Menos luzes, mais trevas
Por mais que tenhamos nos acostumado, algumas bizarrices dos bolsonaristas ainda têm a capacidade de nos assombrar.
Viralizou nesta semana um vídeo de um vereador do PL de Itajaí em que ele critica o incentivo público que se dá para que jovens pobres façam faculdade. Você não leu errado. Victor Nascimento afirmou, com todas as letras, que “estudar não deveria ser para todo mundo".
Ele explica: “O educacionismo nunca foi benéfico para a totalidade. O que significa isso? Tem pessoas que entram em uma universidade, que entram em uma faculdade, mas não detêm os pré-requisitos mínimos para se desenvolver em uma área ou outra. De repente, esse indivíduo, que vai ser um administrador frustrado, (...) poderia ser um grande mecânico, um grande pedreiro, um grande músico.”
A lógica de neandertal é conhecida: pobres com educação básica deficitária são incapazes de ter bom desempenho nas universidades. É claro que isso não encontra respaldo na realidade. Jovens cotistas têm melhor desempenho que os não cotistas nas universidades brasileiras.
O vereador catarinense segue com sua pensata primitiva: “A verdade é que o ‘educacionismo’ é um processo que a esquerda fez para te obrigar a ir para uma universidade. (...) Eles (esquerda) querem te colocar nesse antro”. Ele se escora no senso comum dos idiotas: a universidade é um espaço de drogas, putaria e todo tipo de subversão. A verdade é que eles temem o desenvolvimento do pensamento crítico, que é a kriptonita do bolsonarismo.
Esse elitismo tosco, que está historicamente impregnado na direita brasileira, sempre apareceu de forma velada. O bolsonarismo tirou a máscara e apresentou a ideia com franqueza. Lembremos que tivemos que um ministro da Educação do governo Bolsonaro que defendeu esse mesmo anti-iluminismo sem o menor pudor. Se depender do bolsonarismo, voltaremos todos para as cavernas.
Família irreal
Se uns querem voltar para as cavernas, outros querem voltar para o período colonial. Vejamos a manchete do G1: “Chefe da Casa Imperial do Brasil ameaça mudar ‘linha sucessória’ se ‘príncipe’ Dom Rafael se casar com italiana”. Tudo soa ridículo, a começar, e principalmente, pelo fato de a monarquia ter sido abolida há 136 anos. Eles não querem largar o trono, mesmo que ele não exista mais. Mesmo sem serem reconhecidos juridicamente pelo estado brasileiro, os herdeiros do Império continuam brigando pela linha sucessória e discutindo os rumos da dinastia. É uma grande brincadeira entre adultos ricos.
A notícia explica a treta: “O chefe da Casa Imperial do Brasil pelo ramo de Vassouras, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, anunciou que não reconhecerá o casamento de seu sobrinho e herdeiro dinástico, Dom Rafael de Orleans e Bragança, com a aristocrata italiana Margherita delle Piane”. O comunicado de Dom Bertrand foi lido durante o 36º Encontro Monárquico Nacional, diante de integrantes da família e para apoiadores da volta da democracia. Sim, a família real tem seus súditos e promovem encontros com eles para discutir os assuntos reais.
Dom Bertrand foi claro: caso o príncipe Dom Rafael decida manter o casamento à revelia do chefe da Casa Imperial, perderá todos os seus direitos dinásticos. É como se eles se reunissem para jogar um RPG de Game of Thrones. Tem o seu lado lúdico, apesar de patético.
Enquanto essa gente exótica estiver exaltando o passado colonial e escravocrata em eventos privados, tudo bem. Nós e eles vamos nos divertir. O problema é quando param de brincar e decidem entrar para a política, como fez o príncipe herdeiro Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que hoje é um deputado lamentável do PL.
Em 2019, durante sessão solene na Câmara pelos 131 anos da Lei Áurea, o deputado-príncipe subiu à tribuna para dizer que a escravidão é “tão antiga quanto a humanidade” e, por isso, “é quase um aspecto da natureza humana”.
É, acho que faltou ao Brasil uma Revolução Francesa.