
Mourão diz que o golpista Mauro Cid é “muito boa gente”
Roberto Nascimento
Como depoente, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência da República, optou pelo silêncio, não respondendo a nenhuma pergunta dos membros da CPI. Diante dessa atitude, é preciso concordar com o mestre Pedro do Coutto, que ensina: “A estratégia do mudo, o silêncio, não se coaduna com a certeza santa dos inocentes”.
Seus advogados provavelmente não endossaram essa estratégia, que não ajuda em nada a tese da defesa. Quem não deve nada teme, fala até pelos cotovelos para se defender. Presume-se então, que Mauro Cid não disse nada, porque, se falasse, poderia comprometer a si mesmo, além de colegas de farda, seus superiores e o ex-chefe maior.
ADEUS, TRIBUNA – É importante lembrar que, se o golpe de estado tivesse obtido sucesso, com toda a certeza a Tribuna da Internet estaria censurada ou extinta. Quem não é da extrema-direita, teria sido preso, e até torturado ou morto, como aconteceu no passado recente. Creio que seria até pior, comparando-se os personagens de ontem e os medievais personagens de hoje.
Vejam o posicionamento do general da reserva Hamilton Mourão, que nos últimos anos imitou Jair Bolsonaro e até defendeu a tortura de presos políticos, que é considerada crime contra a humanidade, segundo a Convenção de Genebra.
Atual senador pelo Rio Grande do Sul, o general Mourão não deve ser levado a sério, pois se posiciona sempre na contramão da democracia. Sua declaração agora, ao chamar o tenente-coronel golpista de “muito boa gente”, chega a ser ridícula.
UM NOVO DITADOR? – Nas mensagens trocadas com o coronel Jean Lawand Jr., ficou claro que o “boa gente” estava se preparando para uma intervenção militar. Aí, reside a minha dúvida shakespeariana: Bolsonaro seria o escolhido para comandar o núcleo do novo Supremo Comando Militar ou surgiria um novo ditador?
Quanto a Mourão, o general não desconhece que, numa intervenção militar, inimigos seriam abatidos, presos, torturados, Congresso e Judiciário estariam fechados e haveria muita injustiça contra cidadãos, sem direito a receber advogados, sem habeas corpus, sem direito de defesa, à mercê dessa “boa gente”.
Como ex-vice-presidente, Mourão foi isolado, humilhado e escanteado. Assim, jamais entenderei seu estoicismo. Não fui preparado para sofrer injustiças e ficar calado. Mas há quem se sujeite a sofrer toda forma de humilhações, sem que haja a menor necessidade, apenas para satisfazer o desejo de conquistar uma vaga de senador ou outro tipo de vaidade.