Publicado em 9 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet

Flávio precisa dizer o que entende por democracia
Míriam Leitão
O Globo
O país viverá os próximos dias em emoção na intensidade máxima. A eleição não acabou, nem está definida, até porque o eleitor faz o que quer com o voto. O que tenho ouvido de especialistas é que a distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o presidente Lula.
Para além dos cálculos dos políticos, há uma dúvida mais aguda: quais são as intenções de Flávio Bolsonaro em relação à democracia? A fala dele sobre usar a maioria conservadora e mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, assustou. E assustou exatamente por ele ser quem é e filho de quem é.
“GRAVE E INQUIETANTE” – O ministro Celso de Mello considerou “grave e inquietante” a declaração do candidato. “A sociedade tem o direito de conhecer o alcance do projeto”. Em mensagem que me enviou, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, conhecido por seu saber jurídico, disse que “causa estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo político, oposição legítima e liberdade de crítica”.
Flávio tentou atenuar o que tinha dito. Disse que se referia a mudanças no Judiciário, maioridade penal e reforma tributária. Mas a dúvida permanece porque evidentemente, se fosse apenas uma PEC, ele não usaria a expressão “redemocratizar”.
ENGAJAMENTO – A campanha de Flávio Bolsonaro já se considera vitoriosa. Um observador do mundo político avalia que o otimismo tem ajudado a campanha bolsonarista porque deu ânimo e estímulo. Na campanha do presidente Lula, é preciso superar o desânimo inicial, que ficou estampado na primeira foto após o resultado, ter mais engajamento e mudanças de tom.
– Não acho pouco tempo para virar, existe caminho, precisa acertar na campanha. A diferença é pequena, se virar 1%, empatou. Porém, Lula precisa mudar o discurso, porque está com o discurso errado — disse esse observador.
SINALIZAÇÃO – Sobre a necessidade de um sinal para o centro, o que eu ouvi de um interlocutor é que, quando Lula se elegeu a primeira vez, tinha como vice o empresário José Alencar, que na época era do PL. O próprio PL era centro e não de extrema direita como agora. Depois, a presidente Dilma se elegeu com um vice-presidente do MDB, que também representava o centro.
Na terceira vez, a aposta foi em Geraldo Alckmin por ter boa articulação no setor produtivo, mesmo após mudar do PSDB para o PSB. Mas a avaliação é que, durante o mandato, Lula não fez gestos para quem o apoiou na campanha de 2022. Na área econômica e fiscal, Lula teve, nos outros mandatos, pessoas como o então ministro Antonio Palocci e o presidente do Banco Central Henrique Meirelles para modular o discurso e controlar as medidas fiscais.
O mercado financeiro está dando um cheque em branco ao candidato Flávio Bolsonaro, aceitando pela fé, sem qualquer materialidade, que ele fará um ajuste fiscal. O candidato não se comprometeu com coisa alguma. Fez declarações vagas e anedóticas como “vou dar uma tesourada”, ou diminuir impostos sem dizer quais, cortar gastos sem especificar onde.
MUDANÇAS – Na campanha de Lula já se vê algumas mudanças. Uma delas foi chamar os jovens digitais para “disputar a juventude”, como define Ana Elisa, deputada eleita por Minas Gerais. É preciso falar com todos os públicos, os eleitores que se distanciaram por raiva ou decepção, e que podem voltar. Os que não foram votar. O próprio Lula terá muito a fazer.
Flávio tem a seu favor a vantagem de ter chegado na frente na disputa do primeiro turno e ter recebido apoio dos derrotados. Mas Romeu Zema é um candidato que foi rejeitado até em Minas Gerais e terminou com quase traço. Ronaldo Caiado é um apoio pessoal, o PSD permanece neutro. O apoio do centrão é uma faca de dois gumes. Afinal, Flávio, que já está pessoalmente envolvido com casos de corrupção, terá ao seu lado políticos como Antonio Rueda, Ciro Nogueira e outros igualmente enrolados.
Lula tem contra si o peso da crise de imagem do STF, da qual ele tenta se afastar, só que não tem conseguido. Flávio Bolsonaro tem contra si o fato de que ele e sua família defenderam em inúmeras ocasiões o AI-5, a ditadura militar, a tortura, enalteceram o mais notório dos torturadores e, indo das palavras à ação, Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado. Agora, Flávio Bolsonaro fala em mudar a Constituição para “redemocratizar o Brasil”. Antes de seguir, é preciso pedir ao candidato que defina democracia.