Em Xapuri, Acre, uma cidadezinha de fronteira que carrega o peso simbólico da luta acreana por liberdade, o que acontece dentro das igrejas católicas não é apenas um caso local. É o ensaio geral do teatro nacional da incoerência religiosa. O Papa Francisco, que para o mundo inteiro representou a renovação humilde da Igreja, por aqui nunca foi tratado como santo. Era apenas “um ser humano” — e, para muitos, um humano inconveniente. O mesmo olhar frio que rejeitou o argentino se repetiu, com precisão cirúrgica, quando o Padre Antônio Menezes decidiu descer do altar para a arena política: primeiro como vice-prefeito pelo PSB, agora como pré-candidato a deputado estadual pelo PT.
As frases são as mesmas, repetidas como mantra hipócrita:
“Lugar de padre é na igreja.”
“É o meu padre, mas não o meu candidato.”
Eis o ponto central: essas críticas não nascem de uma defesa sincera da separação entre Igreja e Estado. Nascem de um cálculo ideológico. Porque o mesmo fiel que hoje torce o nariz para o Padre Antônio Menezes nunca torceu o nariz para pastores que transformam púlpitos em palanques eleitorais, que atacam abertamente minorias, que espalham fake news com a bênção da Bíblia e que pedem voto explícito para criminosos condenados. Para esses, não existe “lugar de pastor é no templo”. Existe apenas “meu pastor, meu voto, minha bancada”.
É uma hipocrisia seletiva que revela o verdadeiro rosto conservador brasileiro: tolera o político-religioso quando ele está do lado da direita, do mercado, do armamento, do bolsonarismo. Mas quando o religioso ousa falar de justiça social, de Amazônia preservada, de direitos dos povos originários, de combate à miséria — temas que o Evangelho literalmente grita —, aí vira “ingerência”, “politicagem”, “ideologia de gênero disfarçada de missa”.
Xapuri não é exceção. É laboratório. O que se ensaia hoje na igreja matriz de Xapuri se multiplica amanhã em milhares de cidades brasileiras. É o mesmo mecanismo que permite a um deputado evangélico usar a Bíblia para defender grilagem na Amazônia enquanto condena um padre católico por defender os seringueiros. É a mesma lógica que vê “perseguição religiosa” quando um pastor é criticado por pedir voto para um político fichado, mas celebra como “coragem profética” quando o padre petista é linchado moralmente.
O Brasil que se projeta a partir de Xapuri é um país onde a laicidade do Estado virou piada. Onde o conservadorismo religioso se tornou o novo coronelismo: manda na urna, controla o voto, dita a moral pública — mas só quando o candidato usa terno e gravata ou batina “do jeito certo”. O resto é “comunista infiltrado na Igreja”.
Padre Antônio Menezes não está traindo o sacerdócio. Está fazendo exatamente o que a Doutrina Social da Igreja sempre pregou: encarnar o Evangelho na realidade concreta dos pobres. O pecado não está na candidatura. O pecado está na incoerência de quem aplaude pastor que abençoa milícia e condena padre que abençoa seringueiro.
Enquanto não houver coerência moral — enquanto o “lugar do religioso” for definido pelo viés político do fiel e não pela coerência do Evangelho —, o Brasil seguirá refém dessa hipocrisia sagrada. Xapuri hoje. Amanhã, o Congresso. Depois, o país inteiro.
Porque, no final, a pergunta incômoda permanece:
Se o lugar do padre é na igreja, por que o lugar do pastor virou a bancada evangélica?
A resposta é simples, e brutal: porque, para o conservador brasileiro, Deus só existe quando Ele vota certo.
Pauta do Jornalista Luis Celso