sexta-feira, março 26, 2021

PF faz operação para apurar denúncia de vacinação ilegal de empresários do transporte em MG


Policiais cumpres quatro mandados de busca e apreensão em BH

Deu no Estadão

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira, dia 26, a Operação Camarote para apurar a suposta administração irregular de vacinas contra a covid-19 que teria ocorrido na garagem da viação Saritur, empresa de transporte localizada em Belo Horizonte.

Agentes cumprem quatro mandados de busca e apreensão na capital mineira. As ordens foram expedidas pela 35ª Vara Federal Criminal de BH. A PF suspeita de importação irregular de vacinas contra a covid-19 e sua receptação.

CRIMES – A corporação mira os supostos crimes de: contrabando, caso a importação seja anterior à lei que autorizou a importação de vacinas por empresas, com obrigação de doação das doses ao SUS; descaminho, caso a lei citada já estivesse em vigor; ou ‘falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais’, caso a suposta importação tenha acontecido antes do registro da vacina na Anvisa.

Já sobre aqueles que teriam recebido a vacina recai a suspeita de crime de receptação. Seis vídeos obtidos pela reportagem do Estadão mostram pessoas sendo vacinadas na noite de terça-feira, dia 23. As imagens foram gravadas por vizinhos do local, que denunciaram um esquema clandestino de imunização contra a covid-19 pela viação Saritur.

As imagens exibem uma aglomeração de carros em volta da entrada do local. Uma mulher de jaleco branco vai até o porta-malas de um carro, retira a vacina, e aplica nos motoristas. Alguns descem do carro para receber sua dose. Outros são vacinados dentro do próprio carro. Uma outra pessoa anota nomes em uma ficha, como se estivesse confirmando cada vacinação dada.

MANOBRA –  Nesta quarta-feira, dia 24, a revista Piauí mostrou que políticos e empresários de Minas teriam tomado a 1ª das duas doses da vacina da Pfizer contra a covid, e que eles compraram o imunizante por iniciativa própria, driblando o Sistema Único de Saúde (SUS), o que é ilegal. A compra de vacinas pela iniciativa privada é permitida, mas a lei prevê que haja doação para a rede pública enquanto não for concluída a imunização dos grupos prioritários.

Um dos que teriam recebido a dose foi o ex-senador Clésio Andrade, ex-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT). “Estou com 69 anos, minha vacinação (pelo SUS) seria na semana que vem, eu nem precisava, mas tomei. Fui convidado, foi gratuito para mim”, disse à piauí.

Ao Estadão, Andrade negou ter sido vacinado pelo grupo. “Desconheço. Estou em quarentena aqui no Sul de Minas. Tive covid”, afirmou. As doses da Pfizer contratadas pelo Ministério da Saúde ainda não chegaram ao País. A farmacêutica nega ‘qualquer venda ou distribuição de sua vacina contra a covid-19 no Brasil fora do âmbito do Programa Nacional de Imunização’. “A vacina COMIRNATY ainda não está disponível em território brasileiro”, frisou, em nota.


Supremo faz em 14 de abril o julgamento para decidir se Lula poderá ou não ser candidato

 Publicado em 26 de março de 2021 por Tribuna da Internet

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Charge do Kácio (Site Metrópoles)

Matheus Teixeira
Folha

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux, marcou para 14 de abril o julgamento da decisão do ministro Edson Fachin que anulou as condenações contra o ex-presidente Lula (PT) e devolveu os direitos políticos do petista.

Os ministros irão analisar o recurso da PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o despacho de Fachin que declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Lava Jato, para julgar o ex-presidente.

PARA PRIMEIRA INSTÂNCIA – Fachin determinou a transferência dos casos para a Justiça Federal de Brasília e mandou o caso ser retomado à fase da análise da denúncia pelo novo juiz de primeira instância responsável pelo caso.

Junto com o recurso da PGR, será julgado o pedido da defesa de Lula contra o trecho da decisão de Fachin que declarou a perda de objeto do habeas corpus em que o petista solicita a declaração de parcialidade do ex-juiz Sergio Moro nos processos que conduziu contra Lula.

Essa parte do despacho de Fachin já foi superada pela Segunda Turma, que, por 4 votos a 1, decidiu prosseguir a análise do tema mesmo após a anulação dos processos do petista. Além disso, o plenário irá discutir a tese apresentada por Fachin de que a Lava Jato de Curitiba era incompetente para julgar Lula.

JURISPRUDÊNCIA – Em decisão individual no último dia 8, o ministro afirmou que desde 2015 o STF vem firmando uma jurisprudência que reserva à 13ª Vara Federal de Curitiba a atribuição apenas para analisar casos relacionados diretamente com esquemas de corrupção da Petrobras.

Segundo Fachin, os casos em que o Ministério Público Federal acusa Lula de ter sido beneficiado ilegalmente dizem respeito não só à estatal petrolífera, mas também a outros órgãos do governo federal.

Assim, o ministro determinou a transferência dos processos para a Justiça Federal do DF, onde os crimes teriam ocorrido. Lula, 75, tinha sido condenado em duas ações penais, por corrupção e lavagem de dinheiro, nos casos do tríplex de Guarujá (SP) e do sítio de Atibaia (SP).

ALVOROÇO NA JUSTIÇA – A decisão de Fachin provocou alvoroço nos meios jurídico e político, ao impor uma derrota histórica à Lava Jato e embaralhar as discussões sobre as eleições de 2022.

​O presidente Jair Bolsonaro disse que Fachin, indicado para o Supremo pela ex-presidente Dilma Rousseff, “‘sempre teve uma forte ligação com o PT” e que o “povo brasileiro” não quer Lula candidato.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – No dia 14 o Supremo terá uma das mais importantes sessões da História Republicana. Em tradução simultânea, o STF vai decidir, de forma definitiva, se Lula poderá ou não ser candidato em 2022. Apenas isso. É muito provável que o julgamento demore dois dias, pelo menos. (C.N.)

Pacheco reforça declarações de Lira e cobra mudança na política externa do governo Bolsonaro


Pacheco, entretanto, disse que cabe a Bolsonaro decidir sobre Araújo

Anne Warth
Estadão

Um dia depois de o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), demonstrar insatisfação com a condução da diplomacia brasileira pelo ministro Ernesto Araújo, nesta quinta-feira, dia 25, foi a vez do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), cobrar publicamente mudanças na área de política externa governo federal. Na avaliação de Pacheco, o País está sendo prejudicado no enfrentamento da covid-19 por “erros” cometidos na gestão de Araújo.

“Muito além da personificação ou exame sobre o trabalho específico do chanceler, o que tem que mudar é a política externa e o Brasil, evidentemente ela precisa ser melhorada e aprimorada”, disse. “Isso é algo que está evidenciado a todos, não só ao Congresso Nacional, mas a todos os brasileiros que enxergam essa necessidade do Brasil ter uma representatividade externa melhor do que tem hoje”, afirmou.  

DECISÃO DE BOLSONARO – Pacheco disse que o depoimento de Ernesto aos senadores na quarta-feira, dia 24, evidenciou a necessidade de mudança. Na ocasião, o chanceler ouviu pedidos de parlamentares para que renuncie ao cargo. Para Pacheco, cabe ao presidente Jair Bolsonaro decidir por uma eventual troca na pasta. “Esse é o papel do presidente da República, ele haverá de tomar as melhores decisões para melhorar o governo”, afirmou.

Entre o que chamou de “muitos erros” cometidos pelo Brasil no combate à pandemia, Pacheco listou o não estabelecimento de relações diplomáticas com países que poderiam colaborar neste momento. “Ainda está em tempo de mudar para poder salvar vidas. Infelizmente, perdemos muitas vidas”, disse ele, evitando, no entanto, responsabilizar o governo federal pelas mais de 300 mil mortes registradas até aqui.

Pacheco disse que a mudança na política externa deve priorizar a obtenção de parcerias internacionais. Ele destacou que a Comissão de Relações Exteriores (CRE), presidida pela senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO), fez um apelo por ajuda internacional ao País. “Câmara e Senado buscam de todas as formas ter ambiente de consenso, pacificação e busca de soluções e isso precisa, do outro lado, do governo federal, essa mesma postura e vontade”, afirmou o senador.

EXPOSIÇÃO – Como mostrou o Estadão, além da pressão do Congresso, aliados de Ernesto avaliam que o Palácio do Planalto abandonou o ministro. Na visão desses interlocutores, o chefe da diplomacia bolsonarista acabou exposto de propósito pela base governista na quarta-feira, dia 24, ao dar explicações sobre atrasos na obtenção de vacinas contra a covid-19 no Congresso Nacional.

No dia em que o País ultrapassou 300 mil mortos, o ministro passou 5 horas e 15 minutos exposto a dissabores, provocações, cobranças e bate-bocas no Senado e outras 3 horas e 40 minutos na Câmara. Estava acompanhado apenas do assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, e do secretário de Comunicação e Cultura do Itamaraty, embaixador Paulino Franco de Carvalho Neto.

Ao contrário do que costuma ocorrer nesses casos, porém, a base governista não se mobilizou em defesa de Ernesto, seja para elogiar o trabalho do ministro, seja para introduzir no debate uma agenda positiva do governo, amenizando a saraivada. Essa é uma estratégia comum no parlamento, quando há audiências públicas de ministros. Em geral, o próprio governo mobiliza sua tropa de choque.

ASSESSOR DE BOLSONARO – O presidente do Senado anunciou também nesta quinta-feira que a Polícia Legislativa vai investigar o gesto do assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins, que fez um gesto controverso com a mão, interpretado como um símbolo de supremacismo branco. Nas redes sociais, Martins disse que apenas arrumava o paletó.

 “Imediatamente determinei à Secretaria Geral da Mesa que colhesse as imagens e as encaminhasse à Polícia Legislativa, para que, através de um procedimento próprio, investigue o fato, materialize a conduta através das provas a serem constituídas, identifique a autoria e avalie a tipicidade penal do fato”, afirmou.

“Não podemos ter pré-julgamentos em relação ao fato, mas, verdadeiramente, vendo as imagens, identificamos um gesto completamente inapropriado para o ambiente do Senado. Queremos repudiar todo e qualquer ato que envolva racismo ou discriminação de qualquer natureza e repudiar qualquer tipo de ato obsceno também, caso tenha sido essa a conotação.”

SEM BRINCADEIRA – Pacheco disse que o Senado “não é lugar de brincadeira”, mas de trabalho sério. “Estávamos trabalhando e buscando soluções e informações de um ministério que está muito aquém do desejável para o Brasil.”

O presidente do Senado disse que será garantida ampla defesa e contraditório na apuração de fatos contra Martins. “Esse é o tratamento adequado em um Estado Democrático de Direito para um episódio dessa natureza.”

Gebran Neto diz ver retrocesso no combate à corrupção no país e que Lava Jato vive ‘guerra de narrativas’

Publicado em 26 de março de 2021 por Tribuna da Internet

Gebran compara a situação da Lava Jato com a Operação Mãos Limpas

Felipe Bächtold e José Marques
Folha

Relator dos casos da Lava Jato na segunda instância, o juiz João Pedro Gebran Neto, do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), diz que a Lava Jato sofre atualmente com uma “guerra de narrativas” promovida por quem foi atingido por seus efeitos.

Em uma rara entrevista, já que ele não costuma se pronunciar fora dos julgamentos e dos autos, o magistrado disse à Folha que hoje se busca em “um fato posterior uma nulidade antecedente”.

A declaração é uma referência a questionamentos feitos à condução dos casos pelo então juiz Sergio Moro, de quem se diz amigo, após ele ter virado ministro do governo Jair Bolsonaro.

Gebran Neto compara a situação da Lava Jato com a Operação Mãos Limpas, que abalou o sistema político italiano nos anos 1990 e acabou motivando uma contra-ofensiva no Legislativo. Diz ver retrocesso no combate à corrupção no país e questiona mudanças no Ministério Público.

O juiz conversou com a reportagem instantes após a decisão do Supremo Tribunal Federal que nesta terça-feira (23) classificou Moro parcial na condução do processo do tríplex de Guarujá, no qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado.

Ao revisar essa sentença, em 2018, o relator à época votou por confirmá-la e por aumentar a pena —e foi acompanhado pelos colegas. A decisão fez com que Lula fosse preso e impedido de disputar a eleição presidencial de 2018.

Com o fim da prisão de condenados em segunda instância, o peso que as decisões do TRF tinham acabou reduzido ou diluído. Antes, o tribunal decidia se haveria prisão ou não. Agora isso é decidido em outras instâncias. Como vê isso?

Quando acaba a prisão em segundo grau, significa dizer que jogamos essa questão para o trânsito em julgado [momento em que se esgotam os recursos], para um futuro incerto e com certeza distante.
Ambos os tribunais [STF e STJ, Superior Tribunal de Justiça] são bastante assoberbados, recebem um fluxo de recursos bastante elevados, o que faz com que os julgamentos possam se prorrogar por mais 5, 10, 15, 20 anos.

Isso não tem nada a ver com Operação Lava Jato, tem a ver com o Estado brasileiro, com o Estado que a sociedade quer. Nós queremos uma jurisdição penal efetiva ou achamos que é preciso esgotar quatro graus?

Seria uma má sinalização à sociedade?
Não tenho dúvida disso. Há um estudo famoso de um prêmio Nobel de economia, Gary Becker, que [diz que] a sociedade funciona por incentivos, estímulos e desestímulos. Na medida que não se tem eficácia da jurisdição penal, acaba tendo um estímulo à impunidade.

Ninguém teme a pena no Brasil, é o fato. Porque ela pode não ocorrer ou vai ocorrer em um futuro bastante distante ou incerto. Ou se ocorrer, as penas no Brasil são cumpridas a um sexto do que foi fixado.

No Brasil, o sistema penal é duplamente perverso. Para a sociedade, porque não é efetivo, é demorado. E é perverso para o réu porque o sistema carcerário hoje é absolutamente desumano, superlotado. Nesse aspecto, andamos muito mal.

Qual legado a Lava Jato vai deixar?
A operação vai deixar primeiro um legado de esperança para o Brasil. Que o Brasil pode ter jeito, pode combater a corrupção, algumas de suas mazelas. Que há pessoas dispostas a fazer a coisa certa, a aplicar lei, a investigar.

Todas as pessoas que foram processadas e julgadas tiveram direito ao devido processo legal, a todos os graus recursais. A sociedade, inclusive, demonstrou um amplo apoio à operação. Com isso, não quero dizer que não pode ter havido algum erro. Mas esses erros são mínimos.

E qual o impacto de modificações que estão acontecendo nas forças-tarefas do Ministério Público, que foram dissolvidas neste ano, e na Polícia Federal?
Eu imaginava e imagino que essas modificações têm que ser para melhorar. Infelizmente não verifiquei essas mudanças do ponto de vista positivo. Porque o que eu verifico hoje é mais um enfraquecimento das estruturas de combate à criminalidade.

Por mais bem intencionadas que possam ser essas reformulações, essa reestrutura, aos olhos dos processos e da sociedade, o que eu verifico hoje foi um retardamento na tramitação dos processos e das próprias investigações. Temos mais de 80 fases já deflagradas, e o ritmo de denúncias e de processos acabou diminuindo, visto a olho nu.

Nos últimos anos, a Lava Jato passou a ser alvo de duras críticas, não só de advogados que se dizem cerceados, mas também de políticos, como o ex-presidente Lula e o presidente da Câmara, Arthur Lira, e também o procurador-geral, Augusto Aras, e ministros do Supremo. Por que houve essa mudança de posicionamento público em relação à operação?
Para responder essa pergunta, eu gostaria de dar uma sugestão de bibliografia. Leiam um livro do professor Rodrigo Chemim que compara a Lava Jato com a Operação Mãos Limpas ou “Morte a Vossa Excelência” [de Alexander Stille] e aí temos um recorte do que aconteceu na Itália.

É quase impossível para alguém que leu algumas dessas obras não fazer uma correlação com o Brasil. O fato é, e vejo com alguma naturalidade, os avanços da Operação Lava Jato no que podemos considerar o andar superior da sociedade iriam causar reações.

E causaram reações. Foram crescendo ao longo do tempo. Há uma guerra de narrativas que foram sendo construídas ao longo do tempo e foram entregues à sociedade nos anos recentes. E essa guerra de narrativas acabou tendo uma força muito grande.

E assim foi na Itália também. Em determinado momento, aquela adesão popular à Operação Mãos Limpas acabou ruindo. Mas ninguém é capaz de dizer que a Mãos Limpas foi um desastre, que seus juízes eram desonestos.

O que vimos lá foram mudanças de leis. A Itália mudou várias leis para beneficiar investigados, para dificultar o trabalho de magistrados. Acabou criando anistias. E hoje, em uma leitura bastante distante, o que nós vemos é que aqueles juízes que estavam julgando eram pessoas probas, que fizeram o bem. Tem muitas similitudes. A leitura diz mais sobre o Brasil do que qualquer coisa que eu possa falar.

O que o sr. diz é que há uma reação política de alguns atores que se sentiram atingidos pelas investigações e que tomaram atitudes para podá-la?
Não diria reação política, mas reação em geral. Não vou me limitar quem é A ou B.

Aquelas pessoas que de algum modo se sentiram atingidas ou que correm o risco de serem atingidas acabam reagindo. Isso é natural. Estavam em suas zonas de conforto e as pessoas foram pelo menos ameaçadas. E elas procuraram trazer algum tipo de defesa para suas condutas.

O ex-presidente da Associação dos Juízes Federais Nino Toldo se disse frustrado com situações que levaram a Lava Jato a ser questionada, como a ida do ex-juiz Moro para o governo. O sr. também tem algum sentimento [a respeito] quando vê a Lava Jato sendo questionada por tantos órgãos?
Com certeza você não leu o livro sobre as Mãos Limpas, né? Desculpa a brincadeira.

As pessoas para quem interessa esse discurso querem fazer uma leitura retrospectiva. Eles estão procurando em um fato posterior uma nulidade antecedente. Isso não existe. É uma leitura, a meu juízo, bastante equivocada. Já enfrentei essa matéria, já julguei.

É da essência do Judiciário respeitar quem pensa de modo diverso. Lá, quando se começa na carreira, já se aprende isso nos primeiros dias, que a decisão pode ser mudada por um desembargador.

Alguns fatos posteriores foram dados como se aquilo fosse objeto de uma elucubração, uma preparação, uma articulação. Desculpa, isso é uma visão de quem quer criar uma narrativa sobre algo que não existe.

Ao mesmo tempo foram esses os argumentos da decisão que considerou Moro parcial no caso do tríplex, de que ele acabou aderindo ao governo de um opositor político de Lula. Qual consequência o senhor antevê dessa decisão?
Agora vamos ver os desdobramentos do que pode acontecer e quem tem que dizer sobre esses desdobramentos é o próprio Supremo. Me pareceu, e daquilo que eu consegui assistir, que os ministros deixaram bem claro que estavam tomando uma decisão pontual num caso bem específico. Se isso vai ser levado para outro processo ou não é quem decide é o próprio Supremo.

Como é que o senhor vê as mensagens da Operação Spoofing que foram vazadas e vêm sendo citadas por ministros do Supremo? Alguns veem a possibilidade de elas serem usadas como prova.
O tribunal já julgou essa matéria também. Nós já dissemos que são provas ilícitas e para isso não se presta. Não consegui assistir à sessão inteira, mas o que ministros falaram foi que essa prova é ilegal, tanto que em longo voto, quase que alterando o que tinha dito semanas atrás, o ministro Gilmar Mendes foi muito enfático em dizer que não usava aquelas mensagens porque elas são ilícitas.

Embora não possam ser usadas judicialmente, essas mensagens abalaram a credibilidade da operação de modo muito enfático, principalmente gerando afirmações de conluio entre acusação e magistrado. Esse abalo pode ser revertido?
Isso é um problema social, um problema político. Abalo na credibilidade de uma operação é como a sociedade enxerga isso, como as pessoas do mundo exterior veem a Operação Lava Jato e o grau de apoio que ela recebe ou não. Credibilidade é uma questão que muito mais afeta a percepção do outro do que a tua própria percepção sobre os fatos.

Mas o fato que eu vejo é que muitas mensagens são colocadas de modo absolutamente descontextualizado, de modo equivocado, tentando induzir em raciocínios mentais para as pessoas que leem as matérias, que trazem essas mensagens de um modo mundo direcionado, muito equivocado.

Anos atrás houve muitos questionamentos em relação ao TRF-4, especialmente da defesa de Lula, em relação à celeridade dos processos que tramitaram sobre ele. A defesa e ele até hoje insistem que isso era para tirá-lo do jogo político em 2018. Como o sr. se posiciona sobre isso?
Não tem nenhuma preocupação política. Nunca houve no TRF-4, nos juízes criminais, nenhuma intenção para que pudesse prejudicar ou beneficiar quem quer que seja. Nunca olhamos para capa de processos, para nomes. Pode verificar que a conduta é mais ou menos homogênea em todos os processos.

Absolvemos diversos réus que foram condenados no primeiro grau, agravamos penas de outros e diminuímos penas… O tribunal agiu sempre com muita tranquilidade e serenidade, não houve essa decantada articulação política.

Não temos nenhum interesse político. Isso é um discurso que se procura criar, essa politização. Eu até vejo com naturalidade esse discurso quando vem da boca de quem vive a política, que tem o viés de olhar as coisas por essa ótica, achando que tudo é política. O nosso tratamento é técnico-jurídico, é assim que nós procedemos.

O tribunal é conhecido por sua produtividade, é célere como um todo, as turmas criminais são mais céleres ainda, porque estamos tratando do direito de ir e vir das pessoas, com réus presos.

Ninguém privilegiou processo A ou processo B. O que há, isso é fato, nesses processos da Operação Lava Jato nós vamos compreendendo e conhecendo durante muito tempo. No dia em que há uma operação no primeiro grau, seja prisão ou busca e apreensão, eu começo a receber exceção de suspeição, habeas corpus, exceção de incompetência, recursos contra apreensão de bem, pedido para liberação, embargos de terceiros. Eu começo a conhecer o processo.

Quando ele chega no tribunal, e não estou me relatando a um processo específico, chega com uma gama de informação e decisões praticamente já tomadas. Não há e nunca houve nenhuma preocupação política e isso pode ser verificado porque já julgamos políticos de vários partidos e nenhum deles foi beneficiado ou prejudicado por qualquer motivo.

Todos receberam o mesmo tratamento: republicano, digno, respeitoso, e o tribunal empregou os melhores dos seus esforços para julgar as condutas. Não estamos julgando o ser humano, nem as histórias das pessoas, mas as condutas e as provas nos processos.

A defesa do ex-presidente Lula afirmava que o sr. tinha amizade íntima com o ex-juiz Moro. Como o sr. viu isso e qual a sua relação com ele?
Eu já tive que responder a uma exceção de suspeição [recurso sobre o tema]. Acho legítimo que a parte entre com todos os recursos, isso é muito natural e muito transparente. Sou amigo de longa data do juiz Sergio Moro, nos conhecemos na magistratura em primeiro grau de jurisdição.

Eu atuava numa vara e ele em outra vara, assim como sou amigo de dezenas, se não centenas de magistrados de primeiro grau, e isso não me torna impedido pra julgar nenhum processo de nenhum desses juízes. Ser amigo de um juiz não é a mesma coisa de ser amigo da parte. O juiz é o julgador do processo. E tenho amigos nos tribunais superiores e no TRF-4 e isso não me torna suspeito e nem os torna suspeitos de julgar nenhum processo.

PSB entra com notícia-crime contra empresários que furaram fila e tomaram vacina em MG

 

O ex-senador e empresário Clésio Andrade está entre os suspeitos

Sarah Teófilo
Correio Braziliense

O líder do PSB na Câmara dos Deputados, Danilo Cabral (PE), junto com outros cinco parlamentares da legenda, enviou ao Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) um pedido de investigação contra empresários de Belo Horizonte acusados de importar vacinas contra covid-19 da farmacêutica Pfizer para um grupo de empresários, políticos e seus familiares.

Os parlamentares pedem a instauração de procedimento criminal,”de modo a apurar amplamente os fatos narrados e a adotar as providências legais pertinentes, inclusive eventualmente ação penal pública incondicionada”.

IMPORTAÇÃO DE DOSES – A notícia-crime se deu com base em uma reportagem publicada pela revista Piauí na última quarta-feira, dia 24, na qual apontou a importação de doses para imunizar o grupo. Também assinaram a ação a deputada Lídice da Mata (BA) e os socialistas Denis Bezerra (CE), Ricardo Silva (SP), Camilo Capiberibe (AP) e Milton Coelho (PE).

No documento, eles citam que, segundo a reportagem, o ex-senador Clésio Andrade, que é ex-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), recebeu o imunizante, tendo dito que está com 69 anos, e que logo receberia a vacina pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Eu nem precisava, mas tomei. Fui convidado, foi gratuito para mim”, disse à revista.

DOAÇÃO –  No documento, também, os parlamentares pontuam que a Lei 14.125, sancionada no dia 10 de março, que fala sobre aquisição e distribuição de vacinas por pessoas jurídicas de direito privado, traz a previsão de que doses adquiridas pelo setor privado devem ser doadas em sua totalidade ao SUS enquanto ainda estiverem sendo vacinadas no país as pessoas dos grupos prioritários, conforme definido no Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19.

“A lei (…) traz no seu espírito a necessidade emergencial que a população tem de imunização, permitindo assim a importação pelo setor privado, sem antes se preocupar que poder econômico não gere castas privilegiadas, de forma que as pessoas mais vulneráveis aos altos impactos da doença sejam as primeiras a serem protegidas”, diz documento assinado pelos parlamentares e enviado ao MP-MG.

SUS – No pedido de investigação, eles ressaltam que “no caso da importação ocorrer antes do término da imunização dos grupos prioritários, (…) 100% das vacinas deverão ser doadas ao SUS”.

“Além, das disposições quanto ao momento e percentual de doação compulsória, a norma ainda prevê que as vacinas deverão ser aplicadas em qualquer estabelecimento ou serviço de saúde que possua sala para aplicação de injetáveis autorizada pelo serviço de vigilância sanitária local, observadas as exigências regulatórias vigentes, a fim de garantir as condições adequadas para a segurança do paciente e do profissional de saúde. No entanto, deu-se numa garagem de uma autoviação”, pontua.

INFORMAÇÕES – Além disso, conforme os deputados do PSB frisaram, a norma prevê “que todo o procedimento de importação deverá ser informado ao Ministério da Saúde, de modo tempestivo e detalhado, todas as informações relativas à aquisição, incluindo os contratos de compra e doação, e à aplicação das vacinas”.

“Trata-se de fato grave, que urge ser investigado pelas autoridades competentes e em que pese a pena ínfima prevista para o crime de infração de medida sanitária preventiva, não exercendo função retributiva, que ao menos eventual o eventual processo e condenação tenha caráter preventiva, demonstrando que estamos num Estado Democrático de Direito e que existe o império da lei a todos!”, afirmam.

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