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Bolsonarismo enfrenta racha nos estados
Hyndara Freitas
O Globo
Na véspera do início das convenções partidárias, a proliferação de candidaturas ao Senado no campo da direita ameaça o projeto bolsonarista de eleger o maior número possível de parlamentares na Casa para fazer andar pautas de seu interesse, como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em pelo menos seis estados, incluindo Rio, Minas e São Paulo, a insistência de pré-candidatos em se manter na disputa pode gerar uma pulverização de votos, abrindo espaço para adversários avançarem.
Na esquerda, que vê igualmente o Senado como prioridade para travar o que considera avanços golpistas e dar governabilidade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) num eventual quarto mandato, também há arestas a aparar. Em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, há uma indefinição na chapa devido a resistências inclusive entre petistas, o que adia a formação de um palanque forte para o postulante à reeleição.
PEDRA NO SAPATO – Em São Paulo, o ex-bolsonarista Ricardo Salles (Novo) pode virar uma pedra no sapato para o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O ex-ministro, hoje rompido com o senador, já divide votos ao Senado com os dois postulantes em sua chapa, os deputados do PL André do Prado e Guilherme Derrite. Em pesquisa Datafolha divulgada na terça-feira, Salles tem 13% das intenções de voto, numericamente à frente de Prado (11%) e Derrite (10%), ainda que os três estejam tecnicamente empatados considerando a margem de erro de dois pontos.
As pré-candidatas na chapa de Lula, contudo, lideram as projeções: Marina Silva (Rede) marca 18%, e Simone Tebet (PSB), 16%. O palanque de Flávio se completa com Tarcísio de Freitas (Republicanos) buscando a reeleição como governador; e o de Lula com o ex-ministro Fernando Haddad, que concorrerá ao Palácio Bandeirantes.
OPERAÇÕES POLICIAIS – A chapa no Rio, berço do bolsonarismo, está em suspenso após operações da Polícia Federal (PF) atingirem nomes que estavam cotados para as cadeiras. Na semana passada, Flávio escolheu o senador Carlos Portinho (PL) para ocupar a vaga do partido na aliança de Douglas Ruas (PL) que até maio era do ex-governador Cláudio Castro (PL), alvo da PF. A outra, do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União), ficou em xeque após ele ser preso por posse ilegal de um fuzil. O fator surpresa aqui é o ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que voltou a ficar elegível e já se coloca como pré-candidato ao Senado, independentemente de estar na chapa bolsonarista.
O cenário de possível divisão de votos se repete em Santa Catarina. Carlos Bolsonaro, ex-vereador do Rio, e a deputada federal Carolina de Toni são os nomes do PL na chapa do correligionário Jorginho Mello. O senador Esperidião Amin (PP) — que esperava compor o palanque majoritário, mas foi apartado para que os dois bolsonaristas fossem acomodados — não abre mão de tentar a reeleição e recuou do apoio a Mello. Pesquisas mostram um empate triplo.
DIVISÃO – A disputa em Roraima também ficou embaralhada para que um bolsonarista originalmente do Rio fosse acomodado na chapa majoritária. O deputado federal Hélio Lopes (PL) concorrerá ao Senado pelo estado, que já tem seu colega na Câmara Nicoletti como nome do PL. No entanto, dois pré-candidatos do União Brasil, que, junto ao PP, negocia com o PL entrar na aliança, resistem a desistir de suas pré-candidaturas. Arthur Henrique (PL), que será candidato ao governo, tenta resolver o impasse.
“Não vejo divisão na direita, porque a direita aqui é PL”, diz Nicoletti, admitindo que a população tem “uma certa resistência” a Lopes, mas que isso não seria suficiente para afetar a chapa. “Dá para lançar eu e ele”, acrescenta.
INCERTEZAS – No Paraná, além de Filipe Barros (PL) e do ex-deputado Deltan Dallagnol (Novo) — que ainda enfrenta incertezas sobre sua elegibilidade —, nomes como Álvaro Dias (MDB), que tem aparecido bem colocado em pesquisas recentes, mas não confirmou pré-candidatura, e Alexandre Curi (Republicanos) também disputam o mesmo eleitorado.
Coligado com Dallagnol, Sergio Moro vai tentar o governo pelo PL, e Curi está na chapa de Sandro Alex (PSD), apadrinhado pelo governador Ratinho Junior (PSD) para ser seu sucessor. Desde a semana passada, Cristina Graelm (PSD), que levou a disputa pela prefeitura de Curitiba para o segundo turno em 2024 defendendo pautas bolsonaristas, também passou a se colocar como opção para o Senado.
A fragmentação em Goiás levou o delegado Humberto Teófilo (Novo) a desistir da candidatura ao Senado para apoiar Gustavo Gayer (PL). Ainda assim, a direita segue com múltiplos nomes na disputa, incluindo Oseias Varão (PL), Gracinha Caiado (PSD) e o senador Vanderlan (PSD), o que pode dividir os votos do campo conservador. Os bolsonaristas compõem a chapa de Wilder Morais (PL), candidato ao governo, enquanto os demais deverão concorrer com Daniel Vilela (MDB), que assumiu o Executivo no lugar de Ronaldo Caiado (PSD) e agora tenta se manter no cargo.
INDEFINIÇÃO – O PT, por sua vez, ainda não tem chapa definida para o Senado em Goiás. Na semana passada, fechou o nome do ex-deputado Luis Cesar Bueno para o governo. Antes, Lula tentara destravar o palanque sinalizando para a vereadora Aava Santiago (PSB) e para a deputada federal Delegada Adriana Accorsi (PT) que gostaria que elas disputassem o Senado e o governo, respectivamente, mas ambas querem tentar a Câmara.
A esquerda também não definiu o palanque para o Senado em Minas. Agora com o nome de Patrus Ananias encaminhado para concorrer ao governo e o da ex-prefeita de Contagem Marília Campos para ocupar uma das vagas ao Senado, resta definir com quem ficará a segunda vaga — PSOL e PSB são opções.
DISPERSÃO – No campo da direita, o cenário é de indefinição e possível dispersão de votos. O PL lançou Domingos Sávio para o Senado, mas aguarda a decisão do senador Cleitinho (Republicanos) sobre disputar o governo. No mesmo campo, se movimentam Marcelo Aro (PP) e o senador Carlos Viana (PSD), que tenta a reeleição. Aécio Neves (PSDB) avalia se concorrerá à Casa após desistir da disputa ao Planalto.
No Distrito Federal, a briga de Michelle Bolsonaro (PL) com Flávio abriu uma nova frente de discussões para definir a chapa distrital. Para o governo, o PL apoia a reeleição da atual governadora Celina Leão (PP), e a ex-primeira-dama seria candidata ao Senado.
Segundo o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Michelle não quer mais o posto, mas ainda não desistiu oficialmente. Como noticiou a colunista Bela Megale, o ex-presidente Jair Bolsonaro tenta convencê-la a permanecer na disputa. Alternativas ao nome dela são o senador Izalci Lucas (PL) e a deputada federal Bia Kicis (PL). Valdemar sustenta que os palanques no Rio e em Roraima estão “se resolvendo” e, em Minas, deu como certa apenas a indicação de Sávio.
LEQUE DE OPÇÕES – Para o cientista político Sérgio Praça, o cenário nos estados é um reflexo da disputa nacional, na qual a direita abre um leque de opções. Ele reforça que, especialmente no bolsonarismo, a dificuldade de compor alianças ficou maior após a revelação do envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, dono do Master.
“O bolsonarismo tem se mostrado, este ano, muito pouco afeito a fazer boas alianças. Parece cada vez mais isolado, e isso reflete na esfera estadual, causando essa proliferação de candidaturas. Mas o plano da direita de conseguir maioria no Senado continua com alta probabilidade. A força da esquerda nos estados é limitada, mesmo com Lula na Presidência e bem posicionado nas pesquisas”, afirma. As convenções partidárias, quando as candidaturas deverão ser registradas, começam amanhã e vão até 5 de agosto.