, que trabalha na Universidade Radboud, na Holanda.

O que é um buraco negro?

    Um buraco negro é uma região do espaço onde a matéria entrou em colapso sobre si mesma

    A atração gravitacional ali é tão forte que nada, nem mesmo a luz, pode escapar

    Buracos negros costumam surgir a partir da morte explosiva de grandes estrelas

    Alguns são realmente enormes e possuem bilhões de vezes a massa do Sol

    A ciência ainda não sabe como essas estruturas monstruosas — encontradas geralmente nos centros das galáxias — se formaram ou o que acontece dentro

Imagem da Sagittarius A* decifrada

A massa de um buraco negro (parte mais escura da imagem) determina o tamanho de seu disco de acreção (aro laranja ao redor), ou o anel de emissão. O buraco está na depressão de brilho central. Sua "superfície" é chamada de horizonte de eventos, a fronteira dentro da qual até mesmo um raio de luz é dobrado sobre si mesmo pela curvatura no espaço-tempo. As regiões mais brilhantes no disco de acreção são onde a luz ganha energia à medida que se move em nossa direção, e acredita-se que é impulsionada pelo doppler, um efeito físico de ondas refletidas ou emitidas por um objeto, que estão em movimento em relação a quem está observando.

Como a foto foi tirada?

A uma distância de 26 mil anos-luz da Terra, o Sgr A* é um alfinete no grande palheiro do céu. Para discernir um alvo a essa distância, é preciso uma capacidade de resolução incrível dos equipamentos.

O "truque" do EHT é utilizar uma técnica chamada interferometria de matriz de linha de base muito longa (VLBI).

Em resumo, ela combina uma rede de oito antenas de rádio espalhadas por várias partes do mundo para "imitar" como seria um telescópio do tamanho do nosso planeta.

Esse arranjo permite que o EHT corte um ângulo no céu que é medido por um parâmetro conhecido como microarcsegundos. Os membros da equipe EHT explicam que isso permite obter uma nitidez de visão semelhante a ser capaz de ver "um donut na superfície da Lua".

Além disso, os cientistas também recorreram a relógios atômicos, algoritmos inteligentes e incontáveis ​​horas de supercomputação para construir uma imagem de vários petabytes (1 petabyte equivale a um milhão de gigabytes) a partir dos dados coletados.

A forma como um buraco negro "dobra" a luz significa que não há nada para ver além de uma "sombra", mas o brilho da matéria orbitando em torno dessa escuridão revela onde o objeto está localizado.

Localização dos telescópios

Será que é possível comparar a imagem atual, da SgrA*, com a anterior, localizada na galáxia M87? Os especialistas apontam algumas diferenças fundamentais.

"Como o Sagittarius A* é um buraco negro muito menor — é cerca de mil vezes menor que o da M87 —, sua estrutura de anel muda em escalas de tempo mil vezes mais rápidas", explica o astrônomo Ziri Younsi, da University College London, no Reino Unido, que faz parte do EHT.

"Esse processo é muito dinâmico. Os pontos que você vê no anel se movem dia após dia."

Essas rápidas mudanças nas proximidades do Sgr A* são parte da razão pela qual levou muito mais tempo para produzir uma imagem dele do que do buraco negro na galáxia M87, apesar de ela estar bem mais distante de nós. A interpretação dos dados tem sido um desafio mais difícil.

As observações do telescópio para os dois buracos negros foram adquiridas durante o mesmo período no início de 2017, mas o M87, que é maior e está a 55 milhões de anos-luz, parece estático em comparação o buraco negro do centro da Via Láctea.

O buraco negro representa algum perigo para a Terra?

Numa entrevista à BBC News transmitida na televisão britânica em 12 de maio, a astrofísica Gibwa Musoke, da Universidade de Amsterdã, respondeu à pergunta sobre o SgrA* ser uma ameaça (ou não) ao nosso planeta.

"Não, o buraco negro não representa nenhum perigo para nós. Ele está realmente muito longe da Terra", esclareceu a especialista.

Mas se os buracos negros são como aspiradores gigantes e há milhões deles na galáxia onde está a Terra, poderia nosso planeta ser sugado por esse tipo de corpo celeste que ainda guarda muitos mistérios?

"A resposta curta é sim, poderia acontecer. Mas é muito improvável, e teríamos alguns avisos antes que algo realmente ruim virasse realidade", escreveu o astrônomo Christopher Springob no site da Cornell University (EUA), sobre a possibilidade de um buraco se aproximar e engolir nosso planeta.

Apesar dos milhares de anos-luz que separam a Terra do buraco negro mais próximo, o cientista avalia que não pode ser 100% descartado que um buraco negro supermassivo se aproxime de nós se a nossa galáxia se fundir ou "colidir" com outra.

Ainda que considerada uma hipótese pouco provável, "a Terra poderia ser lançada no centro da galáxia, perto o suficiente do buraco negro supermassivo", disse o astrofísico da Universidade de Yale, Fabio Pacucci, em uma palestra no TED.

Isso porque, de acordo com o especialista, "haverá uma colisão entre a Via Láctea e a galáxia de Andrômeda dentro de 4 bilhões de anos, o que pode não ser uma boa notícia para o nosso planeta".

'Há centenas de anos pesquisadores tentam explicar o que são e como os buracos negros funcionam'

E, se isso de fato acontecer, o que poderia acontecer com os terráqueos?

O mais provável é que todos os habitantes do planeta morram de forma violenta. Ou fritos, com o calor da colisão, ou transformados em "espaguete" (ou talvez, as duas opções de uma só vez).

"Se você estiver muito perto de um buraco negro, vai se esticar, assim como acontece com o espaguete", escreveu Kevin Pimbblet, professor de física na Universidade de Hull, no Reino Unido, na publicação The Conversation.

"Esse efeito é causado por um gradiente de gravitação que passa pelo seu corpo", explica o professor, dizendo ainda que as diferentes partes do nosso corpo experimentariam diferentes graus dessa força.

"O resultado não é apenas um alongamento do corpo em geral, mas também uma compressão no meio. Portanto, seu corpo ou qualquer outro objeto, como a Terra, começaria a parecer espaguete muito antes de chegar ao centro do buraco negro", observa Pimbblet.

Isso faria com que as partes mais próximas da Terra se estendessem enquanto as outras partes fossem comprimidas pela gravitação diferente. O resultado seria catastrófico.

O que há dentro dos buracos negros?

Dentro dos buracos negros há tudo o que entrou nele. O problema é que não se sabe em que estado as coisas estão lá dentro.

Mas se fosse possível chegar e entrar em um desses buracos, o que veríamos? Existem diferentes teorias. "Uma das possibilidades é 'a muralha de fogo' que, como o nome sugere, é um bando de partículas em chamas que iriam fritá-lo como uma batata", responde o astrônomo Andrew Pontzen, que estuda a origem e a evolução do universo.

Sobre a forma, sabemos que buracos negros são corpos esféricos. E se estiver girando — o que é bem provável, já que todos objetos no universo giram em algum grau — o buraco seria mais largo no centro, em vez de ser um círculo perfeito.

A força da gravidade atrai gás e poeira que se acumulam em uma espiral. À medida que o material é consumido, o atrito o aquece a bilhões de graus, produzindo grandes quantidades de radiação e vazando energia e partículas carregadas.

Enquanto muitos dos mistérios sobre os buracos negros continuam a existir, trabalhos como o da equipe que compõe o EHT, que conseguiu captar as primeiras imagens sobre essas estruturas massivas no coração das galáxias, nos deixam mais próximos de possíveis respostas. 

BBC Brasil

Bolsonaro perdeu o rumo e passa a improvisar




Por Luiz Carlos Azedo

O fim da pandemia não resultou num cenário favorável à reeleição de Bolsonaro, por causa do desemprego, da carestia de vida e da falta de oportunidades, sobretudo para os jovens

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um candidato calejado e com sangue nos olhos, que se movimenta estrategicamente para voltar ao poder. Se as eleições fossem hoje, poderia até vencer no primeiro turno, conforme nos revelam as pesquisas. Bastaria que os votos do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) fossem lipoaspirados pela polarização do petista com o presidente Jair Bolsonaro (PL), e que a chamada terceira via mantivesse a atual dispersão de forças.

As pesquisas mais recentes mostram que Bolsonaro continua com uma rejeição acima de 60% e não consegue ultrapassar os 30% de intenções de voto. Nos cenários de segundo turno, Lula venceria o presidente com uma vantagem em torno dos 20%. O desgaste de Bolsonaro no confronto com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) barrou seu crescimento, somando-se à mitigação, pela inflação, dos efeitos do seu pacote de bondades econômicas e sociais junto aos eleitores de baixa renda.

Um parêntese para Nicolau Maquiavel, o fundador da ciência política moderna, que viveu o esplendor da República Florentina (fundada em 1115), durante o governo de Lorenzo de Médici (1449 1492): segundo seu texto mais lido pelos políticos, O Príncipe, que trata da conquista e da preservação do poder, os governantes que chegam ao poder mais pela sorte (Fortuna) do que por suas virtudes (Virtù) têm mais dificuldade para manter seus domínios quando mudam as circunstâncias.

Bolsonaro fez um longo percurso para chegar à Presidência, no qual construiu anos a fio uma base resiliente e combativa, formada por corporações e grupos de interesse com os quais se identifica: militares, policiais, agentes de segurança, milicianos, grileiros e madeireiros, além de ruralistas. Entretanto, isso não bastava, nem basta, agora, para vencer as eleições.

Em 2018, foi fundamental também o apoio das igrejas evangélicas, capturando o sentimento de preservação da família unicelular patriarcal ameaçada pela renovação dos costumes, e o apoio de setores reacionários e conservadores da classe média tradicional, insatisfeita com a insegurança e perda de poder aquisitivo. Um episódio imprevisto, de grande efeito catalisador, fez de Bolsonaro um candidato imbatível: a facada que levou em Juiz de Fora (MG), que neutralizou a rejeição que sofria e reforçou a narrativa messiânica salvacionista de sua campanha.

Hoje, a situação é completamente diferente. Sua agenda em relação aos costumes, que tinha amplo apoio popular, resultou num enorme retrocesso cultural e pedagógico, que gerou grande ojeriza no mundo artístico e na intelectualidade. O negacionismo durante a pandemia e o fracasso da política econômica alavancaram sua rejeição na maioria da sociedade. No plano político, a aliança com o Centrão garantiu sua governabilidade, mas não resolveu o problema da qualidade de governança. O resultado é um governo pessimamente avaliado.

Carrinho de compras

O cenário internacional muito favorável à sua eleição, com Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos, e outros líderes de direita em países importantes da América Latina e da Europa, também mudou completamente. Trump perdeu a reeleição para o democrata Joe Biden, outras lideranças conservadoras se reposicionaram em relação à crise sanitária e às políticas econômicas ultraliberais. A guerra na Ucrânia coesiona o Ocidente contra a Rússia e cria um ponto de interrogação em relação à China, países sem os quais o agronegócio brasileiro entraria numa crise sem precedentes.

O fim da pandemia ainda não resultou num cenário favorável à reeleição de Bolsonaro por causa do desemprego, da carestia de vida e da falta de oportunidades, sobretudo para os jovens, agravadas pela recessão e alta de preços no mercado mundial, em consequência da guerra. As mesmas desigualdades que favorecerem Bolsonaro, em 2018, agora embalam a candidatura de Lula, cujos pontos fracos, principalmente os escândalos de corrupção envolvendo o PT, não estão tendo mais peso do que as promessas de retomada de seus programas de governo e a memória popular de suas políticas sociais.

Afora as pesquisas, o melhor termômetro eleitoral não está nas redes sociais, mas no carrinho de compra do supermercado. A economia é o ponto fraco de Bolsonaro, que perdeu o rumo com a inflação e, agora, improvisa. Seus factoides eleitorais podem virar um tiro no próprio pé, como essa história de vender a Petrobras, que surgiu de uma hora para outra para agradar o mercado financeiro e servir de cortina de fumaça em relação à alta dos preços dos combustíveis e uma maracutaia à vista: o megagasoduto interligando oito estados do Norte, Nordeste e Centro Oeste, um monopólio do empresário Carlos Suarez, que Bolsonaro e seus aliados do Centrão pretendem aprovar no Congresso.

Correio Braziliense

Centrão sugere e governo aceita negociata de gasodutos - Editorial


Arthur Lira, presidente da Câmara e Bolsonaro


É um monumento ao desperdício de recursos, que deveria ser extirpado da lei

Mesmo um planejamento raso de obra pública exige que ela, primeiro, seja necessária, que seus custos sejam compatíveis e módicos, que a infraestrutura necessária para que funcione já esteja disponível ou possa ser ampliada a baixo custo, que os insumos que serão utilizados sejam colocados à disposição ao menor preço e com maior rapidez. O conluio que os partidos do Centrão estão tecendo no Congresso para a construção de uma rede de gasodutos, além de ter beneficiários certos, inverte toda lógica do planejamento e tem custos altíssimos, que serão repassados em grande parte para o consumidor.

A capitulação do Executivo aos partidos fisiológicos, e seu aval a estripulias que começaram com as bilionárias emendas secretas, podem sair ainda mais caro com a pressão para a construção de gasodutos com o uso de R$ 100 bilhões dos recursos do pré-sal, que serão desviados de gastos imensamente mais importantes e básicos, como saúde e educação.

As iniciativas sucessivas e sistemáticas para a constituição do Brasduto, com subsídios para a construção de uma malha de gasodutos, indicam que há uma fatia significativa de parlamentares nelas envolvidos por motivos, até aonde a vista alcança, inexplicáveis. A mais recente tentativa de dar vida ao monstrengo parece ter a maior chance de prosperar, depois que, em frenesi eleitoral, o Executivo está prestes a ceder à engenharia elétrica do Centrão.

O projeto é um acinte à técnica e uma agressão aos cofres públicos, que serão usados para enriquecer alguns empresários. O Brastubo passou pelo Congresso em emenda de um projeto de lei em 2021, que foi vetado pelo Executivo por “vício de iniciativa” por reduzir em 20% os investimentos em saúde e educação e não apresentar “estimativa de impacto orçamentário e financeiro”. A bola da vez agora é um jabuti no projeto de lei 414, o do novo marco regulatório do setor elétrico. O próprio Executivo parece inclinado a dar ao Centrão um plano B, caso a emenda não vingue: a edição de uma medida provisória (Estadão, 11 de maio).

Sinal de que esse péssimo negócio para o Estado está adiantado é o fato de haver “resistências” no Ministério da Economia que estaria buscando alternativas para fazer a mesma coisa, supostamente com menos danos - sinal de que o ministro Paulo Guedes já engoliu mais um enorme sapo. Uma opção aventada é atribuir à PPSA, responsável pela gestão dos recursos do petróleo da União obtido com o regime de partilha, uma nova função, a de “estatal dos gasodutos”. A ideia é tida como “verdadeiramente ruim”, mas “um pouco menos ruim” que o Brastubo no governo.

O governo acha que o Congresso não só aprova uma emenda como derruba um eventual veto a ela. Mas não está interessado em se opor de verdade à uma iniciativa escandalosa, nem se empenha para isso.

A capitalização da Eletrobras, que ainda não saiu e a que está desenhada marca o primeiro “grande feito” de “privatização” na gestão de Bolsonaro e de Guedes, é ruim demais. Ela já traz as sementes de grandes negócios privados, a construção de termelétricas que garantam 8 GW, cuja distribuição regional é tão detalhista quanto são inexistentes os estudos de viabilidade: 2,5 GW no Norte, igual oferta no Centro-Oeste, 2 GW no Sudeste (parte na área da Sudene) e 1 GW no Nordeste. A maior parte das usinas seria construída nos Estados onde o empresário Carlos Suarez, ex-sócio da OAS e atuais sócios, entre eles governos estaduais, têm exclusividade na distribuição de gás e mal o fazem porque não há gás.

Mas a lei 14812, da capitalização, fez mais: localizou as futuras usinas aonde não há fornecimento de gás. Para isso será necessários construir gasodutos, ramo no qual Suarez também tem negócios. Cria-se uma demanda cara e desnecessária no meio do nada, que exigirá mais investimentos, com subsídios públicos, para levar o insumo básico para o fornecimento de energia. As obras não param por aí. Se construídos os gasodutos e as usinas, será preciso transmitir a energia, talvez com uma Brastrans financiando a construção de linhas de transmissão. É um monumento ao desperdício de recursos, que deveria ser extirpado da lei e não será porque o presidente da República precisa se reeleger e ele não tem a menor noção do descalabro que está patrocinando.

Valor Econômico

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