quinta-feira, outubro 08, 2026

Nova geração se elegeu e tomou a Câmara usando as redes sociais


As redes sociais mudam o mapa da Câmara

Luis Felipe Azevedo
O Globo

O sucesso nas urnas de nomes como o de Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) — os candidatos mais votados para a Câmara, com mais de três milhões de votos cada — aponta para uma tendência não só de eleição de candidatos cada vez mais jovens na Casa, mas também para a força de uma nova leva de políticos embalados pelo uso estratégico das redes sociais. O movimento ocorreu ao mesmo tempo em que quadros tradicionais, com longos mandatos no Congresso, não se reelegeram.

O resultado dos dois bolsonaristas superou a votação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em 2018. Com cerca de 1,8 milhão de votos, o agora ex-deputado federal detinha o recorde até então. Nikolas conquistou 3,1 milhões de votos, o dobro do alcançado pelo mineiro em 2022, quando teve quase 1,5 milhão.

MAIS VOTADO – Na ocasião, ele já havia conquistado o título de deputado federal mais votado do país. Já Pavanato é ex-integrante do MBL e ingressou na política após participar de manifestações à favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. No último domingo, ele teve 3 milhões de votos por São Paulo.

Pavanato faz parte de uma nova safra de políticos inspirados na “guerra cultural” proposta pelo guru Olavo de Carvalho. A vertente tem forte presença digital e um empurrão decisivo de Nikolas.

CONFRONTOS – Para alcançar votação expressiva, o vereador adotou as redes e o conflito como principais instrumentos políticos. Abordagens de rua e confrontos com adversários ideológicos em universidades ajudaram a construir a persona “anti-woke” de Pavanato, que se coloca contra pautas identitárias associadas à esquerda. Entre os temas que decidiu levar para o Legislativo estão a proibição do aborto, a restrição de políticas relacionadas à população trans e a revisão da política de cotas raciais.

A tendência de jovens com alta votação na direita também se materializou com a performance do presidente do PL no Ceará, André Fernandes, de 28 anos, que alcançou a marca de 684 mil votos. Ele foi o quarto deputado com maior votação no país este ano.

CONEXÃO – Para a cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a votação expressiva de jovens na direita é fruto do uso do discurso antissistema: “Jovens têm mais pertinência em se apresentar dessa maneira. Esse tipo de candidato tem maior probabilidade de estar mais conectado a novas formas de comunicação e cognição, por meio das redes”.

Também compõem o top cinco de mais votados no país as deputadas Érika Hilton (PSOL-SP), de 33 anos, e Sâmia Bomfim (PSOL-SP), de 37 anos. Reeleitas, elas conquistaram, respectivamente, 1,59 milhão e 583 mil votos. Ambas tiveram alto crescimento na comparação com a votação alcançada em 2022.

Em São Paulo, também chama atenção o fato de que nenhum dos cinco mais votados tem mais de 40 anos. Além de Pavanato, Érika e Sâmia, completam a lista Kim Kataguiri (Missão) e Tabata Amaral (PSB).

DA ESQUERDA À DIREITA –  Na esquerda, entre os eleitos com votação expressiva está Ricardo Cardoso de Azevedo, o Rick Azevedo, de 32 anos. Em meio à discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1, sua principal pauta, o psolista conquistou 191.371 votos, sendo o segundo mais votado da bancada federal do Rio.

O resultado das urnas também levou à Câmara a influenciadora mineira Ana Elisa (PT), de 21 anos, a mulher mais jovem a ser eleita para a Casa. Ela foi a segunda mais votada no estado, atrás somente de Nikolas. Com mais de 2 milhões de seguidores, ela defende que “não existe mais separação de redes e ruas”.

“Gostaria de deixar realmente um apelo para toda a esquerda. É o momento de nós deixarmos realmente a ignorância de lado, calçarmos a sandália da humildade e entendermos que com a rede social a gente precisa sim aprender”, disse a petista sobre a disputa presidencial.

SEGUNDA MAIOR VOTAÇÃO – Também na esquerda, Jones Manoel (PSOL), de 36 anos, chegou ao Congresso com a segunda maior votação do ano em Pernambuco. Na direita, Jeffrey Chiquini (Novo), de 36 anos, alcançou a maior votação da história para deputado federal no Paraná. O bolsonarista Lucas Polese (PL), de 29 anos, conquistou o mesmo feito no Espírito Santo.

Também chega à Casa Alvinho Lira (PP), de 20 anos. O filho do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP) foi o mais votado de Alagoas e será o deputado mais jovem da história.

Para o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que não conseguiu o sexto mandato na Câmara, um vendaval de extrema direita varreu o país e deixará a política mais medíocre a partir de 2027.

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