Publicado em 14 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Legendas demonstram intenção de cooperação com governo
Pedro do Coutto
Os fatos que se desenrolaram na última semana indicam que o governo Lula da Silva não enfrentará oposição no Congresso. Essa tendência ficou clara com o posicionamento revelado pelo governador de São Paulo eleito, Tarcísio de Freitas, que – reportagem de Bianca Gomes, Gustavo Schmitt, O Globo deste domingo – ao afirmar que decidiu distanciar-se do bolsonarismo radical e blindar o seu secretariado contra influência de tal setor.
Sem dúvida alguma, constitui um aceno para se estabelecer uma relação de cordialidade e cooperação administrativa entre o governo de São Paulo e o Palácio do Planalto, em Brasília. Na realidade, é fundamental essa aproximação entre o maior pólo de produção industrial brasileira e o governo que se instala em 1º de janeiro de 2023.
APROXIMAÇÃO – Mas não foi só esse fato que indica a inexistência de oposição radical ao governo de Lula da Silva. A própria entrevista de Valdemar da Costa Neto sobre o posicionamento do PL deixou clara a existência de uma aproximação progressiva entre o partido de Jair Bolsonaro e o governo de Lula.
Além desse aspecto, há casos de aproximações mais claras de convergência, sobretudo tendendo até a ganhar mais intensidade depois da nota conjunta de sexta-feira das Forças Armadas defendendo a liberdade de manifestação e indiretamente criticando decisões do ministro Alexandre de Moraes para coibi-las.
Os comandos militares mudarão a partir de janeiro, mas de qualquer forma a nota criou preocupação nas forças vitoriosas de outubro. Somados esses fatores, verifica-se que a não oposição ao governo Lula tacitamente constitui uma medida preventiva contra o ressurgimento de qualquer vontade política que colida com o regime democrático do país.
BID NÃO ADIA ELEIÇÃO – O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) informou que ignora a pressão ensaiada pelo ex-ministro Guido Mantega e não adiará a eleição do novo presidente do BID marcada para o dia 20, e inclusive mantém a indicação de Ilan Goldfajn para a presidência do banco.
Ilan Goldfajn, por seu turno, disse que não retira sua candidatura e assim vai disputar uma eleição com poucos rivais de países latino-americanos. Reportagem de Manuel Ventura, Janaína Figueiredo e Vítor da Costa, O Globo deste domingo, focaliza amplamente o assunto. Da mesma forma, publica ampla matéria na Folha de S. Paulo, Ricardo Della Coletta.
SEM MANIFESTAÇÃO – O presidente eleito, Lula da Silva, não se manifestou, da mesma forma que o vice-presidente, Geraldo Alckmin, que coordena os grupos de transição dos quais faz parte o ex-ministro Guido Mantega.
Em artigo publicado no O Globo, Miriam Leitão focaliza o assunto e assinala que Mantega e quem lhe delegou tal tarefa sinuosa e absurda,digo, revelou desconhecer que o nome de Ilan Goldfajn tem o apoio de integrantes do grupo econômico que faz parte do processo de transição. Mas, o episódio não abala a formação do novo governo e nem a sua trajetória num mar de calmaria política.
MERCADO DE TRABALHO – Numa bela reportagem publicada neste domingo na Folha de S. Paulo, incluindo entrevista com a ex-secretária de Desenvolvimento Social de São Paulo Laura Muller Machado, Idiana Tomazelli destaca a importância essencial da inclusão de trabalhadores, especialmente os de renda menor, no mercado de trabalho.
É fundamental, digo, para que essa inclusão social com carteira assinada pelo menos evite o crescimento das famílias em estado de extrema pobreza e também de pobreza no programa Bolsa Família. Além desse aspecto fundamental, é preciso considerar a existência dos sem emprego, que não estão desempregados porque não foram demitidos, mas atingiram a idade de trabalhar, mas não conseguiram vaga no mercado.
REDUÇÃO DE RENDA – Trata-se, é pena que os economistas não focalizem esse ponto, de uma forma de redução de renda que deve ser combatida da mesma maneira que a recomposição das centenas de milhares de vagas abertas nos últimos anos pelas demissões. Vale destacar ainda que a não inclusão no mercado regular de mercado influi forte e negativamente nas receitas do INSS e do FGTS.
Claro, não só pelo não recolhimento das alíquotas estabelecidas na lei, mas também porque os recursos do INSS e do FGTS diminuem à proporção que não recebem contribuições de novos trabalhadores e na medida em que têm que desembolsar recursos em função de aposentadorias que se verificam através do tempo.
NOTA DOS MILITARES – Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, Bruno Bogossian focaliza a nota de sexta-feira de comandos militares defendendo a liberdade de expressão que paralisou rodovias e reuniu grupos de bolsonaristas em portas de quartéis reivindicando uma absurda intervenção militar contra o resultado das urnas, manifestação que por si só recebe o repúdio da população brasileira e desperta reações contrárias no cenário internacional.
A nota, no fundo, faz restrições ao ministro Alexandre de Moraes na medida em que se refere, embora brandamente, à limitação impostas por autoridades a tais manifestações subversivas, como fica evidente nos propósitos de ruptura com a democracia e as instituições nacionais.