Imagino que, assim como eu, você tenha sentido alguma dessas emoções nos últimos dias: negação, raiva, desesperança, angústia, dúvida, irritação. Parece que as eleições do último domingo nos jogaram num liquidificador com todas as fases do luto na velocidade máxima. O diabo na urna no meio do redemoinho.
Mas como a vida quer da gente é coragem, vamos lá.
Em primeiro lugar, é preciso repetir: as eleições presidenciais não estão definidas. No último dia 4 de outubro, 56 milhões de pessoas apertaram os dois números do clã Bolsonaro nas urnas. Mas 71 milhões, não.
Nessa conta estão os 53 milhões que escolheram Lula e outros 17 milhões que votaram nos demais candidatos, ou que anularam o voto, seja por opção, seja por desconhecimento.
Além disso, 33,4 milhões de pessoas simplesmente não foram votar, pelas mais variadas razões. No próprio domingo das eleições, meu colega Rafael Custódio contou nesta reportagem como o trabalho — e a necessidade de ganhar mais dinheiro pela precarização do trabalhador — é um dos motivos que faz que brasileiros não vão votar.
O resultado é que 102 milhões de brasileiros, 65% dos eleitores aptos a votar não votaram em Flávio. Ou seja, a maioria.
É claro, isso não significa que a votação para Bolsonaro não seja expressiva. Ela é, e muito. Também não quer dizer que os não votos de domingo possam se converter em apostas contra Flávio no 2º turno. Nem mesmo é possível dizer que sejam expressão de valores democráticos - muitos não foram, de fato.
Porém, é possível sim dizer que, no meio desses 102 milhões de brasileiros, existem muitos milhões que seguem repudiando que a presidência do país mereça um grupo que há décadas usa a política para minar os direitos humanos e fazer fortuna apenas com os seus.
Eu também não tenho dúvida que, para parte desse mundaréu de gente, o jornalismo tem, sim, seu valor. O jornalismo que a Agência Pública faz, que sempre soube fazer as “escolhas difíceis” e que chama a família Bolsonaro pelo que deve ser chamada desde o início. E que também não deixa de denunciar as violações de direitos cometidas até mesmo por quem se opõe a elas.
O jornalismo não é glorioso, é um capinar. É trabalho. É labuta. E talvez isso seja o mais belo dessa profissão.
A gente não muda o mundo por jagunçagem. A gente semeia. Apuramos informações que consideramos relevantes e levamos até você, para que daí, você nos ajude a espalhar essas sementes para mais gente. É uma lavoura de realidade, onde trabalhamos para tentar construir um chão em comum, mais verdadeiro, mais honesto, de onde a gente possa ter novas colheitas de um país melhor.
O jornalismo ético, da Pública e de tantos outros colegas corajosos de vários veículos, fez sim um trabalho muito importante nestas eleições. Não se iluda, não veja o resultado das urnas apenas pela ótica do perder ou ganhar. Sem esse jornalismo digno, muito provavelmente esses milhões que se recusam a embarcar no autoritarismo provavelmente seriam milhões a menos.
Você. Alguns de seus vizinhos. Talvez poucos familiares. Muitos no seu bairro. Centenas na sua cidade. Milhões no país ainda se importam, sim. Alguns vão ler a Pública. Outros, vão conhecer nosso trabalho através de você. Muitos vão ser impactados pelo que revelamos pelo olhar de influenciadores, alguns vão aprender com nosso trabalho nas aulas. O jornalismo não se faz sozinho.
Encerro aqui esta mensagem pedindo duas coisas.
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