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Parte do patrimônio de Vorcaro pode ter sido pulverizado
Leandro Prazeres
BBC News
A Polícia Federal (PF) acionou a Interpol para tentar localizar bens e ativos do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa, em uma nova frente da investigação que apura um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes envolvendo o Banco Master. A medida, que vinha sendo estudada há alguns meses, foi confirmada por investigadores familiarizados com o caso ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado.
Segundo os investigadores da PF, a solicitação à Interpol foi feita por meio de uma ferramenta conhecida como “Silver Notice” (Alerta Prata, em tradução literal do inglês). Trata-se de um mecanismo da Interpol implementado recentemente pela organização e que é voltado ao rastreamento internacional de bens ligados a pessoas investigadas ou condenadas por crimes financeiros.
PATRIMÔNIO MILIONÁRIO – A expectativa entre os investigadores é de que Vorcaro tenha um patrimônio milionário espalhado por diversos países, fruto, em parte, das atividades supostamente criminosas que ele desempenhou à frente do conglomerado liderado pelo Banco Master. O colapso do grupo comandado por ele, que inclui pelo menos três instituições financeiras, deixou um rombo de R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
A notificação à Interpol pede que autoridades policiais dos países-alvo informem a existência de imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves ou outros ativos eventualmente registrados em nome do investigado ou vinculados a ele por meio de empresas.
Segundo a PF, essas informações podem subsidiar futuras medidas de bloqueio, confisco e repatriação de patrimônio de Vorcaro caso a Justiça determine que esses bens tenham origem ilícita. Ainda de acordo com os investigadores, os países-alvo do pedido ainda não informaram sobre quais bens e ativos foram identificados.
PULVERIZAÇÃO – A PF suspeita que parte do patrimônio de Daniel Vorcaro tenha sido pulverizado em propriedades e fundos de investimento em diversos países, inclusive paraísos fiscais. O temor da PF é que Vorcaro consiga blindar esse patrimônio ao longo do tempo, seja vendendo propriedades seja colocando-o em nome de outras pessoas. A BBC News Brasil enviou perguntas à defesa de Daniel Vorcaro, mas não recebeu respostas.
O paradeiro dos bens de Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais objetivos da Polícia Federal desde o avanço das investigações da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025. Desde que assumiu o comando do Banco Master, em 2019, Vorcaro ficou conhecido por ostentar um padrão de vida luxuoso com direito a festas milionárias em destinos europeus, mansões em Brasília e apartamentos de alto padrão em São Paulo.
Documentos apontam, por exemplo, que, em 2021, Vorcaro realizou uma festa de aniversário para a sua filha em uma ilha particular nas Bahamas ao custo de aproximadamente R$ 5 milhões. Documentos indicam ainda que, em setembro de 2023, Vorcaro fez uma festa em Taormina, na Sicília, e desembolsou R$ 363,2 milhões entre a produção, acomodações, hospedagens e contratação de artistas como Coldplay e Michael Bublé.
DIMENSÃO FINANCEIRA – Dados divulgados durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS mostraram que, em 2024, Vorcaro tinha um patrimônio de R$ 2,4 bilhões declarados à Receita Federal. Investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, avaliam que os bens do banqueiro possam ser muito superiores a esse valor. De acordo com eles, identificar a extensão e a localização do patrimônio do empresário é considerado fundamental diante da dimensão financeira do caso.
Segundo pessoas ligadas ao caso, liquidantes responsáveis por procedimentos envolvendo empresas relacionadas ao grupo de Vorcaro no exterior já apontaram a existência de propriedades de alto valor atribuídas ao empresário nos Estados Unidos.
Um exemplo é uma mansão avaliada em R$ 180 milhões na Flórida que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, teria sido alvo de uma tentativa de venda por parte do pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, que também é investigado pela Operação Compliance Zero. A transação, segundo o jornal, foi identificada pelo liquidante do banco, a EFB Regimes Especiais, com base em informações colhidas nos Estados Unidos.
ATIVOS FORA DO BRASIL – Investigadores afirmam, porém, que ainda não há um mapa completo dos ativos eventualmente mantidos fora do Brasil. É justamente essa lacuna que a Polícia Federal pretende reduzir com a ajuda da Interpol e foi esse um dos principais pontos que barrou o avanço de um acordo de colaboração premiada entre Vorcaro, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Segundo investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, durante as negociações para o acordo, Vorcaro não teria colaborado fornecendo a localização de partes de seu patrimônio. Sem consenso sobre esse tema, a colaboração não avançou e hoje, Vorcaro, continua preso em uma penitenciária de Brasília.
A difusão da “Silver Notice” é a segunda frente de investigação sobre o patrimônio de Vorcaro no exterior. Em abril, a Justiça dos Estados Unidos havia autorizado o liquidante do banco realize consultas a instituições financeiras norte-americanas em busca de ativos vinculados ao banqueiro. A decisão permitiu a busca por imóveis, dinheiro em fundos de investimentos e até mesmo obras de arte.
CRONOLOGIA – O caso envolvendo Daniel Vorcaro eclodiu no dia 18 de novembro de 2025, quando a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero. Naquele dia, ele foi preso pela primeira vez. Na mesma ocasião, o Banco Central anunciou a liquidação do Master e de outras duas instituições financeiras vinculadas a ele.
Vorcaro foi solto no final de novembro, após uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), mas foi preso novamente em março de 2026, durante a terceira fase da operação. Desde então, ele permanece preso.
A investigação apura supostos crimes contra o sistema financeiro nacional envolvendo a tentativa de venda de ativos do Master para o Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões.
VENDA DE ATIVOS – Essa venda, segundo as investigações, era uma tentativa de salvar o Master, que enfrentava dificuldades para saldar seus compromissos com milhões de investidores. Durante o negócio, o Master teria tentado vender ativos supervalorizados ou sem lastro para o banco público.
Ao longo das investigações, a PF identificou, também, suspeitas de que o Master mantinha um esquema de captação irregular de investimentos feitos por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), fundos que recebem contribuições de servidores públicos em diferentes Estados e cidades do Brasil para garantir as suas aposentadorias.
As suspeitas são de que esses investimentos teriam sido feitos por pressão política de pessoas próximas a Vorcaro. Em depoimentos e manifestações à Justiça, a defesa do banqueiro vem negando o cometimento desses crimes.
LIGAÇÕES – As investigações sobre o caso também alcançaram suas supostas relações com políticos e integrantes do Judiciário, entre eles os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Toffoli deixou a relatoria do caso no STF em fevereiro, depois de pedir a redistribuição do processo. A decisão ocorreu após questionamentos sobre sua ligação com uma empresa familiar da qual é sócio, que teve parte de sua participação vendida, em 2021, a um fundo controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
O ministro afirmou que jamais recebeu qualquer valor de Vorcaro ou de Zettel, que não conhece o gestor do fundo e que nunca manteve relação de amizade com o banqueiro. O ministro André Mendonça foi sorteado e assumiu a relatoria do caso. À época, o STF afirmou, em nota assinada pelos dez ministros da Corte, que não havia motivo para declarar a suspeição de Toffoli. A nota também informou que o pedido de redistribuição havia sido feito pelo próprio ministro e acolhido pela Presidência do tribunal, “considerados os altos interesses institucionais”.
Moraes também foi alvo de questionamentos após reportagens revelarem um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, apontarem supostas trocas de mensagens entre o ministro e Daniel Vorcaro e relatarem contatos com o presidente do Banco Central. Em nota, o STF negou que Moraes tenha tratado do Banco Master com o BC e afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos de Vorcaro concluiu que as mensagens atribuídas ao ministro “não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes”.
VANTAGENS ECONÔMICAS – As investigações também avançaram sobre as relações do banqueiro com os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A PF investiga supostas vantagens econômicas pagas por Vorcaro ou pessoas e empresas próximas a ele aos parlamentares.
No caso de Ciro Nogueira, a PF investiga se o senador teria apresentado uma emenda parlamentar que beneficiaria os negócios do banqueiro em troca de presentes e o pagamento de despesas como viagens, além de uma suposta mesada.
TOMA LÁ DÁ CÁ – No caso do senador petista, a PF apura a suposta ligação dele com o também banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. As suspeitas recaem sobre um apartamento de R$ 2,5 milhões de Wagner em Salvador. As suspeitas são de que as vantagens teriam sido pagas em troca de apoio parlamentar a projetos que beneficiariam o Master. Wagner nega ter praticado qualquer irregularidade.
Outro desdobramento envolve o senador Flávio Bolsonaro, que, segundo o site The Intercept Brasil, pediu US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Flávio afirma que a relação era exclusivamente comercial e que cobrava parcelas atrasadas de um patrocínio legal. A BBC News Brasil procurou a defesa do banqueiro para comentar a difusão prateada feita pela Polícia Federal, mas não recebeu respostas.