OS "IGUAIS" E OS "MAIS IGUAIS": O Foro Privilegiado Como Máquina de Prescrição e Impunidade no Brasil
Por José Montalvão
A nossa Constituição Federal de 1988 carimbou no Artigo 5º a máxima de que "todos são iguais perante a lei". Uma frase belíssima no papel, mas que colide de frente com a realidade dos fatos. Na prática, o sistema jurídico brasileiro dividiu o país entre os cidadãos comuns — os "iguais", que enfrentam o rigor célere da primeira instância — e os poderosos da República — os "mais iguais", blindados por um manto institucional conhecido como foro por prerrogativa de função, popularmente batizado de foro privilegiado.
Contra fatos não há argumentos. Um levantamento exclusivo realizado a pedido do jornal Estadão, analisando 1.766 inquéritos e 544 ações penais abertas no Supremo Tribunal Federal (STF) entre 2002 e 2025, revelou uma radiografia escandalosa da impunidade: apenas uma em cada 19 ações penais no STF resulta em condenação. O índice de punição de políticos e autoridades com foro na Corte máxima do país é de minguados 5%.
A Anatomia do Funil: Como Desaparecem os Processos dos Poderosos
A pesquisa minuciosa de especialistas como Hugo Henud, Ivar Hartmann (Insper) e Shandor Torok desnuda o funcionamento de um verdadeiro funil processual desenhado para produzir o que eles chamam de "não-decisões". O sumiço das acusações contra os poderosos dá-se por meio de gargalos estratégicos:
O Funil da Investigação: Entre os anos de 2002 e 2025, apenas 5% dos inquéritos chegaram a virar ação penal. A esmagadora maioria foi arquivada a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) ou enviada para instâncias inferiores. No período mais recente (2017-2025), a taxa despencou ainda mais: apenas 3% das investigações furaram o bloqueio.
O Jogo das Cadeiras (Declínio de Competência): Quando uma ação penal finalmente consegue ser aberta, ela entra em um labirinto. No recorte histórico, 57% das ações penais deixaram o STF porque o político mudou de cargo ou o mandato acabou, fazendo com que o processo fosse enviado para a primeira instância, reiniciando o andamento e atrasando o desfecho.
A Prescrição Redentora: Cerca de 14% dos processos prescreveram dentro do próprio Supremo. Isso significa que o Estado perdeu o prazo legal para aplicar a punição devido à lentidão, gavetas trancadas e manobras protelatórias. Somados, o vai-vem de instâncias e a prescrição sepultaram 71% dos casos sem que o STF sequer julgasse se o réu era culpado ou inocente.
Como bem definiu o professor Ivar Hartmann, a assimetria do sistema é revoltante: "Se um juiz de primeira instância começa a deixar casos prescreverem, ele vai sofrer sanções. Se um ministro do Supremo faz isso, ou a PGR, não acontece nada". É a blindagem perfeita para quem detém o poder.
A Velocidade de Conveniência: A Capacidade que Depende da Vontade
O argumento clássico de que o STF é lento porque está sobrecarregado caiu por terra após os tristes episódios do 8 de Janeiro. Como bem observaram os pesquisadores, quando a própria instituição e a ordem institucional que a sustenta foram atacadas, o Supremo demonstrou uma velocidade e uma escala de julgamentos inéditas na história do país.
Ou seja: a capacidade técnica de julgar rápido e punir sempre existiu; o que mudou foi a disposição política de usá-la. Quando o interesse é do cidadão comum lesado pela corrupção, o processo caminha a passos de cágado até a prescrição; quando a corda aperta no pescoço da própria Corte, a jurisdição opera a jato.
Conclusão: Reflexos da Impunidade em Nossa Terra
A impunidade que assistimos no topo da pirâmide em Brasília é a mesma que, historicamente, alimentou a insolência de burocratas e maus políticos nos rincões do interior. Como já denunciamos exaustivamente neste Blog, Jeremoabo foi vítima por décadas de servidores que abusavam do poder e de prefeitos amadores que quebravam as finanças do município convictos de que a Justiça "perderia o prazo" ou os blindaria.
Felizmente, neste ano de 2026, estamos assistindo a uma depuração. A nível local, a era dos privilégios e do amadorismo perdeu força diante de uma gestão técnica e de alta performance comandada pelo prefeito Tista de Deda, que mantém o foco no desenvolvimento simultâneo e as contas rigorosamente aprovadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), sem espaço para desvios. Da mesma forma, as recentes sessões do TJBA — que expuseram e prometeram punir os desmandos cometidos no cartório de Registro de Imóveis de Jeremoabo — dão sinais de que a tolerância com o coronelismo burocrático está chegando ao fim.
O foro privilegiado, da forma como opera hoje no Brasil, é uma afronta à República e um deboche ao cidadão contribuinte. Se o país quer, de fato, entrar na rota do desenvolvimento moral, o funil do STF precisa ser quebrado. Afinal, a justiça que tarda e não decide não é justiça: é apenas o verniz legal da impunidade!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: Fiscalizando os poderosos e escancarando as engrenagens da impunidade! Porque contra dados científicos e fatos reais, não existem argumentos de palanque!
