sábado, julho 18, 2026

Flagra com capanga de Vorcaro aumenta ainda mais o desgaste da campanha de Flávio Bolsonaro

 

Flagra com capanga de Vorcaro aumenta ainda mais o desgaste da campanha de Flávio Bolsonaro






Nem os caciques do PL questionaram a veracidade da foto da dupla, tirada em um momento de descontração que mais parecia um churrasco à beira da piscina




A candidatura do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, à presidência da República virou puro medo e delírio. As más notícias não param de chegar e nada indica que o inferno astral esteja perto do fim. O troço está tão avassalador que nem as narrativas delirantes do bolsonarismo estão dando conta de explicar tantos esqueletos no armário.

Os danos à campanha foram detectados pelos principais institutos de pesquisa, que na última semana confirmaram uma tendência de queda consolidada nas intenções de voto, tanto no primeiro turno quanto no segundo turno. 

Tudo o que está ruim ainda pode piorar. No dia 15 de julho, a jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, publicou uma foto do bolsonarista ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — aquele que tirou a própria vida na cadeia há poucos meses –, o capanga de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. 

Conhecido como “Sicário”, ele foi acusado pela Polícia Federal de ser o chefe de uma gangue que monitorava e intimidava pessoas consideradas inimigas dos interesses do ex-banqueiro. Estamos falando de ações violentas, típicas das máfias. Vorcaro e o jagunço mantinham contatos diretos e frequentes para combinar os métodos e a vítima da vez. 

Não que a má companhia do senador seja uma surpresa, afinal não estamos falando de um anjo de candura. Flávio estreou na vida pública como funcionário fantasma. Depois, virou um deputado que fez do seu gabinete um cabide de empregos para os parentes de um chefe de milícia. Hoje, é um senador que chama o maior bandido do Brasil de “irmão” depois de pedir R$ 134 milhões. Transitar com desenvoltura entre o mundo da política e do crime talvez seja a principal marca da sua trajetória na vida pública. 

Flávio negou conhecer o “Sicário” de Vorcaro e alegou que qualquer um pode tirar foto com político. Essa seria uma possibilidade plausível não fosse a relação financeira e de irmandade que ele mantinha com o patrão do capanga. 

O contexto em que se dá a foto torna a possibilidade ainda mais remota. Ela foi tirada em 2022, dentro de um hotel da zona sul do Rio de Janeiro, em um momento de descontração em que o senador aparece sem camisa e com óculos escuros. Tem toda a pinta de que foi tirada numa churrascada à beira da piscina. Não parece uma foto de um fã qualquer que o encontrou por acaso. 

Alguns anos depois desse encontro no hotel, Flávio escreveu para o patrão do “Sicário”: “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente". Esse não parece ser o tipo de tratamento que se tem com quem se conhece há pouco tempo. Há que ser muito inocente para acreditar que o senador não conhecia o criminoso da foto. A outra alternativa é acreditar na honra da palavra de Flávio Bolsonaro, que jurou não conhecer Vorcaro. 

As pesquisas indicam que isso está ficando mais difícil. As lorotas de Flávio não estão ganhando aderência entre os eleitores que estão fora da bolha mais fiel do bolsonarismo. E é justamente essa faixa do eleitorado que ele precisa conquistar para ganhar a eleição.

A divulgação da imagem de Flávio, bastante à vontade com um criminoso, aumentou o clima de barata-voa na campanha. A assessoria de imprensa do parlamentar chegou a publicar duas notas com versões diferentes para explicar a foto. 


Na primeira, enviada para o ICL, afirmou que o senador nunca viu nem conhece a pessoa da foto e levantou a possibilidade de a imagem ter sido forjada por inteligência artificial. Na segunda, distribuída pouco tempo depois, o texto foi alterado. O trecho que dizia que Flávio não conhece a pessoa da foto foi substituído por esse: “Impossível o senador saber quem é cada uma das pessoas que dele se aproxima”. Além disso, a suspeita sobre alteração feita pela inteligência artificial foi retirada. Essa titubeada soa quase como uma confirmação de que a foto é verídica. Há um claro temor de que novas imagens desse dia possam aparecer. 

Caciques do PL já sabiam da existência da foto há meses. O presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto — outro que se encontra enrascado com a justiça —  admitiu saber da existência há um mês. Nenhum dos caciques colocou em xeque a veracidade da foto. Já a ala norte-americana da campanha, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro, seguiram o caminho aposto. A dupla de herdeiros do golpismo decidiu atacar a jornalista e dizer que a foto foi forjada. O apito de cachorro impulsionou uma onda de ataques de perfis bolsonaristas contra Dal Piva, que passaram a usar o mesmo apelido misógino inventado pela duplinha do barulho. 

Curiosamente, boa parte dos parlamentares do PL ignorou a admissão dos caciques do partido e apostou na tese de que a foto é falsa. Não houve um alinhamento de estratégia. 

Faltando um mês para o início da campanha, Flávio e sua turma continuam batendo cabeça. E há mais problemas no horizonte. Segundo apuração da Bela Megale, de O Globo, já se sabe da existência de um vídeo em que o senador aparece em uma situação comprometedora para um homem da tradicional família brasileira. Há até uma estratégia definida caso as imagens vazem. A esposa do senador tem dito a pessoas próximas que houve uma crise no casamento, mas que ele mudou, entrou para a igreja e que a família “está mais forte do que nunca”. Pelo visto o martírio público de Flávio ainda vai longe. Que assim seja.




Menos luzes, mais trevas




Por mais que tenhamos nos acostumado, algumas bizarrices dos bolsonaristas ainda têm a capacidade de nos assombrar. 


Viralizou nesta semana um vídeo de um vereador do PL de Itajaí em que ele critica o incentivo público que se dá para que jovens pobres façam faculdade. Você não leu errado. Victor Nascimento afirmou, com todas as letras, que “estudar não deveria ser para todo mundo". 


Ele explica: “O educacionismo nunca foi benéfico para a totalidade. O que significa isso? Tem pessoas que entram em uma universidade, que entram em uma faculdade, mas não detêm os pré-requisitos mínimos para se desenvolver em uma área ou outra. De repente, esse indivíduo, que vai ser um administrador frustrado, (...) poderia ser um grande mecânico, um grande pedreiro, um grande músico.”  


A lógica de neandertal é conhecida: pobres com educação básica deficitária são incapazes de ter bom desempenho nas universidades. É claro que isso não encontra respaldo na realidade. Jovens cotistas têm melhor desempenho que os não cotistas nas universidades brasileiras. 


O vereador catarinense segue com sua pensata primitiva:  “A verdade é que o ‘educacionismo’ é um processo que a esquerda fez para te obrigar a ir para uma universidade. (...) Eles (esquerda) querem te colocar nesse antro”. Ele se escora no senso comum dos idiotas: a universidade é um espaço de drogas, putaria e todo tipo de subversão. A verdade é que eles temem o desenvolvimento do pensamento crítico, que é a kriptonita do bolsonarismo. 


Esse elitismo tosco, que está historicamente impregnado na direita brasileira, sempre apareceu de forma velada. O bolsonarismo tirou a máscara e apresentou a ideia com franqueza. Lembremos que tivemos que um ministro da Educação do governo Bolsonaro que defendeu esse mesmo anti-iluminismo sem o menor pudor. Se depender do bolsonarismo, voltaremos todos para as cavernas.


Família irreal 


Se uns querem voltar para as cavernas, outros querem voltar para o período colonial. Vejamos a manchete do G1: “Chefe da Casa Imperial do Brasil ameaça mudar ‘linha sucessória’ se ‘príncipe’ Dom Rafael se casar com italiana”. Tudo soa ridículo, a começar, e principalmente, pelo fato de a monarquia ter sido abolida há 136 anos. Eles não querem largar o trono, mesmo que ele não exista mais. Mesmo sem serem reconhecidos juridicamente pelo estado brasileiro, os herdeiros do Império continuam brigando pela linha sucessória e discutindo os rumos da dinastia. É uma grande brincadeira entre adultos ricos. 


A notícia explica a treta: “O chefe da Casa Imperial do Brasil pelo ramo de Vassouras, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, anunciou que não reconhecerá o casamento de seu sobrinho e herdeiro dinástico, Dom Rafael de Orleans e Bragança, com a aristocrata italiana Margherita delle Piane”. O comunicado de Dom Bertrand foi lido durante o 36º Encontro Monárquico Nacional, diante de integrantes da família e para apoiadores da volta da democracia. Sim, a família real tem seus súditos e promovem encontros com eles para discutir os assuntos reais. 


Dom Bertrand foi claro: caso o príncipe Dom Rafael decida manter o casamento à revelia do chefe da Casa Imperial, perderá todos os seus direitos dinásticos. É como se eles se reunissem para jogar um RPG de Game of Thrones. Tem o seu lado lúdico, apesar de patético. 

 

Enquanto essa gente exótica estiver exaltando o passado colonial e escravocrata em eventos privados, tudo bem. Nós e eles vamos nos divertir. O problema é quando param de brincar e decidem entrar para a política, como fez o príncipe herdeiro Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que hoje é um deputado lamentável do PL. 


Em 2019, durante sessão solene na Câmara pelos 131 anos da Lei Áurea, o deputado-príncipe subiu à tribuna para dizer que a escravidão é “tão antiga quanto a humanidade” e, por isso, “é quase um aspecto da natureza humana”. 


É, acho que faltou ao Brasil uma Revolução Francesa.

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