Publicado em 10 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet
Há poucos dias da votação presidencial, nada está garantido
Pedro do Coutto
A primeira pesquisa Datafolha para o segundo turno de 2026 colocou Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula da Silva, com 52% contra 48% dos votos válidos. O resultado representa um sinal de alerta para o presidente, mas não autoriza concluir que a disputa esteja decidida. Com margem de erro de dois pontos percentuais, os candidatos permanecem tecnicamente empatados.
A vantagem de Flávio reflete não apenas o impulso obtido no primeiro turno, mas também a capacidade de atrair apoios partidários e lideranças que disputaram a eleição. As adesões fortalecem sua posição política, embora não garantam a transferência automática dos votos dessas forças.
MOBILIZAÇÃO – O desafio de Lula é recuperar a iniciativa, reconquistar eleitores que se afastaram do governo e mobilizar aqueles que ainda não decidiram como votar. Não basta apostar nas contradições do adversário: o presidente precisa demonstrar por que a continuidade de sua administração responde melhor às preocupações da população.
Nesse contexto, a proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1 pode representar uma oportunidade para o governo. A pauta dialoga diretamente com as condições de vida dos trabalhadores e permite discutir renda, descanso e qualidade de vida. Entretanto, sua eficácia eleitoral dependerá da capacidade do Planalto de avançar na articulação parlamentar e apresentar resultados concretos. Uma proposta popular não se transforma automaticamente em votos, sobretudo quando sua tramitação enfrenta resistência no Congresso.
Flávio, por sua vez, tenta apresentar-se como representante de uma nova geração política, associando sua candidatura à mudança de ciclo. A estratégia, porém, esbarra numa contradição: embora procure projetar renovação, sua trajetória está diretamente ligada ao legado de Jair Bolsonaro. A questão será convencer o eleitor de que sua candidatura representa mais do que a continuidade de um projeto familiar, sem perder a identidade política que sustenta sua base.
ATAQUES DO 8 DE JANEIRO – Lula também deverá explorar os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. O episódio oferece ao presidente argumentos para questionar o compromisso do bolsonarismo com a democracia. O risco está em acreditar que a lembrança dos ataques, isoladamente, será suficiente para alterar as intenções de voto. Para conquistar eleitores preocupados sobretudo com economia, segurança e custo de vida, a defesa das instituições precisará estar acompanhada de respostas concretas aos problemas quotidianos.
ELEIÇÃO NO RIO – No Rio de Janeiro, a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de anular os votos de Anthony Garotinho alterou o resultado da eleição estadual e abriu caminho para a declaração de Douglas Ruas, do PL, como vencedor no primeiro turno. O desfecho contrariou as expectativas de pesquisas que apontavam Eduardo Paes na liderança. A vitória fortalece o partido de Flávio, mas seria precipitado interpretá-la como demonstração direta de apoio ao candidato presidencial. A dinâmica estadual tem particularidades próprias, e a mudança na totalização dos votos foi decisiva para o resultado.
Outro fator de repercussão é a ordem judicial relacionada a Eduardo Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por coação no curso do processo. Como está nos Estados Unidos, o cumprimento efetivo da pena depende das circunstâncias jurídicas e práticas para a execução da decisão. Politicamente, o episódio poderá alimentar interpretações opostas: enquanto adversários do bolsonarismo o apresentarão como consequência de uma responsabilização judicial, apoiantes da família poderão explorá-lo como argumento de perseguição política. Não é possível antecipar qual será o efeito líquido sobre os votos.
BASE ELEITORAL – Flávio chega, portanto, ao segundo turno com vantagem numérica na pesquisa, apoios relevantes e uma estrutura partidária fortalecida. Lula, entretanto, mantém uma base eleitoral expressiva e ainda dispõe de espaço para reorganizar a campanha. Seu principal desafio é evitar que a estratégia se limite à mobilização dos eleitores já convencidos, ampliando o diálogo com quem se afastou do governo ou permanece indeciso.
Para Flávio, a dificuldade será transformar o impulso inicial em maioria efetiva, sem deixar que as contradições de suas propostas afastem eleitores menos identificados com o bolsonarismo. Para Lula, será necessário demonstrar que a experiência de governo constitui uma vantagem concreta, e não apenas um argumento de continuidade.
A eleição permanece aberta. A dianteira de Flávio merece atenção, mas não representa uma margem suficiente para antecipar o desfecho. Até 25 de outubro, a disputa dependerá da capacidade de cada candidato de mobilizar suas bases, conquistar novos apoios e responder às preocupações de um eleitorado dividido. Mais do que os apoios anunciados ou a intensidade da polarização, será a conversão dessas forças em votos que determinará o resultado.
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