
Bolsonaristas agora não questionam resultado das urnas
Marcelo Copelli
O primeiro turno de 2026 entregou ao bolsonarismo uma de suas maiores vitórias parlamentares no mesmo sistema eleitoral que esse campo tratou, durante anos, como objeto de suspeita.
Flávio Bolsonaro e Lula da Silva decidirão a Presidência em 25 de outubro. O PL elegeu 121 deputados federais, a segunda maior bancada partidária eleita desde a redemocratização, atrás apenas dos 260 deputados do PMDB em 1986, e conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado. Até o momento, não há registro público de contestação formal dos resultados das urnas por parte das principais lideranças do campo.
CRITÉRIO – Um resultado favorável não prova a segurança do sistema, e este texto não sustenta o contrário. O que ele permite examinar é o critério que parte desse campo político empregou, em diferentes momentos, para decidir quando colocar a urna sob suspeita. Existe uma diferença nítida entre fiscalizar um sistema e apresentar suspeitas como fatos sem comprovação. A fiscalização aponta uma falha, indica onde ela está e aceita ser verificada. A acusação sem prova, ao contrário, pode sobreviver apenas da repetição.
O histórico de Flávio mostra essa oscilação. Desde 2014, ele alternou ataques, ressalvas e recuos sobre o tema. Em setembro de 2018, escreveu que seria “impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso” e, dias antes do primeiro turno daquele ano, disse que o eleitor tinha “direito de desconfiar da urna eletrônica”.
No primeiro turno de 2022, compartilhou um vídeo segundo o qual uma urna não permitia votar em Bolsonaro e, em 2023, tornou-se coautor de uma Proposta de Emenda à Constituição que prevê cédulas físicas conferíveis pelo eleitor. O pai, Jair Bolsonaro, disse em 2021 ter provas de fraude na eleição que o elegera e prometeu apresentá-las; não o fez, embora o Tribunal Superior Eleitoral tivesse aberto procedimento justamente para recebê-las.
ASSOCIAÇÃO – Em julho de 2026, a sequência reapareceu em escala menor e dentro da própria campanha. Diante de embaixadores de cerca de cinquenta países, Flávio associou as urnas brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic, associação que a Justiça Eleitoral desmente: segundo o TSE, a empresa nunca forneceu urnas nem programas para o sistema brasileiro.
No dia seguinte, uma nota assinada por ele e por sua coordenação de campanha declarou “integral confiança” no sistema eleitoral e negou que ele o tivesse questionado. O texto não explicava de onde havia surgido a associação com a Smartmatic.
Em entrevista à TV Globo, já em plena campanha, Flávio reconheceu ter falado de forma equivocada sobre a Smartmatic e, na sequência, afirmou que jamais questionou o processo eleitoral, conforme registrou o Aos Fatos, que recuperou em seguida o tweet de 2018, a declaração sobre o direito de desconfiar e a fala aos embaixadores. Há, portanto, duas oscilações superpostas: uma sobre a urna e outra sobre o próprio histórico. A segunda é particularmente difícil de sustentar porque não depende de interpretação, mas do que foi efetivamente dito e permanece registrado.
REPERCUSSÃO – A cronologia, nesse ponto, merece ser lida com cuidado. A nota de julho veio no dia seguinte à repercussão da fala, três meses antes da votação e sem resultado eleitoral que pudesse explicá-la. Não é possível atribuir a mudança de posição ao placar, que ainda não existia. É possível, contudo, registrar a sequência e perguntar o que a produziu.
O primeiro turno acrescentou outra peça. Boatos sobre as urnas voltaram a circular neste ano, em volume menor que em 2022 e 2024, enquanto o TSE relatou queda nas denúncias de desinformação durante a votação. Esses dados descrevem o ambiente digital, não o comportamento das lideranças, e tampouco permitem concluir que a mudança de tom seja definitiva: o segundo turno ainda não ocorreu.
Mudar de opinião sobre as urnas é direito de qualquer um, e sistemas públicos devem mesmo ser fiscalizados e aperfeiçoados. O problema é outro: apresentar suspeitas graves como fatos, não as comprovar e, mais tarde, agir como se nunca tivessem sido formuladas. É aí que a confiança deixa de ser apenas uma palavra e passa a ter custo.
PRECEDENTE – Nenhum candidato que venceu o primeiro turno da eleição presidencial perdeu a Presidência desde a redemocratização. A diferença entre os dois finalistas é de cerca de 2,2 milhões de votos, e o Datafolha de 2 de outubro apontou rejeição de 45% para ambos. A tradição eleitoral oferece um precedente e as pesquisas registram uma disputa apertada, mas nenhuma das duas coisas determina o resultado. O que o segundo turno colocará à prova, de novo, é a aceitação do que a urna disser.
Se a urna é confiável quando registra a vitória esperada para determinado grupo político e volta a ser suspeita quando registra a derrota, o problema nunca esteve apenas na máquina. Mas essa conclusão ainda não está dada. Ela dependerá do que disserem e fizerem os atores políticos diante do próximo resultado.
Até lá, resta um contraste difícil de ignorar: a mesma urna que durante anos foi apresentada como suspeita acaba de produzir uma das maiores vitórias parlamentares do bolsonarismo. O dado, por si só, não transforma a urna em prova de infalibilidade nem encerra o debate sobre fiscalização, transparência ou aperfeiçoamento do sistema; ele expõe, porém, uma contradição política que não pode ser ignorada.
CONTROVÉRSIA – Se a confiança no mecanismo eleitoral cresce quando ele entrega uma vitória e volta a ser colocada em dúvida quando produz uma derrota, a controvérsia deixa de ser propriamente técnica e passa a dizer respeito ao próprio compromisso com o resultado democrático.
A pergunta que fica, portanto, não é se a urna pode ou deve ser fiscalizada — deve, como qualquer sistema público de poder —, mas se aqueles que durante anos levantaram suspeitas sobre ela estarão dispostos a respeitar sua resposta quando ela eventualmente contrariar suas expectativas. É nesse momento que se saberá se a confiança estava realmente depositada na urna ou apenas no resultado que ela produzia.