Composição da equipe econômica do gabinete de transição de Lula tenta sinalizar união de esforços, mas o gesto deve se traduzir em ações concretas para resgatar credibilidade fiscal
O vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, anunciou a composição da equipe de economistas do gabinete de transição de governo. A indicação de André Lara Resende, Persio Arida, Nelson Barbosa e Guilherme Mello é positiva e demonstra um esforço pela construção de consensos a partir de perfis e experiências tão distintas, tudo o que se espera de uma candidatura que se vendeu como uma frente ampla em defesa da democracia. É importante, no entanto, que esse gesto se traduza em ações concretas no resgate da credibilidade fiscal do País e no efetivo enfrentamento de nossas mazelas sociais.
“Não são visões opostas. São complementares”, minimizou Alckmin. De fato, todos defendem uma mudança nas regras fiscais, em especial sobre o teto de gastos, instrumento criado pelo governo Michel Temer e desmoralizado pela administração Jair Bolsonaro. A nova âncora, ainda a ser definida e negociada com o Congresso, estaria associada a uma licença para recompor os gastos do Orçamento de 2023, sobretudo para garantir a execução dos programas sociais. Na situação em que o País se encontra, no entanto, é preciso mais do que intenções para enfrentar o rastro de destruição bolsonarista.
Persio Arida e André Lara Resende foram formuladores do Plano Real, o mais bem-sucedido programa econômico da história brasileira, e a participação de ambos na equipe de transição é um voto de confiança inestimável ao novo governo. É um apoio indissociável do legado que o Plano Real proporcionou ao País no combate à inflação, no fortalecimento da moeda, na credibilidade de indicadores macroeconômicos, na consistência da política monetária, na implementação de um câmbio flutuante e, sobretudo, na consolidação do equilíbrio fiscal – premissa para a execução de qualquer política pública.
Com a passagem dos anos, Arida e Lara Resende ampliaram o olhar para as questões sociais. Arida foi um dos seis especialistas que elaboraram o documento Contribuições para um governo democrático e progressista, que propôs uma licença temporária para autorizar gastos de até R$ 100 bilhões para recompor a verba do Auxílio Brasil e de programas voltados à produtividade, inovação, ciência, tecnologia e sustentabilidade ambiental. Lara Resende considera que o equilíbrio fiscal não é um fim em si mesmo e destaca a necessidade de políticas públicas que balizem investimentos públicos e privados e conduzam a uma política ambiental sustentável.
Guilherme Mello, o mais jovem do grupo, teve boa atuação como assessor econômico e interlocutor da campanha de Lula da Silva. Nelson Barbosa é muito lembrado por ter sido ministro do Planejamento e da Fazenda no segundo e desastroso mandato de Dilma Rousseff. Foi, no entanto, um dos responsáveis por apresentar um plano de contenção dos gastos públicos e de reformas de longo prazo que sucumbiu com a materialização do impeachment. Antes disso exerceu diversos cargos em Ministérios durante as gestões de Lula. Além do conhecimento acadêmico, tem experiência prática sobre como funciona um governo de fato – e, tão ou mais importante do que isso, sobre o que não funciona.
A composição de uma equipe tão diversa na área econômica do gabinete de transição sinaliza a união de esforços para reconstruir um país devastado pelo governo Bolsonaro. É um bom sinal, mas não passa de um primeiro passo. É preciso agilidade para definir o que virá no lugar do finado teto, sobre quem será o futuro ministro da Fazenda e, por fim, sobre a própria condução da política fiscal.
Se o primeiro ano do primeiro mandato de Lula foi marcado por superávits primários expressivos, 2023 não permite ilusões. O País está economicamente quebrado e politicamente dividido. Fundamental para garantir os bons resultados do governo Lula, o cenário internacional é, no mínimo, adverso. O desafio é enorme. Não há tempo a perder, tampouco espaço para erro – principalmente os já cometidos previamente. A irresponsabilidade fiscal que marcou administrações anteriores é uma fórmula que já foi testada e desaprovada, como mostraram as urnas no mês passado.
O Estado de São Paulo
