Publicado em 14 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet
Lula escala Bruno Moretti para atacar plano fiscal de Flávio
Fabio Graner
O Globo
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva escalou o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, para reforçar o enfrentamento à campanha de Flávio Bolsonaro no campo fiscal. Um vídeo no qual o candidato do PL fala de cortar gastos, mas enfatiza que o ajuste viria com redução de despesas com juros, foi considerado no petismo um flanco aberto para se explorar contra o adversário.
Moretti gravou um vídeo no qual destaca a mistura de conceitos entre despesa primária (gastos com saúde, educação, pessoal, previdência e outros) e financeira (juros) na fala de Flávio. Além de provocar os economistas que o assessoram, o responsável pela elaboração do orçamento do próximo ano disse que o candidato do PL estaria mentindo ao apontar que o corte de R$ 250 bilhões seria mais concentrado nos juros e não nas despesas primárias.
DESPESAS PRIMÁRIAS – O ministro, cuja fala também foi distribuída em texto pela campanha petista, lista dados de cortes de despesas primárias no governo do pai dele, Jair Bolsonaro, que tinha enviado o orçamento de 2023 com cortes de “mais de 60% no Farmácia Popular, não tinha dinheiro para elevar o salário mínimo acima da inflação, não tinha dinheiro para pagar o Bolsa Família reajustado”, entre outras despesas.
— É importante não se deixar enganar. Quando se diz que vai cortar mais de R$ 200 bilhões, esses cortes vão afetar a vida da população brasileira — salientou o ministro, que também tem sido um dos principais responsáveis pelas medidas econômicas tomadas pelo governo nas últimas semanas, a mais recente a desoneração total da gasolina, anunciada na última sexta-feira.
“TESOURAÇO” – A campanha à reeleição de Lula nesse segundo turno tem explorado a promessa de “tesouraço” e a sinalização de corte de despesas de 1,5% do PIB no primeiro ano, feita pela campanha bolsonarista, para tentar colar em Flávio a imagem de alguém que está contra os trabalhadores e a população mais pobre.
Com a pressão nesse flanco, Flávio tem assumido alguns compromissos para tentar evitar que a operação petista seja bem-sucedida. O candidato do PL passou a dizer, por exemplo, que o salário mínimo terá reajuste real, ou seja, acima da inflação.
Ele não explica, porém, qual o nível de alta acima do índice de preços com que pretende trabalhar e nem se compromete com a regra atual de correção (inflação mais PIB de dois anos antes, limitado à regra do teto de gastos). Também tem ressaltado que não acabará com Bolsa Família, salientando que pretende “aprimorar” esse e outros programas sociais.
SEM DETALHES – A campanha bolsonarista, assim como a petista, tem evitado detalhar quais medidas serão efetivamente tomadas no campo fiscal. A lógica é exatamente evitar polêmicas que possam custar votos. Mas, como foi sinalizado ao longo da campanha, tanto em entrevistas da coordenadora econômica, Daniella Marques, como em conversas reservadas no mercado financeiro, o número de 1,5% de ajuste no primeiro ano, o campo bolsonarista passou a ser questionado como entregaria essa promessa.
No petismo, não tem havido promessas de ajuste fiscal mais duro, mas tem se trabalhado com a trajetória de aumento no resultado primário ao longo do próximo mandato, previsto no orçamento enviado e que, para ser viável, demanda medidas de controle de despesas ainda não detalhadas.
Nos bastidores, ideias como reduzir o ritmo de crescimento do teto de gastos, hoje em 2,5% acima da inflação, chegaram a ser mencionadas para o mercado financeiro pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, mas por recomendação da campanha pararam de ser citadas.